474: À beira de um ataque de nervos

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🇵🇹 OPINIÃO

Quarenta por cento dos portugueses apresentam sintomas de ansiedade: insónias, aumento da frequência cardíaca, tensão muscular, tonturas e fadiga. Não é uma estatística abstracta; é quase metade do país a viver com o corpo em alerta permanente, como se cada dia fosse uma prova de sobrevivência. A ansiedade é, por natureza, uma resposta normal ao medo e ao stress. Mas quando se torna regra, e não excepção, deixa de ser um mecanismo de protecção e passa a ser um modo de vida. E os portugueses, hoje, vivem demasiado nesse modo. Têm medo do amanhã.

Uma sociedade ansiosa é uma sociedade que respira curto. Que olha para o futuro com desconfiança. Que se sente pressionada, exausta e sempre à beira de um sobressalto. A ansiedade colectiva não é apenas um fenómeno clínico; é um fenómeno social. Molda comportamentos, altera prioridades, condiciona decisões. Uma comunidade ansiosa é mais vulnerável a discursos simplistas, a soluções mágicas e a narrativas de medo. O medo é um excelente vendedor de certezas.

“É também neste campo que os meios de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida. Como todos os outros meios, o Diário de Notícias tem um papel decisivo na construção de uma sociedade mais informada e esclarecida (…).”
FOTO: Paulo Spranger / Arquivo

Há, porém, um dado curioso que a neuro-ciência nos oferece: a ansiedade e a gratidão não conseguem coexistir no cérebro. Activam zonas diferentes, mas incompatíveis. Quando uma está acesa, a outra apaga-se. Uma sociedade dominada pela ansiedade é, inevitavelmente, uma sociedade onde a gratidão escasseia. Não porque as pessoas sejam más, mas porque o cérebro não consegue estar em dois estados ao mesmo tempo.

Daqui nasce a pergunta: serão os portugueses ingratos pelo país que têm? A resposta é não. Sentir gratidão não depende apenas de termos razões para isso; depende também da nossa capacidade de as reconhecer. E essa capacidade diminui quando vivemos em permanente sobressalto, com medo do que pode acontecer amanhã e se conseguimos pagar a renda e a escola das crianças. Há quem esteja grato sem ter motivos sólidos para tal, o que torna a gratidão oca. E há quem tenha motivos para agradecer, mas não consiga senti-lo, o que não faz dessa pessoa um ingrato. Faz dela alguém esmagado pelas suas circunstâncias.

O ideal seria este equilíbrio difícil: sermos gratos quando o devemos ser e também quando não o devemos ser; e não sermos ansiosos, mesmo quando o mundo nos dá razões para isso. Não se trata de ingenuidade, mas de higiene mental, de sobrevivência emocional e de lucidez.

“A ansiedade colectiva não é apenas um fenómeno clínico. É social. Uma comunidade ansiosa é mais vulnerável a discursos simplistas, soluções mágicas e narrativas de medo. O medo é um excelente vendedor de certezas.”

Porque a ansiedade, apesar de ser um mecanismo natural que nos acompanha desde que existimos como espécie, corrói o nosso bem-estar e o próprio tecido da sociedade. Corrói a confiança, a esperança e a capacidade de pensar com clareza. E quando um país inteiro vive ansioso, torna-se presa fácil de discursos de medo, discursos que prometem protecção, mas oferecem submissão; que prometem ordem, mas alimentam ressentimento; que prometem força, mas cultivam fragilidade.

É também neste campo que os meios de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida. Como todos os outros meios, o Diário de Notícias tem um papel decisivo na construção de uma sociedade mais informada e esclarecida, composta por pessoas capazes de decidir pela própria cabeça, tal como estabelece o manifesto publicado na primeira edição do nosso jornal, no longínquo dia 29 de Dezembro de 1864.

Com as nossas falhas e limitações, fazemos o que está ao nosso alcance para cumprir esse propósito e chegar o mais próximo possível da Verdade. Ao fazê-lo, contribuímos para um país menos ansioso, mais consciente e onde cada pessoa tenha a possibilidade de revelar o melhor de si mesma.

Se a verdade e a razão libertam, o medo aprisiona. E Portugal não precisa de mais prisões invisíveis. Precisa de luz. De esperança. De serenidade. De um futuro que não seja visto como ameaça, mas como possibilidade.

Diário de Notícias
Filipe Alves
Director do Diário de Notícias
12.06.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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