407: Brincar aos deuses

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🇵🇹 OPINIÃO

Gattaca é um daqueles filmes de ficção distópica que deve fazer parte da colecção de culto dos tech bros de Silicon Valley. Filmado nos últimos anos do século passado, projectava um mundo futuro dominado pela engenharia genética, dividido entre os “válidos”, humanos escolhidos geneticamente em laboratório para serem mais inteligentes e saudáveis, e os “inválidos”, os que continuavam a carregar o peso biológico da imperfeição.

Na senda de outras distopias, como Admirável Mundo Novo, Blade Runner ou Matrix, Gattaca poderia ser hoje uma espécie de documentário sobre os projectos que fazem movimentar milhares de milhões de dólares na Meca da tecnologia. Numa reportagem recente, a revista norte-americana Mother Jones revela como muitos dos nomes da oligarquia tecnológica ligada aos projectos de Inteligência Artificial estão também a financiar startups de edição genética e selecção embrionária com um foco bem mais além do potencial terapêutico que algumas tecnologias oferecem para curar doenças genéticas.

A reportagem destapa um objectivo cada vez mais assumido de criar humanos geneticamente de “elite”, super-bebés capazes de enfrentar um futuro dominado pela IA que esses próprios gurus tecnológicos estão a desenvolver mais e mais.

A lógica é mais ou menos esta: se a IA poderá vir um dia a ultrapassar as capacidades humanas, como eles já admitem recear, então é preciso produzir crianças mais inteligentes – mesmo se as evidências científicas alertam que aquilo que somos (incluindo a inteligência que desenvolvemos) depende de múltiplos factores que vão para além da mera herança genética.

Financiada pelos suspeitos do costume, o mais inquietante é que esta já não é apenas uma mera tendência ou ambição empresarial, mas sim toda uma nova religião tecnológica que domina a cultura tech bro (de Silicon Valley e dos EUA até aos mais misteriosos hubs tecnológicos chineses), onde uma elite de semideuses tecnológicos desafia limites éticos em prol das suas crenças e ambições, e acredita poder vir a resolver os grandes mistérios da vida e do universo com a construção de um qualquer Admirável Mundo Novo feito de humanos optimizados, homens-máquina, super-inteligência artificial e mundos virtuais – o próprio Musk já disse que via “uma hipótese em mil milhões” de estarmos a viver de facto num mundo real e não num qualquer videojogo de uma civilização avançada.

A verdade é que, no futuro, as desigualdades arriscam deixar de ser apenas económicas e sociais para serem desde logo biológicas, como em Gattaca, transformando a humanidade num projecto de engenharia de uma oligarquia tecnológica que acredita ter não só o poder, mas o direito de redefinir a espécie.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
11.05.2026

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367: (Fr)ágil

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🇵🇹 OPINIÃO

O que têm em comum a reforma do Tribunal de Contas e a flexibilização das regras de contratação pública? Uma visão do Estado e da sociedade mais ágil, maior simplicidade de processos, eliminação de entropias, argumentará o ministro Gonçalo Matias, a quem Luís Montenegro entregou a missão da reforma do Estado. Argumentos defensáveis, num país enredado em burocracias e camadas de indecisões várias, como todos sabemos.

Mas, vistas em conjunto, contam também uma outra história comum, um padrão que se vai repetindo na governação e que aponta para um sistemático alívio de sistemas de controlo, agitando perigos de menor escrutínio, maior opacidade do sistema e “roda livre” no uso de fundos públicos, num país escaldado de casos do género num passado até bem recente.

Não se trata necessariamente de menos legalidade, mas seguramente menos capacidade de detectar problemas cedo, comparar decisões ou perceber quem influencia o quê, alargando o espaço onde o abuso pode existir sem ser detectado.

Entrevistada pelo Expresso, a propósito da reforma proposta para a actividade do “seu” Tribunal de Contas, a presidente desta entidade, Filipa Urbano Calvão, sublinha que “há aqui um contexto de maior descontracção para a realização da actividade pública e privada”. E acrescenta: “Nem sei se houve uma avaliação rigorosa por parte do Governo sobre o impacto destas medidas (…).

Em todo o caso, eu quero acreditar que continuamos num Estado de Direito democrático e que, portanto, o que quer que seja feito no plano legislativo, não perca essa capacidade de o poder político e de o poder público em geral se sujeitarem a um escrutínio público.” Ora, lembre-se, Filipa Calvão foi já uma escolha de Montenegro para o cargo, em Outubro de 2024, e está longe, pois, de poder ser considerada uma força de bloqueio.

A mudança de filosofia que esta maioria quer implementar é evidente: confiar mais nos decisores, desimpedir caminhos e corrigir depois, se necessário. No caso do Tribunal de Contas, segundo a própria presidente, a confirmar-se a proposta de isenção de visto prévio até aos 10 milhões de euros, “passamos da fiscalização de mais de 1000 contratos, no valor de 9 mil milhões, para 100”.

O Governo argumenta que na maior parte dos países europeus não se faz controlo prévio. O problema, nesta febre de simplificação, é que todos sabemos que em Portugal persistem fragilidades conhecidas, desde uma Administração Pública com falta de recursos até uma notória ineficiência na fiscalização. Esse é o real teste que ditará o sucesso ou insucesso.

A questão não é se este modelo funciona em teoria, é se funciona bem num contexto real onde os mecanismos de controlo já são frágeis. E sem esse reforço dos mecanismos de fiscalização, simplificar pode significar apenas fragilizar o Estado de Direito.

P.S.: Ficámos também a saber esta semana que as listas de financiadores dos partidos passam a ser secretas, tornando mais difícil identificar potenciais conflitos de interesse. Mais um prego no caixão da transparência.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
20.04.2026

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339: ‘#donasdecasaucranianas’

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🇵🇹 OPINIÃO

Em Agosto de 1981, a Apple lançou um famoso anúncio de página inteira no diário The Wall Street Journal, em tom de provocação, intitulado “Bem-vinda, IBM. A sério.” Naturalmente, Steve Jobs não estava apenas a dar as boas-vindas, mas a ironizar com a entrada tardia da gigante IBM no mercado dos computadores pessoais, que ignorou durante muito tempo em prol dos grandes sistemas para empresas.

Quarenta anos depois, podemos dizer que um cenário semelhante se replica no setor da indústria da Defesa, onde se assiste a uma grande transformação na própria forma de fazer a guerra, como os acontecimentos na Ucrânia nos têm mostrado, quase diariamente, ao longo dos últimos quatro anos.

O engenho e agilidade dos ucranianos para fazer face à agressão russa numa grande desproporção de meios, reinventando formas e armas de defesa, tornaram-se um exemplo claro de guerra moderna. Mas, tal como a IBM naquele primeiro impulso dos computadores pessoais, ainda há na indústria quem demore a mudar o chip.

Foi o que demonstrou, de forma particularmente desastrada, o CEO da gigante alemã Rheinmetall. Numa entrevista à revista The Atlantic, Armin Papperger desvalorizou a indústria de drones ucraniana, reduzindo-a a expressões como “Legos de montar” ou “donas de casa com impressoras 3D” para menorizar a comparação com a tecnologia dos grandes fabricantes.

A reacção foi tão imediata quanto intensa. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky respondeu com ironia, afirmando que “qualquer dona de casa ucraniana poderia ser CEO da Rheinmetall”. Dirigentes militares destacaram os números que provam a eficácia dos drones ucranianos, que já destruíram mais de 11 mil tanques russos e provocaram 90% das baixas do inimigo. E nas redes sociais a polémica ganhou vida própria, impulsionada pela hashtag #madebyhousewives.

O conflito na Ucrânia acelerou uma transformação em curso. Drones baratos, produção descentralizada e ciclos rápidos de adaptação passaram a ter um peso decisivo, enquanto os sistemas pesados e ultra-dispendiosos deixaram de garantir uma vantagem automática no palco de batalha. Pressionada pela necessidade, a Ucrânia adaptou-se de forma admirável, desenvolvendo um ecossistema ágil, capaz de testar soluções em tempo real e ajustar-se rapidamente ao terreno.

Prova disso é o facto de os próprios EUA terem pedido a ajuda ucraniana para lidar com os drones iranianos no actual conflito no Médio Oriente, enquanto parte da indústria continua presa a processos longos e contratos rígidos.

Ao falar com aparente desdém do heróico esforço ucraniano e de uma nova indústria, que já redefine o campo de batalha, Papperger arriscou um sério dano de reputação, obrigando a própria Rheinmetall a retratar-se nas redes sociais e a reconhecer que “a força inovadora e o espírito de luta do povo ucraniano são uma fonte de inspiração para todos”.

Se a invasão russa ainda não tinha deixado isso claro, fica mais uma lição de que o melhor talvez seja mesmo não subestimar o papel das “donas de casa” ucranianas.

Diário de Notícias
06.04.2026
Rui Frias
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303: Teresa Morais

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🇵🇹 OPINIÃO

A actividade parlamentar da última semana voltou a trazer para o centro do debate uma questão difícil que ainda consome muita gente de bem: como deve a democracia lidar com quem testa constantemente os seus limites? Num prato da balança pesam-se os riscos de dar palco à vitimização que faz parte das narrativas “anti-sistema”; no outro, os riscos de normalizar atropelos e abusos quando apenas se encolhem os ombros.

Antes de mais, convém perceber que a Assembleia da República não é apenas um palco de confronto político, mas também, e antes de mais, a casa da democracia. Um espaço onde a liberdade de expressão e o debate aceso devem conviver com regras de respeito institucional, responsabilidade e decoro. Quando essas regras são sistematicamente desafiadas e desrespeitadas, estamos perante uma tentativa de redefinir as fronteiras do jogo democrático.

Foi isso que Teresa Morais decidiu não deixar passar em claro, esta semana, no Parlamento. A vice-presidente da AR tomou as rédeas das sessões, na ausência do presidente Aguiar-Branco, e decidiu ser vocal na defesa da honra da instituição a que presidia naquele momento.

Primeiro, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, assinalando a André Ventura que não podia deturpar as regras da interpelação à mesa para continuar o discurso político e não recuando perante as desconsiderações do presidente do Chega, que a tentou menorizar dizendo-lhe que “nem deveria estar ali” naquele dia.

Depois, no dia seguinte, quando decidiu não deixar passar uma acusação de Ventura à deputada Isabel Moreira, do PS, e às líderes parlamentares do Livre e do PCP, de ficarem caladas quando as mulheres são violadas por cidadãos estrangeiros. Ao afirmar que nenhuma deputada quer esconder violadores ou ignorar crimes contra mulheres, Teresa Morais não fez uma intervenção partidária, nem agitou qualquer bandeira feminista. “Limitou-se” a fazer o essencial: defender a honra da instituição a que presidia naquele momento.

Há quem veja nesta atitude a ingenuidade de alimentar a narrativa preferida dos populistas: a do “sistema” que os quer silenciar. Basta lembrar como o antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, foi tantas vezes acusado de contribuir para o crescimento do Chega por isso.

Numa abordagem diferente está, por exemplo, o estilo do actual presidente, José Pedro Aguiar-Branco, defensor de deixar que a própria dinâmica do debate parlamentar regule os conflitos.

Ambas as abordagens têm riscos evidentes. Mas quando um dia olharmos para trás para fazer o balanço deste tempo político, será importante perceber que houve quem não hesitou em erguer a voz para defender as instituições democráticas e os valores da decência. Teresa Morais, seguramente, não poderá ser acusada de ter assistido em silêncio.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

09.03.2026

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257: Dias de nevoeiro

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🇵🇹 OPINIÃO

Há sempre qualquer coisa de sebastiânico nas aparições públicas de Pedro Passos Coelho, por quem uma parte da direita continua a suspirar como se o país dependesse do seu antigo timoneiro para se realizar de corpo inteiro enquanto ideia de nação. O fenómeno encontrará provavelmente mais explicações ao nível da psicanálise colectiva do que em quaisquer indicadores político-económicos que aqueles quatro anos de governação com a troika tenham produzido, mas é bem real.

E tão certo quanto a referência a D. Sebastião em dias de nevoeiro, num país carregado de saudosismos até à medula. Pelo que se pode apreciar, o papel agrada ao ex-primeiro-ministro, que cultiva essa aura no modo como gere as suas intervenções públicas. Raras e com estudado sentido de oportunidade, aguçando o apetite da audiência saudosa e aproveitando para reforçar esse estatuto de reserva moral a quem o país há de bater à porta um dia, quem sabe, esteja o Diabo à solta ou não.

Desta vez, o cenário foi a apresentação de um livro sobre lideranças intermédias na Administração Pública. Mas o cenário político era bem mais vasto: a intervenção coincidiu com a paisagem de um País submerso entre cheias e derrocadas, e com a polémica nomeação de um enfermeiro para coordenar a Estrutura de Missão para as Energias Renováveis (EMER 2030) a espreitar como exemplo oportuno para um diagnóstico sobre os vícios do Estado.

O discurso de Passos encaixou como uma luva. Denunciou a falha do Estado nas suas funções regulatórias como uma justificação para a falta de preparação face a eventos como os que assolaram o país nestas semanas; e carregou sobre concursos “viciados” e escolhas pouco transparentes que descredibilizam o Estado, com o caso da EMER a pairar sobre o actual Governo.

Obviamente, o diagnóstico de Passos Coelho foi certeiro. Ao apontar esses vícios estruturais na Administração Pública, reforçou a imagem de estadista distante das pequenas lutas do dia a dia, a “autoridade moral” que intervém apenas quando entende que o essencial do país está em causa.

Claro que essa consciência, hoje tão desperta, nem sempre esteve assim vigilante durante os seus anos de governação, que também eles tiveram as suas nomeações polémicas, como as 100 de última hora quando a Geringonça recebeu o aval para lhe suceder no Governo, mas sabemos como a memória (mesmo a colectiva) tende a ser selectiva.

Menos vocal, mas efectiva foi a ministra do Ambiente, Graça Carvalho, que assumiu publicamente não ter tido conhecimento da nomeação e a mandou anular, traçando uma linha de exigência e responsabilidade política que a reafirma como uma boa referência deste Executivo.

O controlo de danos, no entanto, só seria realmente efectivo se percebêssemos quem e o que falhou. Se este concurso foi, também ele, “viciado”, quem o viciou? E aí talvez a ministra tenha de avaliar se está devidamente acompanhada. Porque só um Estado competente, transparente e responsável pode resistir aos suspiros saudosistas de dias de nevoeiro.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
16.02.2026

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230: Desastres anunciados

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🇵🇹 OPINIÃO

Estivesse o TGV já em marcha e teríamos tido, por estes dias, a alta velocidade afogada em Coimbra. A zona para onde está projectada a futura estação intermodal, que se estende até à beira-rio, foi uma das afectadas pela subida do Mondego. Este “pormenor” pode parecer hoje insignificante face a tanto sofrimento e destruição provocados pelo mau tempo em tantas zonas do país, mas diz-nos muito sobre o que estamos a viver. Para lá das ondas de choque imediatas em curso, há uma questão de fundo que se impõe e que se chama ordenamento do território. O tema é lembrado sempre que acontece uma tragédia do género, sejam as cheias de inverno ou os fogos de verão, mas rapidamente esquecido de novo por quem tem a responsabilidade de zelar por ele até ao “azar natural” seguinte.

Não é por falta de avisos. Como não será também desta vez. Basta atentar ao que têm dito os diversos especialistas em ambiente, clima ou planeamento do território nos últimos dias. Aqui no DN, por exemplo, a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, titular da Cátedra da UNESCO para a Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, lembrava coisas tão elementares como esta: “Nós artificializámos as bacias hidrográficas e os rios, e acreditámos que estavam sob o nosso controlo. (…) Construímos um progresso na base da destruição permanente da natureza, sobretudo nos últimos 50 a 60 anos, e esse desligamento da natureza tem custos.”

Ou João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova FCT, especialista em Política Ambientais, também aqui no DN: “Por que razão Alcântara inunda? Porque está sobre uma ribeira. Por que razão se chama Sete Rios a Sete Rios? Porque ali confluíam sete ribeiras. (…) Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que naturalmente inundam periodicamente.” E deixou novo lembrete para memória futura: “Temos de levar a sério os planos e parar de construir onde não devemos. Quanto ao que já existe, não defendo que se deitem cidades abaixo, mas nalguns casos haverá que realojar pessoas que vivem em zonas de alto risco.”

Tudo isto é conhecido, estudado e cartografado. O que falta não é ciência, nem diagnósticos, é coerência política. E os exemplos mais recentes mostram que continuamos, apesar de tudo, a andar no sentido contrário, desde a polémica nova Lei dos Solos ao recente episódio entre o ministro da Agricultura e o Instituto de Conservação da Natureza e Floresta.

Invoca-se por vezes o exemplo dos Países Baixos, país construído em zonas inundáveis. Mas esse argumento esquece o essencial da lição: ali, tudo foi pensado em função da água, com planeamento rigoroso e investimento permanente. Não há improviso, nem atalhos. E mesmo assim, hoje, devolvem espaço aos rios.

O que convém percebermos o quanto antes é que os acontecimentos destes dias são um resultado previsível de décadas de decisões tomadas contra o conhecimento disponível. Até quando?

Editor do Diário de Notícias

Diário de Notícias
09.02.2026
Rui Frias

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206: Sim, voltámos a falhar

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🇵🇹 OPINIÃO

A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção.

Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.

Prevenir não se resume a alertas meteorológicos a avisar que vem aí tempestade. É garantir que as infra-estruturas não fiquem desajustadas a fenómenos climáticos cada vez mais extremos, como apontou (e bem) o Presidente da República.

É investir em redundância nas comunicações móveis, geradores, redes eléctricas mais resilientes, reforço de meios técnicos e humanos. Tudo isto implica muito dinheiro? Sim. Mas implica sobretudo fazer as escolhas políticas certas, para não perpetuarmos a incompetência e a impreparação que corroem a confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.

Ao longo de décadas, Portugal foi abandonando o investimento público sustentado, a manutenção das infra-estruturas e o reforço da capacidade de resposta do Estado. O resultado é evidente: estamos vulneráveis aos “azares” que inevitavelmente acontecem, apesar dos alertas científicos repetidos que, na prática, continuamos a ignorar. Uma postura próxima da irresponsabilidade dos populistas e negacionistas que criticamos (os quais, depois, são lestos a explorar as consequências dos fenómenos que fingem não existir).

Por isso, voltámos a falhar, sim. Mas a essa incapacidade estrutural do País juntaram-se também falhas graves na resposta concreta a esta crise. Não existiu um sistema eficaz de alerta e prontidão. Demorou-se a perceber a verdadeira dimensão dos estragos, num país que, administrativamente, continua a não enxergar para lá do umbigo centralista.

A resposta foi desarticulada, sem uma mobilização nacional à altura, deixada à iniciativa de cada município e da própria sociedade civil, que, consciente do indecoro do Estado, se desdobra em iniciativas de apoio e voluntariado.

Tivemos ministros mais preocupados com vídeos de promoção pessoal, desfiles de vaidades em frente às câmaras, outros inexplicavelmente desaparecidos de combate e uma comunicação institucional tão fiável quanto a do SIRESP que, pasme-se, voltou a registar falhas. O estado de calamidade teve de esperar pelo Conselho de Ministros do dia seguinte, a Comissão Nacional de Protecção Civil reuniu-se só este domingo (cinco dias depois), e milhares de pessoas continuam sem luz, água ou comunicações.

A depressão Kristin deixou um rasto de destruição material que vai levar muito tempo a consertar e uma tarefa ainda mais difícil pela frente: reparar a confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
02.02.2026

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179: Prémio Nobel do Pedaço

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🇵🇹 OPINIÃO

Poderá ter passado quase despercebida, no meio do turbilhão provocado pelo furacão Trump, mas a intervenção mais certeira em Davos, no Fórum Económico Mundial, terá sido a piada utilizada por Elon Musk quando fez um jogo entre as palavras peace (paz) e piece (pedaço) para comentar o recém-anunciado Conselho de Paz (Board of Peace), uma das recentes criações do presidente norte-americano na sua obstinação em reescrever a ordem mundial. Talvez ninguém tenha explicado tão bem até hoje o que se passa realmente com a política externa norte-americana quanto o homem mais rico do mundo o fez naquele trocadilho.

A “paz” que apregoa o actual inquilino da Casa Branca soa cada vez mais a um jogo de distribuição de pedaços de território: “Um pedacinho da Venezuela, um pedacinho da Gronelândia. Todos queremos pedaços/paz”, descreveu com ar divertido Musk.

Claro que os EUA sempre articularam interesses económicos com a sua política externa, mas assistimos hoje à substituição da diplomacia no seu sentido clássico (poderemos ainda sequer usar essa palavra?) pelo puro negócio.

Donald Trump governa como sempre negociou: sob a bandeira do interesse patriótico, olha para o mundo como um portefólio de activos. Rodeado de uma teia de multimilionários, na qual o próprio Musk vai entrando e saindo conforme a conveniência, o presidente norte-americano transformou a política externa numa espécie de prolongamento do conselho de administração.

Num recente trabalho académico, os analistas políticos Stacie Goddard e Abraham Newman descrevem esta nova ordem emergente promovida pela Administração Trump e atribuem-lhe um nome: neo-royalismo. O “mundo trumpiano” parece-se mais com uma versão moderna da monarquia absoluta, um “neo-royalismo” onde um pequeno grupo de líderes e “hiperelites” domina o cenário global, explicam os autores ao Politico. E onde as decisões são feitas para beneficiar esse círculo, à boleia dos propalados interesses nacionais.

Este neo-royalismo ajudará assim a explicar decisões aparentemente irracionais e como o poder é concentrado e distribuído entre as elites que, como foi claro desde o dia da tomada de posse, gravitam no círculo mais próximo de Trump.

Os exemplos sucedem-se. Na Venezuela, sob o discurso patriótico da luta antidrogas e da defesa da democracia, estava em jogo o controlo da exploração de petróleo. Na Gronelândia, sob a capa da segurança no Árctico, espreitam as terras raras, minerais estratégicos, energia, sectores onde muitos dos multimilionários que rodeiam o presidente norte-americano têm muitos milhões investidos. Em Gaza, em plena tragédia humanitária, surge dos escombros um mega-projecto imobiliário de “reconstrução”, apresentado pelo genro com o módico “preço” de 25 mil milhões de dólares.

Trump diz querer muito o Nobel da Paz. Mas a paz que oferece parece vir sempre condicionada a contratos, concessões e pedaços de mundo. Talvez seja esse o verdadeiro prémio que persegue.

Editor do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
26.01.2026

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45: Haja saúde

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OPINIÃO

É talvez a expressão mais portuguesa de todas, o desejo essencial.  “Haja saúde”, dizemos nós, portugueses, quando o dinheiro falta, o amor azeda ou o mundo parece desabar. Mas essa espécie de fatalismo pragmático torna-se quase um exercício de ironia quando olhamos para o sector da Saúde e o vemos há décadas a definhar entre promessas políticas, improvisos e degradação de serviços que se repetem como gripes sazonais.

O debate sobre a Saúde em Portugal está cronicamente preso num ciclo vicioso de guerras ideológicas e políticas de curto prazo. Onde a Esquerda quer um Serviço Nacional de Saúde quase exclusivamente público, a Direita apregoa as virtudes do privado e das PPP.

A clivagem ideológica ganha nesta área uma espécie de terreno preferencial de combate. Cada governo muda o rumo do anterior, apaga projectos, troca directores, substitui equipas e anuncia uma “nova era” que raramente dura mais do que um ciclo legislativo.

O caso actual é exemplar. Luís Montenegro chegou ao poder há um ano e meio com promessas de um “plano de emergência” para endireitar o SNS em 60 dias. Se a meta podia soar arrojada então, hoje resulta apenas risível: as listas de espera cresceram, as urgências continuam a colapsar, os profissionais estão exaustos e mais de 1,5 milhões de utentes seguem sem médico de família. O entusiasmo de campanha dá hoje lugar a silêncios constrangidos.

Esta semana reacendeu-se o debate, com a intervenção pública do Presidente da República e as notícias sobre cortes projectados para a Saúde no orçamento do próximo ano.

Marcelo Rebelo de Sousa, que andou a evitar o tema durante meses, fez, nas comemorações dos 50 anos do Serviço Médico na Periferia, o diagnóstico que o Governo não queria ouvir (de tal forma que a ministra Ana Paula Martins até cancelou a presença): falta de estratégia, decisões a meio da ponte e um SNS em zona cinzenta. E pediu um pacto de regime, algo tão sensato quanto improvável num país onde a saúde serve de arma partidária.

O Presidente poupou politicamente a ministra, mas deixou claro o falhanço colectivo da estratégia do Governo, apontando concretamente que o Executivo de Luís Montenegro optou por “não decidir” ao deixar a direcção executiva do SNS – herança do Governo de Costa – “a meio da ponte”, com a demissão de Fernando Araújo como exemplo claro de uma política de mero ajuste de contas.

Ao diagnóstico de Marcelo soma-se o anúncio de cortes de 886 milhões de euros em bens e serviços no orçamento da saúde para 2026, tibiamente justificados pela ministra no Parlamento, o que deixa antever apenas mais escassez, mais dívidas e uma provável maior dependência do sector privado, como alertou o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Xavier Barreto. Tudo isto quando se reergue no horizonte a ameaça do “diabo” nas contas públicas.

Num país que falha em traduzir politicamente a prioridade expressa no pensamento popular, talvez nos reste mesmo a resignação fatalista: haja saúdinha.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
03.11.2025

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