321: Portugal sem vagas para idosos: 70% dos lares com lotação esgotada. Preços médios superam os 1900€

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🇵🇹 PORTUGAL // LARES // IDOSOS

Portugal lidera o envelhecimento europeu. Entre a baixa rotatividade e a procura estrangeira, o cuidado digno da 3.ª idade tornou-se um luxo inacessível à classe média e aos pensionistas.

63% dos residentes permanecem nos lares entre um a cinco anos e 33,6% ficam entre cinco a dez anos.
Arquivo DN

O sector das residências para idosos em Portugal atingiu um ponto de ruptura. Um novo estudo revela que mais de dois terços das unidades estão totalmente lotadas, empurrando os preços para valores recorde e deixando as famílias em listas de espera que podem superar os seis meses.

De acordo com os dados do 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal, um estudo exaustivo realizado pela Via Sénior em parceria com a BA&N Research Unit, o número de unidades ERPI (Estrutura Residencial para Pessoas Idosas) sem qualquer vaga disponível subiu para 70% em 2025.

O documento, que analisa cerca de 45% das camas privadas no país, traça um cenário de pressão extrema sobre a rede, na qual a disponibilidade real é agora residual: apenas 8% das residências declaram ter alguma folga na ocupação.

Preços em escalada: mediana já atinge os 2000€

A pressão da procura sobre uma oferta estagnada fez disparar os custos. Cerca de 84,5% das residências aumentaram as mensalidades no último ano, com 38% das unidades a aplicarem subidas entre os 2,5% e os 5%. Actualmente, o valor médio ponderado para um quarto individual fixa-se nos 1921€ por mês (mais 246€ que em 2024), mas o valor mediano já atingiu a barreira dos 2.000€. Para quem procura opções em quarto duplo, o valor médio é de 1717€, enquanto a tipologia mais económica — o quarto triplo — apresenta uma média de 1482€, valores que permanecem fora do alcance da maioria das pensões nacionais.

Este cenário torna-se ainda mais asfixiante quando confrontado com a realidade dos rendimentos em Portugal. Com um salário médio líquido nacional que mal atinge os 1500€ e uma pensão de reforma que, para grande parte dos reformados, oscila entre os 600€ e os 900€, o custo de uma residência sénior absorve — ou ultrapassa — a totalidade dos rendimentos de um agregado comum.

Para muitas famílias, a manutenção de um idoso nestas condições é um esforço financeiro impossível, restando como única alternativa o cuidado doméstico. Esta solução, contudo, gera um novo ciclo de precariedade, ao revelar-se frequentemente incompatível com as exigências da vida profissional dos cuidadores, forçando escolhas dramáticas entre a estabilidade do emprego e o acompanhamento digno dos seus familiares.

Com a reforma ou o salário médios em Portugal, um residência é um luxo inatingível.
Arquivo DN

A dificuldade das famílias não se resume ao preço. Quase 70% das instituições têm listas de espera activas. Se em 36% dos casos o tempo de espera ultrapassa os seis meses, existe uma fatia preocupante de 19% das unidades onde o prazo é classificado como “muito indefinido”. Esta estagnação explica-se pela longevidade e baixa rotatividade: 63% dos residentes permanecem entre um a cinco anos e 33,6% ficam entre cinco a dez anos. O perfil é de idades muito avançadas, com mais de metade dos utentes (52,7%) na faixa dos 86 aos 90 anos, exigindo cuidados permanentes e especializados.

O pódio do envelhecimento e o “abandono” estatal

Portugal não enfrenta apenas um problema de gestão, mas uma crise demográfica de escala europeia. O país consolidou-se como o segundo mais envelhecido da União Europeia, com 24,3% da população acima dos 65 anos, apenas atrás de Itália (24,75%).

Contudo, a resposta estrutural é deficitária: Portugal dispõe de apenas quatro camas por cada 100 idosos, um rácio drasticamente inferior ao de países como Países Baixos, Suécia ou Bélgica.

O mercado nacional é composto por cerca de 2700 residências que gerem mais de 105.000 camas, sendo que mais de metade das unidades (52%) apresenta uma dimensão superior a 30 camas.

Esta escassez é agravada pelo que os dados sugerem ser um “abandono” estatal do sector privado: apenas 9,1% das unidades inquiridas possuem algum tipo de acordo ou apoio do Estado. Com um rácio de dependência de 38,6% — o que significa menos de três pessoas em idade activa para cada idoso —, a sustentabilidade do modelo actual está sob ameaça directa.

A nova face do sector: internacionalização e tecnologia

A par das barreiras para os portugueses, o país continua a ser um destino de eleição externo, ocupando o topo do Relatório Global de Reforma 2025, do Eurostat. Actualmente, 33,5% das residências já acolhem estrangeiros. Embora representem apenas 4,4% do total de utentes, estes residentes possuem uma capacidade financeira superior, ajudando a sustentar a operação de unidades que, em média, empregam 28,36 trabalhadores permanentes.

A resposta estrutural é deficitária: Portugal dispõe de apenas quatro camas por cada 100 idosos.

Para compensar o aumento de custos, o sector aposta na digitalização em 85% das unidades, com um foco muito claro na segurança e na saúde dos residentes. Neste âmbito, cerca de 84,5% das instituições oferecem sistemas de vídeo-chamada para contacto familiar, enquanto 68,2% já dispõem de botões de emergência e 64,5% utilizam plataformas de tele.medicina e de estimulação cognitiva.

No entanto, o reforço tecnológico contrasta com a presença física médica: embora 96,4% tenham médico, em 75,5% dos casos este profissional apenas está disponível uma vez por semana, evidenciando que a resposta clínica ainda assenta fortemente na enfermagem (presente em 99% das casas) e na monitorização remota.

Dados complementares: radiografia de um mercado sob pressão

Para lá dos grandes números, o 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal (realizado entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026) permite traçar contornos mais precisos sobre o funcionamento interno destas instituições. O mercado nacional é composto por cerca de 2700 residências que gerem mais de 105.000 camas, sendo que mais de metade das unidades (52%) apresenta uma dimensão superior a 30 camas.

No que toca à equipa multidisciplinar, os dados revelam disparidades nos serviços especializados. Enquanto a cobertura de fisioterapia atinge os 74,5%, os nutricionistas estão presentes em apenas cerca de 25% das instituições. A presença médica é outro ponto de análise: apenas 6% das residências contam com médicos em permanência, confirmando que a maioria das unidades recorre a visitas pontuais.

Portugal consolidou-se como o segundo mais envelhecido da União Europeia, com 24,3% da população acima dos 65 anos, apenas atrás de Itália (24,75%).

Apesar das dificuldades financeiras e de ocupação, existe uma vontade de crescimento no sector privado. Cerca de 17% das unidades inquiridas revelaram planos para contratar novos profissionais em 2026, sinalizando uma tentativa de resposta ao aumento da complexidade dos cuidados exigidos por residentes cada vez mais longevos.

Este estudo é uma iniciativa da Via Sénior, uma plataforma digital que monitoriza o alojamento sénior em Portugal e Espanha. O serviço, gratuito para as famílias, foca-se em reduzir a opacidade do mercado, permitindo saber preços à partida e traçando perfis clínicos personalizados para agilizar um processo de selecção que, como os dados provam, se tornou um dos maiores desafios sociais da actualidade.

Diário de Notícias
Adelaide Cabral
18.03.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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19: Solidão e falta de relações sociais associadas a 870 mil mortes prematuras por ano

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SAÚDE MENTAL // SOLIDÃO // IMPACTO

Estudo da OCDE alerta também que a solidão está associada a um pior desempenho no trabalho e a uma maior probabilidade de desemprego ou de abandono escolar precoce.

D.R.

A solidão e a falta de relações sociais estão associadas a mais de 870 mil mortes prematuras no mundo anualmente e representam um risco acrescido para a saúde física e mental, alertou esta quinta-feira (16 de Outubro) a OCDE.

Passar pouco tempo a interagir com outras pessoas e sentir-se sozinho está associado à mortalidade prematura – até 871 mil mortes globais anualmente – e a um risco acrescido de muitas condições de saúde física e mental”, refere um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre as ligações sociais em mais de 20 países.

O documento alerta também que a solidão está associada a um pior desempenho no trabalho, a uma maior probabilidade de desemprego ou de abandono escolar precoce, enquanto as interacções sociais frequentes estão relacionadas com melhores níveis de saúde e uma maior satisfação e criatividade no trabalho e no desempenho académico.

Segundo a OCDE, organização da qual Portugal faz parte, as “ligações sociais são fortes em geral” nos países abrangidos pelo estudo, que concluiu que mais de dois terços dos inquiridos interagem com amigos ou familiares diariamente e 90% têm alguém com quem contar em momentos de necessidade.

No entanto, 10% das pessoas sentem-se sem apoio, 8% dos inquiridos em 22 países europeus da OCDE afirmam não ter amigos próximos e 6% dos inquiridos em 23 países da OCDE sentiram-se sozinhos na maior parte ou em todo o tempo nas últimas quatro semanas”, salienta o documento.

Em 21 países europeus que fazem parte da organização as interacções presenciais diárias com amigos e familiares diminuíram consistentemente entre 2006, 2015 e 2022, enquanto o contacto remoto aumentou, refere.

O estudo realça ainda que os homens e os jovens “emergiram como novos grupos de risco” nos últimos anos.

Embora os homens tradicionalmente relatem taxas de solidão mais baixas e uma melhor qualidade de relacionamento do que as mulheres, entre 2018 e 2022 este grupo experimentou uma “maior deterioração” das suas relações sociais.

De acordo com o estudo, os jovens também relataram um aumento da insatisfação com os relacionamentos e um agravamento do apoio social, além de se encontrarem com os amigos pessoalmente com menos frequência.

“O desemprego e os baixos rendimentos andam frequentemente de mãos dadas com ligações sociais precárias, assim como a idade avançada e o viver sozinho”, adianta também a OCDE.

Em comparação com a população em geral, as pessoas desempregadas e as que auferem um rendimento mais baixo “têm cerca de duas vezes mais probabilidades de relatar sentir-se sozinhos”.

as pessoas que vivem sozinhas têm 1,5 vezes mais probabilidades de se sentirem insatisfeitas com as relações pessoais, enquanto os idosos correm maior risco de isolamento social: 11% referem nunca encontrar amigos pessoalmente num ano normal, mais do dobro da taxa da população em geral, adianta o estudo.

A OCDE salienta que a quantidade e a qualidade das ligações sociais são importantes para o bem-estar pessoal, mas também para a redução de custos sociais e económicos evitáveis.

Embora a atenção das políticas à solidão e ao isolamento já se verificasse antes da covid-19, essa consciencialização acelerou após a pandemia, refere a organização, que dá como exemplo a Alemanha, a Dinamarca, a Finlândia, os Países Baixos, a Suécia e a Espanha, que introduziram estratégias nacionais para combater a solidão.

Diário de Notícias
DN/Lusa
16.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 nativo.

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16: Quinze anos morto em casa

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SOCIEDADE / EGOÍSMO / ESPANHA

Quinze anos morto, só, atrás de uma porta jamais aberta. Em Madrid, vizinhos julgaram que estava num lar; estava esquecido. Portugal reconhece este retrato: rotinas que lavam as mãos, sistemas que fecham os olhos, instituições tardias e uma sociedade egoísta que se protege do outro em vez de o proteger. Este é tema do Além dos títulos desta semana,

Um idoso encontrado morto em casa, década e meia depois. Espanha hoje; Portugal ontem e, se nada mudarmos, amanhã.

A pergunta é simples e terrível: como é possível? Num país com rede de saúde, serviços sociais e polícias, num bairro com condomínios, centros de saúde, juntas de freguesia e vizinhos, como é que quinze anos passam sem que ninguém estranhe o correio acumulado, a luz que não se acende, o silêncio que não envelhece?

O que se revela, por baixo da rotina bem-comportada, é uma sociedade egoísta: habituada a terceirizar o cuidado, a delegar a atenção no “sistema”, a afastar o incómodo e a proteger o conforto próprio, mesmo quando o preço é a invisibilidade do outro.

Em Portugal, já vimos isto.

Vimos idosos deixados dias e semanas em corredores de hospitais, sem família que os venha buscar e sem plano social que os acompanhe.

Vimos altas “técnicas” que são, na prática, expulsões administrativas para o nada.

Vimos violência disfarçada de impaciência e abandono escondido sob a palavra “autonomia” quando, na verdade, é desamparo. Nada nos garante que não volte a acontecer — porque nada de estrutural foi feito e porque a indiferença egoísta continua a ser tolerada.

O direito à dignidade, à integridade física e moral, à protecção na doença e na velhice não cabe em slogans; exige protocolos obrigatórios de sinalização, integração efetiva entre saúde e acção social, e responsabilidade.

Responsabilidade com nome: Estado, autarquias, instituições particulares de solidariedade social, administrações hospitalares. E também a responsabilidade incómoda: família e vizinhança.

O que falha é sempre o mesmo.

Falha a identificação e o acompanhamento, porque não existe um registo actualizado de pessoas sós em risco, com cruzamento de dados de centros de saúde, segurança social e autarquias; sem mapa, perde-se gente.

Falham protocolos vinculativos: quando um idoso fica internado sem retaguarda, a alta não pode ser um bilhete de saída para o vazio; tem de accionar automaticamente uma resposta social, monitorização domiciliária e apoio jurídico sempre que existam indícios de abandono ou violência.

Falha a vizinhança responsável: não basta achar que o vizinho foi para um lar; é preciso verificar, reportar, bater à porta.

A indiferença também mata.

Isto não é apenas uma tragédia; é um fracasso jurídico e ético. Um sistema que tolera a invisibilidade fabrica autópsias morais. E nós, que escrevemos, legislamos, julgamos e governamos, não podemos aceitar que a solidão seja um destino administrativo.

Não se legisla o amor, mas legisla-se a responsabilidade.

Não se impõe a ternura, mas obriga-se o cuidado. E quando o Estado diz “não tenho meios”, responde-se: não há custo mais caro do que a morte silenciosa.

Um homem ficou quinze anos morto numa casa em Espanha. O tempo passou, o mundo mudou e ele não.

A única pergunta que importa é se se tolera que isto aconteça aqui.

Não pode ser tolerado.

E não haverá descanso enquanto a porta que separa a sociedade da dignidade não for substituída por uma rede de cuidado e responsabilidade que a ligue ao dever essencial: ninguém fica para trás.

Expresso
João Massano
16.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 nativo.

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15: Metade dos seniores perdeu poder de compra no último ano

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PORTUGAL // SENIORES // PERDA DE PODER DE COMPRA

Larga maioria da população sénior gasta 90% dos rendimentos em despesas fixas e variáveis. Ainda assim, 40% ajuda os filhos, diz estudo. Poupar, viajar e obras em casa são anseios destes portugueses.

Os seniores sentem falta de serviços ao domicílio.
Leonardo Negrão/Global Notícias

Os seniores portugueses estão preocupados com a sua situação financeira e dos seus familiares. Embora 64% considerem ter um rendimento idêntico ou até mais elevado face à da maioria dos trabalhadores nacionais, 47% afirmam que o seu poder de compra diminuiu nos últimos 12 meses, revela o estudo Observador Cetelem Consumo Sénior 2025.

O relatório, que tem por base mais de 400 entrevistas a pessoas com idade superior a 55 anos, concluiu também que 40% ajudam familiares, normalmente os filhos, com dinheiro ou nas despesas.

A maioria das pessoas com mais de 55 anos ainda está a trabalhar, e é por esta via que obtém a sua principal fonte de rendimento, sendo que em média 90% do salário é gasto em despesas fixas e variáveis. Apesar de só sobrar uma pequena fatia do rendimento no final do mês, esta população afirma a vontade de aumentar as poupanças mais do que as despesas nos próximos 12 meses.

Este objectivo terá em conta a subida da idade da reforma – em 2025, para 66 anos e sete meses; em 2026, para 66 anos e nove meses -, e os cortes de 16,9% para quem decidir antecipar a pensão ainda este ano. São medidas que estão a gerar preocupação entre os futuros reformados.

Até porque os rendimentos mensais são canalizados, na sua grande parte, para bens essenciais. Segundo o estudo, a alimentação é a categoria onde 96% dos seniores portugueses gastam mais dinheiro e também a que obriga a uma maior frequência de compras. Seguem-se as áreas da saúde (48%) e da habitação (36%) como as mais exigentes no que se refere a gastos.

O vestuário e calçado é uma necessidade que é colmatada com oito compras, em média, por ano. Esta última categoria, assim como equipamentos electrónicos e tecnológicos, são as que os seniores mais compram online. O estudo revela que 91% fazem compras pela Internet, cerca de 15 vezes por ano, devido aos preços mais baixos (54%) e/ou à comodidade (46%).

Os projectos dos seniores portugueses estão muito centrados em viagens (45% dos inquiridos gostava de viajar) e em realizar renovações/remodelações na casa. Neste item, 71% gostavam de tornar a habitação mais amiga do ambiente. A maioria (68%) já trocou as lâmpadas para led para tornar o gasto mais acessível, e 1/3 também já fez melhorias no isolamento. Há também a destacar que 20% ambicionam comprar novos equipamentos electrónicos e tecnológicos. Esta população já utiliza esses aparelhos no dia a dia, mas 2/3 pede ajuda a familiares. As redes sociais são usadas quase diariamente, enquanto as aplicações são utilizadas, em média, dia sim, dia não.

O estudo revela ainda que 59% dos seniores sente falta de produtos ou serviços adaptados às suas necessidades, com especial destaque para a alimentação saudável (27%), cultura e lazer (20%) e serviços ao domicílio (19%). Para além dos referidos passeios e viagens, o lazer, cultura e prática de exercício físico são as actividades que mais motivam esta população. O estudo concluiu que a maioria dos inquiridos considera que uma pessoa é sénior a partir dos 65 anos. Quatro em cada dez afirmou sentir-se mais jovem do que a idade que tem.

O Observador Cetelem é um centro de estudos sobre consumo e de acompanhamento económico do BNP Paribas Personal Finance, entidade especialista em crédito ao consumo do BNP Paribas. O grupo está presente em 21 países, entre os quais Portugal, e emprega mais de 16 mil pessoas.

Diário de Notícias
Sónia Santos Pereira
15.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 nativo.

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9: CSI. Governo assume derrapagem de 36% em 2025 mas volta a fazer “contas por baixo” para 2026

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ECONOMIA / CSI

De Janeiro de 2024 a Agosto de 2025 contabilizam-se mais 93 mil beneficiários do CSI; só desde Janeiro de 2025 são mais 23 mil. Mas o valor alocado à medida pelo Governo em 2026 consome-se quase todo (mais de 98%) com os actuais 231 mil beneficiários.

Custo do Complemento Solidário para Idosos deverá atingir 552,9 milhões em 2025, muito acima do orçamentado no OE2025. Em 2026, valor de referência da prestação aumenta 40 euros e Governo prevê gastar 671,8 milhões — mas deixa menos de 2% para novos beneficiários

O Governo estima que as contas de 2025 fechem com uma derrapagem de 146,1 milhões de euros no Complemento Solidário para Idosos (CSI) face ao orçamentado. O custo desta prestação deverá assim atingir 552,9 milhões, ou seja mais 36% que os 406,8 milhões previstos no OE2025. Com base nesta projecção, o Orçamento do Estado de 2026 aloca 671,8 milhões para o CSI. Trata-se de um acréscimo de 118,0 milhões (mais 21,5%) face à despesa que agora prevê para 2025.

“A despesa com o complemento solidário para idosos deverá atingir o montante de 671,8 milhões de euros, reflectindo principalmente, face a 2025, o aumento do valor de referência em 40 euros mensais adicionais em 2026, na sequência do aumento efectuado em 5% sobre o valor de referência a partir de Janeiro de 2025”, lê-se no documento.

Este é o primeiro reconhecimento público da aparatosa derrapagem ocorrida em 2025, já que o Governo nunca respondeu às perguntas, quer do DN quer de outros órgãos jornalísticos, a propósito do descontrolo na despesa associada a esta prestação. Descontrolo para o qual este jornal tinha já chamado a atenção em Maio — quando, com base em cálculos próprios e a partir do número de beneficiários contabilizados em Abril, previu que a despesa com CSI deveria neste ano situar-se entre 523 e 546 milhões (abaixo, ainda assim, da estimativa agora assumida pelo Governo).

Já o Conselho de Finanças Públicas (CFP), no seu último relatório (Setembro 2025) acredita que a derrapagem será ainda maior. Este órgão fiscalizador das contas do Estado projectou para 2025 uma despesa de 577 milhões em CSI, e sem contar, sublinhou, com “a despesa com os benefícios adicionais de saúde (BAS), nomeadamente com medicamentos gratuitos (…) que até maio de 2025 já totalizava 16,2 milhões de euros”. Concluindo assim que a promessa de aumentar o valor de referência da prestação até 870 euros em 2029 (que o Governo mantém, referindo-a várias vezes no OE2026) “constitui um risco acrescido para a despesa”.

Tanto mais assim é, adverte o CFP, quando “o universo dos potenciais beneficiários” — ou seja, o número de idosos com rendimentos inferiores ao valor base do CSI, à medida que este vai subindo — é muito considerável.

Actuais beneficiários consomem mais de 98% da verba para 2026

Não consta do OE ou dos seus relatórios qualquer projecção quanto ao número de beneficiários que poderão, em face do aumento do valor de referência em 2026, ter acesso à prestação.

Nem, tão-pouco, os custos associados ao CSI em termos de “benefícios adicionais de saúde” — a começar pela gratuitidade de medicamentos prescritos, em vigor desde Junho de 2024 e cuja despesa disparou desde então (de acordo com os dados do Infarmed a que o DN teve acesso, entre Junho de 2024 e o primeiro trimestre de 2025 aumentara 68%; segundo o CFP, totalizava, só até maio, 16,2 milhões de euros, apontando-se assim para uma despesa anual de cerca de 40 milhões). O DN requereu, insistentemente, ao ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social que indique onde se pode encontrar o orçamentado para esta medida (que envolve também o ministério da Saúde), mas este nunca respondeu.

Porém é possível fazer contas simples para chegar ao número de novos beneficiários que “cabem” nas contas do Governo. Assim, atendendo a que a última contabilidade, de Agosto de 2025, é de 230 934 recipientes da prestação, e que o valor médio desta é de 199 euros, se adicionarmos a este valor os 40 euros que acrescem em 2026 e multiplicarmos o resultado (239 euros) pelo número de beneficiários vezes os 12 meses do ano, o resultado é 662,3 milhões.

O que significa que quase todo o montante — mais de 98% — alocado pelo Governo para a prestação se consome com os actuais beneficiários, sobrando apenas 9,5 milhões de euros.

Se partirmos do princípio (duvidoso) de que só acederão em 2026 à prestação pessoas que até agora, por terem um rendimento mensal de 630 euros, não preenchiam o critério, e portanto apenas poderão receber os 40 euros mensais do acréscimo, concluímos que só há dotação orçamental para um pouco menos de 20 mil novos beneficiários.

Recorde-se que, tendo chegado ao governo em Abril de 2024, quando o valor de referência do CSI que vigorava era 550 euros (por via do OE2024, do executivo de António Costa, que acrescentou 62 euros ao montante anterior de 488 euros), Montenegro decidiu, em Junho, aumentar de novo o valor de referência para 600. Alterou também as regras de acesso à prestação, afastando o rendimento dos filhos do idoso do cálculo, e tornou os medicamentos prescritos inteiramente grátis (a comparticipação adicional, era, até aí, de 50%) para os idosos inscritos no CSI.

A projecção do Governo era de que essas alterações atraíssem cerca de 24 mil novos beneficiários. Mas acabou confrontado com um salto, entre Janeiro de 2024 e Agosto de 2025, de 92 960 beneficiários.

A subida mais expressiva ocorreu a partir de Julho de 2024, mas o número de beneficiários tem estado sempre a crescer: de Janeiro (quando ocorreu outro aumento do valor de referência, para os actuais 630 euros) a Agosto de 2025, contaram-se mais 23 151.

Em 2024, 65% (1,2 milhões) das pensões valiam entre 319 e 783 euros

Não há informação pública disponível sobre qual o universo dos pensionistas que, tendo rendimento mensal abaixo de 670 euros, não possuam outros rendimentos (ou não vivam com alguém com rendimentos superiores, ultrapassando os valores máximos para o agregado permitidos no CSI).

De acordo com os relatórios do OE2026, o valor médio da pensão de velhice em 2024 foi de 610,91 euros, sendo o valor médio das pensões das mulheres (que eram 65,5% das beneficiárias do CSI em Agosto) muito mais baixo: 452,09 euros. Acresce que, segundo a mesma fonte, “em Dezembro de 2024 a maioria das pensões de velhice encontrava-se no escalão do valor de pensão com valor monetário igual ou superior ao montante da pensão mínima inferior a 15 anos de contribuições [319,49 euros em 2024] e inferior a 1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais [509,26 euros em 2024]”.

Essa maioria corresponde a “65,1% do total das pensões de velhice”, ou seja 1 282 992 pensões. Traduzindo: mais de metade das pensões actuais terão um valor bruto entre 331,79 euros (montante da pensão mínima inferior a 15 anos de contribuições em 2025) e 783,75 euros (1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais em 2025).

Por outro lado, e ainda segundo os relatórios do OE2026, em 2024 entraram a pagamento mais de 12 mil novas pensões mínimas de montante inferior a 319,49 euros, e mais 60 mil entre 319,49 e 783,75 euros. E, citando os referidos relatórios, “a maioria das novas pensões de velhice com primeiro processamento no ano de 2024 tinha um valor monetário inferior a 1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais (mais de 72 mil), o que equivale a 74,2% do total de novas pensões de velhice, 62,7% referentes a pensões auferidas por homens e 86,2% por mulheres”.

Sublinhe-se que estas pensões, ao contrário do CSI, são pagas com subsídios de férias e de Natal, o que implica que, para saber se um pensionista tem direito ao CSI, é preciso dividir o valor anual da respectiva pensão por 12 (significando que a referida pensão “média” de 610,91 euros corresponde a 712,72 euros mensais, ou seja, excede o valor de referência do CSI). Ainda assim, parece evidente que, à medida que aumenta o valor de referência do CSI, serão cada vez mais os pensionistas que caberão nos critérios da prestação.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.10.2025

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