PSICOLOGIA // MOTIVAÇÃO DA VIDA
O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Motivação
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Às vezes, parece que andamos com a luz apagada. Tudo fica escuro à nossa volta, não sabemos para onde vamos, o que andamos a fazer, o caminho torna-se apertado. Não estamos bem em lado nenhum. Tudo incomoda, tudo complica. Não vemos nada de bom, nada que nos satisfaça, nada que nos motive. Nesses momentos, estamos a perder a motivação na vida. Estamos a perder a alegria.
Mas o que é ter alegria de viver? Ter vida? Não é apenas respirar, é sentir, é experimentar momentos que nos lembram quem somos. É ouvir o vento a tocar nas folhas das árvores, é olhar ao espelho e encontrar aquela ruga na testa que está sempre franzida e ter orgulho nela. É olhar à volta e ver pessoas felizes e ficar feliz só porque sim. É ter gratidão por pequenas coisas, é sorrir ao receber um sorriso, é conseguir parar e respirar fundo, mesmo nos dias comuns, em que não se passa nada, em que não acontece nada. Isto não significa que temos de estar sempre felizes. Significa que aprender a lidar com os dias maus é, por si só, parte do nosso trabalho: acolher a dor, dar sentido ao sofrimento, reconhecer limites, colocar barreiras, procurar estratégias e recursos internos, observar qual a parte do nosso ser ou da nossa vida que precisa de atenção e, por vezes, de uma mudança.
No entanto, para ver estas pequenas alegrias é preciso abrandar o ritmo. Ver onde vivemos. Se estamos sempre no amanhã, stressados com o que pode acontecer, se vivemos agarrados ao passado, saudosistas do que já passou, se estamos sempre à procura da próxima meta ou da próxima obrigação… assim dificilmente encontramos alegria no presente, dificilmente sentimos motivação na vida, pois desgastamo-nos antes de viver.
Vivemos numa época marcada por produtividade constante, resultados rápidos e exigências implacáveis. Nunca o ser humano teve tanto conhecimento científico sobre saúde mental, e nunca tantas pessoas se sentiram tão exaustas, desmotivadas ou vazias. Vivemos numa época em que se espera que sejamos constantemente bonitos, produtivos, criativos, motivados. Mas a verdade é que há momentos em que nos sentimos vazios. É como se algo dentro de nós se tivesse desligado.
Muitas vezes, achamos que já não temos forças para continuar, que o céu desaba sobre as nossas cabeças. E é nesse momento que muitas pessoas sentem que chegaram ao limite. A motivação falha, e a força parece ter desaparecido. E, nesse momento, o que podemos fazer? Reconhecer o limite. Perceber que não somos máquinas, que todos precisamos de parar, de reflectir, de descansar, de ajuda.
Somos humanos, feitos de carne, não super-heróis. Temos de reconhecer os nossos limites, temos de saber parar, ajustar, para recomeçar. Até as máquinas têm de parar. Os carros de Fórmula1 param durante a corrida, mudam os pneus com a ajuda de dois homens e só depois regressam à corrida.
Dormir, alimentar-se bem, hidratar-se e descansar não são luxos. São necessidades biológicas básicas que sustentam a saúde mental. Voltar ao essencial. Pergunte-se: “O que é realmente importante para mim agora?” Em momentos de exaustão simplificar deve ser a prioridade. Pedir ajuda não significa fraqueza, significa humanidade. Todos precisamos de apoio em algum momento.
A motivação não é um estado constante. Ela é a força interna que nos move para agir, perseguir objectivos, manter hábitos, lutar por sonhos ou simplesmente tomar banho e levantar da cama. Nasce de algo mais profundo: o sentido, o significado. E quando aquilo que fazemos deixa de ter sentido ou significado a motivação esgota-se. Mas a motivação não é apenas vontade ou disciplina. Envolve processos complexos, neuro-biológicos, psicológicos e sociais.
A vida não é feita apenas de entusiasmo. É feita também de persistência, pausas, silêncios, recomeços e momentos de profundo cansaço. E, nos momentos em que sentimos que não temos mais nada para dar, é que precisamos de nos tratar com mais compaixão, com mais amor-próprio.
A motivação requer energia física e mental. Cuidar do corpo e da saúde mental. Sem auto-cuidado, a motivação apaga-se, como uma vela ao vento. Às vezes, o maior ato de força é parar para recuperar e poder a seu tempo recomeçar. E isso também é viver.
Em termos neuro-biológicos, a motivação requer dopamina, o principal neurotransmissor do sistema de recompensa. Mas, ao contrário do que muitos pensam, a dopamina não cria apenas prazer. O seu papel é criar antecipação de prazer, dando-nos energia para agir em direcção a algo. Quando estamos deprimidos, ansiosos ou sob stress crónico, os níveis de dopamina reduzem, levando à apatia, anedonia (falta de prazer) e falta de iniciativa. Requer noradrenalina, responsável pelo estado de alerta, foco e energia mental. Níveis cronicamente elevados, como no stress prolongado, podem gerar ansiedade, irritação e exaustão subsequente, enquanto níveis baixos estão associados a fadiga e dificuldade de concentração. A motivação requer serotonina, ligada ao humor, estabilidade emocional e sensação de bem-estar. Quando regulada, promove equilíbrio. Quando baixa, está associada a depressão, ruminação negativa e impulsividade, por vezes de índole suicida.
Ao nível do cérebro, o córtex pré-frontal é a região responsável pelo planeamento, definição de metas e organização. Sob fadiga, stress ou transtornos do humor, torna-se menos funcional, dificultando tarefas simples e comprometendo a execução de qualquer acção motivada. O sistema límbico é o centro das emoções básicas. Emoções negativas crónicas, como tristeza profunda ou medo intenso, activam circuitos de bloqueio motivacional e de retracção, como mecanismo evolutivo de poupança de energia em contextos percebidos como inseguros.
Mas a motivação não é apenas química cerebral. É também emocional. Emoções agradáveis, como curiosidade, alegria ou entusiasmo, impulsionam. No entanto, emoções como medo e tristeza podem paralisar, mas também motivar à mudança, dependendo do contexto e da interpretação pessoal. A motivação é também cognitiva, o que significa que o que pensamos sobre nós mesmos influencia os nossos resultados. Se acreditamos “não sou capaz” ou “não vale a pena tentar”, o cérebro interpreta como ameaça e poupa energia, gerando bloqueio. No movimento contrário, se acreditamos em nós e nas nossas capacidades, temos mais probabilidades de sucesso. A motivação é também existencial e conecta-se profundamente com o sentido da vida. Quando não encontramos significado naquilo que fazemos, o sistema motivacional desactiva-se, gerando sensação de vazio.
Somos seres sociais. Apoio, vínculo, validação e pertença têm impacto direto nos sistemas dopaminérgicos e serotoninérgicos do cérebro, aumentando a motivação e regulando emoções. Solidão, rejeição ou falta de suporte emocional reduzem esses sistemas, aumentando a vulnerabilidade à depressão, desmotivação e pensamentos suicidas.
Há momentos em que a pessoa sente não apenas cansaço, mas desesperança profunda. Surge o pensamento: “Para quê continuar a viver?”
A ideação suicida não nasce apenas da vontade de morrer. Muitas vezes, nasce da percepção de que não há outra forma de terminar a dor. Neuro-biologicamente, é um estado de colapso em que o sistema límbico (emoções) domina completamente o córtex pré-frontal (razão e planeamento), gerando impulsividade e visão em túnel, sem capacidade de visualizar alternativas. Nestes momentos, nunca fique sozinho. Procure ajuda. Falar sobre o que se sente é essencial. A vergonha e o silêncio amplificam a dor. Falar permite processar emoções e activar o córtex pré-frontal, aumentando a clareza mental e a regulação emocional.
Procurar ajuda especializada é um passo vital. Linhas de apoio psicológico como a do SNS24, psicólogos, profissionais de saúde mental, todos podem ajudar a reorganizar pensamentos, emoções e a criar estratégias de vida quando a pessoa já não consegue fazê-lo sozinha. Muitas vezes, depois desta fase, é como diz o ditado: “Depois da tempestade vem a bonança.” Permita-se deixar-se ajudar. Há mais luz depois da escuridão.
Se começar a perder a motivação:
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Perceba o que está mal, o que precisa de atenção, de cuidados em si e na sua vida.
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Reflicta e procure afastar de si o que não o ajuda, o que não beneficia a sua vida.
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Foque-se no que tem de positivo à sua volta e nos ajustamentos que poderia fazer à sua vida para se sentir mais preenchido.
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Perceba que existem sempre mais opções do que aquelas que são óbvias.
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Cuide do seu corpo e da sua mente. Um cérebro exausto, desnutrido e desidratado entra em estados de desespero. Nutrição, hidratação, sono e movimento físico são intervenções neuro-biológicas para melhorar a saúde mental.
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Encontre pequenas âncoras de vida. Não são sempre grandes propósitos que salvam. Às vezes, é um animal de estimação, um amigo, uma música, uma frase, um desenho, um objectivo simples para o dia seguinte. Cada pequena âncora é um fio que segura a vida até que o sistema motivacional se restabeleça.
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Seja paciente e bondoso consigo mesmo.
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Procure a ajuda de um psicólogo e “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.” A maioria dos pacientes em contexto de consulta refere que gostaria de ter procurado ajuda mais cedo. Se não consegue sozinho descomplique e peça ajuda.
CNN Portugal
22.03.2026



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