🇵🇹 PORTUGAL // POEIRAS DO CHADE
Atravessou o Atlântico “por etapas”, passou pelas Canárias e pela Madeira e atingiu Portugal continental, num percurso menos habitual. O fenómeno, conhecido como migração transcontinental de bio-aerossóis, está a ser acompanhado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que desde 2020 monitoriza estas intrusões no âmbito do programa DUST para avaliar riscos e benefícios.

Reinaldo Rodrigues (Arquivo)
O céu ficou mais esbatido e a qualidade do ar degradou-se, mas o que chega não é apenas “poeira”. Trata-se de bio-aerossóis: partículas finas de terra levantadas em zonas áridas de África que entram na atmosfera e são transportadas pelos ventos para outros continentes. Chamam-se aerossóis porque viajam em suspensão e “bio” porque podem levar consigo vida microscópica, como vírus e bactérias.
“Estamos a falar de partículas de solo que conseguem percorrer milhares de quilómetros e que, pelo caminho, podem transportar microrganismos”, explica ao DN Ricardo Dias, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Neste caso, a informação disponível aponta para uma origem na região do Chade, numa faixa de África já bastante baixa e propensa à emissão de poeiras. A fonte, sublinha o especialista, pode estar associada a um lago actualmente seco, rico em minerais “exportáveis”, material facilmente mobilizado quando há vento suficiente para levantar partículas do solo.
A chegada a Portugal, porém, foi menos visível do que noutros episódios. “Com humidade, chuva e poeiras há uma co-precipitação que se nota sobretudo nos telhados ou nos carros estacionados na rua”, refere Ricardo Dias.
O fenómeno segue rotas diferentes ao longo do ano, consoante os regimes de vento e as condições meteorológicas. “Não podemos dizer que estes eventos estejam necessariamente mais frequentes, mas podemos dizer que as rotas estão a ficar mais diversificadas”, afirma o professor.
A trajectória agora observada – Chade, Canárias, Madeira e Portugal continental – é vista como um desvio de um corredor atmosférico comum entre África e a América do Sul. E esse corredor, recorda o investigador, tem um papel global: alimenta ecossistemas.
“Estas partículas são uma das principais fontes de matéria que chega a sistemas como a Amazónia”, nota Ricardo Dias. A escala impressiona: em determinados anos, a deposição associada a estas poeiras pode ultrapassar dois mil milhões de toneladas, o equivalente a “cerca de 80 milhões de camiões carregados de terra” num só ano. É massa suficiente para influenciar a fertilidade dos solos e o equilíbrio de nutrientes, funcionando, em muitos casos, como adubo natural.
Mas se há benefícios, também há riscos, sobretudo para pessoas mais vulneráveis. As partículas finas podem irritar as vias respiratórias e agravar sintomas, e os bio-aerossóis levantam questões adicionais que só a análise laboratorial permite esclarecer.
“Tudo o que tem riscos tem também benefícios. O importante é monitorizar”, defende Ricardo Dias. Por isso, a Faculdade de Ciências acompanha estes episódios desde 2020 através do programa DUST, avaliando o potencial impacto na saúde humana, na produção agrícola e animal e até o potencial biotecnológico, isto é, o que pode ser aproveitado e aprendido com os microrganismos transportados.
“Só daqui a cerca de uma semana teremos resultados mais concretos”, antecipa o professor.
A história mostra que episódios semelhantes podem ter consequências inesperadas. Em 1953, recorda-se um caso em que um evento iniciado na Argélia acabou por ser associado, anos mais tarde, a uma doença que afectou a produção caprina no Alentejo. “São ligações que só se conseguem estabelecer com tempo, dados e rastreio”, enfatiza Ricardo Dias, apontando esse exemplo como argumento para a vigilância contínua.
Enquanto decorrem as análises, o conselho é de prudência: evitar esforços físicos ao ar livre, especialmente para quem tem problemas respiratórios.
Diário de Notícias
Alexandra Tavares-Teles
25.02.2026



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