OPINIÃO
Três mortes. Este é um número que deveria ser repetido várias vezes durante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) sobre o impacto da greve às horas extraordinárias dos técnicos de emergência pré-hospitalar que teve lugar entre 30 de Outubro e 4 de Novembro de 2024. Pois estas foram as mortes associadas pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde à paralisação das 12 ocorridas naquele período e que levantaram suspeitas sobre o socorro.
Aquelas mortes, bastava uma, deviam ser o suficiente para os responsáveis do Ministério da Saúde mostrarem respeito pelas vítimas e não procurarem usar a burocracia (para não lhe chamar pior) para não assumirem responsabilidades políticas.
Resumidamente a questão é esta: a ministra da Saúde e a antiga secretária de Estado da Gestão da Saúde disseram, desde o primeiro momento, que não tinham recebido o pré-aviso de greve dos técnicos.
E a verdade é que andamos nisto há um ano e cinco meses: ninguém é responsável pela falta de meios do INEM nesses dias.
A piorar a situação, sabemos desde essa altura que no Ministério da Saúde ninguém ouve notícias, lê jornais e vê televisão: chegámos a ouvir que não sabiam de uma greve que foi largamente noticiada. Aliás, acho que no país toda a gente sabia da mesmo, excepto quem trabalha no edifício da Avenida João Crisóstomo, onde funcionam o gabinete da ministra e as secretarias de Estado.
Mas a Lei de Murphy é para levar a sério neste ministério. Se já era difícil entender como é que quem tem responsabilidades governativas, e quem faz a sua assessoria, diz não saber de uma greve bastante anunciada, o que pensar do facto de um e-mail ser enviado para um gabinete, depois reencaminhado para o endereço errado e nenhuma das pessoas que o leu ser capaz de avisar que existia um aviso de greve? Não trabalham em equipa? Nem no mesmo local?
E depois as desculpas: primeiro ninguém tinha conhecimento do pré-aviso e, agora, afinal foi um erro no processamento da informação. Então se foi um erro qual a razão para o tentar “esconder”?
Infelizmente, enquanto assistimos a esta triste novela, não há um assumir de responsabilidades. Lembrem-se: morreram 12 pessoas naquele período e três ficaram associadas à falta de resposta do INEM.
Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
30.04.2026




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