309: Timor-Leste não esquece

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🇵🇹 OPINIÃO

Há poucas semanas, quando boa parte de Portugal estava a ser assolada pelos temporais, Timor-Leste decidiu enviar um donativo de apoio. Não foi a primeira vez que chegou a Portugal essa solidariedade do outro lado do mundo, o mais distante dos países lusófonos: no ano passado, também as autoridades timorenses tinham oferecido uma ajuda em resposta aos fogos em território português.

Aliás, não resta dúvida da forte ligação emocional entre Portugal e a sua antiga colónia asiática. Os timorenses não esquecem a solidariedade do Estado Português, e do povo português, durante a ocupação indonésia, que durou entre 1975 e 1999. Foi obra da diplomacia portuguesa o referendo patrocinado pelas Nações Unidas que permitiu ouvir a vontade dos timorenses sobre o futuro que ambicionavam para a sua terra: quatro em cada cinco escolheram então a independência, proclamada finalmente em 2002, depois de uma primeira tentativa frustrada em 1975.

Se há nome que simboliza a resistência timorense é José Ramos-Horta. Com Xanana Gusmão a liderar a guerrilha nas montanhas de Timor, coube-lhe liderar a frente externa. O Nobel da Paz que recebeu em 1996, cinco anos depois de o massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, ter exposto ao mundo a brutalidade do Exército ocupante, foi um passo decisivo para mobilizar a comunidade internacional contra a tentativa de anexação.

“Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9.”
Paulo Spranger

Herdeira das Índias Orientais Holandesas, desde a independência em 1949, a Indonésia sempre tinha respeitado a soberania portuguesa sobre a metade leste da ilha de Timor, onde os nossos navegadores chegaram no início do século XVI. Sukarno, primeiro presidente, chegou a visitar Portugal. Mas com Suharto no poder, e no contexto da Guerra Fria, Timor foi invadida no mesmo ano em que se deu a queda de Saigão. Para contrariar a teoria do dominó, e alegando que a descolonização portuguesa tinha aberto portas ao comunismo, Suharto procurou transformar os timorenses em indonésios, mas falhou. E hoje Timor-Leste é um jovem país que merece elogios, basta ver a posição que ocupa nos índices de democracia e de liberdade de imprensa.

Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9. No Facebook contou que foram muitas horas a viajar, mas que não podia faltar, para cumprimentar o novo Presidente português. Voou de Díli para Bali, dai para Hong Kong, depois para Zurique e finalmente aterrou em Lisboa. “Chegámos no dia 8, a meio do dia. Temperatura amena, agradável. Não podia faltar. Cerimónia comovente, mais uma pedagogia de democracia. Parabéns Portugal. Vir a Portugal é vir à segunda Casa Mãe”, escreveu o presidente timorense, que me recordo de nos anos 1990 ir ao DN, no edifício histórico da Avenida da Liberdade, encontrar-se com Carlos Albino, o jornalista que acompanhava a difícil situação em Timor.

“Timor-Leste merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e materiais, e oferecendo bolsas de estudo no país.”

Também me recordo de o ter entrevistado em Díli, em 2021, antes de voltar a ser eleito presidente. Então, Ramos-Horta mostrou-se optimista sobre o futuro da língua portuguesa em Timor-Leste, que é oficial a par do tétum. Se o grande legado português é o catolicismo (e a Igreja foi essencial na defesa da identidade aquando da ocupação pelo maior país muçulmano), a opção pela língua portuguesa em detrimento do bahasa ou do inglês foi uma escolha política que merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e manuais, e oferecendo bolsas de estudo.

É longe? Sim, é longe, mas isso nunca impediu a solidariedade nos tempos de resistência à Indonésia, nem que agora Ramos-Horta viajasse longas horas para assistir à passagem de testemunho de Marcelo Rebelo de Sousa a Seguro. A distância também não existiu, quando Timor, país pobre, indo buscar aos seus limitados recursos petrolíferos, se lembrou de ajudar Portugal em tempo de tempestade ou de fogos.

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Diretor-adjunto do Diário de Notícias
11.03.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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273: Guerra na Ucrânia. Quatro anos e mais quanto tempo?

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🇵🇹 OPINIÃO

O alemão Carlo Masala não quis escrever uma ficção distópica, mas sim um alerta ficcionado, seguido de um epílogo que é um pequeno ensaio explicativo: se a Rússia vencer a guerra na Ucrânia não se vai ficar por ali, é a sua tese. Haverá, prevê, uma expansão territorial russa, incorporando, no início, populações russófonas deixadas para trás com a desagregação da União Soviética em 1991. Se a Rússia vencer – um cenário é o título do livro, agora traduzido em português.

A ficção/ensaio de Masala, um académico que ensina na Universidade das Forças Armadas alemãs, em Munique, vale muito a pena ser lido. Sem necessidade de puxar demasiado pela imaginação, só relatando aquilo que costuma ser a prática tanto nos círculos de decisão do Kremlin, como da NATO, transforma a questão da resposta a uma fictícia incursão militar russa no leste da Estónia, em Março de 2028, num debate sobre se será o início da Terceira Guerra Mundial. E perante a incerteza do nível (nuclear ou não) da contra-resposta russa, a NATO acaba por não aplicar o artigo 5.º nesse cenário imaginado.

Não só há hesitação dos poderosos, como até a questão de se os países do Sul, como Itália, Portugal e Espanha, estarão dispostos a enviar soldados para combater por um recanto estónio. Pelo contrário, tanto os outros países bálticos como a Polónia, com um longo historial de guerras com a Rússia, defendem uma retaliação, provavelmente por temerem ser os próximos.

No livro de Masala, cuja primeira versão terminou de ser escrita há um ano, parte-se, portanto, da ideia de que, em Março de 2028, a guerra na Ucrânia já teria terminado, com sucesso da Rússia, cujos ganhos teriam vindo da incapacidade de europeus e americanos ajudarem a resistência dos ucranianos.

O alerta feito é esse mesmo: ganhe a Rússia na Ucrânia e haverá novas ucrânias, razão pragmática pela qual tudo deveria ser feito para que a Rússia não ganhasse.

Um alerta que é um apelo do autor para que Kiev não seja abandonada na sua luta contra Moscovo, seja porque os Estados Unidos dão prioridade a uma negociação de paz, seja porque os países da União Europeia decidiram investir em Defesa, mas adiando na medida do possível, e por vezes por falta de alternativa, a concretização do novo poder militar.

“O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes.”
Mykola Tys / EPA

Cumprem-se hoje quatro anos exactos sobre a invasão russa da Ucrânia. Certamente que houve surpresas, em sentido contraditório, desde o fracasso do passeio dos tanques russos até Kiev, até à capacidade da Rússia em resistir à retaliação mista do Ocidente, com sanções económicas a Moscovo, por um lado, e apoio material ao esforço de guerra da Ucrânia.

O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes. A maior evidência disso é a necessidade de novos recrutas e a dificuldade de os conseguir, por ambos os beligerantes. Longe da frente de batalha, os dois países, sobretudo a Rússia, até podem tentar manter a ilusão de que tudo funciona, mas consequências dos combates no Donbass vão sentir-se durante décadas depois da guerra acabar.

E quando acabará? Numa data qualquer antes de 2028, como prevê Masala? Um outro alemão, o chanceler Friedrich Merz, cujo país lidera o esforço de rearmamento europeu, disse agora, em jeito também de alerta, mas com terrível pragmatismo, que “esta guerra não vai parar até que ambos os lados estejam exaustos, militar ou economicamente”.

O jornal Le Monde, que na edição datada de hoje analisava o impasse na guerra e também o impasse na NATO sobre o que fazer, sublinhou que a frase dita, alto e a bom som, por Merz na Conferência de Segurança de Munique é o que pensam muitos chefes militares. Também citado pelo jornal francês, Elie Tenenbaum, director do Centro de Segurança do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), resumiu a situação no terreno assim: “Os dois lados estão em chamas, mas a questão é qual deles está a arder mais rapidamente. É a mesma corrida, algo cínica, que se vive desde 2022.”

O sistema russo, onde Vladimir Putin tem um poder inquestionável, parece dar vantagem a Moscovo nesta descida partilhada aos infernos, pois Volodymyr Zelensky tem de lidar com o escrutínio tanto dos ucranianos, como dos aliados Ocidentais, mas no final, até ver, o resultado é a tal destruição mútua.

O que torna ainda mais urgente negociações sérias, destinadas a travar o círculo de morte e destruição, mesmo que se saiba à partida que Rússia e Ucrânia partem de posições inconciliáveis, a primeira a ter já anexado oficialmente territórios de outro país e a segunda a defender a sua soberania. Qual o caminho para essas negociações sérias, não mero ganhar de tempo por uns ou outros, depende muito da capacidade de americanos – aqui Trump conta muito -,e europeus decidirem uma ação conjunta que obrigue a Rússia a repensar a estratégia e dê condições à Ucrânia para ver uma luz ao fundo do túnel.

Era importante também que a China, que pretende ser vista como um actor de peso e responsável na cena internacional, faça sentir à aliada russa que em algum momento a paz tem de regressar. Só assim se ilibará da suspeita que tira vantagens da guerra na Europa, seja por comprar petróleo a preço de amigo ou, a outro nível, por esta desviar as atenções da sua ascensão.

O sucesso dessa acção para acabar com a guerra depende também daquilo que os aliados da Ucrânia estão dispostos a fazer pela sua soberania e segurança no futuro. Convinha entenderem-se ou ficarão para a História como tendo incentivado a resistência dos ucranianos para depois os deixarem essencialmente sós numa guerra que é desigual.

Quatro anos! É quase tanto como a Primeira Guerra Mundial. E é mais do que durou a guerra dos soviéticos contra os nazis depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em Junho de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial.

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Director-adjunto do Diário de Notícias
24.02.2026

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0: O rico, muito rico, ultrarrico Elon Musk

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OPINIÃO

Com uma fortuna pessoal a rondar agora os 500 mil milhões de dólares, Elon Musk é o homem mais rico do mundo. E, como sublinha a Forbes, sempre a actualizar os números da sua fortuna, o dono da Tesla está “a meio caminho de se tornar o primeiro trilionário”, uma referência ao fabuloso trillion anglo-saxónico que equivale ao nosso bilião. E pelo menos uma centena de países do mundo têm um PIB inferior à riqueza pessoal do sul-africano naturalizado americano.

O historiador Fabrice d’Almeida, sendo autor de Uma História Mundial dos Ricos, livro que será apresentado em Lisboa na sexta-feira, obviamente tem de estar atento ao fenómeno Musk. E é interessante como o analisa neste momento, num esforço de objectividade, tendo em conta que à bem sucedida vertente empresarial houve uma tentação de intervenção política não tão brilhante.

“A imagem de Elon Musk é agora distorcida pelos seus compromissos políticos e pelas dificuldades daí decorrentes: um desentendimento com o presidente Trump, a queda nas vendas de veículos e a dificuldade de capitalizar o seu investimento na rede social X. Mas antes disso, este gestor era considerado um dos melhores organizadores, um grande criativo e um trabalhador esforçado. O planeta inteiro procurava as chaves para o seu sucesso.

Os financeiros afluíram para adquirir os seus títulos, e ele é um verdadeiro guru do futuro dos Estados Unidos, moldando os sonhos da humanidade com o projecto de viagens interplanetárias. Marte tornou-se um horizonte possível para ele. Tudo isto contribuiu para que conquistasse uma base de fãs disposta a segui-lo, mesmo nas suas experiências políticas altamente aventureiras. As suas qualidades de liderança são, portanto, inegáveis, mesmo que o seu sentido de história seja mais questionável. Para o historiador, é inegavelmente um dos ricos que estão a fazer história, que estão a mudar a lógica das sociedades”, diz d’Almeida numa entrevista hoje publicada no DN.

O livro do académico francês relata, e analisa, como os ricos se afirmaram na história. Houve uma época em que os muito ricos eram reis ou imperadores e só raramente algum banqueiro se afirmava também senhor de uma grande fortuna, o que geralmente acabava mal. “Quando se elevavam demasiado, o rei mandava-os prender e reaver os seus bens sob falsos pretextos. Foi o caso de Jacques Coeur, o maior financeiro do seu tempo, finalmente derrotado por Carlos VII no século XV”, lembra d’Almeida.

Depois da Revolução Industrial, começou a haver outro tipo de muito ricos sem serem cabeças coroadas. Primeiro os Rockefeller e os Rothschild, ainda hoje nomes sinónimo de dinheiro, depois, já no nosso tempo figuras extraordinárias, vindas do nada, como o espanhol Amancio Ortega, dono da Zara, e finalmente as personalidades do mundo do digital, como Bill Gates, fundador da Microsoft, que chegou a ser o homem mais rico do mundo, agora muito abaixo de Musk na lista da Forbes, mesmo sendo dono de 107 mil milhões de dólares (o dólar ronda por estes dias os 86 cêntimos de euro).

Muito há para dizer sobre os muito ricos, desde que costumam querer deixar marca como filantropos a serem hoje oriundos de todas as geografias possíveis e imaginárias. Mas da reflexão de d’Almeida retenho duas ideias muito poderosas: 1) não é terem acesso a carros da Rolls-Royce ou a caviar beluga e champanhe francês do melhor que distingue os magnatas, mas sim o poder de escolher.

“Até o ascetismo pode ser um luxo”, sublinha o historiador; 2) Os muito ricos não têm medo de revoluções, pois têm sempre um jacto à disposição para se refugiarem algures num palácio distante, desde que não se deixem apanhar desprevenidos pela alteração da ordem social. O que verdadeiramente temem, aponta d’Almeida, é algo pessoal, a ruína e a degradação. É por isso que estão sempre insatisfeitos com o que têm, por muito que seja. Querem sempre ganhar mais. “Têm uma psicose de queda”, acrescenta o autor francês, impiedoso.

Aplica-se esta última ideia a Musk? Até onde poderá ir a vontade de fazer história? E a sua fortuna, tem limites?

08.10.2025

Leonídio Paulo Ferreira
Director adjunto do Diário de Notícias

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