467: Celebrar Camões

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🇵🇹 OPINIÃO

Há um ano, também por altura do 10 de Junho, escrevi um artigo com o título “Hoje vou chatear-vos com o Camões”. E volta agora a ser verdade. Impõe-se falar de Camões: nesta quarta-feira, que foi Dia de Portugal, data que homenageia o autor d’Os Lusíadas, estreou-se em Lisboa uma ópera dedicada a Luís Vaz de Camões. Tem libreto de Luísa Costa Gomes e música de Luís Tinoco e chama-se Relicário Perpétuo. Destina-se a fazer-nos pensar, mas a dupla de autores, em conversa, garantiu que a ópera também é bem-humorada.

Camões não tem de ser maçador, tem de ser lido e apreciado. Recupero aqui, de novo, um excerto de uma entrevista que fiz em tempos a Manuel Alegre, ele próprio um poeta que como poucos soube evocar Portugal: “É o primeiro grande poeta europeu que vai também ao encontro de outros povos e de outras culturas. Além da cultura extraordinária que ele tem, porque sem a cultura que ele tem não se pode escrever Os Lusíadas, Camões conhecia os gregos, os latinos, conhecia isso tudo. Conhecia a geografia, conhecia aquilo que nessa altura se sabia mesmo sobre a ordem do mundo. Ele viaja o poema, e adquire conhecimento com esses contactos.

É o primeiro poeta europeu que vai realmente ao encontro do mundo, das sete partidas no mundo. E isso dá-lhe uma dimensão verdadeiramente universal. Outra coisa ainda, é que os heróis de Os Lusíadas, ao contrário dos heróis de Homero e de Virgílio, não são heróis fictícios, nem inventados. Os heróis de Os Lusíadas são heróis de carne e osso. É o povo. É o Gama, mas é o povo, o povo português.”

A estátua de Luís Vaz de Camões, ao cimo do Chiado, em Lisboa, é ponto de paragem para os circuitos turísticos da capital.
Foto: Gustavo Bom / Arquivo DN

Poeta, homem do mundo, um olho perdido em Marrocos, uma namorada na China, um naufrágio no Vietname, combates na Índia e nas ilhas que hoje são a Indonésia, dois anos passados na ilha de Moçambique. Como não me canso de dizer, Shakespeare e Cervantes são geniais, e mais ou menos da mesma época, mas não viram aquilo que Alegre chama “as sete partidas do mundo”. Camões, pela epopeia, mas também pela lírica, pela cultura e pela experiência de vida que mostra na sua obra, merece ser lido e, primeiro que tudo, pelos portugueses. Temos de ser nós os primeiros leitores de Camões.

Conheci alguns tradutores d’ Os Lusíadas, e é fascinante pensar como uma russa ou um tunisino aprendem a nossa língua e levam anos a passar para os seus idiomas os tais “mares nunca dantes navegados”. Sei que há quem tenha memórias complicadas da análise dos Cantos na sala de aula. Pequenos traumas escolares . Ler Camões, ou quem quer que seja, por obrigação traz riscos. Felizmente, muitos demos uma segunda oportunidade e depois percebemos o mérito dos nossos professores em nos quererem dar a conhecer essas obras-primas da literatura.

Que sejamos, pois, todos leitores de Camões. E atrevo-me até a recomendar a recente biografia que Isabel Rio Novo publicou do poeta, que nos mostra uma personagem extraordinária. E também recordo um outro livro de grande arrojo, Os Lusíadas convertidos para o português de hoje, com notas, um trabalho de Virgílio C. Dias.

“Camões, pela epopeia, pela lírica, pela cultura e também pela experiência de vida que mostra na sua obra, merece ser lido e, primeiro que tudo, pelos portugueses.”

No Luxemburgo, que este ano dividiu com a Terceira as celebrações oficiais do 10 de Junho, o Presidente António José Seguro evocou Camões. E relembrou que este escreveu Os Lusíadas quando andava pelo mundo. Pensando na nossa diáspora, o Presidente sublinhou: “Talvez só se veja um país inteiro quando se está suficientemente longe dele.”

O Presidente voltou, nesta quarta-feira, já em Angra do Heroísmo, a evocar Camões no seu discurso do Dia de Portugal, e muito bem: “Celebramos Luís de Camões, talvez a expressão mais poderosa da consciência portuguesa. Porque nenhum outro poeta escreveu tão profundamente aquilo que fomos, aquilo que desejámos ser e aquilo que continuamos a procurar.

Depois de Camões, nenhuma cultura europeia produziu um poema nacional com semelhante densidade humana, simbólica e histórica. Evocar a figura e a obra de Luís de Camões não significa escolher o passado e, muito menos, permanecer nele. Significa reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para o nosso modo de ser atual e para nos prolongarmos como povo.”

Devemos muito a Camões, sem dúvida. E se somos, ou devíamos ser, todos leitores de Camões, não posso deixar de elogiar aqui o trabalho dos Leitores do Camões, pessoas que são promotoras da língua e da cultura portuguesas no mundo. O Camões aqui é o Instituto Camões, sob tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros. E assegurar dignas condições de trabalho e de vida a estes portugueses que de Cáceres a Seul, de Toronto a Pretória, de Guadalajara a Nova Deli tanto fazem pela língua de Camões (a nossa, que é a de quase 300 milhões de pessoas), deve ser uma preocupação do país.

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Director-adjunto do Diário de Notícias
11.06.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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One thought on “467: Celebrar Camões

  1. Pena que escritores, comentadeiros, poetas, cronistas e afins, tenham adoptado o famigerado acordo ortográfico que deturpa a Língua Portuguesa, a de Camões.

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