🇵🇹 OPINIÃO
Quando Xi Jinping e Vladimir Putin se encontram — como aconteceu de novo esta semana — assistimos a uma demonstração geopolítica altamente coreografada e rica em simbolismos. Falam de um mundo multipolar e brindam a uma “nova era” e a uma parceria “sem limites”, a célebre expressão que saiu da reunião que tiveram em fevereiro de 2022, uns dias antes do arranque da inadmissível guerra de agressão russa contra a Ucrânia. As mensagens que procuram enviar para o resto do planeta, nomeadamente para a Europa, são muito explícitas.
Foram repetidas esta semana. Primeiro, que a China e a Rússia estão unidas por uma aliança inquebrantável, indispensável para a construção da nova ordem mundial que acham necessária. Segundo, pretendem que essa ordem será diferente da estabelecida nas últimas décadas pelo mundo ocidental, sobretudo desde o tempo do tandem Reagan-Thatcher e no período que se seguiu ao fim da Guerra Fria. Estamos claramente perante um projecto sino-russo de reordenamento à sua maneira das relações internacionais.
É, no entanto, uma parceria coxa, um relacionamento desigual. Do ponto de vista económico, por exemplo. A China é indiscutivelmente o centro de gravidade e o eixo primordial da economia vizinha. Representa agora entre 40% e 45% das importações russas. É uma dependência avassaladora. Por seu turno, apenas pouco mais de 4% do comércio externo da China é efectuado com a Rússia, segundo dados da Bloomberg. Trata-se de uma percentagem insignificante quando comparada com o valor das trocas entre a China e outras economias, sejam elas os EUA, a UE ou a ASEAN.
Por outro lado, a moeda chinesa, o yuan, é a divisa predominante no mercado financeiro de Moscovo. O yuan substituiu praticamente a maioria das transacções que anteriormente eram executadas em dólares norte-americanos. O resto é feito em rublos.
À desigualdade económica junta-se a política. Essa é a dimensão mais significativa da dissimetria entre os dois países. Existe uma hierarquia tácita que coloca o presidente chinês no topo. Dir-se-ia que Xi imagina, propõe e faz acontecer. Putin segue, quando pode, quando vê que isso não põe em causa a sua imagem política na cena doméstica em que ainda dita a lei.
Xi Jinping pretende ser o arquitecto da nova estrutura internacional, construída com calma, firmeza e tempo. Joga sem pressas desnecessárias. Está inteiramente convencido que, em breve, o seu país será um rival em pé de igualdade com os EUA. E que os desafios globais colocarão a China no centro das respostas multilaterais.
Vladimir Putin, por sua vez, confundiu desfiles pomposos com capacidade militar. Acabou por se atolar numa guerra intensamente desgastante, que cometeu o erro de iniciar sem qualquer respeito pela Lei Internacional e com umas forças armadas que fazem pensar na muito duvidosa lenda das aldeias de Potemkin. Putin continua a acreditar que é um gigante estratégico, quando na realidade a Ucrânia lhe está a pôr a nu os pés de barro.
Putin é igualmente uma nódoa na reputação internacional de Xi Jinping. Xi vê-se obrigado a defendê-lo nas mais diversas arenas políticas embora saiba que isso acarreta custos de reputação para o seu regime, que quer ser visto como o defensor da paz e da cooperação multilateral.
Os objectivos estratégicos de Xi são, no essencial, dois. Por um lado, assegurar o domínio chinês na região definida pelos oceanos Pacífico e Índico. Por outro, ganhar a dianteira no que respeita às tecnologias que estão a moldar o século XXI. Alcançar isto exige tempo e que as principais potências rivais andem distraídas com outras questões.
É aqui que os erros políticos de Putin se revelam de um valor incomensurável para a China. Por muito que não se pense nisso, a guerra sem fim à vista na Ucrânia mantém uma parte significativa das capacidades estratégicas, dos recursos militares e da atenção diplomática dos principais rivais da China longe de possíveis críticas e medidas contra a política interna e externa chinesa.
Cada reunião de crise no quadro da NATO ou nas capitais da UE representa uma distracção táctica para Washington e cria clivagens entre a Europa e os EUA. Tudo isto permite ao presidente Xi continuar o processo de subordinação económica e política da Rússia, bem como a modernização do Exército de Libertação Popular e blindar a economia da China contra possíveis sanções ocidentais. Putin é assim uma excelente distracção política.
A maior ansiedade de Xi em relação à Rússia diz respeito à filosofia bélica que continua a imperar no Kremlin. Quando Moscovo insinuou que poderia utilizar armas nucleares tácticas na Ucrânia, foi Beijing — e não apenas Washington — que também traçou, silenciosa, mas firmemente, uma linha vermelha perante as intenções de Putin. Xi precisa de um conflito prolongado e desgastante que sangre o Ocidente, mas não pode dar-se ao luxo de permitir ou promover uma escalada apocalíptica que destrua a ordem global da qual a ascensão da China depende.
Consequentemente, o apoio de Xi à Rússia tem limites estritos, embora não declarados. Essa é a realidade, apesar das afirmações públicas. A China compra petróleo e gás russo com desconto, em yuans e com limites – não houve acordo sobre o novo oleoduto transiberiano, o que desapontou profundamente a delegação vinda de Moscovo. E fornece a Moscovo bens de “dupla utilização”, incluindo militar, como micro-chips e componentes de drones.
Fá-lo discretamente, mas em grandes quantidades. Nega, porém, qualquer acusação de ajuda militar letal directa. Porquê? Para evitar sanções ocidentais secundárias contra a sua economia, que depende fortemente do comércio externo. O “arquitecto” sabe que um confronto directo com o Ocidente, neste momento, faria descarrilar as suas ambições e colocaria em risco a autoridade do Partido Comunista Chinês.
O essencial é compreender a verdadeira natureza da relação entre Xi Jinping e Vladimir Putin e responder aos sérios riscos que ela representa. Note-se os diferentes acordos que foram assinados durante esta visita. Por exemplo, nas áreas da energia atómica, do espaço e da IA. Estas matérias não permitem análises simplistas. A China e a Rússia não representam o mesmo tipo de desafio. Mas, apesar das assimetrias, existe uma perigosa convergência estratégica entre ambos os regimes.
Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
22.05.2026



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Há uma fotografia que circulou recentemente nas redes sociais e que vale mais do que qualquer relatório de sustentabilidade turística: um grupo de turistas, smartphone em riste, a fotografar obsessivamente uma porta de azulejos em Alfama, indiferentes à senhora idosa que tentava, paciente e invisível, entrar no prédio onde vive há cinquenta anos. Os turistas não eram maus. A senhora não estava furiosa. Era apenas o novo normal.
Imagine que é uma mulher do Congo, idosa, desorientada, chegada a um país novo. Veio porque alguém lhe prometeu que ali poderia viver em segurança. Mas faltavam-lhe papéis. É então encerrada numa sala no aeroporto, trancada a sete chaves, e ali fica dois meses. “Não está detida”, dizem-lhe.

Passadeiras, sinais vermelhos, faixas de bus, placas indicativas de entradas prioritárias ou somente para animais, sinais de acesso proibido. Sinaléticas que identifica casas de banho ou balneários femininos ou masculinos, sentidos proibidos e sentidos obrigatórios. Sinais de ‘fechado’ para revelar que um estabelecimento está encerrado ou uma porta aberta para dizer que se pode entrar e a proibição de usar telemóveis enquanto se conduz.
“Há condenações consecutivas de Portugal pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos por práticas análogas à tortura nas prisões. Tortura é um crime. Sei que não é assim que funciona o Direito Internacional, mas é bastante estranho ver condenações por práticas que são análogas à tortura e ninguém ir preso. Não deveria haver responsabilização de quem tem a tutela das prisões, por submeter pessoas a tratamentos desumanos e degradantes?”
A pouco mais de 100 metros da esquadra, apenas um par de minutos a pé, está a Capela do Rato. Não podia ser mais simbólico do que somos: grotescos e anjos, perversos e generosos. A dois passos do Inferno, lugar de atrocidades e esgoto humano, um sítio que simboliza a tolerância, o conhecimento e a interioridade. Se as paredes daquela esquadra não fossem insonorizadas ter-se-iam ouvido as desesperadas súplicas dos que foram torturados por polícias fardados.