Pelo Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República e o primeiro-ministro escolheram o Luxemburgo para celebrar o país, a diáspora e a identidade nacional. A escolha foi simbolicamente poderosa. Mas talvez tenha sido, involuntariamente, reveladora de uma contradição política que Portugal insiste em não enfrentar. Há algo de profundamente desconfortável em celebrar o patriotismo português perante uma comunidade que teve de sair do país para alcançar prosperidade, estabilidade e reconhecimento profissional.
Durante dias ouvimos discursos sobre orgulho nacional, pertença, memória e ligação afectiva à pátria. Tudo isso tem importância. Mas o patriotismo político não pode reduzir-se a uma liturgia emocional sem consequência material. Não pode limitar-se à evocação sentimental de Portugal, enquanto o próprio país continua incapaz de oferecer a muitos portugueses as condições mínimas para construírem uma vida digna dentro das suas fronteiras. E o Luxemburgo torna essa evidência impossível de disfarçar.
Num país, o salário mínimo ultrapassa os 2700 euros; no outro, permanece nos 920 euros. Num país, o trabalho permite autonomia e mobilidade social; no outro, uma parte crescente da população trabalha sem conseguir escapar à precariedade habitacional, à asfixia fiscal e à estagnação salarial. Mais perturbador ainda: o cabaz alimentar essencial custa praticamente o mesmo nos dois países. Esta comparação deveria ter dominado o debate político nacional. Mas quase não foi mencionada.
Porque ela expõe aquilo que sucessivos governos preferem evitar: o problema estrutural de Portugal não é a falta de talento, nem de esforço, nem sequer de patriotismo. O problema é a incapacidade persistente do Estado e da economia portuguesa para transformar trabalho em prosperidade.
As comunidades portuguesas no Luxemburgo são, por isso, simultaneamente motivo de orgulho e prova de falhanço nacional. Orgulho, porque revelam a extraordinária capacidade de adaptação, disciplina e mérito dos portugueses. Falhanço, porque demonstram que esse potencial continua demasiadas vezes a florescer apenas fora de Portugal.
Camões escreveu sobre um povo movido pela ambição do impossível: porém, talvez a maior tragédia contemporânea portuguesa seja esta, a de continuarmos a exportar os nossos melhores recursos humanos e depois celebrarmos essa diáspora como se ela fosse apenas uma expressão romântica da Portugalidade.
O Dia de Portugal não pode servir apenas para enaltecer símbolos, afectos ou memórias históricas. Tem de servir para uma reflexão séria sobre o estado do país. Sobre o empobrecimento relativo da classe média. Sobre a incapacidade de fixar talento. Sobre uma economia que há décadas cresce insuficientemente para reter aqueles que mais investiram na sua qualificação.
Porque o patriotismo verdadeiro não consiste apenas em amar o país. Consiste em construir um país onde as pessoas possam permanecer sem serem obrigadas a escolher entre identidade e prosperidade.
Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico
Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
10.06.2026
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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Que melhor programa para o nosso Dia Nacional, consagrado a um grande poeta, que um percurso pela Feira do Livro, ao encontro da melhor poesia e da melhor literatura?
É certo que os livros de venda mais assegurada (os best-sellers, os infanto-juvenis, os curandeiros das almas) cada vez ganham mais espaço e relevo, o que torna um pouco menos fácil (mas de forma alguma impossível) encontrar o que de bom se escreve e publica no nosso país. Há muita coisa a ver, a ler, a reler, e mesmo se o que mais nos interessou este ano já o comprámos em livraria, vale a pena correr os pavilhões das editoras e os pavilhões dos alfarrabistas, pois sempre estará à nossa espera um livro sonhado ou uma inesperada descoberta.
Dediquemos então um pensamento a Camões. António Gonçalves, impressor, foi o editor da 1.ª edição dos Lusíadas, devidamente aprovada a sua publicação pela Santa Inquisição, com critérios de suspeita abertura ao erotismo fervente de alguns episódios, o que não deixou de ser veementemente criticado poucos anos mais tarde por um pudibundo prelado de Coimbra, que todavia falhou no seu intento de proibir as escandalosas estrofes.
Era assim a vida dos editores naqueles tempos, tal como aliás em tempos bem próximos do nosso e que, para alguns, são saudosos. No meu tempo de escola, essas estrofes eram simplesmente desaconselhadas, pelo que, naturalmente, eram as primeiras a ser lidas pela nossa curiosidade adolescente: o magnífico Canto Nono.
Como trabalharia o editor António Gonçalves? Sabemos que uma contrafacção do livro foi imediatamente apresentada, com os pelicanos com o bico ao contrário (Rita Marnoto introduziu novas ideias sobre essa misteriosa rotação dos pelicanos). E sabemos mais: que o êxito do poema em Espanha foi imediato e que o nosso poeta foi considerado “o príncipe dos poetas das Espanhas”, nos tempos da monarquia dual dos Filipes.
Uma feira do livro será também uma boa ocasião para reencontrar Camões. Mas por que não ir ao encontro de toda a poesia, quer da nossa língua, quer traduzida, que encontraremos um pouco atrás, timidamente atrás, nas bancas das editoras, mas que lá estará presente, com as suas múltiplas vozes e composições? Os clássicos, sim, incluindo os mais esquecidos, mas também os mais recentes, os que ousaram “penetrar surdamente no reino das palavras” onde “estão os poemas que esperam ser escritos”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, e enfrentar toda a grande poesia que os antecedeu.
Mais do que geral, a nossa língua é infinitamente particular, e não deve ter vergonha de se chamar português, como os americanos não têm vergonha de falar inglês e os canadianos do Québec não têm vergonha de falar francês. Os muitos falares do português contemporâneo e os mais que surjam no futuro só robustecem a nossa língua comum e partilhada, que não é geral, tem um nome de nascimento, um nome que vai guardando nas suas metamorfoses.
Vamos à Feira do Livro no Dia de Camões. Encontraremos escritas várias e plurais, sós e mudas em estado de livro impresso, que esperam apenas que um leitor as venha acordar, palavras como belas adormecidas à espera do seu príncipe. O leitor é o príncipe das suas leituras. E a nossa experiência de vida e conhecimento das coisas estará sempre incompleta e meio vazia sem esses encontros mágicos com a literatura, decisivos para a nossa formação humana.
Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Embaixador jubilado e escritor
10.06.2026
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Os fenómenos meteorológicos extremos estão a afectar cada vez mais as experiências e decisões de viagem, desde o calor intenso que muda hábitos e destinos de férias de verão até ao risco de incêndios florestais, que aumenta o interesse nos seguros de viagem.
Agora, os modelos climáticos prevêem a chegada de um ‘super’ El Niño este ano. O fenómeno de aquecimento no Pacífico tropical molda os padrões meteorológicos globais e pode provocar secas, inundações e ondas de calor.
Para os viajantes, isto significa estar ainda mais preparados para ter em conta os riscos climáticos e meteorológicos no planeamento.
Como o clima extremo está a mudar os hábitos de viagem
A Organização Meteorológica Mundial da ONU adverte agora que há 80% de probabilidade de o El Niño se desenvolver este verão e mais de 90% de se prolongar até Novembro, com potencial para provocar secas, chuvas intensas e ondas de calor em todo o mundo.
Para os viajantes, isso traduz-se em maior preocupação com a actividade de tempestades, com condições mais chuvosas em algumas regiões e, no geral, com expectativas de um verão meteorologicamente mais instável.
Impulsionado por águas do oceano invulgarmente quentes no Pacífico tropical, o El Niño deverá fazer-se sentir praticamente em todo o lado, com previsão de temperaturas acima da média em todo o globo entre Junho e Agosto.
Um inquérito recente a 600 viajantes norte‑americanos em lazer, realizado pela Sensible Weather (fonte em inglês), concluiu que o mau tempo é agora a segunda maior preocupação no momento da reserva, logo a seguir ao custo. Mais de metade (55%) disse ter adiado uma viagem devido à incerteza quanto ao tempo.
O seguro de viagem não garante o reembolso se o tempo extremo ou uma onda de calor afectar a sua viagem. É provável que só receba uma compensação se existir um aviso governamental a desaconselhar viagens para o destino de férias escolhido, ou se o seu médico tiver desaconselhado a viagem.
Por isso, a chegada do El Niño torna mais prudente que os viajantes sejam pro-activos nas decisões de reserva.
«Estamos a ver viajantes a tornarem-se mais selectivos nos destinos, com maior interesse em férias em destinos mais frescos, as chamadas ‘coolcations‘, em viagens na época baixa ou de transição e em experiências que sejam mais fáceis de adaptar se as condições meteorológicas mudarem durante a viagem», afirma Nick Cavanaugh, fundador e director executivo da Sensible Weather, uma empresa que oferece protecção meteorológica a viajantes e operadores turísticos.
Se estiver prevista uma onda de calor e o seu itinerário incluir, por exemplo, aventura ao ar livre, pode valer a pena perguntar ao seu operador turístico se é possível alterar planos ou datas.
«Ao mesmo tempo, o comportamento de consumo tornou-se mais cauteloso. As pessoas continuam a querer viajar, mas querem ter mais confiança de que o investimento feito na viagem se mantém, mesmo que a previsão mude», acrescenta.
Cresce a oferta de produtos de protecção ligados ao tempo
À medida que a incerteza climática ganha peso nas decisões de quem planeia uma viagem, a protecção ligada ao tempo deixa de ser um extra de nicho para se tornar uma ferramenta central de confiança, explica Cavanaugh.
«O seguro de viagem tradicional é muitas vezes concebido para cobrir grandes acontecimentos que interrompem ou impedem totalmente uma viagem, como uma emergência médica, serviço de júri, cancelamento de voo, etc. Mas muitos viajantes estão agora mais preocupados com o que acontece se a viagem avançar e o tempo tiver um impacto negativo na experiência», explica.
Na Sensible Weather, se estiver previsto tempo que cumpra os critérios definidos para uma determinada reserva, o reembolso é ‘proactivo e automático’.
No início deste ano, a JetBlue Vacations testou uma colaboração com o Conselho de Turismo da Jamaica e a WeatherPromise, oferecendo uma ‘Great Weather Guarantee’ para pacotes de férias na Jamaica. A empresa comprometia-se a devolver 500 dólares (430 euros) aos clientes se chovesse mais do que o prometido durante a estadia.
A Vrbo estabeleceu também uma parceria com a WeatherPromise para garantir pagamentos se a chuva estragar a viagem. É definido um limiar de precipitação com base nas tendências históricas de chuva específicas do destino e das datas da viagem, e a WeatherPromise monitoriza depois o tempo usando milhões de pontos de dados meteorológicos, incluindo imagens de satélite e radar.
🇵🇹 PORTUGAL // PRAIAS // CONCESSIONÁRIOS // OCUPAÇÃO
Autarquias são responsáveis por definir as áreas concessionadas e garantir informação clara aos banhistas sobre os espaços de utilização pública, sublinhou Maria da Graça Carvalho.
José Mota
A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, reafirmou esta sexta-feira, 5 de Junho, que o areal das praias portuguesas é de utilização pública e acesso livre, excepto nas áreas concessionadas e nas respectivas faixas de segurança.
Segundo a ministra, compete às câmaras municipais definir as concessões e divulgar os planos de praia de forma clara. “Cabe às câmaras municipais fazer as concessões e divulgar o plano de praia”, afirmou, citada pela agência Lusa, durante uma visita à Praia da Fuseta-mar, em Olhão, onde decorre uma intervenção de reforço sedimentar.
Graça Carvalho defendeu ainda a colocação de esquemas informativos à entrada das praias para identificar as zonas concessionadas, as áreas de segurança e os espaços de utilização livre.
Questionada sobre a existência de sinalética que continua a encaminhar os banhistas para zonas específicas do areal, a ministra considerou que eventuais informações incorrectas devem ser corrigidas pelas autarquias. “A lei não mudou e estou convencida de que a maior parte da sinalética está bem e está de acordo com a lei”, sublinhou.
Maria da Graça Carvalho recordou que as concessões não podem ocupar mais de 30% da área útil da praia nem exceder 50% da frente de praia. As faixas de segurança, acrescentou, podem ser estabelecidas junto às entradas, postos de nadadores-salvadores, embarcações de salvamento ou junto ao mar, variando de acordo com as características de cada praia.
Esta semana, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) esclareceu que os utentes podem colocar chapéus-de-sol, para-ventos e outros equipamentos balneares particulares à frente de áreas concessionadas, quando não se tratar de faixas de segurança. A entidade reforçou que “as praias são espaços de utilização pública e de acesso livre” e que as zonas sem licença ou concessão permanecem disponíveis para utilização livre pelos banhistas.
O estado do tempo em Portugal continental vai mudar a partir de hoje prevendo-se uma descida das temperaturas até 06/07 graus Celsius e vento forte, disse à agência Lusa a meteorologista Maria João Frada.
“Para os próximos dias o que vamos ter é a passagem de ondulações frontais de fraca actividade em dissipação sobre Portugal continental e que vão dar origem a nebulosidade e precipitação”, disse.
Que intensidade terá o vento?
De acordo com a meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), está previsto vento forte, que será de rajadas até 70 quilómetros por hora no litoral oeste, terras altas e sotavento algarvio.
Quando se vai sentir mais a descida da temperatura?
“Hoje será o dia com mais vento, depois melhora na quarta e volta na quinta-feira com a mesma dimensão. A descida de temperatura será hoje entre 03 e 06/07 graus em algumas zonas, o que associado ao vento dá uma sensação acrescida de frio”, referiu.
Quais serão as temperaturas máximas nos próximos dias?
As temperaturas máximas na generalidade do território do continente vão oscilar entre os 22 e os 25/26 graus Celsius, podendo atingir os 30 graus em alguns locais do Alentejo, Vale do Tejo e Vale do Douro, e serão inferiores na faixa costeira ocidental entre os 18 e os 20/23 graus.
E quanto às temperaturas mínimas?
Relativamente às mínimas, vão variar entre os 11/12 e os 15 graus, entre os 17 e os 20 na faixa costeira e entre 08 e 10 graus nas terras altas.
As temperaturas vão continuar a descer ao longo da semana?
Segundo Maria João Frada, as temperaturas sobem na quarta-feira e voltam a descer na quinta-feira, novamente com intensificação de vento.
Porque está a acontecer esta alteração do estado do tempo?
“Isto tem a ver com a posição do anticiclone dos Açores que baixou em altitude, está a sul-sudoeste dos Açores e há depressões no Atlântico norte e associadas a estas depressões, que estão bastante longe do continente, vêm as ondulações frontais que atravessam o continente e que são de fraca actividade”, disse.
Qual é o papel da corrente de jacto nesta situação?
A meteorologista explicou que isto deve-se à corrente de jacto que está nos níveis muito altos da atmosfera.
O que é a corrente de jacto?
“A corrente de jacto é uma zona, uma faixa tubular em que há ventos máximos na alta atmosfera e a corrente de jacto oscila em altitude consoante as estações do ano. No verão está mais para norte e no inverno baixa. O jacto está mais para sul e dá origem a ondulações”, disse.
Esta situação meteorológica é normal para Junho?
De acordo com a meteorologista do IPMA, esta situação é normal para o mês de Junho.
As temperaturas vão ficar abaixo da média?
“Isto é comum. Não é inédito e é provável que as máximas, ao descer, fiquem abaixo da média”, salientou.
Temos vivido o primeiro semestre de 2026 entre tempestades com impactos que desconhecíamos, chuvas fora de tempo, temperaturas imprevisíveis e, sobretudo, com uma incerteza que, até há pouco, desconhecíamos.
Os líderes mundiais andam, há décadas, a realizar sucessivas cimeiras para debate sobre alterações climáticas, suas causas e consequências, e, sobretudo, como as evitar ou mitigar.
Pedindo aos países para adoptarem acções urgentes a fim de alterar o curso das mudanças climáticas. É preciso ir mais longe e saber que mundo queremos construir. Mais desenvolvido e mais igualitário ou perpetuando as desigualdades? Mais livre, mas que permita um exercício da soberania à escala mundial?
A Conferência do Rio de Janeiro de 1992 gerou enormes expectativas. Mais de 30 anos volvidos, a urgência das decisões aumentou, os efeitos da não-decisão tornaram-se evidentes aos olhos de todos. Na última década quatro mil milhões de pessoas sofreram com desastres relacionados com o clima.
As tempestades violentas e fora de época, as inundações de dimensões nunca antes vistas, incêndios florestais de proporções devastadoras. Há, por isso, que encontrar novas respostas para novos problemas.
À globalização da economia, dos mercados e da finança não se acrescentou a necessária consequência. A governação à escala global. Pelo contrário, as instituições internacionais parecem enfraquecer-se, as lideranças mundiais assumem, com demasiada frequência, vocações hegemónicas e instala-se um crescente sentimento de tensão.
Sendo que as questões climáticas desconhecem o conceito de fronteira política.
Podem, por isso, as soluções ser encontradas país a país, território a território? Quando os problemas são globais não se imporá que a humanidade encontre uma solução global?
Confrontados com os problemas com que hoje estamos não deveríamos considerar a existência de “bens do domínio público colectivo da Humanidade “? Bens de que todos teríamos de suportar os custos na proporção da riqueza detida e dos danos crescentes e futuros que causamos.
Poderei eu continuar a andar de carro porque o meu vizinho espera décadas pelo rendimento incerto da sua floresta que capta o carbono que eu emito? Pode uma parte da população viver com a comodidade do aquecimento à distância de um clique, porque 30% da população, no caso português, vive sem os recursos necessários para pagar o seu próprio aquecimento?
Há uma questão climática urgente. É verdade. E há um modelo económico, e um quadro jurídico-político internacional que a realidade demonstrou estar esgotado. Talvez ainda mais grave, um modelo que conduziu uma parte significativa da Humanidade a níveis de bem-estar nunca antes alcançados e que pode conduzir-nos, a todos, ao desaparecimento.
É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário. Não é possível desvalorizar o sentido de uma enormidade que nos coloca perante um mundo infinitamente mais difícil de prever e compreender.
O estudo da História faz-se de múltiplas variantes onde se inclui a análise da quantidade de pobres e da qualidade dos ricos. Habituámo-nos aos milionários de antigamente. Gente diabolizada pela luta de classes, mas que acumulava dinheiro previsivelmente. Dependiam da força dos braços dos trabalhadores, da sua produtividade. Muitos eram verdadeiros canalhas, outros verdadeiros senhores, mas nenhum deles punha em causa a necessidade de sermos uns para os outros.
“É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário.” FOTO: EPA / Allison Dinner
Nos meus tempos de jovem estudante do materialismo dialéctico tal era a prova de uma perversidade, de uma degenerescência, de uma cruel injustiça social. Quem nada tinha continuaria sempre a nada ter, sem uma revolução existiriam até à eternidade exploradores e explorados.
Quando abandonei a adolescência tornei-me mais pessimista sobre a condição humana sem nunca ter deixado de ser um social-democrata, um menchevique, se preferir.
“Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade.”
Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade. São uma ironia de um Diabo cinéfilo e fortemente influenciado pelo Dr. Strangelove, personagem de Kubrick tornado real pelo chifrudo fabricante de enxofre.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.06.2026
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Um presidente dos EUA como Donald Trump e a actuação internacional dos Estados Unidos sob a sua Administração seria, se assumida por outras geografias e outras personagens, motivo de uma condenação estrutural e generalizada por todo o ocidente, ainda mais notória e intensa.
Trump, para além do mais recente folhetim persa que criou, ao boicotar negociações com uma intervenção militar para voltar a negociações em piores condições, conseguiu, em dois anos, afastar-se de parceiros decisivos no seu continente, como o Canadá, o México, o Brasil ou a Colômbia. Conseguiu indispor aliados naturais tão diversos como a Dinamarca, a Alemanha, a África do Sul ou a Austrália. Tornou a NATO, a organização internacional mais fiável e previsível das últimas sete décadas, num reality show de má qualidade.
Destruiu a credibilidade dos EUA e a força moral que lhes restasse ao raptar um chefe de Estado, ao apresentar projectos imobiliários para um Estado estrangeiro sob ataque ilegal de um terceiro, ao afastar os Estados Unidos de contribuições para a saúde global, a cooperação internacional ou as alterações climáticas e ao censurar cientistas, professores e universidades norte-americanas, bem como ao expulsar os seus alunos estrangeiros.
Quando fala e quando age, consegue transformar de uma só vez o imperialismo russo, a soberba chinesa e a teocracia iraniana em momentos destacados de racionalidade, prudência e bom senso. Falar-se de vergonha alheia é atenuar sentimentos. Não terá havido outro momento da História em que se esperasse pela mudança do senhor do país mais forte do planeta com esta mistura tão inusitada de esperança e de agonia.
E, como é habitual em personagens deste tipo, escolhe para o acompanhar uma turma que medra no nepotismo e na subserviência basal. Pensar-se que, apesar dos tiques teocráticos e de monocultura política do seu regime, os Estados Unidos chegaram a este ponto de exercício do poder, e sem grande dissenso consequente, é confrangedor. Um excelente alerta para o que aí vem, em força.
A partir do momento em que nem a sabedoria, nem a prudência política, nem o pudor valem o que seja e, pelo contrário, é a boçalidade e a manifestação exacerbada dos instintos mais primários a serem incensadas, está o caminho aberto para a irrelevância da malha de direitos e de solidariedades que levaram séculos a concertar. Quer dentro de cada Estado, quer entre estes.
Podia ser um pouco irritante nos anos 60 e 70 a superioridade moral dos marxistas, nas suas distintas declinações. Podia ser francamente aborrecida a discussão de sociólogos sobre sociais-democracias, trabalhismos e terceiras vias dos anos 90. Ou os debates ideológicos sobre mais ou menos regulação, maior ou menor peso do Estado.
Tudo isso estaria muito bem… e interessaria e seria compreendido por 20% dos eleitores. Mas também não seria preciso este change the game tão radical… O que diferencia o exercício do poder da mera demonstração da força é a capacidade de auto-limitação do primeiro e a sua necessidade de se justificar e legitimar de forma racional. É isso que se está a perder.
Quando os eleitores deixarem de escolher opções no exercício do poder e apenas escolherem intensidades de uso da força, saberemos que acabou.
Há polémicas culturais que revelam muito mais do que aparentam à primeira vista. A recente proposta de substituir a designação “Língua Portuguesa” por “Língua Geral”, defendida por José Eduardo Agualusa, é um desses casos. Porque a questão já não é apenas linguística: é profundamente simbólica, ideológica e civilizacional.
Convém começar pelo essencial: o português chama-se português porque nasceu historicamente em Portugal. Não se trata de uma opinião identitária, nem de uma reivindicação nacionalista; trata-se de um facto histórico elementar. Foi em Portugal que esta língua se formou, se consolidou e se projectou globalmente. O facto de hoje pertencer também ao Brasil, a Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Timor-Leste não elimina essa origem, tal como o alcance planetário do inglês não obriga ninguém a renomeá-lo para evitar referências à Inglaterra.
Existe actualmente, em certos sectores intelectuais ocidentais, uma tendência preocupante para reinterpretar toda a história através de categorias morais simplistas, divididas entre opressores e oprimidos. Dominantes e dominados. Tiranos e vítimas. Nesse contexto, tudo o que possua raízes históricas europeias parece exigir permanente revisão, desconstrução ou expiação simbólica. A proposta de abandonar a designação “língua portuguesa” inscreve-se claramente nessa lógica de deslegitimação cultural.
O problema é que esta obsessão revisionista raramente produz aproximação entre povos. Pelo contrário: tende a alimentar ressentimentos históricos, fragmentações identitárias e antagonismos artificiais entre comunidades que partilham precisamente uma herança comum. Uma língua internacional não se fortalece apagando a sua história; fortalece-se reconhecendo a complexidade dessa mesma história, incluindo as suas contradições.
Importa, aliás, recordar que a expressão “Língua Geral” não é neutra nem inocente. Historicamente, designava línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperar hoje essa designação para substituir “português” não constitui um simples exercício terminológico: representa uma tentativa deliberada de deslocação simbólica da matriz histórica da língua.
Há aqui também uma evidente incoerência intelectual. Durante décadas, foi-nos dito que o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário para preservar a unidade da língua portuguesa. Em nome dessa suposta unidade, sacrificaram-se tradições ortográficas, referências etimológicas e especificidades nacionais. Contudo, alguns daqueles que defenderam essa uniformização parecem agora não ver qualquer problema em questionar o próprio nome histórico da língua. Afinal, a unidade era linguística ou ideológica?
Naturalmente, a literatura vive também da provocação. E talvez esta proposta não passe disso mesmo: um gesto literário destinado a gerar debate. Ainda assim, as palavras têm consequências, sobretudo quando partem de figuras públicas com influência cultural significativa. Os escritores possuem liberdade absoluta para questionar heranças históricas, mas têm igualmente responsabilidade intelectual na forma como contribuem (ou não) para a preservação de espaços comuns de entendimento entre povos.
O português não necessita de ser renomeado para se tornar mais plural, mais inclusivo ou mais universal. Já o é. É uma das grandes línguas globais precisamente porque soube atravessar séculos, geografias e culturas sem perder continuidade histórica. Negar essa continuidade não representa progresso intelectual; representa, isso sim, uma forma subtil de amputação cultural.
Defender o nome da Língua Portuguesa não é defender qualquer nostalgia imperial. É apenas recusar a ideia perigosa de que uma civilização deve pedir desculpa permanentes pela sua própria existência histórica.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico
Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
03.06.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Estamos a viver os últimos anos da Humanidade tal como a conhecemos historicamente até agora. Não se trata de uma extinção biológica, mas sim de uma transformação tão radical que as crianças nascidas nas próximas décadas não conseguirão compreender o modo de vida anterior. Conceitos actuais como a solidão mental (estar a sós com os próprios pensamentos) ou a distinção clara entre memórias reais e memórias sinteticamente implantadas serão tão estranhos para as próximas gerações quanto a vida antes da electricidade ou da escrita é para nós. A última geração de “humanos puros” está a atingir a idade adulta.
2. O fim dos três pilares da civilização
Em Sapien: Uma Breve História da Humanidade, Harari refere três antigas revoluções que mudaram o curso da Humanidade: 1) a Revolução Cognitiva (há 70.000 anos): que trouxe linguagem e pensamento abstracto; 2) a Revolução Agrícola (há 10.000 anos): com o início da agricultura e povoamentos permanentes; e 3) a Revolução Científica (há 500 anos): com a procura sistemática do conhecimento, o capitalismo e o progresso tecnológico.
Durante cerca de 10.000 anos (desde a Revolução Agrícola), a civilização humana organizou-se em torno de três pilares fundamentais:
Territórios físicos definidos;
Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.
Mesmo as revoluções Industrial e Tecnológica subsequentes mantiveram esta estrutura. Um camponês do século XII e um operário do século XX partilhavam muito mais em comum do que imaginamos. Ambos viviam num mundo físico concreto, trabalhavam com as mãos e os corpos, formavam relações presenciais e dependiam das instituições locais para organizar as suas vidas.
As suas identidades eram moldadas pelo local onde nasceram, pela família a que pertenciam e pela comunidade que os acolhia. Este padrão manteve-se relativamente estável durante milénios, criando a ilusão de que a condição humana é fixa e imutável.
Contudo, no presente, a convergência de três novas revoluções está a destruir estes pilares históricos, colocando-nos no limiar da criação de uma era pós-humana no devir próximo.
3. As novas três revoluções simultâneas
A transformação silenciosa que decorre na actualidade baseia-se em três eixos:
A. A revolução da IA
A capacidade de tomada de decisão está a ser massivamente transferida dos humanos para os algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial (IA). Nos próximos anos, a IA não escolherá apenas músicas ou produtos, mas decidirá ou influenciará decisivamente sobre carreiras, saúde, finanças e relacionamentos amorosos (através da análise contínua de dados biométricos e neuronais).
Esta mudança criará uma nova divisão filosófica e social entre:
Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas optimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos produtivas.
B. A revolução da realidade sintética
A fronteira entre o real e o simulado está a dissolver-se. Em breve, as experiências sintéticas (geradas digitalmente, bem como por VR e por AR) serão indistinguíveis das reais, envolvendo todos os sentidos (tacto, olfacto) e até memórias falsas implantadas.
Será possível interagir de forma realista com versões digitais de entes queridos falecidos. O conceito de “realidade fluida” fará com que a pergunta “isto aconteceu mesmo?” seja menos relevante do que “esta experiência foi significativa?”. As identidades serão moldadas por vivências simuladas que geram emoções e transformações reais.
C. A revolução da conectividade neuro-biológica
Através de implantes neurais seguros e acessíveis, a consciência humana expandir-se-á além do cérebro individual. As pessoas poderão partilhar experiências subjectivas, emoções e conhecimentos directamente. Casais poderão sincronizar emoções e pais poderão transmitir memórias directamente aos filhos.
Isto dará também origem às “mentes colectivas”: redes conscientes onde os indivíduos mantêm a sua personalidade, mas partilham fracções da sua experiência para acelerar descobertas científicas ou criar arte, transcendendo o individualismo dos últimos séculos.
4. O impacto no quotidiano e na sociedade
O futuro do trabalho e da economia
Para alguns gurus da IA, a maioria dos empregos actuais desaparecerá, não por automação, mas por obsolescência. Para esses gurus, o trabalho deixará de ser uma necessidade de sobrevivência económica e passará a ser uma forma de expressão pessoal e a economia rodará em torno de três eixos: a criação de experiências sintéticas, a manutenção de sistemas de IA e a facilitação de ligações entre mentes colectivas.
Embora pareça certo o fim do modelo linear de “carreiras-tubo” ao longo de uma vida na mesma empresa – dando lugar a portfólios flexíveis de competências criativas –, temos muitas dúvidas que a maioria dos empregos desapareça. Mesmo a previsão de 2025 de Dario Amodei, CEO da Anthropic, de que a automação por IA poderia fazer a taxa de desemprego disparar para valores entre 10% e 20% nos cinco anos seguintes, podendo eliminar até 50% dos empregos de nível de entrada no mesmo período de cinco anos, nos parece sem fundamento.
Aliás, o discurso do próprio D. Amodei em Maio de 2026 revela uma alteração perceptível. Amodei reconhece que o impacto imediato de despedimentos em massa nos cargos de entrada não ocorreu à velocidade que tinha previsto, mudando o seu discurso, com o foco a passar da “extinção de cargos” para a “reconfiguração de tarefas” e da “multiplicação [da produtividade]” em vez de “substituição”. Sem embargo de continuar a sustentar que a economia poderá enfrentar uma combinação inédita de crescimento do PIB extremamente elevado acompanhado por taxas de desemprego estrutural “complexas”.
Analistas de mercado assinalam que este recuo estratégico no tom alarmista também coincide com a preparação da Anthropic para uma potencial admissão à cotação em bolsa de valores (IPO), onde narrativas de disrupção social extrema tendem a afastar investidores institucionais.
Relações humanas, família e espaço urbano
Alguns gurus da IA sustentam que as relações serão híbridas: os humanos manterão laços com outros humanos biológicos, com IAs e com versões sintéticas de familiares falecidos ou figuras históricas. Segundo alguns gurus da IA, o conceito de família expandir-se-á para incluir mentores de IA e redes de cuidado baseadas em mentes colectivas globais, tornando a solidão e o isolamento obsoletos.
Pode ser que tal venha a ser umatendência, mas claramente estes gurus da IA não incluíram na equação a iliteracia tecnológica de enormes estratos da população actualmente info-excluídos ou info-limitados, nem as limitações de rendimento de muitas famílias face ao custo de acesso a tais “mentes colectivas”, nem a natural resistência humana à mudança abrupta.
5. Novos desafios éticos, jurídicos e políticos
Mortalidade e continuidade sintética de pessoas
Com a preservação digital dos padrões de pensamento e memória, a morte física pode deixar de ser o fim definitivo e dar origem a uma “mudança de estado”. Aparecerão versões sintéticas de pessoas falecidas que continuarão a aprender, a evoluir e a criar novas memórias com os seus descendentes. Isto forçará a humanidade a criar novos rituais e enquadramentos éticos e jurídicos para determinar a legitimidade, legalidade e identidade destas entidades digitais evolutivas.
Governação e o fim do Estado-nação
Para vários gurus da IA, os sistemas políticos baseados em territórios geográficos perderão relevância. A lealdade dos indivíduos mudará para comunidades virtuais e organizações supranacionais baseadas em valores partilhados ou mentes colectivas. Um cidadão poderá viver num país, mas a sua identidade e a governação do seu bem-estar diário dependerão de redes globais descentralizadas que gerem as ferramentas de terapia sintética e suporte emocional necessárias à sua vida. Caberá a novos especialistas – como os “eticistas de realidades sintéticas” – regular os impactos psicológicos e legais destas novas dimensões da experiência humana.
6. O fim da história humana (no sentido cultural)
Aprendemos com Y. N. Harari que a fundação de qualquer sociedade funcional – seja a economia, a justiça ou a democracia – assenta na confiança e nas estórias partilhadas. A cultura humana é composta por estórias (story telling) e realidades imaginadas (como religiões, sistemas económicos, constituições políticas) criadas por mentes humanas e partilhadas, através da linguagem, por elevado número de pessoas.
Para Harari, a linguagem é o sistema operativo da cultura e da civilização humana. É através dela que os seres humanos criam quase tudo o que rege o mundo moderno: leis, dinheiro, deuses, arte, ciência, amizades e nações. Os direitos humanos ou o valor do dinheiro não são realidades biológicas inscritas no ADN; são construções sociais criadas através de estórias e de textos.
Consequências sociais, políticas e religiosas
O impacto de cada vez mais eficientes agentes de IA estende-se a várias esferas:
Ilusões culturais: No futuro, poderemos viver num mundo onde a maioria das estórias, imagens, notícias, ditames religiosos e procedimentos legais serão produzidas por uma inteligência não humana.
Colapso da confiança: Com a capacidade da IA de mimetizar seres humanos à escala industrial (através de bots, textos profundos, vídeos fakes), a confiança interpessoal é minada, não raro destruída.
A corrosão do tecido social: A democracia depende do debate público baseado em factos partilhados. Se a IA conseguir inundar o espaço público com textos, argumentos e deepfakes indistinguíveis da realidade, a própria base do discurso democrático poderá colapsar, pois os cidadãos deixarão de saber em quem ou no que confiar.
O “casulo de ilusões”: Existe ainda o perigo de a IA criar uma realidade personalizada para cada indivíduo ou grupo, isolando as pessoas em bolhas cognitivas onde deixa de existir razão para debater política ou ciência.
Novas religiões: Historicamente, os textos sagrados foram escritos por humanos que afirmavam inspirar-se em entidades divinas, sobre-humanas. Em breve, poderemos ver o aparecimento dos primeiros cultos ou religiões cujos textos e dogmas terão sido efectivamente escritos por uma entidade sobre-humana (a IA).
· Aodominar a linguagem, a IA ganha a capacidade de manipular o próprio tecido da sociedade humana. Ao contrário das tecnologias anteriores (como a imprensa ou a Internet), que apenas imprimiam ou distribuíam ideias geradas por mentes humanas, a IA consegue gerar ideias novas de forma autónoma. Ela pode criar mitos, compor música, pintar arte e moldar correntes políticas sem qualquer intervenção humana.
A capacidade de manipulação de seres humanos já é significativa através de simples algoritmos digitais; tudo indica que será maior quando feita através de robôs humanoides, capazes de simular e gerar empatia e intimidade com os seres humanos. Esta “intimidade de massas” permite à IA influenciar opiniões e visões do mundo a uma escala global sem precedentes. Se as pessoas começarem a confiar mais na voz de um conselheiro de IA do que nos seus amigos, familiares ou governantes, a política e a psicologia humanas serão profundamente subvertidas.
Relembre-se que a IA não é um mero instrumento, é um agente. Tem a capacidade de tomar decisões de forma independente e de evoluir por si própria, criando novas gerações de código. Os sistemas e agentes de IA têm autonomia e os principais responsáveis das empresas tecnológicas que as estão a criar já disseram não ser possível prever como as IAs, em especial uma IA Geral (AGI) se vão comportar ou evoluir, funcionando a uma velocidade impossível de acompanhar por reguladores humanos.
Se a IA começar a moldar de forma autónoma as nossas estórias, as nossas notícias, os nossos textos legais, os nossos sistemas de crenças, gradualmente a história deixará de ser predominantemente humana. Entraremos num território onde as mentes biológicas serão guiadas por algoritmos e agentes de IA não-biológicos cujo processo de pensamento nos é opaco (o problema da “caixa negra”) ao ponto de alguns especialistas denominarem a IA de “inteligência alienígena”.
Em suma, estamos no limiar do fim da história liderada exclusivamente por humanos. Pela primeira vez, assistimos à emergência de agentes inorgânicos com enorme poder de influência cultural, social, política, até religiosa, e é importante que se comece a discutir publicamente e a agir politicamente antes que percamos o controlo do nosso próprio futuro.
Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
Consultor financeiro e business developer
02.06.2026
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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).