🇵🇹 OPINIÃO
Para o meu avô paterno, a verdade era o que se lia no jornal O Século – além da Bíblia, claro. Era monárquico e salazarista convicto.
Para o meu padrasto (os meus pais estavam separados judicialmente e eu vivia com o meu pai), a verdade era o que se lia no República. Era ateu e republicano, seduzido pelo charme de aventureiro revolucionário de Humberto Delgado.
A verdade de cada um deles era certa, clara e definitiva. Não havia áreas cinzentas, nem soluções de compromisso. “Situação”, “oposição” ou “Reviralho” eram qualificativos suficientemente claros (mas não insultuosos, nem sequer desrespeitosos) para identificar os campos. Ou se estava de um lado, ou de outro.
Seis décadas depois, a verdade diluiu-se na diversidade das narrativas. Incertas, complexas, controversas, perturbadoras. O espaço público, outrora povoado por homens de convicções, por vezes opostas – António Ferro, Franco Nogueira, Adriano Moreira, António Sérgio, Álvaro Cunhal, Mário Soares e outros – deixou de ser terra firme. Quem acreditava nestes homens, sabia em que acreditava. Confiava.
Hoje, quem confia em líderes políticos é tido, no mínimo, por ingénuo. Flutuando na espuma dos dias, ou atolando-se num pântano de mentiras, calúnias e insultos, em geral, mudam mais vezes de ideias do que de camisa. Pior, não precisam de mudar, já que se transformaram em “cromos”, caricaturas de si próprios, máscaras que tiram e põem para representar os seus papéis.
Os cidadãos já não confiam em ninguém: as palavras, as vozes, as caras – graças à IA –, tudo pode ser falso. Mesmo quando, raramente, ouvimos um discurso político que consideramos estimulante e sensato, logo suspeitamos: “Hmm, este está a tentar enganar-nos!”
A confiança, que se foi erodindo, é um elemento essencial da democracia. E é esta erosão que alimenta bizarras teorias da conspiração: a Terra não é uma esfera, mas um prato. Andam por aí alienígenas disfarçados de seres humanos. A vacina contra a covid-19 não protege contra a doença, antes provoca autismo nas crianças, servindo ainda para os sicários de Bill Gates nos introduzirem no organismo chips que lhes permitem controlar a nossa vida. Tretas imbecis, insusceptíveis de evidência científica, mas que vão fazendo o seu caminho, muito graças às redes sociais.
A desconfiança mina o conhecimento. O progresso da ciência assenta na ideia de refutabilidade. A explicação científica aceite hoje deixa de o ser amanhã, quando outra e melhor explicação a refute. Para tal ser possível, é indispensável que os defensores de uma e outra partilhem do mesmo racional, nomeadamente de uma mesma epistemologia, isto é, concordem entre si quanto ao método adequado para alcançar a verdade.
Nos dias de hoje, a verdade científica é colocada no mesmo plano das crendices, das ideias extravagantes, dos mitos, das manipulações várias – da história, das religiões, etc.
A democracia foi inventada por homens que sabiam o que queriam. Salvem-na de morrer às mãos de idiotas!
Diário de Notícias
João Caupers
Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do ‘Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça’
11.06.2026

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