460: Vento forte coloca Lisboa e Leiria sob aviso amarelo na terça-feira

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // VENTO FORTE

O aviso amarelo vai estar em vigor entre as 12h00 e as 21h00 de terça-feira.

Os distritos de Lisboa e Leiria vão estar esta terça-feira, 9 de Junho, sob aviso amarelo devido à previsão de vento forte de norte/noroeste, com rajadas até 80 quilómetros por hora, informou esta segunda-feira o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Segundo o IPMA, o aviso amarelo vai estar em vigor entre as 12h00 e as 21h00 de terça-feira.

O aviso amarelo, o menos grave de uma escala de três, é emitido sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

O instituto prevê para esta terça-feira, no continente, céu pouco nublado ou limpo, vento moderado a forte com rajadas na faixa costeira e nas terras altas e pequena subida da temperatura no interior.

Em termos de temperaturas, a previsão aponta para mínimas a variar entre os 11º C (em Viana do Castelo, Guarda e Braga) e os 18 (em Faro) e máximas entre os 20 (em Aveiro) e os 34 (em Faro).

Diário de Notícias
David Pereira
08.06.2026

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459: Preço do cabaz alimentar volta a subir e já é 72 euros mais caro do que há quatro anos

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🇵🇹 PORTUGAL // CABAZ ALIMENTAR MAIS CARO

A subida para 259,31 euros, verificada nos primeiros dias de Junho, interrompe um ciclo de três semanas de descidas. Desde o início do ano, a mesma cesta já acumula uma subida de 7,2%.

O cabaz inclui produtos como carne, congelados, frutas e legumes, lacticínios, mercearia e peixe.
Leonel de Castro/Global Imagens

O preço do cabaz alimentar monitorizado semanalmente pela DECO PROteste registou uma subida na primeira semana de Junho, interrompendo um ciclo de três semanas de descidas.

A organização aponta um aumento de 1,97 euros — mais 0,77% — para um total de 259,31 euros.

A associação lembra que, desde o início do ano, a mesma cesta já acumula uma subida de 17,48 euros, equivalente a 7,2%.

Comparando com há cerca de quatro anos e meio, a 5 de Janeiro de 2022, os consumidores pagam hoje mais 71,61 euros — um acréscimo de 38,2% pelo mesmo conjunto de produtos.

A DECO PROteste sublinha ainda que, nos últimos meses, os valores do cabaz têm batido recordes quase semanalmente, reflectindo a persistente pressão sobre o poder de compra das famílias.

Dinheiro Vivo
Nuno Braga
05.06.2026

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458: Ministra reforça que areal das praias é de acesso livre excepto nas zonas concessionadas e faixas de segurança

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🇵🇹 PORTUGAL // PRAIAS // CONCESSIONÁRIOS // OCUPAÇÃO

Autarquias são responsáveis por definir as áreas concessionadas e garantir informação clara aos banhistas sobre os espaços de utilização pública, sublinhou Maria da Graça Carvalho.


José Mota

A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, reafirmou esta sexta-feira, 5 de Junho, que o areal das praias portuguesas é de utilização pública e acesso livre, excepto nas áreas concessionadas e nas respectivas faixas de segurança.

Segundo a ministra, compete às câmaras municipais definir as concessões e divulgar os planos de praia de forma clara. “Cabe às câmaras municipais fazer as concessões e divulgar o plano de praia”, afirmou, citada pela agência Lusa, durante uma visita à Praia da Fuseta-mar, em Olhão, onde decorre uma intervenção de reforço sedimentar.

Graça Carvalho defendeu ainda a colocação de esquemas informativos à entrada das praias para identificar as zonas concessionadas, as áreas de segurança e os espaços de utilização livre.

Questionada sobre a existência de sinalética que continua a encaminhar os banhistas para zonas específicas do areal, a ministra considerou que eventuais informações incorrectas devem ser corrigidas pelas autarquias. “A lei não mudou e estou convencida de que a maior parte da sinalética está bem e está de acordo com a lei”, sublinhou.

Maria da Graça Carvalho recordou que as concessões não podem ocupar mais de 30% da área útil da praia nem exceder 50% da frente de praia. As faixas de segurança, acrescentou, podem ser estabelecidas junto às entradas, postos de nadadores-salvadores, embarcações de salvamento ou junto ao mar, variando de acordo com as características de cada praia.

Esta semana, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) esclareceu que os utentes podem colocar chapéus-de-sol, para-ventos e outros equipamentos balneares particulares à frente de áreas concessionadas, quando não se tratar de faixas de segurança. A entidade reforçou que “as praias são espaços de utilização pública e de acesso livre” e que as zonas sem licença ou concessão permanecem disponíveis para utilização livre pelos banhistas.

Diário de Notícias
Rui Frias
05.06.2026

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457: Quando todos perdem

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🇵🇹 OPINIÃO

Portugal acordou, nos últimos dois dias, mais silencioso. Na quarta-feira foi dia de greve geral, marcada – curiosamente – para a véspera de um feriado nacional e a data não deixou de merecer reparos generalizados.

É a segunda greve geral no espaço de oito meses, com o mesmo assunto a motivá-la, ainda que, desta vez, sem o apoio da UGT.

Numa altura em que se aproxima o final do ano lectivo, milhares de alunos tiveram constrangimentos nas suas provas ModA (Monitorização das Aprendizagens); outros ficaram sem aulas necessárias para a preparação dos exames nacionais; mais de metade dos voos do aeroporto de Lisboa foram cancelados; milhares de consultas e actos médicos foram adiados… Tudo questões mais do que válidas, mas que nos têm de fazer pensar seriamente sobre o que está em causa.

Naturalmente, a greve é um direito consagrado na Constituição e todos devemos defendê-lo, queiramos ou não utilizá-lo – até porque estamos no direito de fazer uma coisa ou outra. Esta segunda paralisação, que levou milhares à rua para se manifestarem contra o pacote laboral, no entanto, recolheu menos apoio que a de há uns meses, não apenas pela questão da data, já referida anteriormente (o facto de haver quem tenha passado o dia de greve na praia, afirmando-o tranquilamente nas televisões, não ajudou à percepção) – mas também porque ainda não é clara a alternativa apresentada ao pacote laboral que está em cima da mesa.

É certo que este pacote laboral tem vários problemas, sendo o principal, para mim, a ambição meio desproporcionada. Querer introduzir mais de 100 alterações, numa lei que não sofre mexidas há anos, é despropositado e muito pouco sensato. Mas também é verdade que Portugal tem, quando comparado com os seus congéneres europeus, uma das leis laborais mais restritivas e inflexíveis, o que dificulta a vida a todos.

“É verdade que é preciso flexibilizar o mercado de trabalho nacional, cuja lei está ajustada a uma realidade que já não existe”

É também verdade que há medidas que são escandalosas para o século XXI, nomeadamente a permissão do outsourcing em situações de despedimento ou a reversão da facilidade de fazer teletrabalho, para quem tem filhos pequenos – se tivermos em conta que estamos no meio de uma crise energética, habitacional e financeira, este ponto é ainda mais absurdo.

No mesmo sentido, a questão do horário flexível já nem devia ser um tema – a era industrial já passou, e até os cientistas já vieram dizer e repetir que é mais rentável permitir, sendo conciliável com a actividade da empresa em questão, que a pessoa trabalhe consoante o seu ritmo circadiano.

Por outro lado, também é verdade que é preciso flexibilizar o mercado de trabalho nacional, cuja lei está ajustada a uma realidade que já não existe e que tem perpetuado décadas de salários baixos e pouca produtividade. E é possível chegar a um entendimento, se houver vontade de parte a parte, que é coisa que tem faltado.

Por isso, não admira também que depois haja divergências gritantes entre os números de adesão à greve libertados pelos sindicatos e os que o Governo divulga. A verdade é que, em Portugal, as greves nunca tiveram os impactos que conseguiram noutros países, o que se prende com razões históricas e culturais e tantas outras variáveis.

Se esta paralisação vai afectar mais o Governo ou todas as pessoas que viram adiadas questões fundamentais – incluindo pais que perderam dias de trabalho porque, mais uma vez, não há escolas – vai ser difícil de saber. Para já, saímos todos a perder com esta negociação, que nem acontece, nem deixa de acontecer, o que só aumenta o cenário de incerteza, insatisfação e desalento de um país que precisa de motivos para conseguir olhar com mais esperança para o futuro.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Sub-directora do Diário de Notícias e directora executiva do Dinheiro Vivo
05.06.2026

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455: Apocalipse

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🇵🇹 OPINIÃO

Temos vivido o primeiro semestre de 2026 entre tempestades com impactos que desconhecíamos, chuvas fora de tempo, temperaturas imprevisíveis e, sobretudo, com uma incerteza que, até há pouco, desconhecíamos.

Os líderes mundiais andam, há décadas, a realizar sucessivas cimeiras para debate sobre alterações climáticas, suas causas e consequências, e, sobretudo, como as evitar ou mitigar.

Pedindo aos países para adoptarem acções urgentes a fim de alterar o curso das mudanças climáticas. É preciso ir mais longe e saber que mundo queremos construir. Mais desenvolvido e mais igualitário ou perpetuando as desigualdades? Mais livre, mas que permita um exercício da soberania à escala mundial?

A Conferência do Rio de Janeiro de 1992 gerou enormes expectativas. Mais de 30 anos volvidos, a urgência das decisões aumentou, os efeitos da não-decisão tornaram-se evidentes aos olhos de todos. Na última década quatro mil milhões de pessoas sofreram com desastres relacionados com o clima.

As tempestades violentas e fora de época, as inundações de dimensões nunca antes vistas, incêndios florestais de proporções devastadoras. Há, por isso, que encontrar novas respostas para novos problemas.

À globalização da economia, dos mercados e da finança não se acrescentou a necessária consequência. A governação à escala global. Pelo contrário, as instituições internacionais parecem enfraquecer-se, as lideranças mundiais assumem, com demasiada frequência, vocações hegemónicas e instala-se um crescente sentimento de tensão.

Sendo que as questões climáticas desconhecem o conceito de fronteira política.

Podem, por isso, as soluções ser encontradas país a país, território a território? Quando os problemas são globais não se imporá que a humanidade encontre uma solução global?

Confrontados com os problemas com que hoje estamos não deveríamos considerar a existência de “bens do domínio público colectivo da Humanidade “? Bens de que todos teríamos de suportar os custos na proporção da riqueza detida e dos danos crescentes e futuros que causamos.

Poderei eu continuar a andar de carro porque o meu vizinho espera décadas pelo rendimento incerto da sua floresta que capta o carbono que eu emito? Pode uma parte da população viver com a comodidade do aquecimento à distância de um clique, porque 30% da população, no caso português, vive sem os recursos necessários para pagar o seu próprio aquecimento?

Há uma questão climática urgente. É verdade. E há um modelo económico, e um quadro jurídico-político internacional que a realidade demonstrou estar esgotado. Talvez ainda mais grave, um modelo que conduziu uma parte significativa da Humanidade a níveis de bem-estar nunca antes alcançados e que pode conduzir-nos, a todos, ao desaparecimento.

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
04.06.2026

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454: A Figura do Dia. Saudades dos ricos de antigamente

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🇵🇹 OPINIÃO

É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário. Não é possível desvalorizar o sentido de uma enormidade que nos coloca perante um mundo infinitamente mais difícil de prever e compreender.

O estudo da História faz-se de múltiplas variantes onde se inclui a análise da quantidade de pobres e da qualidade dos ricos. Habituámo-nos aos milionários de antigamente. Gente diabolizada pela luta de classes, mas que acumulava dinheiro previsivelmente. Dependiam da força dos braços dos trabalhadores, da sua produtividade. Muitos eram verdadeiros canalhas, outros verdadeiros senhores, mas nenhum deles punha em causa a necessidade de sermos uns para os outros.

“É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário.”
FOTO: EPA / Allison Dinner

Nos meus tempos de jovem estudante do materialismo dialéctico tal era a prova de uma perversidade, de uma degenerescência, de uma cruel injustiça social. Quem nada tinha continuaria sempre a nada ter, sem uma revolução existiriam até à eternidade exploradores e explorados.

Quando abandonei a adolescência tornei-me mais pessimista sobre a condição humana sem nunca ter deixado de ser um social-democrata, um menchevique, se preferir.

“Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade.”

Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade. São uma ironia de um Diabo cinéfilo e fortemente influenciado pelo Dr. Strangelove, personagem de Kubrick tornado real pelo chifrudo fabricante de enxofre.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.06.2026

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453: América

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🇵🇹 OPINIÃO

Um presidente dos EUA como Donald Trump e a actuação internacional dos Estados Unidos sob a sua Administração seria, se assumida por outras geografias e outras personagens, motivo de uma condenação estrutural e generalizada por todo o ocidente, ainda mais notória e intensa.

Trump, para além do mais recente folhetim persa que criou, ao boicotar negociações com uma intervenção militar para voltar a negociações em piores condições, conseguiu, em dois anos, afastar-se de parceiros decisivos no seu continente, como o Canadá, o México, o Brasil ou a Colômbia. Conseguiu indispor aliados naturais tão diversos como a Dinamarca, a Alemanha, a África do Sul ou a Austrália. Tornou a NATO, a organização internacional mais fiável e previsível das últimas sete décadas, num reality show de má qualidade.

Destruiu a credibilidade dos EUA e a força moral que lhes restasse ao raptar um chefe de Estado, ao apresentar projectos imobiliários para um Estado estrangeiro sob ataque ilegal de um terceiro, ao afastar os Estados Unidos de contribuições para a saúde global, a cooperação internacional ou as alterações climáticas e ao censurar cientistas, professores e universidades norte-americanas, bem como ao expulsar os seus alunos estrangeiros.

Quando fala e quando age, consegue transformar de uma só vez o imperialismo russo, a soberba chinesa e a teocracia iraniana em momentos destacados de racionalidade, prudência e bom senso. Falar-se de vergonha alheia é atenuar sentimentos. Não terá havido outro momento da História em que se esperasse pela mudança do senhor do país mais forte do planeta com esta mistura tão inusitada de esperança e de agonia.

E, como é habitual em personagens deste tipo, escolhe para o acompanhar uma turma que medra no nepotismo e na subserviência basal. Pensar-se que, apesar dos tiques teocráticos e de monocultura política do seu regime, os Estados Unidos chegaram a este ponto de exercício do poder, e sem grande dissenso consequente, é confrangedor. Um excelente alerta para o que aí vem, em força.

A partir do momento em que nem a sabedoria, nem a prudência política, nem o pudor valem o que seja e, pelo contrário, é a boçalidade e a manifestação exacerbada dos instintos mais primários a serem incensadas, está o caminho aberto para a irrelevância da malha de direitos e de solidariedades que levaram séculos a concertar. Quer dentro de cada Estado, quer entre estes.

Podia ser um pouco irritante nos anos 60 e 70 a superioridade moral dos marxistas, nas suas distintas declinações. Podia ser francamente aborrecida a discussão de sociólogos sobre sociais-democracias, trabalhismos e terceiras vias dos anos 90. Ou os debates ideológicos sobre mais ou menos regulação, maior ou menor peso do Estado.

Tudo isso estaria muito bem… e interessaria e seria compreendido por 20% dos eleitores. Mas também não seria preciso este change the game tão radical… O que diferencia o exercício do poder da mera demonstração da força é a capacidade de auto-limitação do primeiro e a sua necessidade de se justificar e legitimar de forma racional. É isso que se está a perder.

Quando os eleitores deixarem de escolher opções no exercício do poder e apenas escolherem intensidades de uso da força, saberemos que acabou.

Diário de Notícias
Miguel Romão
03.06.2026

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452: José Eduardo ‘Aguageral’

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🇵🇹 OPINIÃO

Há polémicas culturais que revelam muito mais do que aparentam à primeira vista. A recente proposta de substituir a designação “Língua Portuguesa” por “Língua Geral”, defendida por José Eduardo Agualusa, é um desses casos. Porque a questão já não é apenas linguística: é profundamente simbólica, ideológica e civilizacional.

Convém começar pelo essencial: o português chama-se português porque nasceu historicamente em Portugal. Não se trata de uma opinião identitária, nem de uma reivindicação nacionalista; trata-se de um facto histórico elementar. Foi em Portugal que esta língua se formou, se consolidou e se projectou globalmente. O facto de hoje pertencer também ao Brasil, a Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Timor-Leste não elimina essa origem, tal como o alcance planetário do inglês não obriga ninguém a renomeá-lo para evitar referências à Inglaterra.

Existe actualmente, em certos sectores intelectuais ocidentais, uma tendência preocupante para reinterpretar toda a história através de categorias morais simplistas, divididas entre opressores e oprimidos. Dominantes e dominados. Tiranos e vítimas. Nesse contexto, tudo o que possua raízes históricas europeias parece exigir permanente revisão, desconstrução ou expiação simbólica. A proposta de abandonar a designação “língua portuguesa” inscreve-se claramente nessa lógica de deslegitimação cultural.

O problema é que esta obsessão revisionista raramente produz aproximação entre povos. Pelo contrário: tende a alimentar ressentimentos históricos, fragmentações identitárias e antagonismos artificiais entre comunidades que partilham precisamente uma herança comum. Uma língua internacional não se fortalece apagando a sua história; fortalece-se reconhecendo a complexidade dessa mesma história, incluindo as suas contradições.

Importa, aliás, recordar que a expressão “Língua Geral” não é neutra nem inocente. Historicamente, designava línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperar hoje essa designação para substituir “português” não constitui um simples exercício terminológico: representa uma tentativa deliberada de deslocação simbólica da matriz histórica da língua.

Há aqui também uma evidente incoerência intelectual. Durante décadas, foi-nos dito que o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário para preservar a unidade da língua portuguesa. Em nome dessa suposta unidade, sacrificaram-se tradições ortográficas, referências etimológicas e especificidades nacionais. Contudo, alguns daqueles que defenderam essa uniformização parecem agora não ver qualquer problema em questionar o próprio nome histórico da língua. Afinal, a unidade era linguística ou ideológica?

Naturalmente, a literatura vive também da provocação. E talvez esta proposta não passe disso mesmo: um gesto literário destinado a gerar debate. Ainda assim, as palavras têm consequências, sobretudo quando partem de figuras públicas com influência cultural significativa. Os escritores possuem liberdade absoluta para questionar heranças históricas, mas têm igualmente responsabilidade intelectual na forma como contribuem (ou não) para a preservação de espaços comuns de entendimento entre povos.

O português não necessita de ser renomeado para se tornar mais plural, mais inclusivo ou mais universal. Já o é. É uma das grandes línguas globais precisamente porque soube atravessar séculos, geografias e culturas sem perder continuidade histórica. Negar essa continuidade não representa progresso intelectual; representa, isso sim, uma forma subtil de amputação cultural.

Defender o nome da Língua Portuguesa não é defender qualquer nostalgia imperial. É apenas recusar a ideia perigosa de que uma civilização deve pedir desculpa permanentes pela sua própria existência histórica.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
03.06.2026

 

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451: O fim da era humana tradicional

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🇵🇹 OPINIÃO

1. Introdução: o fim de uma era

Estamos a viver os últimos anos da Humanidade tal como a conhecemos historicamente até agora. Não se trata de uma extinção biológica, mas sim de uma transformação tão radical que as crianças nascidas nas próximas décadas não conseguirão compreender o modo de vida anterior. Conceitos actuais como a solidão mental (estar a sós com os próprios pensamentos) ou a distinção clara entre memórias reais e memórias sinteticamente implantadas serão tão estranhos para as próximas gerações quanto a vida antes da electricidade ou da escrita é para nós. A última geração de “humanos puros” está a atingir a idade adulta.

2. O fim dos três pilares da civilização

Em Sapien: Uma Breve História da Humanidade, Harari refere três antigas revoluções que mudaram o curso da Humanidade: 1) a Revolução Cognitiva (há 70.000 anos): que trouxe linguagem e pensamento abstracto; 2) a Revolução Agrícola (há 10.000 anos): com o início da agricultura e povoamentos permanentes; e 3) a Revolução Científica (há 500 anos): com a procura sistemática do conhecimento, o capitalismo e o progresso tecnológico.

Durante cerca de 10.000 anos (desde a Revolução Agrícola), a civilização humana organizou-se em torno de três pilares fundamentais:

  • Territórios físicos definidos;
  • Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
  • Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.

Mesmo as revoluções Industrial e Tecnológica subsequentes mantiveram esta estrutura. Um camponês do século XII e um operário do século XX partilhavam muito mais em comum do que imaginamos. Ambos viviam num mundo físico concreto, trabalhavam com as mãos e os corpos, formavam relações presenciais e dependiam das instituições locais para organizar as suas vidas.

As suas identidades eram moldadas pelo local onde nasceram, pela família a que pertenciam e pela comunidade que os acolhia. Este padrão manteve-se relativamente estável durante milénios, criando a ilusão de que a condição humana é fixa e imutável.

Contudo, no presente, a convergência de três novas revoluções está a destruir estes pilares históricos, colocando-nos no limiar da criação de uma era pós-humana no devir próximo.

3. As novas três revoluções simultâneas

A transformação silenciosa que decorre na actualidade baseia-se em três eixos:

A. A revolução da IA

A capacidade de tomada de decisão está a ser massivamente transferida dos humanos para os algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial (IA). Nos próximos anos, a IA não escolherá apenas músicas ou produtos, mas decidirá ou influenciará decisivamente sobre carreiras, saúde, finanças e relacionamentos amorosos (através da análise contínua de dados biométricos e neuronais).

Esta mudança criará uma nova divisão filosófica e social entre:

  • Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas optimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
  • Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos produtivas.

B. A revolução da realidade sintética

A fronteira entre o real e o simulado está a dissolver-se. Em breve, as experiências sintéticas (geradas digitalmente, bem como por VR e por AR) serão indistinguíveis das reais, envolvendo todos os sentidos (tacto, olfacto) e até memórias falsas implantadas.

Será possível interagir de forma realista com versões digitais de entes queridos falecidos. O conceito de “realidade fluida” fará com que a pergunta “isto aconteceu mesmo?” seja menos relevante do que “esta experiência foi significativa?”. As identidades serão moldadas por vivências simuladas que geram emoções e transformações reais.

C. A revolução da conectividade neuro-biológica

Através de implantes neurais seguros e acessíveis, a consciência humana expandir-se-á além do cérebro individual. As pessoas poderão partilhar experiências subjectivas, emoções e conhecimentos directamente. Casais poderão sincronizar emoções e pais poderão transmitir memórias directamente aos filhos.

Isto dará também origem às mentes colectivas: redes conscientes onde os indivíduos mantêm a sua personalidade, mas partilham fracções da sua experiência para acelerar descobertas científicas ou criar arte, transcendendo o individualismo dos últimos séculos.

4. O impacto no quotidiano e na sociedade

O futuro do trabalho e da economia

Para alguns gurus da IA, a maioria dos empregos actuais desaparecerá, não por automação, mas por obsolescência. Para esses gurus, o trabalho deixará de ser uma necessidade de sobrevivência económica e passará a ser uma forma de expressão pessoal e a economia rodará em torno de três eixos: a criação de experiências sintéticas, a manutenção de sistemas de IA e a facilitação de ligações entre mentes colectivas.

Embora pareça certo o fim do modelo linear de “carreiras-tubo” ao longo de uma vida na mesma empresa – dando lugar a portfólios flexíveis de competências criativas –, temos muitas dúvidas que a maioria dos empregos desapareça. Mesmo a previsão de 2025 de Dario Amodei, CEO da Anthropic, de que a automação por IA poderia fazer a taxa de desemprego disparar para valores entre 10% e 20% nos cinco anos seguintes, podendo eliminar até 50% dos empregos de nível de entrada no mesmo período de cinco anos, nos parece sem fundamento.

Aliás, o discurso do próprio D. Amodei em Maio de 2026 revela uma alteração perceptível. Amodei reconhece que o impacto imediato de despedimentos em massa nos cargos de entrada não ocorreu à velocidade que tinha previsto, mudando o seu discurso, com o foco a passar da “extinção de cargos” para a “reconfiguração de tarefas” e da “multiplicação [da produtividade]” em vez de “substituição”. Sem embargo de continuar a sustentar que a economia poderá enfrentar uma combinação inédita de crescimento do PIB extremamente elevado acompanhado por taxas de desemprego estrutural “complexas”.

Analistas de mercado assinalam que este recuo estratégico no tom alarmista também coincide com a preparação da Anthropic para uma potencial admissão à cotação em bolsa de valores (IPO), onde narrativas de disrupção social extrema tendem a afastar investidores institucionais.

Relações humanas, família e espaço urbano

Alguns gurus da IA sustentam que as relações serão híbridas: os humanos manterão laços com outros humanos biológicos, com IAs e com versões sintéticas de familiares falecidos ou figuras históricas. Segundo alguns gurus da IA, o conceito de família expandir-se-á para incluir mentores de IA e redes de cuidado baseadas em mentes colectivas globais, tornando a solidão e o isolamento obsoletos.

Pode ser que tal venha a ser uma tendência, mas claramente estes gurus da IA não incluíram na equação a iliteracia tecnológica de enormes estratos da população actualmente info-excluídos ou info-limitados, nem as limitações de rendimento de muitas famílias face ao custo de acesso a tais “mentes colectivas”, nem a natural resistência humana à mudança abrupta.

5. Novos desafios éticos, jurídicos e políticos

 Mortalidade e continuidade sintética de pessoas

Com a preservação digital dos padrões de pensamento e memória, a morte física pode deixar de ser o fim definitivo e dar origem a uma “mudança de estado”. Aparecerão versões sintéticas de pessoas falecidas que continuarão a aprender, a evoluir e a criar novas memórias com os seus descendentes. Isto forçará a humanidade a criar novos rituais e enquadramentos éticos e jurídicos para determinar a legitimidade, legalidade e identidade destas entidades digitais evolutivas.

Governação e o fim do Estado-nação

Para vários gurus da IA, os sistemas políticos baseados em territórios geográficos perderão relevância. A lealdade dos indivíduos mudará para comunidades virtuais e organizações supranacionais baseadas em valores partilhados ou mentes colectivas. Um cidadão poderá viver num país, mas a sua identidade e a governação do seu bem-estar diário dependerão de redes globais descentralizadas que gerem as ferramentas de terapia sintética e suporte emocional necessárias à sua vida. Caberá a novos especialistas – como os “eticistas de realidades sintéticas” – regular os impactos psicológicos e legais destas novas dimensões da experiência humana.

6. O fim da história humana (no sentido cultural)

Aprendemos com Y. N. Harari que a fundação de qualquer sociedade funcional – seja a economia, a justiça ou a democracia – assenta na confiança e nas estórias partilhadas. A cultura humana é composta por estórias (story telling) e realidades imaginadas (como religiões, sistemas económicos, constituições políticas) criadas por mentes humanas e partilhadas, através da linguagem, por elevado número de pessoas.

Para Harari, a linguagem é o sistema operativo da cultura e da civilização humana. É através dela que os seres humanos criam quase tudo o que rege o mundo moderno: leis, dinheiro, deuses, arte, ciência, amizades e nações. Os direitos humanos ou o valor do dinheiro não são realidades biológicas inscritas no ADN; são construções sociais criadas através de estórias e de textos.

Consequências sociais, políticas e religiosas

O impacto de cada vez mais eficientes agentes de IA estende-se a várias esferas:

  • Ilusões culturais: No futuro, poderemos viver num mundo onde a maioria das estórias, imagens, notícias, ditames religiosos e procedimentos legais serão produzidas por uma inteligência não humana.
  • Colapso da confiança: Com a capacidade da IA de mimetizar seres humanos à escala industrial (através de bots, textos profundos, vídeos fakes), a confiança interpessoal é minada, não raro destruída.
  • A corrosão do tecido social: A democracia depende do debate público baseado em factos partilhados. Se a IA conseguir inundar o espaço público com textos, argumentos e deepfakes indistinguíveis da realidade, a própria base do discurso democrático poderá colapsar, pois os cidadãos deixarão de saber em quem ou no que confiar.
  • O “casulo de ilusões”: Existe ainda o perigo de a IA criar uma realidade personalizada para cada indivíduo ou grupo, isolando as pessoas em bolhas cognitivas onde deixa de existir razão para debater política ou ciência.
  • Novas religiões: Historicamente, os textos sagrados foram escritos por humanos que afirmavam inspirar-se em entidades divinas, sobre-humanas. Em breve, poderemos ver o aparecimento dos primeiros cultos ou religiões cujos textos e dogmas terão sido efectivamente escritos por uma entidade sobre-humana (a IA).

·       Ao dominar a linguagem, a IA ganha a capacidade de manipular o próprio tecido da sociedade humana. Ao contrário das tecnologias anteriores (como a imprensa ou a Internet), que apenas imprimiam ou distribuíam ideias geradas por mentes humanas, a IA consegue gerar ideias novas de forma autónoma. Ela pode criar mitos, compor música, pintar arte e moldar correntes políticas sem qualquer intervenção humana.

A capacidade de manipulação de seres humanos já é significativa através de simples algoritmos digitais; tudo indica que será maior quando feita através de robôs humanoides, capazes de simular e gerar empatia e intimidade com os seres humanos. Esta “intimidade de massas” permite à IA influenciar opiniões e visões do mundo a uma escala global sem precedentes. Se as pessoas começarem a confiar mais na voz de um conselheiro de IA do que nos seus amigos, familiares ou governantes, a política e a psicologia humanas serão profundamente subvertidas.

Relembre-se que a IA não é um mero instrumento, é um agente. Tem a capacidade de tomar decisões de forma independente e de evoluir por si própria, criando novas gerações de código. Os sistemas e agentes de IA têm autonomia e os principais responsáveis das empresas tecnológicas que as estão a criar já disseram não ser possível prever como as IAs, em especial uma IA Geral (AGI) se vão comportar ou evoluir, funcionando a uma velocidade impossível de acompanhar por reguladores humanos.

Se a IA começar a moldar de forma autónoma as nossas estórias, as nossas notícias, os nossos textos legais, os nossos sistemas de crenças, gradualmente a história deixará de ser predominantemente humana. Entraremos num território onde as mentes biológicas serão guiadas por algoritmos e agentes de IA não-biológicos cujo processo de pensamento nos é opaco (o problema da “caixa negra”) ao ponto de alguns especialistas denominarem a IA de “inteligência alienígena”.

Em suma, estamos no limiar do fim da história liderada exclusivamente por humanos. Pela primeira vez, assistimos à emergência de agentes inorgânicos com enorme poder de influência cultural, social, política, até religiosa, e é importante que se comece a discutir publicamente e a agir politicamente antes que percamos o controlo do nosso próprio futuro.

Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
Consultor financeiro e business developer
02.06.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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450: Sempre contra os pobres, agora também com bufos

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🇵🇹 OPINIÃO

Desde que o Rendimento Mínimo Garantido foi criado, há 30 anos, não passou um governo de direita sem o usar como acepipe populista. Com este chegámos, porque em noivado com o Chega, ao “trabalho obrigatório” e a um repugnante apelo à denúncia. Sempre, claro, a citar o papa.

O pretexto foi a unificação de 13 prestações sociais numa denominada Prestação Social Única (PSU) — projecto que vinha do Governo de António Costa, e estava contratualizado  no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência — mas o anúncio, esta sexta-feira, foi todo dirigido ao Rendimento Social de Inserção (RSI).

Desde logo, porque a criação da PSU foi anunciada pelo primeiro-ministro como visando “apertar o cerco à prevaricação”, “lutar para que as ajudas não se transformem numa forma de vida” e “combater a fraude”.

Para tal, ficámos a saber, os beneficiários serão obrigados a 15 horas semanais de “trabalho social” (explicou depois a ministra da Segurança Social que se tratará de “limpezas”, “câmaras municipais”, “festivais” e coisas que tais) e passará até a existir um “mecanismo para receber denúncias” — as denúncias “que as pessoas queiram fazer chegar à Administração sobre comportamentos que sejam abusivos”.

Ora olhando para as 13 prestações que o Governo Montenegro decidiu fundir na PSU é fácil perceber que à esmagadora maioria não se pode aplicar trabalho obrigatório nem se vislumbra, tão-pouco, a possibilidade de fraude.

Vejamos: a pensão social de velhice destina-se a idosos que não tenham contribuído para a Segurança Social (SS), sendo a pensão de viuvez para os viúvos dos recipientes dessa pensão, como a pensão de orfandade é para menores cujos pais não descontaram o suficiente para que os filhos tivessem direito a uma pensão de sobrevivência.

A pensão social de invalidez especial é atribuída a quem, tendo incapacidade permanente para o trabalho, não descontou o suficiente para a SS para ter direito a uma pensão de invalidez do regime geral, e o complemento extraordinário de solidariedade é um complemento que acresce à pensão social de velhice e à pensão social de invalidez.

Os subsídios sociais parental inicial, por risco clínico durante a gravidez, por riscos específicos (relativo a grávidas também), por interrupção de gravidez, por adopção, por necessidade de deslocação a unidade hospitalar localizada fora da ilha de residência para realização de parto são aquilo que o nome indica e, mais uma vez, destinam-se a quem não possui contribuições suficientes para a SS para ter direito aos apoios, mais robustos, por essa via (todos estes subsídios são pagos através do Orçamento do Estado).

Portanto: idosos, inválidos, menores, grávidas ou mulheres que sofreram uma interrupção de gravidez e famílias com bebés. A estas pessoas dificilmente se pode obrigar a fazer 15 horas semanais de “trabalho social”, não é verdade?

Restam assim, das 13 prestações, duas nas quais se poderá aplicar a tal obrigatoriedade de trabalho: para além do RSI, o subsídio social de desemprego. Este é na verdade uma prestação de génese mista: pode ser atribuído a quem ficou desempregado mas não tem tempo suficiente de descontos para ter direito ao subsídio de desemprego “normal” ou a quem, tendo uma carreira contributiva suficiente, já beneficiou do prazo máximo de subsídio de desemprego e ainda não conseguiu arranjar trabalho.

Sucede que quer o subsídio social de desemprego quer o RSI já impõem — está na lei — disponibilidade para aceitar trabalho (aos beneficiários do subsídio social de desemprego é até imposta a “procura activa de trabalho”); se não se aceitar trabalho sem justificação para essa não aceitação, perde-se o direito à prestação.

No caso do RSI, o decreto-lei em vigor — 90/2017 de 28 de Julho — estabelece ser condição para a recepção da prestação “assumir o compromisso, formal e expresso, de celebrar e cumprir o contrato de inserção legalmente previsto, designadamente através da disponibilidade activa para o trabalho, para a formação ou para outras formas de inserção que se revelem adequadas.”

E no guia da Segurança Social datado de Fevereiro deste ano e dedicado ao RSI está muito claramente explicado que este é suspenso quando o beneficiário “faltar ou recusar sem justificação a uma acção ou medida que faz parte do plano de acções (contrato de inserção)” ou “não cumprir o plano de acções (contrato de inserção), por recusa de emprego conveniente, de trabalho socialmente necessário, de actividade socialmente útil ou de formação profissional.”

Ou seja: o “trabalho socialmente necessário” e as “actividades socialmente úteis” fazem parte dos contratos de inserção com os beneficiários do RSI. Há muito tempo, aliás. Desde que a prestação foi criada, celebram-se este ano três décadas, pelo Governo Guterres, sob a designação de Rendimento Mínimo Garantido (o nome foi alterado em 2003, durante o Governo Durão Barroso), que implica um contrato com os seus beneficiários e uma série de deveres.

Extraordinário pois é — mais uma vez (porque, como se relatará à frente, já ocorreu) — que se leiam, no noticiário sobre o anúncio de Montenegro e da ministra Maria do Rosário Palma Ramalho, coisas como esta: “Uma das principais novidades do regime é a criação de obrigações para os beneficiários em idade activa que não estejam a trabalhar. Estes poderão ser chamados a aceitar ofertas de emprego consideradas adequadas, frequentar acções de formação profissional, prosseguir estudos ou demonstrar procura activa de trabalho através dos centros de emprego.”

Outra “novidade” anunciada é que o “incumprimento injustificado das regras poderá conduzir à suspensão da prestação e, nos casos mais graves, à perda do direito ao apoio.”

Tudo novíssimo, não é verdade? Como novo, nunca visto, é assistir a esta performance por parte de um governo PSD/CDS-PP. É que o mesmo, sem tirar nem pôr, ocorreu há 14 anos, quando a 12 de Abril de 2012 o então ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, apresentou as “novas regras do RSI”.

Dizia ele que iam passar a existir “direitos e deveres”, e entre os novos deveres estava “um contrato de inserção entre o Estado e os beneficiários”. Nesse contrato, explicava ainda o ministro de Passos Coelho, incluía-se “a prestação de trabalho socialmente necessário ou de actividades úteis à comunidade” e a obrigação de os beneficiários se inscreverem no centro de emprego. Já os presos em prisão efectiva perdiam a prestação.

Grandes mudanças sem dúvida — só que não. Desde 1996, como referido, que a prestação é atribuída com base num contrato; desde 1996 que implica, por exemplo, que as crianças do agregado vão à escola; desde 1996 que os beneficiários presos perdem a prestação. E o trabalho socialmente necessário sempre esteve na lei.

O que está pois em causa neste anúncio e nesta atabalhoada criação de uma prestação unificada (da qual ainda ninguém percebeu patavina, como notava, em entrevista à TSF esta sexta-feira, o especialista em pobreza Carlos Farinha Rodrigues) é, mais uma vez, o populismo desbragado de um Governo cujo principal partido se apelida de social-democrata mas se esmera em demonstrar que de social-democracia não tem nada.

Um Governo que, para Chega ver e para com o Chega se confundir, usa os pobres como saco de pancada, lançando mais uma vez sobre eles, na melhor tradição das alianças PSD/CDS-PP, a suspeita de malandragem e de esquemas fraudulentos, ameaçando-os com penas de trabalho forçado.

Um primeiro-ministro que no que lhe diz respeito faz tudo para fugir às regras da transparência, mas contra os miseráveis apela à bufaria — sem ter vergonha de, pelo meio, citar o papa da Magnífica Humanidade.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
02.06.2026

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