120: Trabalha-se mais 9 meses que em 2018 para aceder à reforma, metade dos pensionistas ganha menos de 462 euros

0
1

 

🇵🇹 PORTUGAL // PENSIONISTAS // GOVERNO

Valor médio da pensão de velhice continua a ser medíocre: em 2024, foi 20% inferior ao salário mínimo nacional (SMN), mostram dados do BdP. Pensão média feminina é 40% mais baixa face à dos homens.

Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

Em apenas seis anos, entre 2018 e 2024, a idade média de reforma dos novos pensionistas aumentou quase nove meses, para 65 anos em 2024, indica o Banco de Portugal, num estudo publicado antecipadamente esta sexta-feira, que estarei incluído no próximo boletim económico, a divulgar na íntegra no próximo dia 19 de Dezembro.

Trabalhar muito mais tempo além da idade de acesso à pensão é uma realidade crescente no país, até para evitar as penalizações brutais previstas na lei para quem opte por antecipar o início da aposentação por velhice, por exemplo.

Mas a verdade é que, mesmo esperando mais anos para tentar evitar cortes a fundo na prestação que será atribuída até ao final da vida, o valor médio da pensão de velhice continua a ser medíocre em termos comparativos: por exemplo, é 20% inferior ao valor do salário mínimo nacional (SMN), mostram dados do BdP.

Pior: metade dos pensionistas de velhice (23% da população portuguesa, cerca de 1,25 milhões de pessoas), ganha menos de 426 euros mensais a título de pensão. Aqui, o comparativo é ainda pior: 426 euros é metade (51%) do valor do SMN do ano passado.

Este valor da pensão, muitas vezes chamada “de miséria”, é, como se sabe, e em muitos casos, complementado mediante outras prestações, como é o caso do Complemento Solidário para Idosos (CSI) e de outros apoios de origem não contributiva, que têm sido extremamente eficazes para evitar que milhares e milhares de idosos vivam na pobreza absoluta, em Portugal.

Segundo o estudo preparado pelas economistas do BdP Cláudia Braz, Sharmin Sazedj e Lara Wemans, no ano passado, “a idade média de reforma dos novos pensionistas de velhice tem vindo a aumentar de forma consistente desde 2018, o que, em grande medida, deverá reflectir o impacto dos mecanismos de penalização aplicáveis à reforma antecipada e o adiamento voluntário da saída do mercado de trabalho”.

Este sistema de desincentivos tem permitido um aumento no valor da reforma, evitando cortes, que nalguns casos podiam chegar a 20% ou mais na pensão atribuída.

“Em 2024, a idade média de reforma situava-se em 65,4 anos, face a uma idade legal de 66,3 anos. Desde 2018, a idade média de reforma aumentou cerca de oito meses e meio, num contexto em que a idade legal de reforma, indexada à evolução da esperança média de vida aos 65 anos, se manteve relativamente estável”, constata a nova investigação.

No entanto, mesmo prolongando a idade média da reforma por velhice, que subiu para os tais 65,4 anos em 2024), a pensão média mensal situava-se muito abaixo da referência nacional que é o salário mínimo, estava “em torno de 645 euros, perto de 80% do salário mínimo nacional (SMN)” que, recorde-se, foi fixado em 820 euros brutos mensais, em 2024. Este ano, subiu para 870 euros.

“Observa-se uma dispersão elevada, com metade dos pensionistas a receber menos de 462 euros“, enquanto apenas 5% dos pensionistas “recebe mais de 1685 euros (cerca de duas vezes o SMN)”, diz o estudo.

“A maioria dos pensionistas aufere valores significativamente inferiores à média, reflectindo uma distribuição assimétrica e concentrada em níveis baixos”, constatam as autoras.

Além disso, “as diferenças por género são igualmente expressivas. As pensões atribuídas a mulheres apresentam menor variabilidade e situam-se, em média, em níveis inferiores. Em 2024, a pensão média feminina foi de 490 euros, cerca de 40% abaixo do valor recebido pelos homens. Este diferencial reduz-se para 28% caso se considere, para o mesmo universo de pensionistas, a soma das pensões de velhice e de sobrevivência”.

Estatisticamente, as mulheres vivem mais anos do que os homens, logo tendem a beneficiar mais das prestações de sobrevivência (viuvez).

O mesmo estudo diz que “a análise por grupo etário revela pensões em média mais baixas nas faixas etárias mais elevadas”, ou seja, quanto mais velhos são os pensionistas, mais reflectem carreiras contributivas mais pobres, marcadas pelos baixos salários ao longo da vida.

“Em 2024, os pensionistas com menos de 65 anos apresentavam uma pensão média em torno de 770 euros”, mas quando se sobe na escala da idade, o valor da pensão cai a pique. Esse valor “diminui gradualmente até 537 euros entre os pensionistas com 80 ou mais anos”.

“Este perfil deverá estará associado ao aumento da duração das carreiras contributivas e dos rendimentos declarados dos novos pensionistas”, diz o BdP.

“Em termos geográficos, o valor da pensão é, em média, mais elevado para os pensionistas residentes nos distritos de Lisboa, Setúbal e Porto e mais baixo nos distritos do interior norte do país, espelhando, entre outros factores, as desigualdades existentes ao nível dos salários.”

Segundo o banco central governado por Álvaro Santos Pereira, em Portugal, “existem actualmente cerca de 2,5 milhões pensionistas de velhice dos regimes públicos (23% da população total), dos quais 2 milhões pertencem ao sistema da Segurança Social e 440 mil à Caixa Geral de Aposentações (CGA), subsistema fechado a novas inscrições que abrange funcionários públicos admitidos até ao final de 2005”.

“No âmbito da Segurança Social coexistem vários regimes, embora a grande maioria dos pensionistas de velhice (97%) se enquadre no regime geral contributivo”, que foi o universo considerado neste estudo da série “Políticas em análise”.

(Corrigido às 17h20. Trabalha-se mais nove meses ou 8,5 meses do que em 2018 para aceder à reforma e não nove anos ou 8,5 anos, como apareceu, por lapso, na primeira versão deste artigo)

Diário de Notícias
Luís Reis Ribeiro
12.12.2025

Visita: free counter

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado), pré-AO.

 

Loading

55: Pensões mais baixas devem aumentar 2,79% em 2026, anuncia ministra

1
0

 

PORTUGAL // GOVERNO // PENSÕES // AUMENTOS 2026

A ministra do Trabalho afirmou esta sexta-feira, no Parlamento, que as pensões mais baixas deverão ter um aumento de 2,79% em 2026 e que a atribuição de um suplemento extraordinário dependerá da folga orçamental.

Maria do Rosário Palma Ramalho (Miguel A. Lopes/Lusa)
© TVI Notícias

Na audição no âmbito da discussão na especialidade do Orçamento do Estado para 2026 (OE2026), a ministra reiterou que o Governo vai “proceder ao aumento das pensões à taxa legal” e “havendo folga orçamental” atribuir um novo suplemento extraordinário aos pensionistas com reformas mais baixas.

Palma Ramalho indicou ainda que, com base nos “dados mais recentes” do INE as pensões mais baixas, isto é, até dois IAS (o equivalente a 1.045 euros] “deverão ter um aumento de 2,79%, ou seja, 0,5 pontos acima da inflação de 2025”. Segundo a ministra, esta actualização abrange cerca de 90% dos pensionistas.

CNN Portugal
Agência Lusa
07.11.2025

Visitas: conter12

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado), pré-AO.

 

Loading

9: CSI. Governo assume derrapagem de 36% em 2025 mas volta a fazer “contas por baixo” para 2026

0
1

 

ECONOMIA / CSI

De Janeiro de 2024 a Agosto de 2025 contabilizam-se mais 93 mil beneficiários do CSI; só desde Janeiro de 2025 são mais 23 mil. Mas o valor alocado à medida pelo Governo em 2026 consome-se quase todo (mais de 98%) com os actuais 231 mil beneficiários.

Custo do Complemento Solidário para Idosos deverá atingir 552,9 milhões em 2025, muito acima do orçamentado no OE2025. Em 2026, valor de referência da prestação aumenta 40 euros e Governo prevê gastar 671,8 milhões — mas deixa menos de 2% para novos beneficiários

O Governo estima que as contas de 2025 fechem com uma derrapagem de 146,1 milhões de euros no Complemento Solidário para Idosos (CSI) face ao orçamentado. O custo desta prestação deverá assim atingir 552,9 milhões, ou seja mais 36% que os 406,8 milhões previstos no OE2025. Com base nesta projecção, o Orçamento do Estado de 2026 aloca 671,8 milhões para o CSI. Trata-se de um acréscimo de 118,0 milhões (mais 21,5%) face à despesa que agora prevê para 2025.

“A despesa com o complemento solidário para idosos deverá atingir o montante de 671,8 milhões de euros, reflectindo principalmente, face a 2025, o aumento do valor de referência em 40 euros mensais adicionais em 2026, na sequência do aumento efectuado em 5% sobre o valor de referência a partir de Janeiro de 2025”, lê-se no documento.

Este é o primeiro reconhecimento público da aparatosa derrapagem ocorrida em 2025, já que o Governo nunca respondeu às perguntas, quer do DN quer de outros órgãos jornalísticos, a propósito do descontrolo na despesa associada a esta prestação. Descontrolo para o qual este jornal tinha já chamado a atenção em Maio — quando, com base em cálculos próprios e a partir do número de beneficiários contabilizados em Abril, previu que a despesa com CSI deveria neste ano situar-se entre 523 e 546 milhões (abaixo, ainda assim, da estimativa agora assumida pelo Governo).

Já o Conselho de Finanças Públicas (CFP), no seu último relatório (Setembro 2025) acredita que a derrapagem será ainda maior. Este órgão fiscalizador das contas do Estado projectou para 2025 uma despesa de 577 milhões em CSI, e sem contar, sublinhou, com “a despesa com os benefícios adicionais de saúde (BAS), nomeadamente com medicamentos gratuitos (…) que até maio de 2025 já totalizava 16,2 milhões de euros”. Concluindo assim que a promessa de aumentar o valor de referência da prestação até 870 euros em 2029 (que o Governo mantém, referindo-a várias vezes no OE2026) “constitui um risco acrescido para a despesa”.

Tanto mais assim é, adverte o CFP, quando “o universo dos potenciais beneficiários” — ou seja, o número de idosos com rendimentos inferiores ao valor base do CSI, à medida que este vai subindo — é muito considerável.

Actuais beneficiários consomem mais de 98% da verba para 2026

Não consta do OE ou dos seus relatórios qualquer projecção quanto ao número de beneficiários que poderão, em face do aumento do valor de referência em 2026, ter acesso à prestação.

Nem, tão-pouco, os custos associados ao CSI em termos de “benefícios adicionais de saúde” — a começar pela gratuitidade de medicamentos prescritos, em vigor desde Junho de 2024 e cuja despesa disparou desde então (de acordo com os dados do Infarmed a que o DN teve acesso, entre Junho de 2024 e o primeiro trimestre de 2025 aumentara 68%; segundo o CFP, totalizava, só até maio, 16,2 milhões de euros, apontando-se assim para uma despesa anual de cerca de 40 milhões). O DN requereu, insistentemente, ao ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social que indique onde se pode encontrar o orçamentado para esta medida (que envolve também o ministério da Saúde), mas este nunca respondeu.

Porém é possível fazer contas simples para chegar ao número de novos beneficiários que “cabem” nas contas do Governo. Assim, atendendo a que a última contabilidade, de Agosto de 2025, é de 230 934 recipientes da prestação, e que o valor médio desta é de 199 euros, se adicionarmos a este valor os 40 euros que acrescem em 2026 e multiplicarmos o resultado (239 euros) pelo número de beneficiários vezes os 12 meses do ano, o resultado é 662,3 milhões.

O que significa que quase todo o montante — mais de 98% — alocado pelo Governo para a prestação se consome com os actuais beneficiários, sobrando apenas 9,5 milhões de euros.

Se partirmos do princípio (duvidoso) de que só acederão em 2026 à prestação pessoas que até agora, por terem um rendimento mensal de 630 euros, não preenchiam o critério, e portanto apenas poderão receber os 40 euros mensais do acréscimo, concluímos que só há dotação orçamental para um pouco menos de 20 mil novos beneficiários.

Recorde-se que, tendo chegado ao governo em Abril de 2024, quando o valor de referência do CSI que vigorava era 550 euros (por via do OE2024, do executivo de António Costa, que acrescentou 62 euros ao montante anterior de 488 euros), Montenegro decidiu, em Junho, aumentar de novo o valor de referência para 600. Alterou também as regras de acesso à prestação, afastando o rendimento dos filhos do idoso do cálculo, e tornou os medicamentos prescritos inteiramente grátis (a comparticipação adicional, era, até aí, de 50%) para os idosos inscritos no CSI.

A projecção do Governo era de que essas alterações atraíssem cerca de 24 mil novos beneficiários. Mas acabou confrontado com um salto, entre Janeiro de 2024 e Agosto de 2025, de 92 960 beneficiários.

A subida mais expressiva ocorreu a partir de Julho de 2024, mas o número de beneficiários tem estado sempre a crescer: de Janeiro (quando ocorreu outro aumento do valor de referência, para os actuais 630 euros) a Agosto de 2025, contaram-se mais 23 151.

Em 2024, 65% (1,2 milhões) das pensões valiam entre 319 e 783 euros

Não há informação pública disponível sobre qual o universo dos pensionistas que, tendo rendimento mensal abaixo de 670 euros, não possuam outros rendimentos (ou não vivam com alguém com rendimentos superiores, ultrapassando os valores máximos para o agregado permitidos no CSI).

De acordo com os relatórios do OE2026, o valor médio da pensão de velhice em 2024 foi de 610,91 euros, sendo o valor médio das pensões das mulheres (que eram 65,5% das beneficiárias do CSI em Agosto) muito mais baixo: 452,09 euros. Acresce que, segundo a mesma fonte, “em Dezembro de 2024 a maioria das pensões de velhice encontrava-se no escalão do valor de pensão com valor monetário igual ou superior ao montante da pensão mínima inferior a 15 anos de contribuições [319,49 euros em 2024] e inferior a 1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais [509,26 euros em 2024]”.

Essa maioria corresponde a “65,1% do total das pensões de velhice”, ou seja 1 282 992 pensões. Traduzindo: mais de metade das pensões actuais terão um valor bruto entre 331,79 euros (montante da pensão mínima inferior a 15 anos de contribuições em 2025) e 783,75 euros (1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais em 2025).

Por outro lado, e ainda segundo os relatórios do OE2026, em 2024 entraram a pagamento mais de 12 mil novas pensões mínimas de montante inferior a 319,49 euros, e mais 60 mil entre 319,49 e 783,75 euros. E, citando os referidos relatórios, “a maioria das novas pensões de velhice com primeiro processamento no ano de 2024 tinha um valor monetário inferior a 1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais (mais de 72 mil), o que equivale a 74,2% do total de novas pensões de velhice, 62,7% referentes a pensões auferidas por homens e 86,2% por mulheres”.

Sublinhe-se que estas pensões, ao contrário do CSI, são pagas com subsídios de férias e de Natal, o que implica que, para saber se um pensionista tem direito ao CSI, é preciso dividir o valor anual da respectiva pensão por 12 (significando que a referida pensão “média” de 610,91 euros corresponde a 712,72 euros mensais, ou seja, excede o valor de referência do CSI). Ainda assim, parece evidente que, à medida que aumenta o valor de referência do CSI, serão cada vez mais os pensionistas que caberão nos critérios da prestação.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.10.2025

Loading