417: Transportes gratuitos: mais que boa intenção?

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🇵🇹 OPINIÃO

Dentro de cerca de um mês quem residir no Porto vai poder viajar gratuitamente nos transportes públicos que servem a área metropolitana. A medida aprovada recentemente pela autarquia deverá entrar em vigor a 1 de Julho e será destinada aos portadores do Cartão Porto, documento que já garante descontos em teatros, museus, piscinas e bibliotecas da cidade.

Além da parte política – foi uma das bandeiras da campanha eleitoral do actual presidente da câmara, Pedro Duarte –, a medida tem objectivos maiores: retirar carros da cidade e promover melhorias ambientais numa altura em que as alterações climáticas estão cada vez mais presentes e se assiste a uma tentativa de diminuir o consumo de combustíveis fósseis.

A decisão portuense não é inédita em Portugal existindo diversas ofertas de gratuitidade nos transportes públicos desde a isenção de pagamento para maiores de 65 anos (por exemplo em Lisboa) até ao projecto MobiCascais, em que os residentes não pagam para viajar nos transportes rodoviários. Braga, Aveiro, Guimarães e Castelo Branco são outros exemplos de medidas que visam incentivar o uso de transportes públicos.

E na Europa há vários casos, com o Luxemburgo a liderar ao ter sido o primeiro país do mundo a tornar a mobilidade gratuita – desde 2020 que não se paga para viajar de transportes públicos. Mas, há outros exemplos como Malta, Talin (Estónia), Montpellier e Dunquerque (ambos em França) com modelos diferentes.

Tudo em nome do ambiente, de uma melhor mobilidade e apoio à descarbonização.

Mas, há sempre um mas, à parte o elogio pela decisão, os responsáveis portuenses devem estar atentos a factores que podem tornar esta gratuitidade apenas numa bandeira para a imagem da cidade, excepto a poupança que os residentes vão passar a usufruir.

Para ser um sucesso completo é necessário que a mobilidade desses transportes seja a correcta e não com atrasos, e que exista mesmo uma redução de carros a circular/entrar na cidade. É que só com horários e frequências correspondentes às necessidades dos passageiros se consegue convencer alguém a usar um autocarro, um comboio ou o metro, não com passagens de 20 a 30 minutos entre carreiras, ou mesmo com a sua supressão.

Mas vamos esperar para fazer esse balanço e desejar que o Porto seja um bom anfitrião. O que, por vezes em Lisboa não acontece, por exemplo, devido aos atrasos nos autocarros que têm de circular em ruas cheias de carros pois os automobilistas privilegiam o transporte individual pelo conforto e para evitar tempos de espera longos.

Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
14.05.2026

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390: O ministério onde não se lê jornais ou vê televisão

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OPINIÃO

Três mortes. Este é um número que deveria ser repetido várias vezes durante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) sobre o impacto da greve às horas extraordinárias dos técnicos de emergência pré-hospitalar que teve lugar entre 30 de Outubro e 4 de Novembro de 2024. Pois estas foram as mortes associadas pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde à paralisação das 12 ocorridas naquele período e que levantaram suspeitas sobre o socorro.

Aquelas mortes, bastava uma, deviam ser o suficiente para os responsáveis do Ministério da Saúde mostrarem respeito pelas vítimas e não procurarem usar a burocracia (para não lhe chamar pior) para não assumirem responsabilidades políticas.

Resumidamente a questão é esta: a ministra da Saúde e a antiga secretária de Estado da Gestão da Saúde disseram, desde o primeiro momento, que não tinham recebido o pré-aviso de greve dos técnicos.

E a verdade é que andamos nisto há um ano e cinco meses: ninguém é responsável pela falta de meios do INEM nesses dias.

A piorar a situação, sabemos desde essa altura que no Ministério da Saúde ninguém ouve notícias, lê jornais e vê televisão: chegámos a ouvir que não sabiam de uma greve que foi largamente noticiada. Aliás, acho que no país toda a gente sabia da mesmo, excepto quem trabalha no edifício da Avenida João Crisóstomo, onde funcionam o gabinete da ministra e as secretarias de Estado.

Mas a Lei de Murphy é para levar a sério neste ministério. Se já era difícil entender como é que quem tem responsabilidades governativas, e quem faz a sua assessoria, diz não saber de uma greve bastante anunciada, o que pensar do facto de um e-mail ser enviado para um gabinete, depois reencaminhado para o endereço errado e nenhuma das pessoas que o leu ser capaz de avisar que existia um aviso de greve? Não trabalham em equipa? Nem no mesmo local?

E depois as desculpas: primeiro ninguém tinha conhecimento do pré-aviso e, agora, afinal foi um erro no processamento da informação. Então se foi um erro qual a razão para o tentar “esconder”?

Infelizmente, enquanto assistimos a esta triste novela, não há um assumir de responsabilidades. Lembrem-se: morreram 12 pessoas naquele período e três ficaram associadas à falta de resposta do INEM.

Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
30.04.2026

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216: As pessoas estiveram lá. O Estado, nem tanto

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🇵🇹 OPINIÃO

“Não falharam as pessoas.” A frase com que a jornalista Margarida Vaqueiro Lopes terminou um artigo no início da semana deveria ter sido lida ao Presidente da República antes de Marcelo Rebelo de Sousa ter voltado aos tempos de professor universitário, e de comentador televisivo, e à análise crítica da actuação do Governo durante o período de calamidade que o país vive há uma semana devido à passagem da depressão Kristin que arrasou grande parte da zona Centro – nomeadamente a região de Leiria.

E o que se foi vendo e ouvindo ao longo destes dias dá razão à citação com que iniciei este texto. Às regiões afectadas foram chegando voluntários de diversos pontos do país que começaram a ajudar a limpar e a tentar arranjar o possível – desde retirar lixo das ruas, colocar lonas nos telhados ou acondicionar comida em sacos para serem entregues a quem viu a sua vida ser transformada em dias de sobrevivência sem luz, água e, até, estradas.

Tudo isto contrasta com o triste espectáculo a que fomos assistindo dado por quem tem a responsabilidade política de decidir e aprovar formas de apoiar e de prevenir situações como as que afectaram o país.

Além da falta de prevenção – o Instituto Português do Mar e da Atmosfera alertou com antecedência que a depressão se aproximava e que seria perigosa -, houve depois dificuldades em reagir. E quando essa reacção surgiu ainda piorou a imagem do Governo: um ministro deixou publicar um vídeo propagandístico onde aparecia ao telefone (diga-se, em abono da verdade, que assim que percebeu isso mandou retirá-lo); um outro que terá levado um grupo de militares a um determinado ponto onde fez uma acção (de campanha?) e depois, quando terminou, o cenário foi retirado – acusaram os moradores na zona e não foram desmentidos. Aliás, ouvi um desses habitantes a dizer para um canal de televisão: “Ajuda? Só se for dos passarinhos que estavam com fome.”

Acrescentemos à lista a ministra da Administração Interna que chegou a Leiria e, entre outras frases, disse: “Tudo isto é uma aprendizagem.” Quem assistiu viu a expressão do presidente da Câmara… Aliás, Maria Lúcia Amaral teve companhia do ministro da Coesão numa outra tese: o Governo desconhecia o que correu mal no atraso para a disponibilização de meios de ajuda para o terreno.

Por tudo isto as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa ontem, em Pedrogão Grande, podem ser consideradas uma avaliação negativa do Governo: “As pessoas ainda não perceberam o que aconteceu aqui, com 80% destruído”; “principalmente os que estão mais longe”; “As medidas têm de sair do papel e ser explicadas às pessoas. As pessoas comuns não as percebem. Para elas são politiquês.”

Ouviram o recado?

Editor executivo do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Carlos Ferro
05.02.2026

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150: Morrer à espera de uma ambulância

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🇵🇹 OPINIÃO

“Não havia ambulâncias na Margem Sul para dar resposta.” A frase é de Luís Mendes Cabral, o actual presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), ao comentar a morte de um homem de 78 anos, na terça-feira passada (6 de Janeiro), no Seixal depois de esperar cerca de três horas por assistência na Aldeia de Paio Pires, localidade que fica a 15 quilómetros do Hospital Garcia de Orta (Almada).

O caso concentrou as atenções mediáticas durante o dia de ontem e tornou-se mais um tema para a fogueira em que está a arder o INEM desde há muito tempo.

Ontem, falou-se no novo sistema de triagem, que o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar quer ver suspenso. Já o INEM garantiu que a sua resposta foi “dada dentro do prazo” e que fez o seu trabalho, pois “fez a triagem, que está correta, e fez pedido de ambulância ao fim de 15 minutos”.

Mas o ponto essencial e que deveria merecer muita atenção é apenas este: uma pessoa morreu porque esperou três horas por uma ambulância.

Aos familiares – deste idoso e de outras pessoas que têm ficado à espera de socorro, como denunciou o presidente do sindicato, Rui Lázaro – não interessam discussões sobre algoritmos ou sistemas de triagem. Esperavam era que a situação não tivesse acontecido. E que a justificação não fosse: não havia ambulâncias disponíveis na Margem Sul.

Provavelmente será essa a conclusão do inquérito que as Actividades em Saúde (IGAS) anunciou ter aberto. Ou seja, há uma grande possibilidade de ninguém ser responsabilizado por esta morte. O que, infelizmente, nem é caso raro.

Ou então a culpa será dos hospitais, que não têm camas para receber todas as pessoas que os procuram – sabendo-se que existem, por exemplo, duas mil pessoas que não deveriam estar nestas unidades de saúde, mas que não têm outro local para ser internadas -, o que obriga os veículos dos bombeiros a ficarem nos parques de estacionamento com os doentes nas suas macas.

Nunca será da falta de planeamento na área da Saúde, da ausência de médicos de família e de centros de saúde abertos mais horas para responder a casos menos críticos – como gripes mais fortes -, nem do facto de o país nunca ter sido capaz de redimensionar a sua rede de socorro às exigências de uma sociedade que se mudou para os grandes centros urbanos.

A verdade, todavia, é que situações como a do Seixal – que reivindica há anos um hospital no concelho – continuam a existir. E isso deve envergonhar qualquer responsável, político ou não, ligado à Saúde.

Editor executivo do Diário de Notícias

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Carlos Ferro
08.01.2026

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124: SNS: pacientes sem consulta e sem resposta

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🇵🇹 OPINIÃO

Começo este artigo com uma declaração de interesses: o caso que vou relatar aconteceu com um familiar e, na minha opinião, mostra bem o que pode enfrentar quem procura o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Todos já ouvimos falar, assistimos a imagens e lemos declarações mais ou menos inflamadas sobre as dificuldades que médicos, enfermeiros e restante pessoal que trabalha no SNS enfrenta diariamente. Tal como ouvimos os utentes a dizer que não têm médico de família (em Novembro havia 1,5 milhões de pessoas nessa situação) ou que têm de ir para o centro de saúde de madrugada para tentar uma consulta.

Passemos então ao caso que referi no início. Na sexta-feira passada – um dia depois da greve geral a que Federação Nacional dos Médicos aderiu para protestar contra uma proposta de reforma da legislação laboral que considera “um retrocesso profundo para o Serviço Nacional de Saúde (SNS)” –, um familiar acordou com dores no corpo e febre que se juntaram à rinite alérgica que tem. Sabendo do aumento de casos de gripe e da sua gravidade decidiu cumprir aquilo a que tanto têm apelado os responsáveis pela Saúde e ligou para a Linha SNS24.

Atendido rapidamente e depois de responder às perguntas que lhe fizeram ficou com duas indicações: tomar Ben-u-ron para a febre e uma consulta marcada para o centro de saúde de referência no dia seguinte – sábado. Ou seja, a máxima “Ligue antes, salve vidas” parecia estar a funcionar e, assim, a conseguir evitar idas às urgências dos hospitais tão sobrecarregadas.

Mas – há sempre um mas – este cenário de tudo a funcionar bem caiu por terra quando recebeu uma chamada do centro de saúde a comunicar que a consulta tinha sido anulada porque o médico não “apareceu” e não havia mais nenhum disponível. Ao mesmo tempo foi-lhe dito que não lhe iriam marcar nova consulta, que tinha de ligar para a Linha SNS24.

Ora, esta situação é ilegal uma vez que, como foi denunciado no mais recente relatório da Entidade Reguladora da Saúde (divulgado pelo DN no passado dia 5), os utentes “não podem ficar sem acesso a assistência em cuidados de saúde”, pois isso “viola a Constituição Portuguesa e a Carta dos Direitos e Deveres dos Utentes”. O documento frisa também que a remarcação da consulta “é da responsabilidade da unidade de saúde”.

Além disso, a falta do médico (as razões só ele e o centro de saúde saberão) também levanta questões. Uma delas é: qual a razão de só haver um clínico a trabalhar naquele dia e, provavelmente, um tarefeiro sem ligação obrigatória à unidade?

Portanto, quando entre 1 e 7 de Dezembro os casos de infecção respiratória aguda representaram 8,1% das 128.602 urgências hospitalares, a um utente doente – após um teste ficou a saber que tinha gripe A – só restava uma de duas soluções: ir para as urgências e esperar uma dezena de horas para ser atendido ou ficar por casa a medicamentos.

Conclusão: fez auto-medicação. E não entrou para as estatísticas da DGS que, por este exemplo, não devem ser muito fiáveis.

Editor executivo do Diário de Notícias

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Carlos Ferro
18.12.2025

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