115: O mundo segundo Trump

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OPINIÃO

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos marca uma ruptura profunda com a ordem construída ao longo das últimas oito décadas. A administração Trump não procura reformar o sistema multilateral, mas substituí-lo, e fá-lo com uma clareza desconcertante ao afirmar que na política externa e de defesa “America First” não é um slogan eleitoral, mas a bússola oficial da maior potência mundial.

A primeira ruptura é conceptual. A estratégia declara, sem rodeios, que o ciclo de globalismo do pós Guerra Fria terminou. As instituições multilaterais, que durante décadas foram essenciais para moderar tensões, arbitrar conflitos e equilibrar ambições, surgem agora retratadas como limitações injustificáveis à acção dos Estados Unidos. A administração Trump propõe um regresso a um mundo pré institucional, onde a força, a transacção imediata e o cálculo de oportunidade se sobrepõem a qualquer ideia de bem comum internacional.

A segunda ruptura é económica e confirma o retorno ao proteccionismo estratégico. A China é apresentada como a principal distorção do comércio global e a resposta americana passa por uma reindustrialização agressiva, pela protecção de cadeias de valor críticas e por alianças condicionais onde os parceiros alinham não por convicção, mas por necessidade. Para a Europa, esta é a escolha desconfortável entre ficar dependente de Washington ou aceitar um confronto económico, mesmo que indirecto, com o seu principal aliado histórico.

A terceira ruptura é estratégica e possivelmente a mais disruptiva. Para a administração Trump, os Estados Unidos deixam de ser o garante da segurança europeia. Os aliados devem assumir a responsabilidade primária pela defesa do continente, expressão diplomática que equivale a afirmar que a Europa está sozinha. Já não basta gastar mais. É preciso construir, de raiz, uma arquitectura de segurança europeia sustentada em recursos, capacidades e decisões próprias.

Com esta retirada americana, o multi-lateralismo das últimas oito décadas perde o seu pilar central e a Europa tem de decidir se quer ser protagonista ou figurante num sistema internacional em acelerada fragmentação. Tem de transformar peso económico em poder político, autonomia militar em soberania efectiva e diplomacias nacionais dispersas numa estratégia comum. Se falhar, será empurrada para a irrelevância num mundo cada vez mais organizado em blocos que disputam hegemonia e sobrevivência.

O desafio é monumental. A Europa precisa de uma base industrial de defesa robusta e autónoma. Precisa de falar com uma só voz em política externa, mesmo quando isso implicar enfrentar divergências internas profundas. Precisa de transformar o mercado comum num verdadeiro instrumento de poder geo-económico. E precisa, sobretudo, de coragem estratégica para ocupar o espaço que o mundo lhe oferece e para impedir que outros o ocupem por ela.

Para se substituir aos Estados Unidos como potência normativa global, a Europa terá de construir novas alianças, dialogar com democracias mas também com países que não partilham integralmente os seus valores, e erguer pontes onde outros erguem muros. Esta será a condição para continuar a defender um modelo internacional baseado em regras, abertura e cooperação.

Hoje, a linha que separa uma Europa estratégica de uma Europa irrelevante é mais fina do que parece. E num mundo em fragmentação acelerada, repetir erros antigos não seria apenas imprudente. Seria fatal, porque a História não espera por atores indecisos e não perdoa hesitações estratégicas.

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
08.12.2025

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado), pré-AO.

 

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