85: Bar aberto na saúde

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OPINIÃO

Semana após semana, reforça-se uma convicção que formei ao longo das últimas três décadas: o SNS foi gradualmente capturado por interesses corporativos e empresariais, transformando-se no palco daquele que considero ser o maior saque alguma vez cometido contra o Estado Social e o dinheiro público.

O primeiro sinal deste “bar aberto” na saúde surgiu para mim nos anos 90, quando comparava o percurso profissional de jovens licenciados de várias áreas. Em profissões como ensino, engenharia, arquitectura, gestão e tantas outras, via-se um crescimento contínuo e encorajador.

O elevador social funcionava, a prosperidade parecia democratizar-se e os jovens começavam, finalmente, a poder comprar um apartamento, um carro simples, e proporcionar aos filhos condições dignas de estudo. Foram, de facto, bons tempos.

Mas havia uma excepção notória: os licenciados em medicina. Se na escola éramos colegas a seguir caminhos paralelos, na vida adulta tornou-se evidente que eles não usaram o elevador – entraram directamente num foguetão. Em poucos anos de carreira, já conduziam Mercedes ou jeeps, construíam moradias e vestiam os filhos com as marcas mais caras.

Intrigado, comecei a ligar os pontos. Percebi desde logo que a corporação médica era extremamente eficaz a limitar a concorrência. Os cursos de medicina existiam apenas em Lisboa, Porto e Coimbra, e qualquer tentativa de ampliar a oferta era imediatamente travada pela Ordem dos Médicos. Funcionava a lógica básica do mercado: quanto menos oferta e mais controlada, maior o valor.

Depois surgiu o que chamo de indústrias do saque: baixas médicas fraudulentas, juntas médicas que facilitavam reformas antecipadas, prescrições selectivas de medicamentos que garantiam viagens paradisíacas oferecidas por farmacêuticas. Estas e outras práticas asseguravam rendimentos mensais avultados, sempre à custa do erário público.

Mas o pior ainda estava para vir. A entrada agressiva do sector privado activou uma poderosa máquina de comunicação dedicada a descredibilizar a saúde pública, desviando utentes para as suas estruturas. Médicos e enfermeiros seguiram o rasto do dinheiro, acumulando funções em vários locais, o que fez disparar o absentismo no setor público para níveis escandalosos.

E, mesmo dentro do SNS, o saque continuou sem abrandar: cirurgias adicionais altamente lucrativas, a proliferação dos médicos tarefeiros, a inscrição fraudulenta de utentes imigrantes no sistema, ou a prescrição de medicamentos anti-diabéticos usados para emagrecer. A lista parece inesgotável.

Este cenário de “bar aberto” que aos poucos se vai revelando pode ser apenas a superfície do problema. Com tanta fraude acumulada, receio que chegue o momento em que a torneira do orçamento da saúde terá inevitavelmente de ser fechada.

Professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
24.11.2025

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado), pré-AO.

 

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26: Como o centralismo está a matar Lisboa

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PORTUGAL // OPINIÃO

Lisboa é Portugal. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!” A denúncia foi escrita por Eça de Queirós na sua obra-prima Os Maias. Quase 140 anos depois, mantém uma surpreendente actualidade: retrata uma centralização que não se limita à capital, mas molda toda a narrativa nacional.

Salvo uma modesta resistência do eixo Porto–Braga, as estatísticas são inexoráveis na demonstração de uma macrocefalia centrada na área da capital. É a população, a imigração, o número de empresas, o número de entidades públicas, os salários, o poder de compra – tudo, tudo, tudo.

Sucede que o inevitável aconteceu: a Área Metropolitana de Lisboa está a rebentar pelas costuras, e a qualidade de vida degrada-se a olhos vistos. Todos os dias somos bombardeados com notícias que espelham o caos que se vai instalando, numa marcha imparável que limita o acesso à habitação, à saúde e à educação e que alimenta uma percepção de insegurança, tornando cada vez menos vivível esta magnífica cidade.

É caso para dizer que, em matéria de centralismo, Lisboa veio de vitória em vitória até à derrota final.

A centralização em Portugal não é apenas histórica: é um fenómeno vivo, amplificado por políticas económicas e sociais mal orientadas. O brilho de Lisboa, enquanto centro político, económico, social e cultural, contrasta radicalmente com o declínio das regiões periféricas. Esta condição impede o aproveitamento pleno do potencial nacional, pois o país renunciou à sua riqueza territorial ao concentrar meios e recursos numa só região.

Gerou-se, assim, uma espiral que aprisiona simultaneamente a capital e o interior, silenciosamente aceite e muito difícil de interromper. Os territórios com pouca população têm, naturalmente, poucos votos. E num sistema democrático dominado por ciclos curtos, onde se privilegia a conquista eleitoral imediata, há uma tentação quase estrutural de canalizar o investimento público para onde há mais votos. É um raciocínio frio, mas infelizmente real.

O resultado é dramático: onde há poucos votos, há pouco investimento; onde há pouco investimento, há poucas pessoas; e onde há poucas pessoas, há menos votos ainda. Assim se alimenta uma espiral perversa, da qual só se sairia com coragem política e com pactos de regime que impusessem prioridades estratégicas para lá das lógicas eleitorais de curto prazo.

A vantagem dos pactos de regime é que neutralizam as vantagens eleitorais comparativas. Os partidos – no poder e na oposição – adoptam uma mesma voz sobre uma matéria específica, minimizando ou anulando o risco de penalização diferencial nas urnas. Lamentavelmente, essa não é a tradição no nosso rectângulo lusitano, razão pela qual persistem as velhas patologias – na justiça, na saúde ou… no centralismo.

Um bom exemplo é o plano proposto pelo Governo para a redução progressiva da taxa de IRC. Em vez de o aplicar de forma transversal, poderia ser aproveitada a folga orçamental para introduzir uma curva de redução territorialmente diferenciada – e até disruptiva –, por exemplo oferecendo duas décadas de IRC zero a um conjunto de regiões do interior. Só com medidas deste tipo existirá esperança de interromper uma espiral que nos afecta negativamente a todos, da capital à raia.

Professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
27.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal, pré-AO.

 

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