366: A rainha dos vícios

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🇵🇹 OPINIÃO

JD Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, sentiu-se habilitado a explicar ao Papa Leão XIV que a sua teologia precisava de ser mais rigorosa. Ao papa. Ao Bispo de Roma. Ao vigário de Cristo, como o reconhecem 1500 milhões de católicos.

A tradição que Vance diz professar tem um nome para esta disposição. Gregório Magno chamou-lhe a rainha de todos os vícios. Em latim, superbia. O incidente seria apenas um episódio de impertinência teológica se não fosse também um retrato. Para perceber o retrato é preciso perceber o modelo.

Vance foi fuzileiro naval e serviu no Iraque como jornalista das Forças Armadas, mas não construiu a sua biografia pública em torno do combate directo. Sem uma carreira política prévia, foi eleito senador pelo Ohio em 2022 e deixou o lugar ao tornar-se vice-presidente. Antes disso, manteve durante anos uma hostilidade pública em relação a Trump. A conversão foi rápida, completa e politicamente funcional. Houve alinhamento. Houve acesso ao poder. Houve fidelidade ao ticket. O que não houve foi uma revisão pública de princípios que explicasse a mudança com rigor.

A carreira política de Vance não teria existido sem Peter Thiel. O co-fundador da PayPal, investidor em vigilância e Inteligência Artificial, natural da África do Sul, foi um dos principais patronos da nova direita tecnológica americana. Thiel financiou a candidatura ao Senado, abriu a porta ao ecossistema de Silicon Valley e ajudou a construir a plataforma política que tornou possível a chegada de Vance à vice-Presidência.

Elon Musk, também nascido na África do Sul, completa o quadro. São homens que se tornaram poderosos nos Estados Unidos, mas cuja formação inicial ocorreu numa ordem racial hierárquica, branca, em que uma minoria governava uma maioria negra. Quando essa ordem colapsou, ficou uma memória política da perda e do deslocamento que nunca foi inteiramente elaborada. Não é por acaso que Thiel financia Curtis Yarvin, o teórico do neo-reaccionarismo que trata a democracia como um sistema obsoleto a substituir por estruturas de poder centralizado e hierárquico

É nesse ponto que a ligação sul-africana ganha relevo interpretativo. A narrativa da perseguição à comunidade branca sul-africana, que chegou a Trump através destes circuitos e que ele adoptou com entusiasmo, não deve ser lida apenas como propaganda eleitoral. Deve ser lida também como uma gramática emocional e política de cerco, despossessão e revanche, transportada para o espaço americano. A afinidade estrutural entre o universo social de onde vieram e o modo como lêem a ordem liberal é demasiado consistente para ser ignorada.

Vance apresenta-se como o rosto do MAGA, o porta-voz da América profunda, o defensor das comunidades trabalhadoras do Ohio contra as elites cosmopolitas. Mas o seu protagonismo no ataque à regulação europeia, ao Digital Markets Act, ao AI Act e à arquitectura regulatória europeia sobre as grandes plataformas tecnológicas, não é apenas populismo. É também o retorno político do investimento feito por Silicon Valley.

A América que Vance representa não é apenas a do Ohio. É a dos servidores, do capital de risco e de um projecto de tecno-feudalismo em que a lei é progressivamente substituída pelos termos de serviço das plataformas. Quem controla o algoritmo não precisa de corrigir o papa. Pode simplesmente desligá-lo.

O apoio ao AfD alemão confirma o que o discurso MAGA tende a obscurecer. O AfD não é um partido populista genérico. É uma força de identidade étnico-nacional, com raízes no nacionalismo völkisch, e tem sido alvo de escrutínio das autoridades alemãs por suspeita de extremismo.

Vance não se limita a expressar simpatia pelo descontentamento social europeu. Alinha-se com uma visão específica de pertença, fronteira e exclusão. O fio sul-africano, o fio alemão e o fio americano formam, aqui, a mesma trama.

A contradição religiosa completa o retrato. Vance assumiu o catolicismo como identidade política, mas a sua leitura pública da fé parece cada vez mais subordinada à conveniência do poder. Quando confrontado com a posição do papa Leão XIV sobre o Médio Oriente, respondeu como quem se julga habilitado a corrigir o Magistério da Igreja, insinuando que a autoridade espiritual devia render-se à lógica política.

A soberba não é apenas um traço pessoal de JD Vance. É a marca de um projecto. O projecto de um grupo que acumulou capital tecnológico suficiente para comprar influência política, que transporta consigo uma visão de mundo moldada por experiências históricas de hierarquia e perda, e que encontrou no MAGA o veículo ideal para transformar essa visão em poder estatal. Vance é o rosto apresentável dessa operação.

Gregório Magno classificou bem o vício. O que não previu foi que a rainha teria fundo de investimento, linguagem de redenção e passaporte americano.

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
20.04.2026

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326: A Quinta Corrosão

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🇵🇹 OPINIÃO

Na passada quinta-feira, em Bruxelas, Viktor Orbán bloqueou, mais uma vez, os 90 mil milhões de euros aprovados em Dezembro pelo Conselho Europeu para a Ucrânia. O argumento é conhecido: a Ucrânia não repara o oleoduto Druzhba com a rapidez que Budapeste exige, danificado por um ataque russo em Janeiro, e sem petróleo a Hungria não apoia nada. “Estamos à espera do petróleo. O resto são contos de fadas.”

António Costa respondeu em termos que raramente se ouvem na diplomacia europeia: o comportamento húngaro constitui uma violação do princípio da cooperação leal entre Estados-membros consagrado nos Tratados. Budapeste tinha aprovado o empréstimo em Dezembro. Vetou-o na quinta-feira. A lógica é simples: a Rússia danifica a infra-estrutura, a Ucrânia é culpada pela demora na reparação, e a Hungria transforma o dano num instrumento de bloqueio institucional. Não é política energética. É a doutrina da fadiga aplicada por dentro da União Europeia.

Daqui a menos de três semanas, a 12 de Abril, os húngaros votam. Orbán, que governa com maioria absoluta há 15 anos após redesenhar tribunais, meios de comunicação e leis eleitorais a seu favor, surge agora em segundo lugar nas sondagens, atrás de Péter Magyar e do partido Tisza.

O veto da semana passada não é desligável da campanha: o inimigo externo que ameaça o aquecimento das casas húngaras é exactamente o argumento que mobiliza a base do Fidesz. Moscovo percebeu-o antes de qualquer analista ocidental. O alinhamento de narrativas entre Budapeste e o Kremlin não requer coordenação explícita para ser funcionalmente perfeito: a Rússia ataca a infra-estrutura, a Hungria culpa a Ucrânia, a UE paralisa, e a Rússia avança no terreno. O resultado é funcionalmente idêntico ao de uma operação coordenada, sem que seja necessário demonstrar que o seja.

É aqui que entra o que chamo a quinta corrosão do Direito Internacional. Os primeiros quatro mecanismos de erosão são conhecidos e operam sobretudo a partir do exterior. O facto consumado territorial – de que a recorrente pretensão americana de tratar a Gronelândia como activo transaccionável é o caso paradigmático – estabelece que a soberania formal é uma variável negociável e não um constrangimento absoluto, esvaziando progressivamente princípios fundamentais sobre integridade territorial e delimitação de espaços, como os consagrados na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. A privatização do multilateralismo substitui fóruns vinculativos por redes de lealdade pessoal com estatuto diplomático, reproduzindo a forma das instituições sem o seu conteúdo normativo.

A privatização da decisão estratégica transfere poder efectivo para actores sem mandato democrático: quando Elon Musk restringe unilateralmente o acesso ao Starlink em teatro de guerra, a norma internacional não tem linguagem para o actor que detém o poder sem deter o título. E a subversão endógena instala dentro das próprias democracias os operadores que tratam a norma como obstáculo interno e não como escudo externo, de que Orbán ou as posições do partido AfD são hoje o exemplo acabado dentro da União Europeia.

A quinta corrosão é diferente porque é indirecta e opera a partir de dentro da única instituição que ainda poderia funcionar como garante normativo global.

A União Europeia não defende o Direito Internacional por idealismo. Defende-o por necessidade existencial: é a Europa que mais perde num mundo governado exclusivamente pela força, porque é a Europa que mais apostou na norma como substituto do poder.

Para cumprir esse papel precisa de coesão. Um único Estado-membro com poder de bloqueio, alinhado com a gramática transaccional de Moscovo e com a lógica de veto selectivo que tem contaminado o sistema, paralisa o mecanismo por dentro sem o destruir formalmente. Um Conselho Europeu bloqueado vale tanto quanto um Conselho de Segurança com veto permanente: existe, mas não decide.

O mesmo padrão repete-se na Eslováquia de Fico, e o crescimento da AfD na Alemanha aponta para a sua possível expansão. A lógica é sempre a mesma: não é preciso abandonar as instituições europeias. Basta ocupá-las para as neutralizar.

É por isso que as eleições húngaras de 12 de Abril não são um assunto interno húngaro. São um momento de definição sobre se a quinta corrosão se consolida ou recua. Um país com o eleitorado da dimensão de Portugal tornou-se um vector de erosão normativa tão eficaz quanto um actor externo com capacidade militar. Não destrói o Direito Internacional. Paralisa quem ainda o poderia defender.

O fim do Direito Internacional não é um evento. É um processo. E na semana que passou, ficou um pouco mais perto, em Bruxelas.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
23.03.2026

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277: ‘Snova Spacibo, Gospodin Putin’

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🇵🇹 OPINIÃO

Há quatro anos escrevi, noutras páginas, uma coluna chamada Spacibo, Gospodin Putin.

Era Março de 2022, cinco dias após a invasão, e a ironia ainda cabia numa lista de agradecimentos: a NATO acordara, a Europa rearmava, o mito militar russo desfazia-se perante Kiev. Quatro anos depois, o dispositivo retórico mantém-se. A ironia, não. Há muito menos para agradecer. E o que há custa infinitamente mais do que qualquer cálculo antecipava.

É de agradecer a confirmação de que Putin não é o decisor frio que o seu marketing vendia, mas um líder consumido pelo ego e pela mitomania. Ao persistir num erro crasso, conseguiu o que mais temia: o maior alargamento da NATO na História, com a Finlândia a acrescentar 1300 quilómetros de fronteira e a Suécia a fechar o Báltico à projecção naval russa.

Até Trump funcionou como ricochete: ao ameaçar os aliados, acelerou a autonomia estratégica europeia. Putin quis dividir o Ocidente e forçou-o a crescer. Foram os ucranianos a pagar o preço.

É de agradecer ter posto fim ao sono europeu. Vinte e três países cumprem hoje os 2% do PIB em Defesa. Mas a gratidão é amarga: foi precisa a maior carnificina desde 1945 para comprarmos extintores. O mesmo vale para a energia, conquistada à custa das faturas mais pesadas para os consumidores mais vulneráveis.

É de agradecer ter exposto o encolhimento estratégico da Rússia. A Síria deixou de ser vitrina de poder; na Venezuela, em Cuba e em África, Moscovo tem cada vez menos para oferecer além de retórica. A reputação militar, alimentada por intervenções cirúrgicas na Geórgia e na Crimeia, ruiu perante a logística falhada, a doutrina inexistente e a corrupção estrutural. As escolas de guerra estudarão esta campanha durante décadas, não como modelo, mas como aviso.

É também de agradecer ter transformado a China no árbitro de uma paz que ninguém lhe pediu e ter reduzido a Rússia a vassalagem existencial. Putin foi a Pequim pedir suporte e saiu como parceiro subalterno. Não aliado: subalterno. Resta-lhe o arsenal nuclear, suficiente para garantir lugar à mesa, mas insuficiente para definir o menu. Putin jogou para restaurar um império. Acabou por hipotecar o que restava dele.

Nunca acreditei numa derrota militar total da Rússia. Quem a prometeu cedeu à pressão do momento. O que me perturba é que, apesar de estar no limiar da derrota estratégica, a Rússia poderia estar hoje numa posição muito pior. Não fosse a inflexão de Trump e as hesitações europeias, o mapa negocial seria mais favorável à Ucrânia. A Europa deu o suficiente para que não perdesse; nunca o suficiente para que pudesse ganhar.

Os números não mentem: quase dois milhões de baixas combinadas, a larga maioria das quais soldados russos, mais de 15 mil civis confirmados, seis a sete milhões de refugiados, metade da capacidade eléctrica da Ucrânia destruída. Cada número é uma vida interrompida, uma família dispersa, uma cidade amputada.

Chegamos a 2026 com mais de dois milhões de baixas e mesas de paz em Abu Dhabi e Genebra. Resta um amargo agradecimento pelo erro crasso que Putin cometeu, por puro ego, em Fevereiro de 2022. Putin obrigou-nos a escolher entre a paz dos cemitérios e a fadiga das democracias. Apostou no nosso cansaço; respondemos com o rearmamento de um século. Se a Europa e Kiev recusarão esse guião ou cederão ao peso do tempo, é a questão que 2026 ainda não respondeu.

Obrigado, senhor Putin: hoje todos sabemos que, consigo, a paz é apenas o intervalo para a próxima guerra.

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
25.02.2026

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187: O crepúsculo dos generais: onde a traição e o medo se cruzam em Pequim

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🇵🇹 OPINIÃO

A queda de Zhang Youxia e Liu Zhenli, confirmada este fim de semana, é uma falha sísmica no coração do regime chinês que coloca o país numa fragilidade institucional sem precedentes. As acusações formais de violações disciplinares ocultam o que, segundo relatos não-confirmados em círculos dissidentes e análises especulativas, poderá ter ocorrido a 18 de Janeiro no Hotel Jingxi: uma alegada tentativa de golpe abortada.

Independentemente da veracidade destes rumores, impossíveis de confirmar num sistema opaco, o simples facto de ganharem tracção revela a percepção de que algo profundo se quebrou no pacto militar-partidário. Se o cenário for real, a dissuasão nuclear e a estabilidade do regime revelam-se vulneráveis; se for apenas uma purga inflacionada, Xi terá atingido um grau de paranóia tal que a única forma de remover um aliado de sempre é colá-lo ao crime mais hediondo, destruindo a coesão do comando militar.

Para compreender a magnitude do evento, é preciso caracterizar a importância da Comissão Militar Central (CMC). No sistema chinês, o Estado é secundário e o Partido é soberano, mas o Partido só governa porque controla as armas através da CMC. É ali que a ideologia se transforma em capacidade operacional e onde a autoridade política se converte em poder coercivo.

Quando Xi elimina a chefia operacional e ordena a detenção de milhares de militares, não está apenas a combater a corrupção; está a reconfigurar a própria arquitectura do poder, substituindo a continuidade institucional por um controlo pessoal absoluto. Ao sacrificar Zhang Youxia, Xi remove a última barreira psicológica da elite: a mensagem é que nem décadas de lealdade garantem a sobrevivência. Com este gesto, o líder isola-se no topo, reafirmando que não há parcerias, apenas submissão. Agora, é só ele quem manda.

O motor deste conflito pode residir num tabu político: a hipótese de um plano de sucessão hereditária de Xi Jinping. A resistência militar a uma eventual deriva dinástica, personificada em Zhang Youxia, terá precipitado o confronto. Alguns analistas independentes apontam como sinal inquietante a redução drástica do tráfego aéreo comercial sobre a região de Ningxia, onde residirá o putativo sucessor, agora protegida por um cordão sanitário de segurança.

Esta crise mergulhou o país numa paralisia estratégica total, visível no receio dos mercados. As quedas acentuadas nas acções de gigantes da Defesa como a AVIC e a Norinco parecem reflectir menos o medo da guerra e mais a incerteza sobre quem detém o controlo da cadeia de comando, num momento em que dispositivos de comunicação foram confiscados e as tropas congeladas.

Esta crise explode num péssimo momento internacional. Com a Venezuela em reconfiguração e a escalada regional a aproximar-se de um confronto com o Irão, a margem de erro de Xi estreita-se. A China vê-se pressionada externamente, reagindo com notas diplomáticas invulgarmente duras que condenam a ingerência estrangeira em questões de Segurança Nacional, numa tentativa de associar a instabilidade interna a ameaças externas. Um líder que não confia nos generais que guardam o seu arsenal nuclear é um líder encurralado.

E a história ensina que líderes encurralados tendem a cometer erros de cálculo fatais, capazes de incendiar não apenas o Estreito de Taiwan, mas toda a ordem global. O crepúsculo dos generais sugere que o centro de gravidade do poder chinês entrou numa fase de turbulência em que cada bala política disparada por Xi enfraquece o Exército de que precisa para o seu sonho chinês.

Este tipo de convulsões, embora frequentes em regimes autoritários, envia um sinal de inquietude aos apologistas destes sistemas e impõe reservas aos especialistas que, cegos pelo determinismo, acreditam que o trajecto da China rumo à liderança mundial é um destino garantido e imune às falhas humanas do poder absoluto. No fim, até os impérios mais disciplinados descobrem que o crepúsculo começa sempre dentro das muralhas.

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
28.01.2026

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178: Fim da Inocência Estratégica: Entre o Instinto e a Doutrina

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🇵🇹 OPINIÃO

Foi ontem tornada pública pelo Departamento de Guerra dos EUA a versão desclassificada da NDS (National Defense Strategy – Estratégia de Defesa Nacional).

O ponto fundamental da NDS não é técnico; é existencial. Ao ressuscitar a designação de Departamento da Guerra, Washington não está apenas a trocar o papel timbrado.

Está a declarar a obsolescência da ordem liberal internacional que os próprios Estados Unidos patrocinaram em 1945. A mensagem a Bruxelas e Berlim é brutal: o guarda‑chuva americano passou a ter balcão de facturação e as cláusulas de exclusão são leoninas.

Quem não se aproximar dos 5% do PIB em despesas militares, ou quem hesitar na contenção tecnológica a Pequim, arrisca‑se a ficar exposto às intempéries da história.

A segurança deixa de ser um valor partilhado e converte‑se numa mercadoria de luxo, graduada pela utilidade estratégica e disciplina orçamental de cada aliado.

A NDS 2026 é o braço armado e a operacionalização da NSS (National Security Strategy – Estratégia de Segurança Nacional). O que testemunhamos é a fusão entre o instinto político de Donald Trump e o pensamento de uma nova elite de falcões estratégicos.

Se a NSS fixou a visão de uma América centrada na soberania económica e num intervencionismo de custo‑benefício, esta NDS fornece os dentes a essa narrativa. Não é apenas dar corpo doutrinal a impulsos presidenciais; é um processo de retro-alimentação.

Enquanto o Presidente quebra tabus diplomáticos com realismo transaccional, os planeadores do Departamento da Guerra codificam esses sobressaltos em directrizes de longo prazo, transformando a intuição numa máquina burocrática difícil de inverter.

Ainda assim, importa notar que esta convergência não elimina tensões: correntes do establishment veem esta doutrina com inquietação, mas perdem terreno na definição do horizonte estratégico.

A prioridade absoluta à defesa do território e o projecto da Golden Dome revelam uma América em modo de cidadela. O objectivo já não é projectar estabilidade no Médio Oriente ou na Europa de Leste, mas blindar fronteiras, espaço aéreo e infra-estruturas do próprio continente.

Esta viragem tem consequências: se os EUA olham obsessivamente para dentro, o vácuo no corredor atlântico torna‑se um risco real para a segurança marítima e rotas de reforço. A doutrina passa a tratar aliados como activos num balanço contabilístico, avaliados, classificados e, se necessário, depreciados.

A articulação entre NSS e NDS consolida o Corolário Trump: uma reedição musculada da Doutrina Monroe, adaptada por estrategas que traduzem geopolítica na linguagem que o Presidente privilegia: deal making e controlo de activos físicos.

Ao listar a Gronelândia e o Canal do Panamá como activos críticos, Washington sinaliza tolerância nula para influência externa no seu perímetro. A Europa deixa de ser um teatro prioritário e passa a ser um factor de risco a gerir com o mínimo custo.

Neste contexto compreende-se o tom crítico de Zelensky em Davos. A Ucrânia percebeu que deixou de ser o baluarte da liberdade para ser o primeiro activo a liquidar no mercado de balcão do novo Conselho de Paz.

Os sinais acumulam‑se: fadiga de apoio e ausência de compromissos de longo prazo. Este Conselho não é um fórum de concórdia, mas o braço estratégico da contenção da China e da Rússia, reduzida a uma certa insignificância. A sua função é encerrar a frente europeia a qualquer preço, libertando o Departamento da Guerra para concentrar a sua letalidade no Pacífico.

A geopolítica da dissimulação começa a ser exposta. A paz em Abu Dhabi não é um fim, mas um inventário para a guerra que se prepara noutras paragens.

O relógio de Washington já corre noutra escala. E, nesta nova era, a hesitação é lida como irrelevância por parte daqueles que esta arquitectura procura disciplinar e não apenas proteger, muito para lá do ciclo político do homem que a inspirou.

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Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
24.01.2026

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160: A máscara caiu: da dissimulação ao facto consumado

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🇵🇹 OPINIÃO

Em Novembro passado, escrevi uma coluna em que defendi que a suposta retracção dos EUA era, na verdade, uma geopolítica da dissimulação. Sob o véu da fadiga imperial, Washington reorganizava a sua hegemonia. Hoje, essa suspeita é uma certeza: a máscara caiu. A recente captura de Nicolás Maduro, o incidente com o petroleiro Marinera e a posição face à Gronelândia e ao Irão confirmam que não há uma retirada, mas uma ofensiva de suserania absoluta que redefine as regras do jogo global.

A extracção de Maduro para julgamento em Nova Iorque terá marcado o fim da auto-contenção normativa. Washington abdicou da estética de garante da ordem liberal para assumir o papel de executor. A mensagem não se esgotou em Caracas: ao submeter a região a bloqueios e sanções, os EUA sinalizam que a esta interpretação da Doutrina Monroe não admite ambiguidades, preconizando a eliminação de qualquer vestígio de influência russa ou chinesa no hemisfério Ocidental.

No Médio Oriente, a pretensa retirada deu lugar a um controlo intenso. Nada acontecerá em Gaza sem a tutela americana, enquanto a influência sobre a Arábia Saudita e o Qatar isola o Irão. A presença reforçada na Síria e no Iraque fragmenta o corredor xiita, deixando Teerão perante uma geopolítica da exaustão. Vulnerável após o precedente venezuelano, o regime iraniano percebe que o apoio do Leste é um seguro de vida com data de validade perante a supremacia operacional de Washington.

A gestão da Ucrânia e de Taiwan revela o auge da resistência instrumental. Na Ucrânia, a aproximação americana à Coalition of the Willing é uma armadilha transaccional: Washington usa o brio europeu como travão conveniente, prometendo paz a Moscovo enquanto culpa a intransigência dos Aliados para não ceder no terreno.

O ataque ao Marinera, antecipando a protecção naval russa e expondo a sua vulnerabilidade logística, provou que a tentativa de dissuasão de Moscovo no mar foi irrelevante.

Em Taiwan, a lógica é idêntica, mas sem cortesia diplomática. Taipé é o aliado-pivô que não precisa de ser convencido, apenas armado. Ao fortalecer o arco de conflitos de baixa intensidade com o Japão, Coreia do Sul e Filipinas, os EUA criam uma barreira que a China não consegue romper sem uma guerra total para a qual não está preparada. Washington utiliza os seus aliados como escudo da sua hegemonia, testando a determinação e capacidade de Pequim.

A crise na Gronelândia fecha este arco de coação. A pretensão de ocupação sob o pretexto da ameaça chinesa é uma ficção sob a capa de realismo transaccional. Trata-se, na prática, de uma cerca preventiva, para sinalizar que a ilha é zona de influência exclusiva dos EUA, que força a Dinamarca a concessões militares e mineiras, sob pena de ver o seu território convertido num protectorado estratégico.

Fica demonstrado que a soberania de um aliado histórico é anulável perante a necessidade operacional de Washington. Se o direito internacional já era frágil, tornou-se agora um cadáver, substituído por um sistema de excepções administrado por quem tem força para as impor.

O que escrevi em Novembro confirmou-se. Os EUA não estão a sair de cena; libertaram-se apenas do figurino de polícia global para assumirem o papel de predador-alfa.

Já não há necessidade de parecer moralmente superior perante uma comunidade internacional incapaz de constranger.

Do Árctico à Venezuela, do Irão a Taiwan, a república americana parece querer transmutar-se num império que, ao abdicar das instituições que ajudou a criar, se tornou exponencialmente mais eficaz e perigoso.

A questão já não é quem tem razão, mas sim como sobreviver para não se tornar a próxima presa.

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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Jorge Silva Carvalho
14.01.2026

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93: Plano de Paz que era de rendição: Como o Ocidente neutralizou a manobra russa

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OPINIÃO

O documento de 30 pontos que emergiu em Novembro de 2025 nunca foi um plano de paz. Era uma operação de guerra psicológica, visando fracturar a coesão euro-atlântica. Apresentado sob a égide da futura administração Trump, com ecos de negociações informais entre figuras como Steven Witkoff e Kirill Dmitriev, o texto cristalizava a estratégia do Kremlin: obter por exaustão ocidental o que não conseguiu no terreno. Apesar da autoria inicial ter sido atribuída à futura Casa Branca, foi rapidamente desmentido.

Na prática, configurava-se como uma capitulação ucraniana disfarçada: reconhecimento definitivo da anexação da Crimeia e do Donbass, referendos duvidosos em Kherson e Zaporíjia sob supervisão da ONU, renúncia permanente da Ucrânia à NATO e redução forçada do seu dispositivo militar, com proibição de armamento de longo alcance. Um detalhe crucial: Kiev não figurava como parte signatária. Um plano de paz sem a vítima é imposição.

A resposta foi firme, mas calibrada. Zelensky e os líderes europeus rejeitaram o cerne da proposta sem hostilizar o Presidente Trump. O Presidente ucraniano evocou a sobrevivência nacional, lembrando que “nenhum povo negoceia a sua própria rendição”.

Aliados europeus louvaram o “empenho na busca da paz” e sublinharam as poucas alíneas compatíveis com os interesses ucranianos. Nos bastidores, Ucrânia, Polónia, Estados bálticos, França e Reino Unido articularam uma contraproposta inequívoca – os seus pilares, incluindo garantias de segurança análogas ao Artigo 5 da NATO, foram confirmados nas conversações de Genebra – assente na restauração integral das fronteiras de 1991, retirada total das tropas russas, criação de um tribunal internacional para crimes de guerra e reparações financiadas por activos russos congelados.

Moscovo, previsivelmente, rejeitou liminarmente essa contraproposta, invocando as suas “novas realidades territoriais”. O impasse negocial está assegurado.

O momento de maior tensão surgiu com a pressão inicial de Washington. O debate mundial girou 48 horas em torno da suposta “razoabilidade” do acordo que excluía a vítima. A onda de críticas, ainda que formalmente contida, obrigou a administração americana a um recuo táctico notável.

O Secretário de Estado, Marco Rubio, procurou validar este ajuste, afirmando que as conversações de Genebra tinham alcançado “enormes progressos” na integração da soberania ucraniana. A proposta, garantiram, “não representa a posição final”. O documento cumpriu o objectivo de semear a dúvida, mas a reacção colectiva demonstrou a coesão.

A verdadeira eficácia da manobra não reside nas negociações, mas na guerra de informação. À Rússia não interessa convencer; interessa prolongar a hesitação ocidental. Conta para isso com uma rede trans-ideológica que amplifica os seus argumentos: da extrema-direita (AfD, Rassemblement National, Fidesz) à esquerda radical (La France Insoumise, Die Linke, PCP). Esta convergência entre extremos revela a eficácia corrosiva da propaganda russa. Cada discussão sobre uma pretensa “paz razoável” é, em si, uma vitória estratégica do Kremlin.

O caso da corrupção no Ministério da Defesa ucraniano – investigado e punido pelo próprio Estado em plena guerra – é explorado pela propaganda para acusar: “o Ocidente financia a corrupção”. Omite-se que essa transparência a quente é a prova mais eloquente da vitalidade democrática ucraniana. Na Rússia, a corrupção é abafada; na Ucrânia, é exposta e punida. Essa diferença é uma vitória democrática.

Uma paz justa e duradoura só pode assentar na restauração plena da soberania e integridade territorial da Ucrânia. Outras soluções serão o corolário de um desgaste prolongado. Por ora, o Ocidente resistiu à armadilha e obrigou Moscovo a recolher a sua proposta tóxica. Resta saber por quanto tempo.

Cada semana de hesitação é uma semana de avanço russo; cada concessão aparente, uma vitória estratégica. Resistir não é apenas uma escolha política; é a condição de sobrevivência da ordem euro-atlântica.

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
26.11.2025

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