Administração do hospital garante que “nunca se verificou uma ruptura de fármacos” e que o que ocorreu foi apenas uma gestão mais rigorosa das quantidades dispensadas.
Em Portugal, há mais de 100 mil doentes com cancro em seguimento.
A Comissão de Utentes da Saúde de Braga alertou para alegadas falhas no fornecimento de medicamentos a doentes oncológicos em tratamento no Hospital de Braga. Um acusação rejeitada pela administração hospitalar, que nega a existência de qualquer ruptura e garante que está apenas a fazer uma “gestão criteriosa” das quantidades entregues.
Em declarações à agência Lusa, José Lobato, coordenador da comissão, afirma que desde 12 de Fevereiro tem recebido queixas de vários doentes em quimioterapia que deixaram de receber a medicação diária necessária para dar continuidade ao tratamento.
“Tenho relatos de utentes que fazem quimioterapia e que não lhes estão a ser fornecidos os medicamentos para a continuidade do tratamento. O hospital diz que está em reestruturação”, explicou. Segundo o responsável, alguns doentes têm sido encaminhados para farmácias comunitárias, onde acabam por pagar os medicamentos do próprio bolso.
Hospital nega ruptura de fármacos
Num esclarecimento enviado à Lusa, o hospital garante que “nunca se verificou uma ruptura de fármacos” e que o que ocorreu foi apenas uma gestão mais rigorosa das quantidades dispensadas, com o objectivo de salvaguardar a continuidade dos tratamentos.
A unidade admite, contudo, que esta opção possa ter implicado deslocações mais frequentes por parte dos doentes durante um período transitório. Ainda assim, assegura que “a segurança terapêutica nunca foi comprometida” e reafirma o compromisso de melhorar a eficácia do serviço.
Numa publicação na sua página oficial na rede social Facebook, a Comissão de Utentes manifesta “preocupação face à informação sobre eventual falta de medicamentos destinados a doentes oncológicos” e recorda que o acesso regular aos tratamentos é um direito dos utentes e uma obrigação do Serviço Nacional de Saúde.
A comissão exige um “esclarecimento público urgente” sobre quais os medicamentos em causa, os motivos para a situação, as medidas adoptadas e a data prevista para reposição da normalidade.
José Lobato adiantou ainda que está a preparar uma exposição formal para enviar ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, ao Ministério da Saúde e à Comissão de Saúde da Assembleia da República, bem como aos partidos com assento parlamentar.
Ana Paula Martins admitiu que Portugal está “ainda, no meio de uma epidemia de gripe”, num inverno mais severo do que o do ano passado e com vírus mais agressivos em circulação.
Ana Paula Martins, ministra da Saúde. FOTO: PAULO NOVAIS/LUSA
A situação nos tempos de espera dos serviços de urgência é “muito crítica” e não deverá melhorar durante esta semana, nomeadamente na região de Lisboa e Vale do Tejo, disse esta segunda-feira, 5 de Janeiro, a ministra da Saúde.
“Esta semana é uma situação que é muito critica, porque é o final das festas e das férias e das tolerâncias de ponto. Se, por um lado, vamos ter os nossos profissionais que estavam de férias a voltar, por outro lado também temos muito mais doentes, a verdade é esta, nomeadamente em algumas regiões do país, a entrar nas nossas urgências”, explicou Ana Paula Martins.
Em declarações à margem de uma visita ao Hospital Distrital da Figueira da Foz, sede da Unidade Local de Saúde do Baixo Mondego (ULSBM), a governante não espera que os tempos de espera nas urgências “possam melhorar significativamente”, durante esta semana, concretamente nos hospitais Amadora-Sintra, Beatriz Ângelo (Loures) e, em Lisboa “o próprio Santa Maria, que está também com muitas dificuldades”.
Ana Paula Martins vincou que Portugal está “ainda, no meio de uma epidemia de gripe”, num inverno mais severo do que o do ano passado e com vírus mais agressivos em circulação, embora ainda não haja dados concretos sobre se o pico da doença já foi atingido este ano.
“Os nossos virologistas dizem que, possivelmente, estamos mesmo a atingir o pico, mas só saberemos daqui a mais alguns dias, se começarmos a ver o número de infecções, através da rede Sentinela, a baixar”, explicou a ministra.
🇵🇹 PORTUGAL // GOVERNO // SAÚDE // HOSPITAIS // INCOMPETÊNCIA
Os doentes classificados como urgentes no hospital Amadora-Sintra enfrentaram hoje tempos de espera de mais de 11 horas para a primeira observação nas urgências gerais, segundo dados do portal do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
De acordo com a informação consultada pela agência Lusa, cerca das 10h45, 41 doentes a quem foi atribuída a pulseira amarela (urgente) no Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) tinham de aguardar 11h30 horas para uma primeira observação.
Os doentes triados como pouco urgentes (pulseira verde) tinham um tempo de espera para serem observados por um médico de 14h00.
No Hospital Garcia de Orta, em Almada, a espera para a primeira observação dos 28 doentes considerados urgentes era de 6h15 minutos.
Segundo o sistema de triagem, as situações muito urgentes (pulseira laranja) têm um atendimento recomendado nos 10 minutos seguintes à triagem, enquanto os casos urgentes (amarela) são de 60 minutos e os pouco urgentes (verdes) de 120 minutos.
As autoridades de saúde apelam à população para que, antes de se deslocar a uma urgência, contactem a Linha SNS24 (808 24 24 24) para receber orientação adequada.
Direcção Executiva do SNS diz que só tem conhecimento de casos de dificuldade no acesso no início do programa, maio de 2023, mas há utentes que se queixaram à ERS no final de 2024 e início de 2025 por terem sido encaminhados erradamente pela Linha SNS24, por terem de andar de unidade para unidade, ou que nem sequer foram atendidos. Na avaliação que faz, regulador usa oito casos para exemplificar o que não deve ser feito.
Utentes queixam-se sobretudo de informações erradas. Arquivo (D.R.)
Ao todo, e desde que o programa Ligue Antes, Salve Vidas começou a funcionar, a Entidade Reguladora da Saúde, entre maio de 2023 e 30 de Abril de 2025, recebeu 389 queixas que visavam os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) – que gere a Linha SNS24 -, e as próprias unidades do Serviço Nacional Nacional de Saúde (hospitais e centros de saúde).
O DN teve acesso à versão concluída em Outubro, e já assinada pelo presidente do Conselho de Administração da ERS, de um relatório do regulador da Saúde, onde está bem claro que a aplicação deste programa está a criar “constrangimentos” e a “obstaculizar” o acesso dos utentes aos cuidados de saúde. E utiliza como exemplos sete dos casos de reclamações que recebeu, para lembrar aos organismos centrais do Ministério da Saúde, como Direcção Executiva e SPMS, bem como aos hospitais e centros de saúde, o que não deve ser feito e o que deve, a bem do utente.
Beja: de consulta marcada, mas sem vaga no centro de saúde
A 5 de Fevereiro de 2025, uma utente de Beja liga para a Linha SNS24 por se encontrar com queixas clínicas e, após a triagem que lhe foi feita, foi encaminhada para o centro de saúde de Beja, que é agora uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP). Assim que desligou o telefone recebeu a mensagem de confirmação de encaminhamento, onde lhe era pedido também que aguardasse o contacto do centro de saúde até às 12:00h do mesmo dia. Caso este não existisse, devia dirigir-se presencialmente ao centro de saúde pelas 15:00h.
E foi isto mesmo que fez: foi ao centro de saúde, mas quando lá chegou, “foi-me negado atendimento por já não existirem vagas para consultas de recurso”, conta na sua exposição à Entidade Reguladora da Saúde. “Pedi que me fosse indicado isso mesmo por via oficial, em papel, SMS ou e-mail, mas foi novamente negado e indicado que contactasse outra vez o SNS24, para me indicar outro local prestador de cuidados”. Foi o que fez, mas na Linha SNS24 disseram-lhe que o centro de saúde é que tinha a responsabilidade de o fazer.
Ou seja, destaca na carta à ERS, “nenhuma das duas entidades aqui descritas me indicou qualquer recurso, sendo-me negado pelo SNS24 o encaminhamento para o Serviço de Urgências do Hospital de Beja”.
Foi directamente à urgência hospitalar com o filho de três anos também e aos dois foi diagnosticado Gripe A. A utente termina a sua reclamação dizendo que tudo isto poderia ter sido evitado se as unidades do SNS “fizessem o seu trabalho”. Nas suas recomendações, a ERS relembra os organismos centrais de que têm que garantir que a informação disponível na Linha SNS24 é a correta e diz às unidades de saúde que a responsabilidade de arranjar alternativas aos utentes é das unidades e não do próprio utente.
Lisboa e Vale do Tejo: Da recusa de atendimento ao 112
Na região de Lisboa e Vale do Tejo, um utente conta à ERS que, em Janeiro deste ano, a esposa estava muito constipada, no fim de semana de 18 e 19, ficando de cama. Na segunda-feira, dia 20, levou-a ao Centro de Atendimento Permanente, em Benavente, tentando uma consulta. Perguntaram-lhe se tinha ligado à Linha SNS24, “disse que não porque pensava que só era preciso para ir a uma urgência hospitalar, e disseram-me que não a atendiam sem eu ligar ao SNS24”, relata.
Assim fez. “Às 9 horas e pouco da manhã liguei para o 808-24-24-24 estive até cerca das 10:30h, sem nunca me atenderem a chamada e acabei por regressar a casa”, mas por volta das 11:30 a esposa começou a ficar pior e decidiu chamar o INEM. “Foi levada para o Hospital de Vila Franca de Xira com início de um AVC, acabou por ser tratada no hospital”, “o caso poderia ter sido evitado”.
Mais uma vez, a ERS relembra as unidades que “nenhum utente pode ficar sem resposta”, mesmo não estando referenciado, e que tal decisão viola a constituição.
Gondomar: informação errada levou-o a dois hospitais
Ainda em Fevereiro deste ano, outra utente queixa-se à ERS de que entrou em contacto com a Linha SNS24, através de telemóvel, por o marido ter feito um corte no braço. Segundo conta: “expliquei à enfermeira que me atendeu que o corte precisava de pontos e ela encaminhou-me para o Centro de Atendimento que funciona no Hospital da Prelada” (unidade da Santa Casa da Misericórdia, no Porto, com acordo com o SNS).
“A minha área de residência é Gondomar”, explica ainda. Mas foi. E depois de estar cerca de 30 minutos à espera com o marido foram atendidos por uma médica que lhes disse que “ali não fazem suturas e que a Linha SNS24 sabe disso, uma vez que já enviaram vários pacientes com problemas idênticos e que eles os informaram disso”, relata a utente.
A médica “escreveu uma carta e encaminhou-nos para o Hospital de Santo António, no Porto, para onde deveríamos ter ido logo se a Linha SNS24 fizesse o que devia”, descreve a utente. A ERS lembra à SPMS, que gere a Linha SNS24, e à Direcção Executiva, que a informação sobre o tipo de cuidados que presta cada unidade, mesmo as que não integram o SNS, deve estar correta, para se evitar encaminhamentos errados.
Lisboa e Vale do Tejo: De hospital em hospital por causa de Ortopedia
Também no início deste ano, a ERS recebeu o caso de um utente que teve um acidente de bicicleta, em Lisboa, em frente ao Hospital Pulido Valente, e que se dirigiu ao seu centro de saúde por ter “a falange da mão esquerda deformada e com muita dor”. Ali, disseram-lhe que não podiam fazer nada e aconselharam-no a ligar para a Linha SNS24.
“Liguei pelas 18:00h, reportei o acidente e que estava com muitas dores na mão. Às 18h17m ligaram-me a informar que me devia dirigir ao Hospital de Santa Maria, desloquei-me de Metro e quando cheguei ao Serviço de Urgência retirei a senha para atendimento na triagem. Quando fui chamado a enfermeira informou-me que à sexta-feira à noite não há serviço de ortopedia e que tinha de me deslocar para o Hospital São José”, mas que tinha de ligar de novo para a Linha SNS24.
“Liguei novamente pelas 19:20h, informei outra vez sobre o acidente e o que tinha acontecido no hospital” para onde o encaminharam. Em Santa Maria, não lhe resolveram o problema e a Linha SNS24 voltou a reencaminhá-lo como se já não tivesse estado referenciado e à espera noutra unidade. “Fui de Metro, voltei a tirar senha, a esperar e o tratamento só terminou pelas 23h00”. Um arrastar de tempo que era escusado se o utente tivesse sido encaminhado correctamente. A ERS destaca no seu relatório que “o atendimento ou referenciação alternativapara uma outra unidade de saúde tem de ser feito de forma a dar resposta em tempo útil ao utente”.
Lisboa e Vale do Tejo: Criança enviada para centro com médicos em greve
Uma mãe ligou para a Linha SNS24 às 9:00h porque o filho, de sete anos, estava com tosse e febre. A linha de apoio marcou-lhe consulta para as 18h28m no Centro de Atendimento em Odivelas. “Chego 30 minutos antes e é-me negado o atendimento marcado pela Linha SNS24, porque não havia médicos, estavam em greve, mas de portas abertas”, conta à ERS.
Esta mãe teve de ligar de novo para a Linha SNS24, de onde lhe disseram “que tinha de ser o centro de saúde a encaminhar-me para outra unidade”, relata. Voltou lá, mas remeteram-na de novo para a Linha SNS24. “O meu filho estava com graus de 40 de febre e passou o dia a aguardar a consulta marcada pela Linha SNS24, para um sitio onde não havia médicos por estarem em greve. Não sabiam disto?”
A mãe foi depois para a urgência de Santa Maria, onde esteve “horas à espera”. No seu relatório, a ERS recorda várias vezes que a informação dada pelas unidades à Linha SNS24 necessita de permanente actualização, para se evitar encaminhamentos errados.
Viana do Castelo: Bebé de 15 meses sem atendimento por não ir referenciado
Outra mãe dá entrada na urgência do Hospital de Viana do Castelo com a sua bebé de 15 meses, em Novembro de 2024. “Eram 00:51h. A minha filha apresentava febre desde o dia anterior e chorava com a mão junto ao ouvido direito”. Um comportamento que se tinha agravado nas últimas horas. Em Setembro, tinha feito uma otite, pelo que, perante os sinais, conta: “Dirigi-me directamente à urgência, não sabendo da obrigatoriedade de ligar antecipadamente para a Linha SNS24. Qual não é o meu espanto, quando chego lá é-nos recusado o atendimento por não termos sido encaminhadas pela Linha. Incrédula, liguei, achando que, e uma vez que já estávamos à porta da urgência, me iriam confirmar o atendimento ali”.
Mas, após a triagem telefónica, a operadora comunicou-lhe uma decisão diferente: “Uma vez que a minha filha não reunia critérios para ser admitida em contexto de urgência tinha de ser encaminhada para a consulta no centro de saúde de Melgaço. Não consegui responder outra coisa senão: Melgaço? A senhora sabe onde fica Melgaço? Fica quase em Espanha. Eu sou de Lanheses, mais depressa chego ao Porto”. Ao que a operadora respondeu que tinha de ir para “o acesso à minha área de residência”. “Desculpem, isto só pode ser anedota. Tinha uma bebé de 15 meses a chorar no colo e com febre e tinha de percorrer 84 quilómetros, uma hora e meia de caminho, até Melgaço, quando estava à porta de um serviço de urgência?”
Mais um caso que a ERS diz que viola a Constituição, a Carta dos Direitos e Deveres do Utente e até as regras que regulamentam o programa Ligue Antes, Salve Vidas. Por isso recomenda aos SPMS e às ULS que informem os seus profissionais de tais regras para não tomarem decisões inadequadas. “A nenhum doente pode ser negada a assistência em cuidados de saúde”.
Alcobaça: De Porto de Mós até Coimbra por causa de um raio-X
No ano passado, num dia de Dezembro, pelas 9:00h, um utente deslocou-se ao seu centro de saúde – que fica, como diz, “a 600 metros da minha casa”, perto de Juncal -, com o filho, para que o joelho deste, que se encontrava inchado, fosse observado. “Ele estava com imensas dores”, mas quando chegaram ao centro disseram-lhe que tinha de ligar para o SNS24. Ligou, mas em vez de o encaminharem para ali, mandaram-nos para o Hospital de Alcobaça, visto ele ser atleta e ter de efectuar um raio-X.
Foi. Mas quando chegou, diz, “informaram-nos que tínhamos de ir para o centro de saúde de Porto de Mós”. “Fomos, mas quando chegámos reencaminharam-nos para o centro de saúde da nossa residência”. O utente não queria acreditar, quando ali chegou. “A médica encaminhou para o Hospital Pediátrico de Coimbra, devido ao facto de ser uma criança e de ter de fazer exames. Com isto tudo já tínhamos feito mais de 80 quilómetros e ainda nos faltavam mais 115 até Coimbra”.
A ERS reforça que as informações prestadas aos utentes têm de ser “corretas”.
Porto: Taxas cobradas erradamente a utentes
Em Janeiro deste ano, um utente do Porto ligou para a Linha SNS24 e foi encaminhado para o Hospital de São João. Só que quando lá chegou, não foi admitido, porque, conta na queixa enviada à ERS: “Informaram-me que do dia 1 a 15 de cada mês, a partir das 19h30 não há urgência de oftalmologia” – nesta quinzena a urgência funciona no Hospital de Santo António, no horário nocturno.
Depois da informação, disseram-lhe para voltar a ligar para a SNS24. Ligou. “Mas continuaram a dizer-me para ir para o São João. Voltei à secretaria para a admissão e a funcionária, impaciente, voltou a dizer que não havia urgência de oftalmologia, indignando-se com o facto de estar a colocar em causa o seu trabalho”.
O utente conta ainda que “uma responsável do serviço que estava a assistir ao sucedido veio dizer-me a mesma coisa e pediu que lhe mostrasse a mensagem do SNS24”. Mostrou, mas disseram-lhe para ir para o Santo António. O utente pediu comprovativo do que lhe estavam a dizer, mas foi negado. Dirigiu-se então ao Santo António, onde lhe fizeram a admissão, mas disseram-lhe que não podiam aceitar a mensagem do SNS24 porque se referia ao São João, pelo que tinha de pagar taxa de urgência. Se quisesse ficar isento teria de ligar, de novo, à Linha SNS24 para que o encaminhamento fosse feito para o Santo António.
Este caso não foi o único a chegar à ERS, mas foi este que o regulador da Saúde usou para deixar bem claro no seu relatório de avaliação do programa Ligue Antes, Salve Vidas que há unidades que estão a cobrar taxas a utentes erradamente.
A ERS relembra às unidades de saúde ser ilegal a cobrança de taxa a um doente já referenciado pela SNS24, mesmo que tenha sido para outro hospital. Se tal aconteceu, foi porque o doente recebeu a informação errada. “Só é admissível a cobrança de determinados valores aos utentes com o objectivo de moderar o consumo de cuidados de saúde, tal como prosseguido pelas taxas moderadoras e desde que não seja vedado o acesso a esses cuidados por razões económicas, nem sejam postas em causa as situações de isenção e da despesa do pagamento de taxas moderadoras legalmente previstas”.
A morte de uma grávida de 38 semanas, na sexta-feira, no Hospital Fernando da Fonseca já levou à demissão do presidente do Conselho de Administração da ULS Amadora Sintra. Mas a razão da saída está no facto de ter havido uma falha na informação passada à ministra da Saúde, com a justificação de que o sistema informático existente no hospital e no centro de saúde são diferentes. SPMS confirma que esta ULS é das que tem sistema antigo.
Ministra da Saúde aceitou demissão do presidente do CA da ULS Amadora Sintra.
O Registo de Saúde Electrónico (RSE) do doente é um projecto de há muitos anos, ainda do tempo em que a Troika andava por Portugal (2012). E o seu objectivo era criar uma base de dados única para os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de forma a que todas as unidades pudessem ter acesso ao seu processo clínico.
Aliás, na altura, a explicação dada pelo próprio Governo de Passos Coelho, era a de que o RSE serviria para que o doente não ficasse esquecido no sistema e não se perdesse o rasto de todos os passos dados no âmbito do seu processo de saúde.
Aliás, em 2012, foi mesmo criada a plataforma a partir da qual, através da área profissional, médicos e outros profissionais de saúde, passam a ter acesso aos dados dos utentes, mas, numa nota de esclarecimento, enviada esta segunda-feira, dia 3 de Novembro, ao DN, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS),organismo com competências nesta área, reconhece que a migração dos dados do antigo sistema informático para um novo, recolhida em unidades hospitalares ou de cuidados primários, ainda não está completa.
“Ainda se está a finalizar a migração dos sistemas de cuidados hospitalares de suporte ao serviço administrativo e clínico para a Suite Hospitalar – versão 2 do SONHO e SClínico”, refere a SPMS. Ou seja, das “42 instituições do SNS, apenas quatro entidades ainda não concluíram a migração, um processo determinante para a transição digital da saúde e para o projecto do Registo de Saúde Electrónico Único”.
A Unidade Local de Saúde Amadora Sintra, que integra o Hospital Fernando da Fonseca (HFF) é uma das unidades que ainda funciona com o sistema antigo, em que o sistema que reúne os dados clínicos da actividade hospitalar é diferente da do sistema que reúne os dados clínicos dos centros de saúde. Uma situação que, talvez possa explicar, o facto de o hospital não ter acesso completo aos dados clínicos da mulher grávida de 38 semanas, que morreu, na urgência desta unidade, sexta-feira, dia 31, um dia depois de ter ido a uma consulta hospitalar e de ter sido enviada para casa.
A polémica que envolve os dados clínicos desta mulher, de 36 anos, surge depois de a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, ter proferido no Parlamento, neste mesmo dia, que esta não era acompanhada em Portugal e que apenas teve duas consultas no HFF, uma em Setembro e outra em Outubro, sem acesso à história clínica.
Ana Paula Martins anunciou o que lhe foi transmitido pelo HFF, mas dois dias depois a família da grávida veio contestar as suas declarações e comprovar que a mulher era acompanhada no SNS desde Julho, quando teve a primeira consulta a 14 de Julho, no Centro de Saúde Agualva-Cacém, que integra também a Unidade Local de Saúde Amadora Sintra, e uma segunda a 14 de Agosto, altura em que terá sido referenciada para acompanhamento no HFF, por “gravidez de risco”.
Após a referenciação teve duas consultas de rotina, uma a 17 de Setembro e outra a 29 de Outubro, durante a qual lhe foi diagnosticado um episódio de hipertensão ligeiro, com encaminhamento para a urgência de ginecologia-obstetrícia, para a realização de mais exames. Depois de os ter feito, foi enviada para casa com consulta marcada para daí a uma semana, que seria esta quarta-feira, dia 5 de Novembro, já com 39 semanas e para preparação do parto.
Só que no dia 30 de Outubro, esta mulher, de 36 anos, Umo Cami, sentiu-se mal, pediu socorro ao INEM e foi levada para o hospital em paragem cardio-respiratória, foram-lhe feitas manobras de suporte vida, sem resultado, e foi realizada uma cesariana de urgência para extracção do bebé, uma menina, que viria a falecer no dia seguinte, sábado, dia 1 de Novembro.
No domingo, dia 2 de Novembro, o hospital, em comunicado, assume ter havido uma falha na informação, e que só depois de ter passado a informação disponível à titular da pasta da Saúde é que soube que a grávida já estava a ser acompanhada nos cuidados primários da sua ULS.
Situação que levou o presidente do Conselho de Administração da ULS, Carlos Sá, nomeado por Ana Paula Martins para o cargo em Fevereiro deste ano, a colocar o seu lugar à disposição, o que foi aceite. “É uma falha grave na informação”, justificou a ministra, escusando-se a mais comentários – a ULSASI estava também desde o dia 8 de Outubro sem directora clínica para a área hospitalar que pediu a cessação de funções por motivos pessoais.
Em relação ao caso de sexta-feira, a família e amigos de Umo Cami, que dizem que esta já era acompanhada no SNS desde as 20 semanas de gestação, criticou o tom e a forma como a ministra abordou o caso no Parlamento, considerando que o associou a outros, cujas mulheres chegam “a Portugal só para o momento do parto”, algumas “sem falar português” e até “sem telemóvel para pedir socorro ao INEM”.
Nesta segunda-feira, dia 3, Paloma Mendes, amiga da família, voltou a reiterar, em declarações a várias estações de televisão, aguardarem ainda por um “pedido de desculpas” por parte da ministra, solicitando ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, que opte pela sua “demissão”.
O marido de Umo Cami, em declarações a algumas televisões, pediu que seja feita uma investigação séria na justiça e que reponha a verdade. Neste momento, recorde-se, há processos de investigação instaurados pelo Ministério Público, Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) e da Entidade Reguladora da Saúde (ERS).
Será que falha na comunicação de dados foi essencial para o desfecho deste caso?
Agora, se a falha na comunicação entre hospital e centro de saúde sobre processo clínico desta doente foi relevante ou não para o desfecho do caso, é algo que o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, diz “não se poder afirmar ainda com certezas. Há muita coisa que não sabemos, nomeadamente se a história clínica da doente esteve na base ou não do desfecho deste caso”.
O administrador considera que a partilha de dados clínicos é fundamental para o sistema de saúde, sobretudo porque tem vantagens para os utentes, pois é a única forma de se acompanhar todo o seu percurso nos serviços de saúde, mas também para o próprio SNS, e respectivas poupanças, já que evitaria, por vezes, duplicação de pedidos de exames e de consultas. No entanto, defende ao DN, ser importante que este Registo de Saúde Electrónico (RSE) fosse único – ou seja, que envolvesse também os sectores privado e social.
Xavier Barreto reconhece que a migração dos dados de cada utente para um novo sistema informático não é tarefa fácil, mas também lembra que este é um projecto que já vem de há muitos anos e que até agora não foi finalizado. Aliás, sublinha, “o RSE é uma das medidas inscritas no PRR, que vai terminar em 2026, e espero que seja implementado como estava previsto, um RSE único para que a partilha da informação clínica possa ser feita em todos os sectores da Saúde”.
Segundo afirma ao DN, o presidente da APAH diz saber que nalgumas unidades de saúde “os médicos têm acesso a uma parte importante da informação recolhida pelos centros de saúde, mas, por vezes, existem problemas. Tem de entrar noutro sistema, demora mais tempo e nem sempre funciona e, por isso, nem sempre se acede a toda a informação do doente”.
Foi este caso que envolve a morte de uma grávida, que agora traz a questão do sistema de partilha de dados à tona, mas poderia ter sido outro. E explica porquê: “Quem definiu a nova organização do SNS, em Unidades Locais de Saúde, decidiu avançar com o projecto sabendo que a partilha de dados entre hospitais e centros de saúde não estava acautelada, portanto considero que não se pode imputar só responsabilidades a esta ministra”.
A SPMS, em resposta ao DN, considera que a partilha de informação entre unidades, em si, “é crítica para a prestação de cuidados com segurança e qualidade”, explicando que, neste momento, “no SNS todos os médicos podem aceder ao Processo Clínico de todos os utentes, de qualquer Unidade Local de Saúde (ULS), através do Registo de Saúde Electrónico – Área do Profissional”.
Mais. “O RSE é constituído por dados clínicos recolhidos electronicamente para cada cidadão, produzidos por entidades que prestam cuidados de saúde – sejam cuidados primários ou hospitalares. Permite o registo e partilha de informação clínica entre o utente, profissionais de saúde e entidades prestadoras de serviços de saúde, de acordo com os requisitos da Comissão Nacional de Protecção de Dados. Os cidadãos acedem através da Área Pessoal do SNS 24 e os profissionais acedem através da Área do Profissional”.
Mas tal só é válido para 38 das 42 unidades do SNS que já completaram a migração dos dados dos utentes, para as quatro em que tal ainda não aconteceu, como a ULS Amadora-Sintra, a partilha de dados ainda não é uma realidade. Neste momento, não se sabe quanto mais tempo levará até este processo estar completo.
Do ponto de vista político, José Luís Carneiro, líder do PS, já veio reafirmar a sua posição de que a ministra deveria sair. O líder parlamentar da IL, Mário Amorim Lopes, também defendeu que ministra deve ceder o lugar se não tiver capacidade para reformar.
PORTUGAL // HOSPITAIS // SAÚDE // GOVERNO // ENCERRAMENTOS
O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) considerou hoje que a passagem do serviço de urgências do Hospital Geral, vulgo Hospital dos Covões, para centro de atendimento clínico é “a morte anunciada” do serviço.
“Há muito que as sucessivas comissões liquidatárias, vulgo governos, ministérios da saúde e respectivas administrações, tinham traçado o fim da Urgência do Hospital Geral do Covões. Hoje, foi o passo/decisão final de uma morte há muito anunciada”, realça.
A administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, presidida por Alexandre Lourenço, decidiu que o Serviço de Urgência do Hospital Geral, comummente chamado de Hospital dos Covões, passaria a partir de hoje a ser um centro de atendimento clínico.
Com esta mudança, o Hospital Geral passa a assegurar situações agudas não emergentes e só recebe utentes encaminhados pela Linha SNS24 ou por outras unidades hospitalares, indicou a ULS de Coimbra em comunicado.
Numa nota de imprensa enviada à agência Lusa, o SEP indica que, nos “últimos meses, a administração da ULS Coimbra, foi descaracterizando o acesso dos utentes àquela urgência, até que deixou de haver referenciação do INEM para ocorrer a situações de urgência”.
A título de exemplo, o sindicato refere que na quinta-feira, “incompreensivelmente, os enfermeiros da urgência do Hospital dos Covões receberam um email da ULS Coimbra” q informar que “por decisão do CA, a partir de dia 31 de Outubro o SU deixará de ter doentes a partir das 20h00”.
“Neste sentido iremos alterar as escalas de trabalho e solicitar que a segurança encerre as portas às 20:30 e proceda à sua abertura às 07h30”, anuncia.
De acordo com a decisão do director do Serviço, refere o sindicato, “as inscrições dos doentes serão apenas até às 18h00 para permitir que até às 20:00 os doentes estejam observados e com orientação clínica”.
Um dia depois, refere o sindicato, e “dando o dito por não dito, dois responsáveis da direcção de enfermagem, deslocaram-se ao serviço e informaram os trabalhadores presentes que a partir de 31 de Outubro de 2025, a urgência encerrava definitivamente”.
“Há muito que afirmamos que à boleia das proclamadas sinergias da fusão dos hospitais de Coimbra, da dita reestruturação da rede de referenciação de diversas especialidades médicas, da economia de escala e o que mais lhes interessou e interessa, para o ataque e descaracterização do SNS [Serviço Nacional de Saúde], o Hospital Geral dos Covões, é o alvo a abater. Só podia”, destaca.
Isto, porque no entender do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, “ao lado esquerdo da margem do Mondego, onde o capelo e a borla carunchosa da universidade não gostam de ir nem nunca foram” e “onde também reside povo laborioso”.
“A golpada de veludo da fusão, que mais não foi do que anexação com vista à destruição duma instituição. Simultânea e paulatinamente, constrói-se um caminho que leva à sangria de recursos humanos”, considera.
Para a direcção do sindicato, esta decisão “tem como consequência o necessário caminho de confluência política dos sectores mais interessados no negócio da doença”.
“Não sejamos ingénuos. O caminho e o plano para o Hospital Geral dos Covões (HGC), foram e estavam traçados. O Plano para o HGC era e continua a ser o não plano”, escreve.
Neste sentido, o sindicato avisa que “estará na primeira linha em defesa de um SNS universal, geral e gratuito”, pelas “legítimas aspirações dos utentes e profissionais” e numa “clara ruptura com a política de destruição mansinha e de veludo do SNS”.
E “exige uma efectiva e verdadeira reorganização hospitalar para fortalecer a resposta pública e não permitir fragilidades que dêem azo ao florescimento do sector privado, como continua a acontecer em Coimbra”.
Na manhã deste domingo, estavam em fila de espera 40 doentes urgentes, com um tempo de espera médio perto das 20 horas.
Hospital Amadora-Sintra. Foto: DR
Os doentes urgentes estão a esperar uma média de 19 horas e 36 minutos no Hospital Amadora-Sintra, até serem atendidos. Os dados são da plataforma do Ministério da Saúde que divulga os tempos de espera nas várias unidades por todo o país. Às 11h30 da manhã deste domingo, 2 de Novembro, existiam 40 doentes urgentes (pulseira amarela), com um tempo de espera médio de 19h36.
Recorde-se que se trata de uma das unidades de saúde com mais dificuldades em dar resposta à procura existente. De resto, é o mesmo hospital em que, esta sexta-feira, morreu uma mulher grávida. No dia seguinte, o bebé acabaria também por morrer.
Já a espera para os doentes muito urgentes (de pulseira laranja) é de três minutos, enquanto a de pouco urgentes (pulseira verde) 1h20. A orientação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é de sempre contactar a linha SNS24, no número 808242424. Assim, podem receber um primeiro atendimento e evitam deslocações desnecessárias às urgências.
PORTUGAL // GOVERNO // SAÚDE // HOSPITAIS // CORTES
A Direcção Executiva do Serviço Nacional de Saúde terá dito este mês aos líderes das unidades locais de saúde (ULS) que é preciso cortar na despesa dos hospitais do próximo ano.
O jornal Público noticia esta quarta-feira que as ULS foram informadas de que terão de cortar dez por cento na rubrica de fornecimentos e serviços externos, como está definido na proposta de Orçamento de Estado para o próximo ano. Esta será uma forma de compensar o aumento de cinco por cento na despesa com pessoal.
A indicação foi deixada, segundo o Público, na terceira edição da Assembleia de Gestores do SNS, que aconteceu no Hospital de Santarém no dia 14 de Outubro.
Fontes hospitalares antevêem que o próximo ano seja difícil do ponto de vista orçamental e que a produção dos hospitais não ultrapasse a deste ano.
As despesas com fornecimentos e serviços externos incluem medicamentos, material clínico, tarefeiros e produção adicional, ou seja, consultas e cirurgias adicionais que são feitas para combater listas de espera.
A direcção do SNS, contactada pelo Público, diz que não comenta reuniões internas.