442: Trump é bufo, estúpido, psicopata descontrolado. Putin é maquiavélico

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INTERNACIONAL // ENTREVISTAS

Vicente Garrido é criminologista e doutorado em Psicologia pela Universidade de Valência, onde lecciona Criminologia Forense e Pedagogia aplicada ao crime. E é hoje o entrevistado do Notícias ao Minuto, para falar do seu livro “Como detectar um Psicopata”, acabado de publicar em Portugal.


Vicente Garrido
© Mário Alexandre Borges

Estima-se que 1% da população mundial sofra de psicopatia grave, uma percentagem que dispara quando olhamos para cargos de liderança.

Longe do estereótipo do assassino em série, o verdadeiro perigo reside, em grande parte das vezes, naqueles que se misturam na multidão, na sociedade, nas nossas vidas, subindo através da mentira, da manipulação e do (des)controlo de tudo e todos.

Vicente Garrido, um dos nomes mais sonantes em criminologia e psicologia forense de Espanha, lança agora em Portugal o livro “Como Detectar um Psicopata”, um autêntico manual de sobrevivência aos tempos que correm.

Em entrevista exclusiva ao Notícias ao Minuto, o especialista explica por que razão o mundo digital e individualista de hoje pode potenciar estes comportamentos, analisa a mente ‘doente’ de alguns dos grandes líderes geopolíticos da actualidade, como Donald Trump e Vladimir Putin, e deixa um aviso claro: “a nossa intuição avisa-nos” quando estamos em perigo. Às vezes não queremos é ouvi-la.

O psicopata, uma vez que não consegue estabelecer laços humanos significativos, substitui o que para nós é o vínculo afectivo pelo vínculo do poder.

O seu livro “Como detectar um Psicopata” foi publicado recentemente em Portugal. Nele partilha décadas de conhecimento, desmonta mitos comuns e oferece uma análise clara dos “psicopatas integrados”, ou seja, aqueles que não cometem crimes violentos, mas que se misturam na sociedade, manipulam os outros e causam danos significativos. A pergunta que se impõe é: como podemos detetar um psicopata?

Depende do contexto, do lugar a que nos referimos. Se estamos a falar de pessoas que trabalham em instituições, em empresas, no mundo da política ou no mundo financeiro, mas são sempre indivíduos que costumam deixar um rasto de destruição por onde passam. Muito hábeis a manipular, em dividir as pessoas, em mentir e caluniar e em fazer-nos prisioneiros à medida em que vão avançando. Muitas vezes ,dizem mentiras flagrantes mas, o principal a ter em conta é que conseguem convencer as pessoas que têm mais poder para que os promovam e protejam com a sua amizade ou confiança. Quando conquistam isso, desenvolvem-se como pessoas de grande influência e poder e fazem o que querem com o mesmo.

No âmbito das relações pessoais, é muito importante ver o que fazem em vez de ouvir o que dizem e verificar se as coisas que nos contam sobre o passado, sobre o trabalho, sobre as amizades, são verdadeiras. É muito importante usar a intuição, ela avisa-nos quando é necessário prestar atenção, quando nos sentimos inseguros, estranhos, com medo, ansiosos, ou outro tipo de indicador suspeito.

Porque é que a percentagem de pessoas com altos níveis de psicopatia aumenta substancialmente em posições de poder ou liderança. Qual a relação da psicopatia com o poder?

Toda. O psicopata, uma vez que não consegue estabelecer laços humanos significativos, substitui o que para nós é o vínculo afectivo pelo vínculo do poder. Para ele, a sociedade divide-se entre as pessoas que consegue manipular e usar e as pessoas inimigas, que tem de desafiar e vencer. Ou, simplesmente, pessoas que não têm nenhuma relevância e são indiferentes para ele. Por isso, o psicopata, como motivação fundamental, assim como nós temos afecto, compromissos e ideais que orientam o nosso comportamento, tem o controlo e domínio.

Um dos objectivos deste livro era dotar a população, em geral, de ferramentas para detectar psicopatas e para se poder defender deles. Quais os primeiros sinais? Os padrões de comportamento a que devemos estar atentos?

Tal como disse acima, é muito importante ter atenção à nossa intuição. É a primeira defesa que temos. E a intuição surge, por vezes, sob a forma de insegurança, de confusão, de estupefacção, de irritação. Há algo dentro de nós, tanto emocional quanto mentalmente, que nos deixa inquietos e alterados. Isso não significa que a pessoa em questão é necessariamente psicopata. Mas avisa-nos que temos de prestar atenção e devemos ser cautelosos quando nos relacionamos com pessoas que nos transmitem estes sentimentos.

Também é muito importante saber observar. Isso é fundamental, porque muitas vezes não vemos o que não queremos ver. É importante perguntarmos a nós próprios se, como pessoas, como seres humanos com ideias e crenças, cultivar uma relação assim tira o pior de nós, faz-nos ficar mais pobres, invejosos, gananciosos. Se atrapalha o nosso mundo afectivo, os nossos valores. Essas são perguntas muito importantes que devemos fazer a nós próprios.

Como criminologista com mais de três décadas de experiência, terá lidado com muitos psicopatas criminais. Há algum caso que o tenha marcado mais profundamente?

Sem dúvida, o caso de Joaquín Ferrándiz Ventura, um assassino em série que actuou na província de Castellón, em Valência, no final dos anos 90, e que tive a oportunidade de entrevistar pessoalmente e de, antes da sua captura, colaborar com a polícia e a Guarda Civil na sua detenção e identificação, trançando um perfil criminoso.

Donald Trump é uma pessoa que cria o caos, o medo, que divide as pessoas, que gera ódio e violência. Qualquer pessoa que tenha dois dedos de testa percebe que este homem é uma desgraça para a humanidade

No livro explica também que os psicopatas são tão antigos como a espécie humana e lembra que a psicopatia tem uma parte genética. No entanto, o ambiente também tem a sua importância. Acha que a sociedade de hoje em dia está a ‘criar’ mais psicopatas? Porquê?

Não é que haja mais psicopatas, mas as condições ambientais e culturais de hoje em dia favorecem os traços de psicopatia latentes, que podem não ser concretizados depois em comportamento real, mas têm na atual sociedade mais probabilidades de se desenvolver. É a diferença. Não acho que haja uma maior massa genética de psicopatas. A psicopatia tem um componente de predisposição genética, mas o ambiente pode esbater essa tendência, com as condições adequadas. Podemos imaginar essa predisposição como uma espécie de semente. Há sementes psicopáticas em algumas pessoas, mas se estão num ambiente pouco propício para desenvolver esses traços, provavelmente, estes não se desenvolvem. O que acontece é que o mundo encontra-se tão alienado, individualista, competitivo, desolador que perdemos muitas vezes as referências éticas e culturais que tínhamos. Apesar de vivermos num mundo digital, cada vez estamos mais sozinhos, com um aumento da taxa de suicídios e de problemas mentais. Este tipo de mundo é um mundo onde podem prosperar os psicopatas, principalmente quando adicionamos a presença de líderes psicopatas.

Como por exemplo Donald Trump, segundo defende. O que o leva a afirmar que o presidente dos EUA é psicopata?

Fiz o diagnóstico através da análise de milhares de documentos e de horas de gravação sobre ele. Sabemos tudo sobre o seu comportamento, muito mais do que podemos saber de uma pessoa com quem falamos, diversas vezes, em consultório. Além disso, antes de ele ser eleito, já psiquiatras e psicólogos lhe tinham diagnosticado uma personalidade, no mínimo, narcisista. E estes dois anos de segundo mandato demonstraram que estava completamente certo quando escrevi – neste livro – que ele era psicopata. Donald Trump é uma pessoa que cria o caos, o medo, que divide as pessoas, que gera ódio e violência. Qualquer pessoa que tenha dois dedos de testa percebe que este homem é uma desgraça para a humanidade.

Trump é o bufo, o estúpido, o psicopata descontrolado, impulsivo, ignorante em todos os sentidos (…) Já Putin e Netanyahu são muito mais inteligentes e maquiavélicos

E como é que vê a administração Trump a terminar?

Acredito que a única forma do mundo se livrar de Donald Trump é fazer com que as pessoas que o elegeram, defraudadas pela perda de poder aquisitivo, simplesmente o repudiem. Fazer com que parte do Congresso, a parte republicana, comece a perceber que ele é um perdedor e simplesmente o desautorizem, que lhe tirem o poder de uma maneira definitiva. Aliás, já vimos algumas personalidades, algumas vozes a elevarem-se contra ele, nas redes sociais e meios de comunicação social, como Tucker Carlson, que se afastou, publicamente, de Trump, depois do ataque ao Irão.

Qual a melhor maneira de lidar com um psicopata como Donald Trump?

Sem dúvida, sem medo. Desafiando-o. Mostrando que a Europa também tem as suas armas. Porque Donald Trump ama os ditadores: Putin, o presidente chinês, Netanyahu – que não o é de facto, mas actua devido à situação de guerra com poderes ditatoriais -, Orbán, um pseudo-ditador que adoeceu a Europa, através da Hungria, durante tantos anos. Ele ama as pessoas que têm poder. E só respeita uma linguagem, a linguagem do poder. Por isso, quando a Europa se opôs a deixá-lo seguir em frente com a Gronelândia – e outras aventuras-, Trump não teve outro remédio que não começar a ameaçar, a insultar, dizer que ia sair da NATO. Mas, na prática, não fez nada.

E Putin também é psicopata? Netanyahu? Qual a diferença entre estes três líderes?

Sim, Putin também é psicopata. A diferença é que Putin é um psicopata controlado. Precisa de menos aplausos, de ouvir que é um ser maravilhoso. Trump é um psicopata, mas também é narcisista. Tem um narcisismo monstruoso. Acho que não existe na história da política mundial alguém com um narcisismo tão monstruoso. Simplesmente desafia qualquer expectativa e todo entendimento. É assustador. Já Putin é mais controlado. Claro, que ele também é narcisista, porque deseja que todos os outros o reconheçam como alguém forte, poderoso e muito importante. Mas não precisa da aclamação. Não precisa que todos os que estão a seu lado o adorem como se ele fosse a galinha dos ovos de ouro. Trump é muito mais impulsivo, pensa muito menos nas coisas e é profundamente ignorante, coisa que Putin não é. Putin é mais inteligente. Neste sentido, há uma grande diferença. Por outro lado, Putin é maquiavélico, enquanto Trump, na sua maldade, é muito transparente.

Netanyahu, por sua vez, tem traços de psicopatia. É, sem dúvida, autoritário, capaz de matar milhares ou dezenas de milhares de pessoas sem pestanejar. Não o estudei tão profundamente, mas consigo dizer que tem traços muito vincados de psicopatia. A manipulação, a mentira, a crueldade, o desprezo pelas liberdades e direitos constitucionais do seu povo. Não posso defini-lo de uma forma específica porque não o estudei como sujeito, mas, com certeza, ele tem muitos traços de psicopatia.

Resumindo, Trump é o bufo, o estúpido, o psicopata descontrolado, impulsivo, ignorante em todos os sentidos, mas que foi capaz de convencer metade do país de que ele era a resposta, porque ele sempre foi um grande vendedor. E, sinceramente, metade do povo americano renunciou aos critérios morais na hora de escolhê-lo. Já Putin e Netanyahu são muito mais inteligentes e maquiavélicos e sabem utilizar o poder que têm, com as diferenças importantes que existem entre Netanyahu, que, todavia, ainda vive em democracia, apesar de um pouco em suspensão por um estado de guerra, e Putin, que vive numa ditadura.

Nem todas as pessoas más são psicopatas. A psicopatia não tem a exclusividade da maldade. É importante ver se essa pessoa é realmente psicopata ou se é apenas má

Do que conhece de Portugal, arrisca-se a dizer que temos algum psicopata entre os nossos líderes políticos ou com algum cargo de renome?

Não, não estudei os líderes políticos de Portugal, por isso, não posso dizer nada.

De acordo com a sua experiência e investigação, nascemos psicopatas ou tornamo-nos psicopatas?

Ambas as coisas. Temos predisposições e traços, que fazem parte da nossa herança genética, mas depois o ambiente tem muita influência no momento de desenvolver essas características. Nunca alguém com predisposição à psicopatia era o homem ideal ou a mulher perfeita, mas é claro que, num ambiente positivo, num ambiente que fomenta valores e autocontrolo, essa psicopatia pode ser inibida, pelo menos nos seus comportamentos mais graves.

Para terminar, qual é o melhor conselho que o seu livro oferece a alguém que suspeite que tem um psicopata na sua vida?

Confirmá-lo. E se não puder fazer uma confirmação com um diagnóstico psiquiátrico, assegurar-se de que o comportamento dessa pessoa é realmente honesto e sincero. Observe, investigue, pergunte a outras pessoas que a conheçam. No fim de contas, mesmo que alguém seja hábil a manipular e enganar, não pode ocultar realmente quem é, sobretudo nesta sociedade em que vivemos todos interconectados. Não se trata de colocar um selo de psicopata a toda a gente, porque nem todas as pessoas más são psicopatas. A psicopatia não tem a exclusividade da maldade. É importante ver se essa pessoa é realmente psicopata ou se é apenas má. Porém, se nos traz algo negativo e se nos impede de sermos felizes, não precisamos de nenhum diagnóstico. Para sermos felizes, temos de estar com pessoas felizes e honestas.

Notícias ao Minuto
Natacha Nunes Costa
28.05.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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