368: Quantas divisões tem o papa?

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🇵🇹 OPINIÃO

“Quantas divisões tem o papa?”, perguntou Joseph Stalin, no auge da Segunda Guerra Mundial, dando a entender que, sem Exércitos, o Vaticano seria irrelevante na política internacional. A história mostrou o contrário.

A Queda do Muro de Berlim e o fim da presença soviética na Europa de Leste não resultaram apenas da incapacidade do comunismo em responder aos desafios que enfrentava. Foram também o resultado de uma erosão de legitimidade. E, nesse processo, o papel de João Paulo II foi determinante.

Quando regressa à sua Polónia natal em Junho de 1979, João Paulo II não altera o regime por decreto. Mas altera o enquadramento. Ao afirmar a dignidade de um povo reduzido a uma função ideológica, introduz uma fractura no sistema. Ao dizer “não tenhais medo”, libertou o espaço psicológico em que o regime assentava.

Foi nesse espaço que o movimento Solidariedade, liderado por Lech Walesa, primeiro presidente da República da Polónia livre e Prémio Nobel da Paz, cresceu. Quando o medo recua e a legitimidade se esgota, o poder torna-se insustentável, mesmo quando ainda dispõe de meios.

A pergunta de Stalin estava, por isso, errada. O problema nunca foi saber quantas divisões tem o papa. O problema é perceber que tipo de poder está em causa.

É à luz desta distinção que importa ler o que aconteceu nos últimos dias na relação entre Washington e o Vaticano. As críticas do Papa Leão XIV à dureza das políticas migratórias, à lógica de exclusão e à instrumentalização do medo não foram declarações genéricas, mas visaram, na prática, a actuação da administração de Donald Trump.

Ao insistir na centralidade da dignidade humana e na obrigação de acolhimento, o papa colocou em causa a coerência entre valores proclamados por Trump e pelos que o cercam, frequentemente ancorados num imaginário cristão, e políticas concretas.

Nos últimos dias, Leão XIV criticou também a guerra no Irão e a retórica do medo, e a resposta da administração foi rápida e reveladora. Entre a rejeição das críticas, acusações de fraqueza, a negação de qualquer direito de escrutínio moral sobre a política americana e a reafirmação da soberania nacional como critério absoluto, o argumento foi claro: a legitimidade política resulta do mandato democrático interno, não de avaliações externas, sejam elas religiosas ou morais.

Este confronto não é episódico. É estrutural.

De um lado, um poder político que decide, impõe e controla. Do outro, uma autoridade moral que não decide, mas condiciona pela capacidade de expor incoerências, mobilizar milhões de americanos e gerar custos reputacionais. Ao desvalorizar o papa, a administração americana procura reduzir esse efeito. Se a crítica moral for apresentada como irrelevante, deixa de constituir constrangimento.

Mas esta estratégia tem limites. Num sistema internacional fragmentado, onde a percepção conta tanto como a capacidade de agir, a legitimidade tornou-se um activo estratégico. Pode não impedir decisões. Mas condiciona a sua eficácia.

É aqui que a lição de João Paulo II permanece actual. Não porque os contextos sejam comparáveis, mas porque o mecanismo é semelhante. A erosão da legitimidade não destrói imediatamente o poder político. Mas fragiliza-o de forma cumulativa.

Tal como João Paulo II, Leão XIV não terá divisões. Nem precisa delas. Se tiver capacidade para moldar percepções, expor contradições e aumentar o custo moral de determinadas escolhas, terá influência suficiente para condicionar o poder. No final, a pergunta relevante não é quantas divisões tem o papa. É quanto custa ignorá-lo.

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
Professor convidado UCP/UNL/UÉ
20.04.2026

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180: O colapso silencioso da ordem internacional

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🇵🇹 OPINIÃO

Há momentos em que os sinais de ruptura deixam de ser episódios dispersos e passam a formar um padrão inteligível. É isso que hoje se observa no sistema internacional. Na ONU, dois membros permanentes do Conselho de Segurança violam a Carta que juraram defender. Na NATO, um Estado-membro ameaça militarmente outro. Na União Europeia, a desagregação alastra entre e no interior das instituições. E na OMC, o sistema multilateral de comércio encontra-se soterrado sob tarifas, excepções unilaterais e bloqueios políticos persistentes.

Nenhum destes fenómenos é acidental ou episódico. Em conjunto, revelam uma crise profunda da arquitectura internacional construída após 1945, assente na ideia de que o poder deveria ser contido por regras, exercido através de instituições e legitimado por um mínimo de consenso normativo. O que hoje está em causa não é apenas a eficácia dessas instituições, mas a própria premissa fundadora de que a força deve ser subordinada ao Direito e não o inverso.

No caso das Nações Unidas, a contradição é estrutural e corrosiva. O sistema foi desenhado para evitar o regresso da guerra, mas confere a 5 potências um poder de veto que, em contexto de divergência estratégica profunda, bloqueia qualquer acção colectiva relevante. Quando o veto é usado para proteger violações claras da Carta, o Conselho de Segurança deixa de ser um mecanismo de gestão da paz e transforma-se num espelho da fragmentação do sistema internacional.

Na NATO, a erosão assume uma natureza distinta, mas igualmente inquietante. A Aliança Atlântica não é apenas um pacto militar, mas uma comunidade política baseada na confiança, na previsibilidade e na solidariedade estratégica. Quando um aliado ameaça outro com o uso da força, introduz-se uma lógica de dissuasão interna que mina o princípio da segurança colectiva. A NATO continua operacional do ponto de vista militar, mas a sua coesão política revela fissuras que não podem ser ignoradas.

Na UE, a crise é mais silenciosa, mas potencialmente mais duradoura. A fragmentação entre Comissão, Conselho e Parlamento, a crescente judicialização de decisões eminentemente políticas e a divergência estratégica entre Estados-membros quanto ao lugar da Europa no mundo enfraquecem a capacidade de acção externa da União. A UE mantém um poder normativo significativo, mas tem dificuldade em transformar esse poder em influência estratégica num contexto de competição aberta entre blocos geopolíticos.

Já na OMC o bloqueio é quase absoluto. O sistema de resolução de litígios está paralisado, as grandes potências recorrem a tarifas e subsídios como instrumentos de política externa e o comércio internacional regressa a uma lógica de força e retaliação. O multilateralismo comercial, um dos pilares centrais da globalização regulada, encontra-se funcionalmente suspenso.

O denominador comum é claro: as instituições continuam formalmente de pé, mas o consenso político e normativo que lhes dava sentido está a desaparecer. Não estamos perante um colapso súbito da ordem internacional, mas perante um colapso por erosão gradual e normalizado.

Este tipo de colapso não provoca rupturas imediatas mas corrói progressivamente os mecanismos de contenção do poder. As regras continuam a existir no papel, mas deixam de orientar o comportamento dos principais actores. A previsibilidade diminui, a excepção torna-se regra e a arbitrariedade ganha espaço.

O mundo não entrou ainda numa nova ordem internacional. Vive, isso sim, num interregno instável, em que as regras antigas já não conseguem conter o poder e as novas ainda não foram acordadas. A história mostra que estes períodos de transição raramente são neutros ou pacíficos.

Ignorar os sinais seria um erro estratégico e continuar a gerir a crise como se fosse apenas conjuntural poderá revelar-se, a prazo, a mais grave ilusão do nosso tempo.

Professor Convidado UCP/UNL/UÉ

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
26.01.2026

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115: O mundo segundo Trump

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OPINIÃO

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos marca uma ruptura profunda com a ordem construída ao longo das últimas oito décadas. A administração Trump não procura reformar o sistema multilateral, mas substituí-lo, e fá-lo com uma clareza desconcertante ao afirmar que na política externa e de defesa “America First” não é um slogan eleitoral, mas a bússola oficial da maior potência mundial.

A primeira ruptura é conceptual. A estratégia declara, sem rodeios, que o ciclo de globalismo do pós Guerra Fria terminou. As instituições multilaterais, que durante décadas foram essenciais para moderar tensões, arbitrar conflitos e equilibrar ambições, surgem agora retratadas como limitações injustificáveis à acção dos Estados Unidos. A administração Trump propõe um regresso a um mundo pré institucional, onde a força, a transacção imediata e o cálculo de oportunidade se sobrepõem a qualquer ideia de bem comum internacional.

A segunda ruptura é económica e confirma o retorno ao proteccionismo estratégico. A China é apresentada como a principal distorção do comércio global e a resposta americana passa por uma reindustrialização agressiva, pela protecção de cadeias de valor críticas e por alianças condicionais onde os parceiros alinham não por convicção, mas por necessidade. Para a Europa, esta é a escolha desconfortável entre ficar dependente de Washington ou aceitar um confronto económico, mesmo que indirecto, com o seu principal aliado histórico.

A terceira ruptura é estratégica e possivelmente a mais disruptiva. Para a administração Trump, os Estados Unidos deixam de ser o garante da segurança europeia. Os aliados devem assumir a responsabilidade primária pela defesa do continente, expressão diplomática que equivale a afirmar que a Europa está sozinha. Já não basta gastar mais. É preciso construir, de raiz, uma arquitectura de segurança europeia sustentada em recursos, capacidades e decisões próprias.

Com esta retirada americana, o multi-lateralismo das últimas oito décadas perde o seu pilar central e a Europa tem de decidir se quer ser protagonista ou figurante num sistema internacional em acelerada fragmentação. Tem de transformar peso económico em poder político, autonomia militar em soberania efectiva e diplomacias nacionais dispersas numa estratégia comum. Se falhar, será empurrada para a irrelevância num mundo cada vez mais organizado em blocos que disputam hegemonia e sobrevivência.

O desafio é monumental. A Europa precisa de uma base industrial de defesa robusta e autónoma. Precisa de falar com uma só voz em política externa, mesmo quando isso implicar enfrentar divergências internas profundas. Precisa de transformar o mercado comum num verdadeiro instrumento de poder geo-económico. E precisa, sobretudo, de coragem estratégica para ocupar o espaço que o mundo lhe oferece e para impedir que outros o ocupem por ela.

Para se substituir aos Estados Unidos como potência normativa global, a Europa terá de construir novas alianças, dialogar com democracias mas também com países que não partilham integralmente os seus valores, e erguer pontes onde outros erguem muros. Esta será a condição para continuar a defender um modelo internacional baseado em regras, abertura e cooperação.

Hoje, a linha que separa uma Europa estratégica de uma Europa irrelevante é mais fina do que parece. E num mundo em fragmentação acelerada, repetir erros antigos não seria apenas imprudente. Seria fatal, porque a História não espera por atores indecisos e não perdoa hesitações estratégicas.

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
08.12.2025

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