70: Astrónomos investigam a composição da superfície de uma super-Terra próxima

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Utilizando o instrumento MIRI (Mid-Infrared Instrument) a bordo do Telescópio Espacial James Webb, uma equipa de investigadores analisou a composição da superfície do exoplaneta rochoso LHS 3844 b. Para além de caracterizar as atmosferas exoplanetárias, este tipo de interpretação das propriedades geológicas de planetas que orbitam estrelas distantes é o próximo passo para desvendar a sua natureza. Os resultados desta investigação foram publicados na revista Nature Astronomy.

Esta fotografia de alta resolução do planeta Mercúrio assemelha-se provavelmente ao exoplaneta rochoso LHS 3844 b. Os resultados das observações do JWST apontam para um planeta rochoso sem atmosfera, com uma superfície escura semelhante a basalto, provavelmente com erosão espacial devido à irradiação e aos impactos de meteoritos.
Crédito: NASA/JHUAPL/Instituto Carnegie

Uma super-Terra rochosa, escura e sem atmosfera

LHS 3844 b é um planeta rochoso 30% maior do que a Terra e orbita uma anã vermelha fria, completando uma volta em cerca de 11 horas. Girando apenas três diâmetros estelares acima da superfície da estrela hospedeira, o planeta sofre acoplamento de maré. Isto significa que uma rotação demora exactamente o mesmo tempo que uma revolução.

Como resultado, o mesmo hemisfério de LHS 3844 b está sempre voltado para a sua estrela, produzindo um lado diurno constante com uma temperatura média de aproximadamente 1000 Kelvin (cerca de 725º C). O sistema LHS 3844 está a apenas 48,5 anos-luz (14,9 parsecs) de distância da Terra.

“Graças à incrível sensibilidade do JWST, conseguimos detectar luz proveniente directamente da superfície deste distante planeta rochoso”, afirmou Laura Kreidberg, directora do Instituto Max Planck de Astronomia e investigadora principal do estudo. “Vemos uma rocha escura, quente e árida, desprovida de qualquer atmosfera”.

Espectro infravermelho do lado diurno e quente de LHS 3844 b, obtido a partir do contraste de brilho em relação à sua estrela hospedeira, expresso em ppm (partes por milhão = 0,0001%) em diferentes comprimentos de onda. Os dados observacionais obtidos pelos telescópios espaciais James Webb e Spitzer são consistentes com a presença de manto ou rocha vulcânica, ao passo que excluem a existência de uma crosta semelhante à da Terra.
Crédito: Sebastian Zieba et al./Instituto Max Planck de Astronomia

Com a sua superfície escura, LHS 3844 b pode assemelhar-se a uma versão maior da Lua ou do planeta Mercúrio. Esta conclusão baseia-se na análise da radiação infravermelha recebida do lado diurno e quente do planeta. No entanto, ao medir esta radiação, os astrónomos não conseguem ver o planeta directamente; em vez disso, registam a variação repetitiva de brilho que recebem da combinação da estrela e do planeta em órbita.

O MIRI dividiu uma parte da emissão infravermelha do planeta, variando entre 5 e 12 micrómetros, em secções mais pequenas de comprimento de onda e mediu o brilho por intervalo de comprimento de onda. É a isto que os astrónomos chamam espectro, uma distribuição semelhante a um arco-íris dos componentes da luz. Outro ponto de dados, obtido a partir de observações com o Telescópio Espacial Spitzer e publicado há alguns anos, complementou a análise.

Limitações da actividade geológica

Tal como a investigação sobre as atmosferas exoplanetárias tem beneficiado da ciência climática, este campo emergente da geologia exoplanetária baseia-se no conhecimento geológico da Terra. Kreidberg, Sebastian Zieba (Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian) e colaboradores executaram modelos de computador e acederam a bibliotecas de rochas e minerais conhecidos da Terra, da Lua e de Marte para ver que assinaturas infravermelhas produziriam sob as condições de LHS 3844 b. A comparação de dados baseados em observações com estas computações descartou com segurança uma composição comparável à da crosta terrestre, tipicamente rochas ricas em silicatos, como o granito.

Embora este resultado não seja muito surpreendente – mesmo no Sistema Solar, a Terra é o único planeta com tal crosta -, pode revelar detalhes sobre a história geológica de LHS 3844 b. Pensa-se que as crostas ricas em silicatos, semelhantes às da Terra, se formam através de um processo de refinamento prolongado que requer actividade tectónica e depende tipicamente da água como lubrificante. O material rochoso derrete e solidifica repetidamente à medida que se mistura com material do manto, deixando os minerais mais leves na superfície.

“Uma vez que LHS 3844 b carece dessa crosta de silicatos, pode-se concluir que a tectónica de placas semelhante à da Terra não se aplica a este planeta, ou que é ineficaz”, afirma Zieba. “Este planeta provavelmente contém apenas pouca água”.

O que podemos deduzir sobre a superfície rochosa de um exoplaneta?

Em vez disso, a superfície escura aponta para uma composição semelhante ao basalto terrestre ou lunar, ou ao material do manto da Terra. No entanto, os astrónomos tentaram uma caracterização ainda mais detalhada.

Uma análise estatística de quão bem este espectro se ajusta a várias misturas e configurações minerais revelou que extensas áreas sólidas de basalto ou rocha magmática correspondem melhor às observações. Estas são ricas em magnésio e ferro e podem incluir olivina. Material “triturado”, como rochas ou cascalho, também se ajusta razoavelmente bem, enquanto grãos ou poeiras são inconsistentes com as observações devido à sua aparência mais brilhante, pelo menos à primeira vista.

Sem uma atmosfera protectora, os planetas estão sujeitos à erosão espacial, impulsionada predominantemente pela radiação dura e energética da estrela hospedeira e pelos impactos de meteoritos de vários tamanhos.

Uma imagem em grande plano da pegada da bota de um astronauta no rególito lunar, composto por pó fino, durante a actividade extra-veicular da Apollo 11 na Lua. Podem existir condições semelhantes no exoplaneta LHS 3844 b, devido ao intemperismo espacial prolongado causado pela irradiação estelar e pelos impactos de meteoritos.
Crédito: NASA

“Acontece que estes processos não só dissolvem lentamente rochas duras em rególito, uma camada de grãos finos ou pó como a que se encontra na Lua”, explica Zieba. “Também escurecem a camada ao acrescentar ferro e carbono, tornando as propriedades do rególito mais consistentes com as observações”.

Geologicamente recente ou desgastada? Dois cenários possíveis

Esta avaliação deixou os astrónomos com dois cenários para a superfície do planeta que encaixam igualmente bem nos dados. Um envolve uma superfície dominada por rocha escura e sólida, composta por minerais basálticos ou magmáticos. Em comparação com as escalas geológicas de tempo, a erosão espacial altera as suas propriedades rapidamente. Por isso, os astrónomos concluem que, neste cenário, a superfície deve ser relativamente jovem, resultante de actividade geológica recente, como vulcanismo generalizado.

O segundo cenário também propõe uma superfície escura, comparável à da Lua ou de Mercúrio. No entanto, este cenário tem em conta um intemperismo espacial prolongado, o que leva a regiões extensas cobertas por uma camada de rególito escurecido, um pó fino também presente na Lua, como evidenciado pelas fotos icónicas das pegadas dos astronautas. Esta alternativa assenta em períodos mais longos de inactividade geológica, exigindo assim condições opostas às do primeiro cenário.

Tentativas de resolver a ambiguidade

Estas duas alternativas diferem no necessário grau de actividade geológica recente. Na Terra e noutros objectos activos do Sistema Solar, um fenómeno típico durante essa actividade é a libertação de gases. O dióxido de enxofre (SO₂) é um gás frequentemente associado ao vulcanismo.

Se estivesse presente em LHS 3844 b em quantidades razoáveis, o MIRI deveria tê-lo detectado. No entanto, não encontrou nada. Por conseguinte, um período recente de actividade parece improvável, o que leva os astrónomos a favorecer o segundo cenário. Se estiver correto, LHS 3844 b pode realmente assemelhar-se muito a Mercúrio.

Para testar a sua ideia, Zieba, Kreidberg e os seus colegas já estão a seguir uma abordagem mais directa. Obtiveram observações adicionais do JWST, que lhes deverão permitir discernir as condições da superfície, explorando pequenas diferenças na forma como placas sólidas e pós emitem ou reflectem a luz.

A distribuição dos ângulos de emissão depende da rugosidade da superfície, que afecta a quantidade de radiação recebida num determinado ângulo de visão. Este conceito é aplicado com sucesso na caracterização de asteróides no Sistema Solar. “Estamos confiantes de que a mesma técnica nos permitirá esclarecer a natureza da crosta de LHS 3844 b e, no futuro, de outros exoplanetas rochosos”, conclui Kreidberg.

// Instituto Max Planck de Astronomia (comunicado de imprensa)
// Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian (comunicado de imprensa)
// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv)

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69: Este objecto do Sistema Solar exterior tem uma atmosfera, mas não deveria ter

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Uma equipa de astrónomos japoneses, profissionais e amadores, encontrou indícios de uma atmosfera ténue em torno de um pequeno corpo no Sistema Solar exterior. O objecto é tão pequeno que não deveria possuir uma atmosfera sustentável, o que levanta questões sobre quando e como essa atmosfera se formou. Observações futuras destinadas a caracterizar melhor a atmosfera ajudarão a desvendar estes mistérios.

Representação artística desta investigação, mostrando uma sequência temporal imaginária no momento em que uma estrela passa por trás de um objecto transneptuniano (OTN) com atmosfera.
Crédito: NAOJ

Nas regiões frias do Sistema Solar exterior encontram-se milhares de pequenos objectos conhecidos como objectos transneptunianos (OTNs), porque se situam para lá da órbita de Neptuno. Foi observada uma atmosfera ténue em torno de Plutão, o OTN mais famoso, mas estudos de outros OTNs deram resultados negativos. A maioria dos OTNs é tão fria, e a sua gravidade superficial tão fraca, que não se espera que retenham atmosferas.

Mas os astrónomos gostam de esperar o inesperado, por isso aproveitaram uma “experiência natural” fortuita para procurar uma atmosfera em torno de um OTN conhecido como (612533) 2002 XV93. Este objecto, abreviado como 2002 XV93, tem um diâmetro de aproximadamente 500 km. A título de referência, Plutão tem um diâmetro de 2377 km. A órbita de 2002 XV93 é tal que, vista do Japão, passou directamente à frente de uma estrela no dia 10 de Janeiro de 2024.

À medida que a estrela desaparece por trás de 2002 XV93, pode desvanecer gradualmente, indicando que a luz está a ser atenuada ao passar por uma atmosfera fina; ou pode desaparecer repentinamente ao deslizar por trás da superfície sólida do OTN.

Uma equipa de astrónomos profissionais e amadores, liderada por Ko Arimatsu do Observatório Astronómico Ishigakijima do NAOJ (National Astronomical Observatory of Japan), observou a estrela enquanto 2002 XV93 passava à sua frente a partir de vários locais no Japão. Os dados obtidos são consistentes com a atenuação causada por uma atmosfera.

Os cálculos mostram que a atmosfera encontrada em torno de 2002 XV93 deverá durar menos de 1000 anos, a menos que seja reabastecida. Por isso, deve ter sido criada ou reabastecida recentemente. As observações do Telescópio Espacial James Webb não mostram sinais de gases congelados na superfície de 2002 XV93 que possam sublimar para formar uma atmosfera.

Uma possibilidade é que algum evento tenha trazido gases congelados ou líquidos das profundezas do OTN para a superfície. Outra possibilidade é que um cometa tenha colidido com 2002 XV93, libertando gás que formou uma atmosfera temporária. São necessárias mais observações para distinguir entre estes dois cenários.

// NAOJ (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv)

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68: Eclipses estelares lançam luz sobre possíveis novos mundos

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Um estudo de dados do TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA acerca de pares de estrelas que sofrem eclipses mútuos revelou mais de duas dúzias de candidatos a exoplanetas, ou mundos para lá do nosso Sistema Solar. Este método permite à missão localizar planetas que, de outra forma, não conseguiria detectar.

Um planeta gigante gasoso destaca-se em primeiro plano, à direita, iluminado por um par de estrelas, nesta representação artística de um mundo num sistema binário. O TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA descobriu planetas em sistemas estelares binários, observando a diminuição do brilho estelar quando os planetas passam à frente de uma delas. Os astrónomos demonstraram agora um novo método para encontrar planetas nestes sistemas, concentrando-se no momento em que ocorrem os eclipses mútuos das estrelas.
Crédito: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA/Chris Smith (USRA)

Até à data, o TESS descobriu 885 exoplanetas confirmados e identificou mais de 7900 candidatos, quase todos encontrados porque os planetas, da perspectiva do Sistema Solar, passam à frente das suas estrelas. Estes eventos, chamados de trânsitos, produzem uma pequena e regular diminuição no brilho da estrela hospedeira. O TESS também observa dezenas de milhares de estrelas binárias eclipsantes – duas estrelas em órbita que se eclipsam mutuamente e alternadamente, do nosso ponto de vista.

Os astrónomos conseguem detectar a atracção gravitacional dos exoplanetas nestes sistemas medindo cuidadosamente o momento exacto de muitos eclipses. Antes do novo estudo, as descobertas do aposentado telescópio espacial Kepler, e de outras instalações, tinham registado 16 mundos em trânsito em torno de estrelas binárias, enquanto o TESS tinha encontrado mais dois.

“Identificar trânsitos em sistemas binários é claramente um desafio, mas gostaríamos de saber mais sobre a variedade de planetas que se podem formar em torno de duas estrelas ligadas gravitacionalmente”, afirmou a líder do estudo, Margo Thornton, doutoranda na UNSW (University of New South Wales), em Sydney. “Por isso, desenvolvemos um levantamento para procurar planetas utilizando eclipses estelares que não se limita à orientação da órbita do planeta”.

O artigo científico que descreve as descobertas foi publicado no passado dia 4 de Maio na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

No caso de planetas localizados em sistemas binários, a orientação da órbita do planeta pode dar-nos informações sobre como esse sistema se formou. Alguns modelos de formação planetária em sistemas binários sugerem que os planetas se formam principalmente perto do plano formado pelas duas estrelas em órbita, aumentando a probabilidade de os sistemas binários abrigarem mundos em trânsito. Mas outros modelos indicam um processo de formação muito mais desordenado, com o par estelar a empurrar os seus planetas jovens para trajectórias mais amplas e inclinadas, muito menos propensas a sofrer trânsitos.

O momento dos eclipses estelares pode mudar gradualmente através de interacções de maré e de rotação entre as estrelas, dos efeitos da relatividade geral e da presença de outras massas invisíveis, como planetas, no sistema. Todas estas forças fazem com que todo o plano orbital do binário gire, ou precesse, e isto, por sua vez, altera o momento do eclipse.

“A chave para calcular todas estas diferentes influências é o vasto e rico conjunto de observações disponibilizadas pelo TESS”, afirmou o co-autor Benjamin Montet, professor associado na UNSW. “Após analisarmos 1590 binários com pelo menos dois anos de dados do TESS, identificámos 27 com planetas candidatos que aguardam agora confirmação”.

Explore como as observações de eclipses estelares podem ampliar as capacidades do TESS, levando à descoberta de novos candidatos a planetas que, de outra forma, não seriam detectados.
Crédito: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA/Francis Reddy

Desde o início das operações científicas em 2018 que o TESS tem varrido o céu observando vastas áreas, denominadas “sectores”, durante quase um mês. Actualmente, as câmaras da missão captam uma única imagem de todo o sector, com 24 por 96 graus, aproximadamente a cada 3 minutos, realizando observações ainda mais rápidas de alvos seleccionados.

As massas dos novos candidatos permanecem incertas, mas a equipa estima que o mundo mais pequeno possa ter apenas 12 massas terrestres, com o maior a atingir cerca de 3200 massas terrestres, ou cerca de 10 vezes a massa de Júpiter. A confirmação destes planetas exigirá futuras observações terrestres que meçam com precisão as velocidades das estrelas hospedeiras, o que revelará os ligeiros efeitos gravitacionais de quaisquer possíveis planetas.

“A missão TESS foi concebida para encontrar planetas em trânsito e é fantástico ver como as mesmas medições estão a impulsionar descobertas muito além da sua missão original”, afirmou Allison Youngblood, cientista do projecto TESS no Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, em Greenbelt, Maryland, EUA. “A recolha contínua de dados da missão é um tesouro que permite novas descobertas numa vasta gama de tópicos astronómicos, desde asteróides no Sistema Solar até galáxias activas alimentadas por buracos negros no Universo distante”.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)

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