38: Os astrónomos pensavam que o Universo primitivo estava repleto de hidrogénio. Agora, encontraram-no

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Astrónomos, utilizando dados do HETDEX (Hobby–Eberly Telescope Dark Energy Experiment), descobriram dezenas de milhares de gigantescos halos de gás hidrogénio, denominados “nebulosas Lyman-alfa”, que rodeavam galáxias há 10 a 12 mil milhões de anos. Conhecida como “meio-dia cósmico”, esta é uma época no início do Universo em que as galáxias cresciam ao ritmo mais acelerado. Para impulsionar este crescimento, teriam precisado de ter acesso a vastas reservas de hidrogénio gasoso, um elemento fundamental para a formação das estrelas. No entanto, até recentemente, os astrónomos tinham encontrado apenas um punhado destas estruturas essenciais.

Um enorme halo de gás hidrogénio identificado nos dados do HETDEX (Hobby-Eberly Telescope Dark Energy Experiment) e sobreposto à sua localização, tal como se vê nas imagens de grande profundidade do Telescópio Espacial James Webb. Existindo há 11,3 mil milhões de anos, este sistema brilha com a luz combinada de muitas galáxias que o compõem, sendo a região mais brilhante representada a vermelho. Utilizando dados do HETDEX, os astrónomos aumentaram o número conhecido destes halos em mais de dez vezes – de cerca de 3.000 para mais de 33.000.
Crédito: Erin Mentuch Cooper (HETDEX), imagem do Webb – NASA, ESA, CSA, STScI

Um novo estudo publicado na revista The Astrophysical Journal aumentou agora o número conhecido de halos de hidrogénio em dez vezes: de cerca de 3000 para mais de 33.000. Isto confirma as suspeitas de que não se trata de curiosidades raras. O estudo também amplia a gama de tamanhos conhecidos, fornecendo uma amostra mais representativa para os astrónomos estudarem à medida que continuam a desvendar a origem e a evolução das primeiras galáxias.

“Temos vindo a analisar o mesmo punhado de objectos nos últimos 20 anos”, afirmou Erin Mentuch Cooper, gestora de dados do HETDEX e autora principal do estudo. “O HETDEX está a permitir-nos encontrar muitos mais destes halos e a medir as suas formas e tamanhos. Permitiu-nos realmente criar um catálogo estatístico incrível”.

O gás hidrogénio é notoriamente difícil de detectar porque não emite luz própria. No entanto, se estiver próximo de um objecto que emita muita energia – por exemplo, uma galáxia ou um grupo de galáxias repleto de estrelas emissoras de radiação UV -, essa energia pode fazer com que o hidrogénio brilhe. Para detectar isto, é necessário dedicar muito tempo a instrumentos de precisão, que são frequentemente muito procurados.

Embora estudos astronómicos anteriores tenham encontrado alguns destes halos, os seus instrumentos só conseguiam captar os exemplos mais brilhantes e extremos. E as observações direccionadas para as galáxias primitivas são normalmente tão ampliadas que excluem todos os halos, excepto os mais pequenos. Como resultado, tudo o que se encontra entre os pequenos e os gigantes permaneceu indetectável.

As observações do HETDEX estão a começar a preencher esta lacuna. Utilizando o Telescópio Hobby-Eberly no Observatório McDonald, está a mapear a posição de mais de um milhão de galáxias na sua busca para compreender a energia escura. “Captámos quase meio petabyte de dados não só sobre estas galáxias, mas também sobre as regiões entre elas”, afirmou Karl Gebhardt, investigador principal do HETDEX, presidente do departamento de astronomia da Universidade do Texas em Austin e coautor do artigo científico. “As nossas observações abrangem uma região do céu com mais de 2000 Luas Cheias. O âmbito é enorme e sem precedentes”.

“O Telescópio Hobby-Eberly é um dos maiores do mundo”, acrescentou Dustin Davis, investigador de pós-doutoramento na UT Austin, cientista do HETDEX e co-autor do estudo. “E o instrumento utilizado pelo HETDEX produz 100.000 espectros em cada observação. Por isso, temos enormes quantidades de dados e há todo o tipo de coisas interessantes, divertidas e estranhas à espera de serem descobertas”.

Os halos recém-revelados medem entre dezenas de milhares e centenas de milhares de anos-luz de diâmetro. Alguns são tão simples quanto uma nuvem em forma de bola de futebol a envolver uma única galáxia. Outros são manchas irregulares e extensas que contêm múltiplas galáxias. “Esses são os mais divertidos”, disse Mentuch Cooper. “Parecem amebas gigantes com tentáculos a estenderem-se pelo espaço”.

Para as encontrar, a equipa seleccionou as 70.000 mais brilhantes das mais de 1,6 milhões de galáxias primitivas que foram identificadas pelo HETDEX até agora. Com a ajuda de supercomputadores do TACC (Texas Advanced Computing Center), procuraram ver quantas delas apresentavam indícios de um halo circundante: uma região central compacta de hidrogénio e uma nuvem mais fina que se estende para além dela.

Quase metade apresentavam. Além disso, esta fracção é provavelmente uma subestimação, explicou Mentuch Cooper. “Suspeitamos que os sistemas mais ténues simplesmente não sejam suficientemente luminosos para revelar plenamente o seu tamanho”. A equipa espera que a sua descoberta ajude outros a estudar o Universo primitivo: como as suas estruturas evoluíram, a distribuição da matéria, o movimento dos objectos e muito mais. Com 33.000 halos para estudar, o problema já não será onde encontrá-los, mas sim qual escolher.

“Existem vários modelos para as galáxias nesta época que funcionam em grande parte e parecem fazer sentido, mas há lacunas e falhas”, explicou Davis. “Agora podemos concentrar-nos em halos individuais e ver com maior detalhe a física e a mecânica do que se passa. E depois podemos corrigir ou descartar os modelos e tentar novamente”.

// HETDEX (comunicado de imprensa)
// Observatório McDonald (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal)

CCVALG
10.04.2026

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37: Primeira luz do PoET: iluminando com a luz do Sol a investigação de exoplanetas

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O PoET (Paranal solar ESPRESSO Telescope), instalado no Observatório do Paranal do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, realizou as suas primeiras observações. O telescópio irá trabalhar com o instrumento ESPRESSO do ESO para estudar o Sol com todo o detalhe.

Descrito como um telescópio solar preparado para trabalhar em conjunto com instrumentos que procuram planetas, o PoET tem como objectivo compreender como é que a variação da luz de estrelas como o Sol pode mascarar a presença de planetas que orbitam em seu redor, ajudando-nos assim na busca de mundos fora do Sistema Solar.

O telescópio principal do PoET
(Créditos: ESO)

Um dos maiores desafios na detecção de outras Terras em órbita de outros Sóis é o “ruído” astrofísico proveniente das suas estrelas progenitoras“, explica Nuno Santos, Investigador Principal do PoET, a trabalhar no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “As observações do PoET poderão ser fundamentais para a descoberta e caracterização de exoplanetas, que possam estar escondidos neste ruído.

Os exoplanetas — planetas exteriores ao nosso Sistema Solar — são, na sua maioria, detectados e estudados através da análise da radiação emitida pela sua estrela progenitora, muitas vezes observando pequenas alterações no espectro da estrela (a luz dividida nas cores, ou frequências, que a constituem). No entanto, a actividade estelar pode produzir sinais que abafam, ou até imitam, os sinais que esperamos de um planeta em órbita.

Tal como as manchas solares alteram a luz solar, a actividade na superfície doutras estrelas distorce o seu espectro duma forma que pode ser medida como ruído com os actuais instrumentos que utilizamos para detectar exoplanetas. Mas remover este ruído dos espectros de estrelas distantes é algo difícil, porque não compreendemos totalmente como é que a actividade estelar altera a luz observada. Assim, a solução passa por tirar partido e aprender com a nossa estrela mais próxima, o Sol.

O PoET foi concebido para observar o Sol e utilizá-lo para compreender melhor os espectros de estrelas distantes. Esta infra-estrutura possui um telescópio com um espelho de 60 centímetros de diâmetro, para capturar a luz do Sol em áreas específicas da sua superfície, tais como manchas solares individuais, e analisar sinais da actividade solar. O PoET inclui ainda um telescópio mais pequeno que captura a luz de toda a superfície visível, ou seja, de todo o disco solar.

Seremos capazes de analisar regiões muito específicas do Sol com uma resolução muito elevada, de um modo nunca feito anteriormente“, afirma Alexandre Cabral, co-Investigador Principal do PoET e investigador no IA e na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Ao observar em simultâneo tanto o disco solar como zonas individuais da superfície do Sol, os astrónomos podem determinar com exactidão como é que a actividade solar altera o espectro solar, informação esta que, por sua vez, pode ser utilizada para remover com precisão o ruído proveniente de estrelas distantes que possam ter exoplanetas na sua órbita.

Para garantir que o Sol possa ser comparado com estrelas do mesmo tipo mas distantes, a equipa necessita dum instrumento bastante preciso concebido para investigar exoplanetas. “O ESPRESSO é o melhor instrumento nesta área e foi, por isso, a escolha óbvia“, afirma Nuno Santos.

Por ser um espectrógrafo extremamente preciso e de alta resolução, o ESPRESSO consegue detectar pequenas alterações nos espectros das estrelas, o que é normalmente usado para encontrar ou caracterizar os planetas que as orbitam. Este instrumento que procura exoplanetas ao observar estrelas distantes durante a noite, e que se encontra instalado no Very Large Telescope (VLT) do ESO, será agora utilizado também durante o dia, em conjunção com o PoET, para analisar espectros solares.

É extremamente vantajoso ter o ESPRESSO a funcionar desta forma. Ao alternar entre o VLT durante a noite e o PoET durante o dia, maximizamos a utilização deste instrumento para nos ajudar a encontrar e caracterizar exoplanetas“, afirma Alain Smette, do ESO, astrónomo da equipa de operações do VLT e pessoa de contacto no ESO para o PoET. “Graças à localização excepcional do Observatório do Paranal, esperamos que o número de dias disponíveis com condições meteorológicas adequadas para a observação do Sol seja muito semelhante ao das observações nocturnas.”

O PoET concluiu com sucesso, no início de Abril, as primeiras observações de teste, um processo conhecido como “primeira luz”, no Observatório do Paranal, no deserto chileno do Atacama. As primeiras observações revelaram que o sistema está a funcionar de acordo com as suas especificações e é capaz de obter espectros tanto do disco solar na sua totalidade como de áreas específicas do mesmo. Nas próximas semanas, a equipa irá testar e optimizar o sistema, antes de dar início às observações científicas.

O PoET foi concebido e desenvolvido em Portugal, com financiamento do Conselho Europeu de Investigação [1]. Uma equipa de 12 investigadores portugueses esteve presente na instalação e nos testes do telescópio solar. Alguns componentes do PoET, incluindo o telescópio principal, foram construídos em Itália, enquanto a cúpula do telescópio foi construída por uma empresa chilena.

O projecto está agora a ser operado remotamente a partir do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto. Os dados do PoET analisados pelo ESPRESSO estarão disponíveis à comunidade científica através do Arquivo Científico do ESO.

Notas

[1] O telescópio PoET foi financiado pela União Europeia (ERC, FIERCE, 101052347).

ESO – European South Observatoey
Nota de Imprensa
09.04.2026

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36: Eis cinco coisas que a sonda JUICE revelou sobre o cometa 3I/ATLAS

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Em Novembro de 2025, a JUICE (Jupiter Icy Moons Explorer) encontrava-se no local certo, na altura certa e com o equipamento ideal para observar o cometa interestelar 3I/ATLAS logo após a sua aproximação máxima ao Sol. As equipas de operações da missão activaram cinco dos instrumentos científicos da JUICE para recolher informações sobre o comportamento do cometa activo naquele momento.

Observações do cometa 3I/ATLAS pela câmara JANUS da JUICE, no dia 5 de Novembro de 2025, quando o cometa se encontrava a 64 milhões de km da sonda. O comprimento da cauda que se estende na direcção oposta ao Sol parece ser de cerca de 6 milhões de km.
Crédito: ESA/JUICE/JANUS

Após uma espera de três meses para receber os dados cá na Terra, os cientistas que trabalham com cada um destes instrumentos passaram as últimas semanas a analisar as fotografias, os espectros e os números. Os resultados ainda são preliminares, o trabalho continua, mas eis cinco coisas que já aprenderam.

Os instrumentos científicos da sonda JUICE
Crédito: ESA

1. O cometa estava a libertar o equivalente a 70 piscinas olímpicas de vapor de água todos os dias

No dia 2 de Novembro de 2025, apenas quatro dias depois do 3I/ATLAS ter feito a sua aproximação máxima ao Sol, o MAJIS (Moons And Jupiter Imaging Spectrometer) da JUICE detectou que o cometa estava a expelir 2000 kg de vapor de água por segundo – o equivalente a 70 piscinas olímpicas por dia.

Os cometas – fazendo jus à sua alcunha de “bolas de neve sujas” – são compostos principalmente por gelo. À medida que se aproximam do Sol, este gelo transforma-se em gás e escapa do cometa. A quantidade de vapor de água que saía do 3I/ATLAS não é excepcional, mas situa-se na gama superior do que seria de esperar de um cometa próximo do Sol, com base no que já se observou anteriormente em cometas como o 67P (300 kg por segundo) e o Halley (20.000 kg por segundo).

Estes valores dependem muito do tamanho do cometa e da sua distância em relação ao Sol. O MAJIS voltou a detectar o 3I/ATLAS nos dias 12 e 19 de Novembro, enquanto este se afastava do Sol. A 12 de Novembro, a quantidade de vapor de água libertada pelo cometa não parecia ter diminuído significativamente. A equipa responsável pelo instrumento tenciona analisar os dados de 19 de Novembro nas próximas semanas.

Observações infravermelhas, pelo MAJIS, do cometa 3I/ATLAS, sobrepostas a uma imagem da câmara de navegação da JUICE. O instrumento detectou vapor de água e dióxido de carbono a serem libertados pelo cometa.
Crédito: ESA/JUICE/MAJIS

2. A maior parte deste vapor de água estava a ser libertado na direcção do Sol

O SWI (Submillimeter Wave Instrument) da JUICE também detectou vapor de água proveniente do 3I/ATLAS, revelando que a maior parte estava a ser libertado do lado do cometa voltado para o Sol. Parece também que grande parte deste vapor de água não provém, na verdade, directamente da parte sólida do cometa (o seu núcleo), mas sim de grãos de poeira gelada que escaparam para um halo circundante de poeira e gás (a sua cabeleira).

A equipa do SWI continua a analisar os dados para determinar a quantidade de água “leve” (H₂O normal) que o 3I/ATLAS estava a libertar. É interessante comparar isto com a quantidade de água “semi-pesada” (HDO) do cometa, que foi medida pelos telescópios ALMA e Webb. Esta proporção é um número muito importante nos estudos do Universo, fornecendo uma espécie de “impressão digital” que descreve como e onde um objecto se formou.

O ALMA e o Webb constataram que esta proporção era inesperadamente e extremamente elevada no caso do 3I/ATLAS – possivelmente porque o cometa se formou num ambiente muito frio e muito antigo, onde esteve exposto a uma grande quantidade de radiação ultravioleta proveniente de estrelas jovens. A equipa do SWI está a investigar se os dados da JUICE corroboram estas conclusões.

3. O gás e a poeira estendem-se pelo menos 5 milhões de km a partir do núcleo do cometa

O UVS (Ultraviolet Imaging Spectrograph) da JUICE captou luz proveniente de átomos de oxigénio, hidrogénio e carbono no gás e na poeira que rodeiam e seguem o cometa. O oxigénio, o hidrogénio, o carbono e a poeira emitem fotões em comprimentos de onda específicos, que o UVS registou como contagens por segundo.

O UVS observou estes elementos gasosos e poeira a estenderem-se por mais de 5 milhões de km a partir do núcleo do 3I/ATLAS. O gás e a poeira são comuns em torno de cometas activos, com caudas que por vezes atingem até 10 milhões de km de comprimento.

Concentrações de oxigénio, hidrogénio, carbono e poeira medidas pelo instrumento UVS da sonda JUICE no cometa 3I/ATLAS.
Crédito: ESA

4. Este cometa interestelar parece-se… tal e qual um cometa normal!

A câmara científica de alta resolução da sonda JUICE, a JANUS (Jovis Amorum ac Natorum Undique Scrutator – latim para “Observador de Júpiter, de todos os seus amores e descendentes”), também observou o 3I/ATLAS a expelir gás e poeira.

O cometa 3I/ATLAS visto através de filtros vermelho até violeta. No filtro vermelho (que parece laranja neste GIF), o centro brilhante da cabeleira é mais compacto e há duas caudas – uma a descer em linha recta e outra mais difusa que se estende para a parte inferior esquerda. No filtro violeta (que parece azul neste GIF), a cabeleira é maior, mas mais fraca, e apenas uma cauda se destaca claramente. As diferenças surgem porque diferentes partículas de gás e poeira libertam ou reflectem luz em comprimentos de onda diferentes.
Crédito: ESA

Apesar de estar a mais de 60 milhões de km do 3I/ATLAS, a JANUS revela claramente a cabeleira na qual o núcleo se esconde, bem como duas caudas. Uma cauda estende-se para longe do Sol, e a outra segue a trajectória percorrida pelo cometa através do Sistema Solar. Também podemos ver formas mais ténues dentro da cabeleira e das caudas que indicam vários processos e interacções com a radiação, as partículas e o campo magnético do Sol. A equipa da JANUS está actualmente a investigar estas formas com mais detalhe.

Em geral, a JANUS mostra que, apesar da sua origem interestelar, o cometa 3I/ATLAS se comportava como um cometa típico do Sistema Solar durante uma aproximação ao Sol.

5. O 3I/ATLAS está a apoiar os esforços de defesa planetária – mas talvez não da forma que se possa pensar

A NavCam (Navigation Camera) da JUICE foi especialmente concebida para ajudar a sonda a navegar em torno das luas geladas de Júpiter após a sua chegada em 2031. O encontro com o 3I/ATLAS permitiu fazer algo totalmente inesperado com ela.

Os cientistas já utilizaram telescópios na Terra e arredores para estimar a localização e a trajectória do cometa 3I/ATLAS através do Sistema Solar. Parece vir da direcção do disco da Via Láctea e, por isso, foi provavelmente formado há mais de 10 mil milhões de anos.

A NavCam teve uma visão muito mais próxima do 3I/ATLAS, a partir de um ângulo diferente do dos telescópios terrestres, e numa altura em que o cometa não era visível a partir da Terra. Isto significou que a equipa de Defesa Planetária da ESA pôde alinhar imagens da NavCam ao longo de Novembro para ter uma ideia mais clara da posição e trajectória variáveis do cometa.

Desta forma, a equipa – que normalmente rastreia asteróides potencialmente perigosos – demonstrou o quão poderosas podem ser as observações de missões no espaço profundo para calcular com precisão as órbitas de cometas ou asteróides que não podem ser vistos imediatamente a partir da Terra.

Além disso, como a trajectória de um cometa é ligeiramente afectada pela libertação de poeira e gás, a equipa está a começar a utilizar as medições de trajectória baseadas nas imagens da NavCam para compreender que materiais – e em que quantidade – o cometa está a deixar no seu rasto.

A NavCam teve uma vista muito mais próxima do 3I/ATLAS, a partir de um ângulo diferente do dos telescópios terrestres, e numa altura em que o cometa não era visível a partir da Terra. Isto significou que as imagens da NavCam captadas ao longo de Novembro de 2025 puderam ser alinhadas para se ter uma ideia mais clara da evolução da posição e da trajectória do cometa.
Crédito: ESA/JUICE/NavCam

O que se segue para a JUICE?

As equipas responsáveis pelos instrumentos vão continuar a analisar os dados, estando muitas delas a planear publicar artigos científicos acerca dos seus resultados nos próximos meses.

“O 3I/ATLAS é um visitante raro e inesperado; a sua chegada foi uma surpresa total”, afirma Olivier Witasse, cientista do projecto JUICE da ESA. “Mas quando nos demos conta que a JUICE estaria perto do cometa na altura da sua aproximação máxima ao Sol, percebemos que esta era uma oportunidade única para recolher um conjunto de dados que só se tem uma vez na vida”.

Ele continua: “Observar o cometa foi um desafio, sem garantias de sucesso, mas, no final, acabou por ser um grande bónus para a JUICE durante a sua viagem até Júpiter”.

A distância mínima a que a JUICE chegou de 3I/ATLAS foi de cerca de 60 milhões de km, enquanto vai observar as luas de Júpiter a apenas algumas centenas de quilómetros de distância. Mesmo assim, tendo sido concebidos e equipados para estudar luas geladas, os instrumentos da JUICE revelaram-se perfeitos para o cometa interestelar gelado.

Ainda temos de esperar cinco anos até que a JUICE chegue a Júpiter em 2031, mas todos os seus instrumentos serão ligados novamente em Setembro de 2026, quando a JUICE regressar à Terra para outra manobra de assistência gravitacional.

“Os dados que já estamos a ver dos instrumentos da JUICE são realmente promissores”, afirma a co-cientista do projecto Claire Vallat. “Estamos cada vez mais entusiasmados com o bom funcionamento dos instrumentos e com o quanto iremos revelar sobre Júpiter e as suas luas geladas na década de 2030”.

// ESA (comunicado de imprensa)

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07.04.2026

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35: Descoberta a estrela mais pristina do Universo conhecido

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Uma equipa invulgar de astrónomos utilizou dados do SDSS-V (Sloan Digital Sky Survey-V) e observações realizadas com os telescópios Magellan, no Observatório Las Campanas do Instituto Carnegie, no Chile, para descobrir a estrela mais pristina do Universo conhecido, denominada SDSS J0715-7334. O seu trabalho foi publicado na revista Nature Astronomy.

Ilustração (não à escala) da gigante vermelha SDSS J0915-7334, que nasceu perto da Grande Nuvem de Magalhães e que agora viajou para residir na via Láctea.
Crédito: Navid Marvi/Instituto Carnegie

Liderada por Alexander Ji, da Universidade de Chicago – antigo bolseiro de pós-doutoramento dos Observatórios Carnegie – e incluindo a astrofísica de Carnegie, Juna Kollmeier – que lidera o SDSS, agora na sua quinta geração -, a equipa de investigação identificou uma estrela pertencente à segunda geração de objectos celestes no cosmos, que se formou apenas alguns milhares de milhões de anos após o início do Universo.

“Estas estrelas pristinas são janelas para o alvorecer das estrelas e galáxias no Universo”, explicou Ji. Vários dos seus co-autores e de Kollmeier, no artigo científico, são estudantes da Universidade de Chicago, que Ji levou a Las Campanas numa viagem de observação durante as férias da primavera do ano passado. “Foi na minha primeira visita ao LCO que me apaixonei verdadeiramente pela astronomia, e foi especial partilhar uma experiência tão formativa com os meus alunos”.

O Big Bang deu origem ao Universo como uma sopa quente e opaca de partículas energéticas. Com o tempo, à medida que este material se expandia, começou a arrefecer e a coalescer em gás hidrogénio neutro. Algumas zonas eram mais densas do que outras e, após algumas centenas de milhões de anos, a sua gravidade superou a trajectória de expansão do Universo e o material colapsou para dentro. Isto deu origem à primeira geração de estrelas, que se formaram apenas a partir de hidrogénio e hélio pristinos.

Estas estrelas arderam intensamente e morreram jovens, mas não sem antes produzirem novos elementos nos seus núcleos, que foram espalhados pelo cosmos pelas suas explosões no fim da vida. E a partir desses detritos, nasceram novas estrelas, que agora continham uma variedade mais ampla de elementos do que as suas antecessoras.

“Todos os elementos mais pesados do Universo, a que os astrónomos chamam metais, foram produzidos por processos estelares – desde reacções de fusão que ocorrem no interior das estrelas até explosões de super-nova e colisões entre estrelas muito densas”, afirmou Ji. “Assim, encontrar uma estrela com muito pouco teor de metais indicou a este grupo de estudantes que tinham encontrado algo muito especial”.

Astrónomos como Ji e Kollmeier estão interessados em encontrar estrelas antigas de segunda e terceira gerações após o Universo ter desenvolvido a sua estrutura pela primeira vez. Isto revelaria como a formação estelar mudou ao longo dos milénios que se seguiram.

“Temos de olhar para o nosso quintal cósmico para encontrar estes objectos, porque ainda não conseguimos observar estrelas individuais no início da formação estelar. Uma vez que estas estrelas são raras, levantamentos como o SDSS-V são concebidos para ter o poder estatístico de encontrar estas ‘agulhas no palheiro’ estelar e testar as nossas teorias sobre a formação e explosão de estrelas”, explicou Kollmeier.

O SDSS tem sido um dos projectos de levantamento mais bem-sucedidos e influentes da história da astronomia, e a sua quinta geração, liderada por Kollmeier, recolhe milhões de espectros ópticos e infravermelhos em todo o céu. Este esforço pioneiro utiliza tanto o telescópio du Pont em Las Campanas, no hemisfério sul, como o Observatório Apache Point, no estado norte-americano do Novo México, no hemisfério norte.

O telescópio du Pont no Observatório Las Campanas, mapeia os céus do hemisfério sul como parte do SDSS-V.
Crédito: Charlie Hull/Instituto Carnegie

A riqueza dos dados do SDSS-V permitiu a Ji e aos seus alunos identificar estrelas com muito poucos elementos pesados. Depois, em Las Campanas, utilizaram os telescópios Magellan de última geração para obter espectros de alta resolução destas candidatas. Surpreendentemente, a magia aconteceu nas primeiras horas da manhã, na sua primeira sessão de observação com o Magellan, e SDSS J0715-7334 foi confirmada como o novo padrão de excelência em termos de pureza estelar.

“O ecossistema de telescópios em Las Campanas foi fundamental para quase todos os aspectos deste trabalho inovador, desde os dados du Pont recolhidos como parte dos esforços de mapeamento da Via Láctea do SDSS-V até às observações do Magellan que mostraram exactamente o quão especial SDSS J0715-7334 realmente é”, afirmou Michael Blanton, Director dos Observatórios Científicos Carnegie.

Las Campanas alberga quatro telescópios Carnegie, e este projecto fez uso espectacular de dois deles, demonstrando como as inovações na instrumentação podem impulsionar descobertas ao longo de toda a vida útil de um telescópio.

Esta interligação é bem ilustrada pelo itinerário de Ji e dos alunos em Las Campanas. Na noite da sua chegada, visitaram o telescópio du Pont para ver os observadores do SDSS-V a trabalhar arduamente na recolha de novos dados que serão adicionados ao enorme volume de recursos do projecto para astrónomos amadores e profissionais. Na noite seguinte, fizeram as suas próprias observações no telescópio Magellan Clay.

Felizmente, após a descoberta, Ji conseguiu reorganizar o resto do semestre para que os alunos pudessem dedicar o seu tempo a aprofundar a sua descoberta – um exemplo prático para os seus alunos de como a capacidade de se adaptar é fundamental para alcançar avanços científicos.

“Quando era estudante universitário, preferia muito mais fazer investigação do que assistir a aulas. Estou encantado pela disciplina do Alex se ter transformado num currículo de descoberta e gostaria de garantir que levantamentos como o SDSS-V e o Gaia tenham o poder de tornar isso a norma e não a excepção”, disse Kollmeier.

Uma análise mais aprofundada dos espectros do Magellan revelou que possui menos de 0,005% do teor de metais do Sol. É duas vezes mais pobre em metais do que a anterior detentora do recorde de estrela mais pristina e apresenta abundâncias particularmente baixas de ferro e carbono. Na verdade, é 40 vezes mais pobre em metais do que a estrela mais pobre em ferro conhecida.

Ao incorporar dados da missão Gaia da ESA, os estudantes também conseguiram determinar que SDSS J0715-7334 – situada a cerca de 80.000 anos-luz da Terra – nasceu noutro local e foi atraída para a nossa Galáxia, a Via Láctea, ao longo do tempo.

“Formar a próxima geração de astrónomos é fundamental para o futuro da nossa área. E despertar o entusiasmo pela prática da ciência através da realização de projectos como este é uma excelente forma de garantir que jovens estudantes curiosos se possam identificar com a astrofísica”, concluiu Ji. “O meu tempo como pós-doc em Carnegie foi crucial para o meu crescimento profissional e estou entusiasmado por ter podido retribuir essa experiência, levando os meus alunos a Las Campanas”.

// Instituto Carnegie (comunicado de imprensa)
// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv)

CCVALG
07.04.2026

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34: Como é que isto aconteceu? Um planeta gigante orbita uma estrela pequena

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Observações de um exoplaneta altamente invulgar, TOI-5205 b – por vezes denominado “proibido” -, realizadas pelo Telescópio Espacial James Webb, sugerem que a sua atmosfera contém menos elementos pesados do que a estrela hospedeira. Estas descobertas têm implicações para a nossa compreensão do processo de formação de planetas gigantes que ocorre nas fases iniciais da vida de uma estrela.

Impressão de artista do gigante gasoso TOI-5205 b em órbita de uma pequena e fria estrela vermelha.
Crédito: Katherine Caine, Instituto Carnegie

Publicadas a semana passada na revista The Astronomical Journal, estas descobertas representam o trabalho colaborativo de uma equipa internacional de astrónomos liderada por Caleb Cañas, do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, e que inclui Shubham Kanodia, do Instituto Carnegie.

TOI-5205 b é um planeta do tamanho de Júpiter que orbita uma estrela que, por sua vez, tem cerca de quatro vezes o tamanho de Júpiter e cerca de 40 por cento da massa do Sol. Quando passa à frente da sua estrela hospedeira – um fenómeno a que os astrónomos chamam “trânsito” -, o planeta bloqueia cerca de 6% da sua luz. Ao observar este trânsito com instrumentos telescópicos chamados espectrógrafos, que dividem a luz nas suas cores constituintes, os astrónomos podem tentar decifrar a composição atmosférica do planeta e aprender mais sobre a sua história e relação com a sua estrela hospedeira.

Os planetas nascem do disco giratório de gás e poeira que rodeia uma estrela na sua juventude. Embora seja geralmente aceite que os planetas gigantes se formam nestes discos resultantes do nascimento da estrela-mãe, a existência de planetas massivos como TOI-5205 b em órbita de estrelas frias a distâncias próximas levanta muitas questões sobre este processo.

Para esclarecer melhor esta questão, Kanodia, Cañas e Jessica Libby-Roberts, da Universidade de Tampa, EUA, estão a liderar o maior programa de exoplanetas do Ciclo 2 do Telescópio James Webb, intitulado “Anãs Vermelhas e os Sete Gigantes”, concebido para estudar mundos improváveis como TOI-5205 b – por vezes designados por GEMS (“giant exoplanets around M dwarf stars”).

Em 2023, Kanodia liderou o esforço que confirmou a existência de TOI-5205 b, dando seguimento às informações do TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA, que o identificou pela primeira vez como um candidato a planeta. Agora, ele co-lidera a equipa que fez as primeiras observações da sua composição atmosférica.

As suas observações de três trânsitos de TOI-5205 b revelaram algo que os astrónomos não conseguiram explicar facilmente. Ficaram surpreendidos ao ver que a atmosfera do planeta tem uma concentração mais baixa de elementos pesados – em relação ao hidrogénio – do que um planeta gigante gasoso do nosso próprio Sistema Solar, como Júpiter. Tem até uma metalicidade mais baixa do que a sua própria estrela hospedeira. Isto faz com que se destaque entre todos os planetas gigantes que foram estudados até à data.

Além disso, embora menos surpreendente, os trânsitos revelaram metano (CH₄) e sulfureto de hidrogénio (H₂S) na atmosfera de TOI-5205 b.

Para contextualizar as suas descobertas, os membros da equipa Simon Muller e Ravit Helled, da Universidade de Zurique, utilizaram modelos sofisticados do interior planetário para prever que a composição total de TOI-5205 b é cerca de 100 vezes mais rica em metais do que a sua atmosfera, tal como medido pelos trânsitos.

“Observámos uma metalicidade muito inferior à prevista pelos nossos modelos para a composição global do planeta, calculada a partir de medições da massa e do raio do planeta. Isto sugere que os seus elementos pesados migraram para o interior durante a formação e que, actualmente, o seu interior e a sua atmosfera não se misturam”, explicou Kanodia. “Em resumo, estes resultados sugerem uma atmosfera planetária muito rica em carbono e pobre em oxigénio”.

// Instituto Carnegie (comunicado de imprensa)
// Universidade de Birmingham (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astronomical Journal)

CCVALG
07.04.2026

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29: Está descoberto um dos maiores mistérios de Saturno

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A maior lua de Saturno, Titã, é uma das grandes curiosidades do sistema solar. Agora, os investigadores descobriram novos dados importantes sobre a misteriosa lua, incluindo como surgiu. A resposta também pode esclarecer a origem dos belos anéis de Saturno.

Saturno NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute
© CNN Portugal

Envolta numa espessa névoa, Titã tem cerca de metade do tamanho da Terra e é maior que Mercúrio – tão maciça que a sua atracção gravitacional faz Saturno oscilar e inclinar-se. Titã está a afastar-se de Saturno a uma velocidade de 11 centímetros (4,3 polegadas) por ano, muito mais rápido do que os astrónomos pensavam anteriormente. Eventualmente, a lua poderá ser ejectada completamente da órbita do planeta.

Mas a órbita à deriva de Titã é apenas um dos muitos enigmas que os astrónomos estão a tentar resolver sobre Saturno e algumas das suas 274 luas. Muitas das questões surgiram a partir dos dados recolhidos pela Cassini, uma sonda espacial que explorou o sistema saturniano de 2004 a 2017.

Uma nova investigação combinou teorias anteriores sobre a formação de Titã, dados da Cassini e simulações computacionais para sugerir uma nova história de origem para a maior lua de Saturno. O estudo foi publicado em Fevereiro no repositório de acesso aberto ArXiv e aceito para publicação no The Planetary Science Journal.

“Neste artigo, tentei reunir todas essas informações e proponho que havia uma lua extra há cerca de 500 milhões de anos que colidiu com Titã, tornando-se parte dela”, explica o autor principal Matija Ćuk, cientista pesquisador do Instituto SETI em Mountain View, Califórnia. O SETI é uma organização sem fins lucrativos que explora temas como ciência planetária, origem da vida e inteligência extraterrestre.

A colisão também pode ter produzido Hipérion, a maior das luas não esféricas de Saturno, que é muito menor que Titã, com cerca de 5% do seu diâmetro. De acordo com a teoria, Hipérion pode ser um fragmento resultante da colisão entre Titã e a lua perdida, ou pode ter se formado posteriormente a partir de detritos que se acumularam ao redor da órbita de Titã.

Imagem em cores falsas da lua Hyperion de Saturno, obtida durante a aproximação da sonda Cassini em Setembro de 2005.
NASA/JPL/Space Science Institute

A fusão entre Titã e a lua perdida também pode ter levado à formação dos anéis de Saturno, acrescenta Ćuk. “A partir desse evento, Titã pode ter perturbado algumas das luas internas, provocando mais colisões, o que criou os anéis algum tempo depois, talvez há 100 milhões de anos”, teoriza.

Uma lua extra “explica tudo”

Os investigadores encontraram sinais reveladores de uma colisão antiga na inclinação de Saturno, que se torna evidente pelos anéis; o gigante gasoso gira num ângulo de 26,7 graus em relação ao plano em que orbita o sol.

Os anéis de Saturno estão inclinados cerca de 26,7 graus em relação ao plano orbital do planeta. NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute

Antes da missão Cassini, os astrónomos acreditavam que as perturbações gravitacionais causadas pela órbita do vizinho Neptuno provocaram a inclinação de Saturno ao longo do tempo.

“A órbita de Neptuno tem uma ligeira oscilação no espaço”, explica Ćuk. “As órbitas dos planetas são enormes e têm uma energia muito grande. Mas as rotações dos planetas são muito, muito menores, então, caso se conectem estes dois movimentos – a órbita de Neptuno e a rotação de Saturno -, é a rotação de Saturno que sofrerá alterações.”

No entanto, os dados da Cassini mostraram que os dois planetas não estão exactamente em sincronia, apontando para um elemento ausente. Em 2022, os astrónomos sugeriram que uma lua perdida, a que chamaram de Chrysalis, era uma explicação provável para a inclinação actual de Saturno. Chrysalis teria orbitado o planeta durante milhares de milhões de anos, contribuindo para a ressonância de Saturno com Neptuno, mas há cerca de 160 milhões de anos a lua aproximou-se demais de Saturno e foi destruída num evento que criou os anéis do planeta e alterou sua inclinação.

Ćuk e os colegas aprimoraram a ideia. Levantaram a hipótese de que o evento não foi apenas uma lua a roçar Saturno e depois a desintegrar-se, mas uma colisão entre os antecessores de Titã e Hipérion. “Eu chamo-a de proto-Hipérion, mas era mil vezes maior – era como uma versão menor de Titã”, refere Ćuk.

Essa lua perdida colidiu com Titã e perdeu grande parte da massa, um evento que explicaria a órbita instável de Titã e a rotação de Saturno. “Neste momento, Saturno está a oscilar um pouco rápido demais”, diz Ćuk. “Mas se voltarmos algumas centenas de milhões de anos, quando vimos isso acontecer, a oscilação era um pouco menor do que o necessário para ter a ressonância com Neptuno. Se adicionarmos uma lua extra, a oscilação é a exacta. E isso explica tudo.”

Por outras palavras, a gravidade e a massa da lua perdida mantinham Saturno e Neptuno em sincronia, e apenas o seu desaparecimento explica por que agora estão ligeiramente desalinhados.

Se a colisão também criou Hipérion na forma actual – uma rocha menor, instável e deformada -, explicaria por que a órbita está bloqueada com a de Titã. Mas ainda não é claro, acautela Ćuk, se Hipérion é um fragmento do precursor de Titã ou da lua perdida que se fundiu com ele.

De acordo com o estudo, os anéis de Saturno podem ter sido formados há centenas de milhões de anos após o evento. A órbita em expansão de Titã interagiu com algumas das luas internas de Saturno, perturbando-as ao ponto de as fazer colidir umas com as outras. Alguns dos detritos resultantes sobreviveram como os anéis.

Um artigo publicado em Fevereiro, que postula que a superfície de Titã tem apenas 300 milhões de anos com base na ausência de crateras de impacto, dá credibilidade a este cenário da colisão, de acordo com Ćuk.

Mas a melhor maneira de testar a teoria é através do Dragonfly da NASA — um helicóptero movido a energia nuclear, do tamanho de um carro, que sobrevoará a superfície de Titã e pousará em diferentes pontos para recolher e analisar amostras graças aos instrumentos a bordo. Actualmente, o lançamento está previsto para 2028, com chegada a Titã no final de 2034.

A Dragonfly, vista aqui numa representação artística, está preparada para pousar na superfície de Titã.
NASA/Johns Hopkins APL

“É complicado”

A evolução das luas no sistema de Saturno e a origem dos anéis são enigmas interessantes que intrigam os cientistas, explica Linda Spilker, investigadora sénior e cientista planetária do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, que não participou no estudo.

“Os anéis podem ter apenas algumas centenas de milhões de anos ou terem-se formado ao mesmo tempo que Saturno”, acrescenta Spilker num e-mail. “Este estudo fornece evidências convincentes de que Hipérion e os anéis de Saturno se formaram bem depois da formação de Saturno.”

Como um relógio musical intrincado, Saturno e os seus satélites giram e orbitam com uma variedade de batidas e ressonâncias, de acordo com William B. Hubbard, professor emérito de ciências planetárias da Universidade do Arizona, que também não participou na pesquisa.

Saturno oscila como um pião a uma frequência suspeitosamente próxima da frequência básica do sistema solar, mas não está totalmente em sintonia, sugerindo que pode ter ocorrido algum tipo de perturbação relativamente recente, explica Hubbard num e-mail.

Vista de Titã a partir da sonda Cassini, com o sol a iluminar os mares do pólo norte da lua.
NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona/Universidade de Idaho

“Um estudo de 2022 propôs que havia um satélite extinto, apelidado de Chrysalis, responsável pela formação dos anéis, mas a probabilidade de tal evento era decepcionantemente baixa”, escreve Hubbard. “O novo estudo de Ćuk mostra que uma variante desse processo, envolvendo o satélite Hipérion  ainda existente, é mais provável.”

O cenário proposto por Ćuk e pelos seus colegas fornece uma sequência complicada, mas altamente plausível, de eventos que explica o sistema saturniano como os cientistas o vêem hoje, segundo Carl Murray, professor emérito de matemática e astronomia da Queen Mary University of London. Murray não esteve envolvido no trabalho, mas foi membro da equipa Cassini.

Os astrónomos há muito suspeitavam que o sistema saturniano tivesse evoluído desde a formação, mas detalhar a extensão da mudança sempre foi um problema, observa através de num e-mail.

“É um pouco como ‘CSI: Saturno’ – temos evidências forenses claras de que algo incomum aconteceu”, explica, “mas até a Cassini, estávamos efectivamente a lidar apenas com um momento instantâneo da cena do crime e a tentar deduzir os possíveis culpados”.

Um dos muitos legados dos 13 anos de medições detalhadas da Cassini, combinadas com dados históricos, foi a descoberta de que a órbita de Titã está a expandir-se muito mais rapidamente do que se esperava, continua Murray.

“O sistema de Saturno é um paraíso para os dinamistas, com inúmeras relações numéricas – chamadas ressonâncias – entre os períodos orbitais dos pares de luas. ‘É complicado’ é uma descrição justa de todas essas relações dinâmicas ao longo dos últimos 400 milhões de anos, mas os autores identificam o papel de Titã como fundamental para a nossa compreensão do sistema de Saturno.”

CNN Portugal
03.04.2026

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28: Astronautas da Artemis II a caminho da Lua

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Os astronautas da missão Artemis II da NASA levantaram voo e preparam-se para o primeiro “flyby” tripulado pela Lua em mais de 50 anos.

O SLS (Space Launch System) foi lançado com a tripulação da Artemis II a bordo da nave espacial Orion no dia 1 de Abril de 2026, a partir do Centro Espacial Kennedy da NASA, na Florida.
Crédito: NASA/Bill Ingalls

O foguetão SLS (Space Launch System) da NASA descolou da plataforma de lançamento 39B no Centro Espacial Kennedy da agência, no estado norte-americano da Florida, às 06:35 p.m. hora local (23:35, hora portuguesa) de quarta-feira, enviando quatro astronautas a bordo da nave espacial Orion numa viagem de teste planeada em torno da Lua e de regresso.

“O lançamento de hoje marca um momento decisivo para a nossa nação e para todos aqueles que acreditam na exploração. A Artemis II baseia-se na visão estabelecida pelo Presidente Donald J. Trump, levando a humanidade de volta à Lua pela primeira vez em mais de 50 anos e abrindo o próximo capítulo da exploração lunar para além do programa Apollo.

A bordo da Orion estão quatro exploradores notáveis a preparar-se para o primeiro voo tripulado deste foguetão e nave espacial, uma verdadeira missão de teste que os levará mais longe e mais rápido do que qualquer ser humano nesta geração”, afirmou o administrador da NASA, Jared Isaacman. “A Artemis II é o início de algo maior do que qualquer missão isolada. Marca o nosso regresso à Lua, não apenas para visitar, mas para eventualmente permanecer na nossa Base Lunar, e lança os suportes para os próximos saltos gigantescos que se avizinham”.

O lançamento bem-sucedido é o início de uma missão de aproximadamente 10 dias para os astronautas da NASA Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o astronauta da CSA (Canadian Space Agency) Jeremy Hansen. Como a primeira missão tripulada do programa Artemis da NASA, entre os seus objectivos, o voo irá demonstrar pela primeira vez os sistemas de suporte de vida com tripulação e lançar as bases para uma presença duradoura na Lua, antecipando futuras missões a Marte.

Depois de chegar ao espaço, a Orion desdobrou os seus painéis solares, permitindo que a nave recebesse energia do Sol, enquanto a tripulação e os engenheiros no solo começaram imediatamente a transição da nave das operações de lançamento para as de voo, a fim de iniciar a verificação dos sistemas essenciais.

“A missão Artemis II é um voo de teste, e o teste acaba de começar. A equipa que construiu este veículo, o reparou e o preparou para o voo deu à nossa tripulação a máquina de que precisam para provar do que é capaz”, afirmou o Administrador Associado da NASA, Amit Kshatriya. “Nos próximos 10 dias, Reid, Victor, Christina e Jeremy irão testar a Orion ao máximo para que as tripulações que se lhes seguirem possam ir à superfície da Lua com confiança. É apenas uma missão de uma longa campanha, e o trabalho que temos pela frente é maior do que o trabalho que já está para trás”.

Cerca de 49 minutos após o início do voo de teste, o estágio superior do foguetão SLS accionou-se para colocar a Orion numa órbita elíptica à volta da Terra. Uma segunda ignição planeada pelo estágio impulsionou a Orion, a que a tripulação deu o nome de “Integrity”, para uma órbita terrestre elevada que se estende cerca de 74.000 km além da Terra. Após a ignição, a Orion separou-se do estágio, voando livremente por conta própria.

Seguidamente, um anel situado no estágio superior do foguetão, que se encontrava a uma distância segura da nave espacial, lançou quatro CubeSats – quatro pequenos satélites da Argentina, Alemanha, Coreia do Sul e Arábia Saudita – para realizar investigações científicas e demonstrações tecnológicas.

A nave espacial permaneceu em órbita terrestre alta durante cerca de um dia, onde a tripulação realizou uma demonstração de pilotagem manual para testar as capacidades de manobra da Orion. Os astronautas, em conjunto com as equipas do Centro de Controlo da Missão no Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston, continuarão a verificar os sistemas da nave espacial.

Os controladores da missão deram ao módulo de serviço da Orion, de fabrico europeu, um comando para realizar a manobra de injecção translunar ontem, quinta-feira, 2 de Abril. Esta manobra consiste numa ignição de aproximadamente seis minutos para colocar a nave espacial numa trajectória que levará simultaneamente a tripulação à volta da Lua, enquanto aproveita a gravidade lunar para os impulsionar de volta à Terra.

Durante uma aproximação lunar planeada com a duração de várias horas, na segunda-feira, 6 de Abril, os astronautas irão tirar fotografias e fazer observações da superfície lunar, sendo as primeiras pessoas a contemplar algumas áreas do lado oculto. Embora o lado oculto da Lua esteja apenas parcialmente iluminado durante a aproximação, as condições deverão criar sombras que se estendem pela superfície, realçando o relevo e revelando profundidade, cristas, encostas e orlas de crateras que são frequentemente difíceis de detectar sob iluminação total.

As observações da tripulação e outras investigações científicas relacionadas com a saúde humana durante a missão, como o AVATAR, contribuirão para o conhecimento científico em futuras missões lunares.

Após uma aproximação lunar bem-sucedida, os astronautas regressarão à Terra caindo no Oceano Pacífico.

A NASA planeia enviar astronautas do programa Artemis em missões cada vez mais difíceis para explorar mais da Lua, com vista a descobertas científicas, benefícios económicos e para construir as bases para as primeiras missões tripuladas a Marte.

Depois de chegar ao espaço, a Orion desdobrou os seus painéis solares, permitindo que a nave recebesse energia do Sol, enquanto a tripulação e os engenheiros no solo começaram imediatamente a transição da nave das operações de lançamento para as de voo, a fim de iniciar a verificação dos sistemas essenciais.

“A missão Artemis II é um voo de teste, e o teste acaba de começar. A equipa que construiu este veículo, o reparou e o preparou para o voo deu à nossa tripulação a máquina de que precisam para provar do que é capaz”, afirmou o Administrador Associado da NASA, Amit Kshatriya. “Nos próximos 10 dias, Reid, Victor, Christina e Jeremy irão testar a Orion ao máximo para que as tripulações que se lhes seguirem possam ir à superfície da Lua com confiança. É apenas uma missão de uma longa campanha, e o trabalho que temos pela frente é maior do que o trabalho que já está para trás”.

Cerca de 49 minutos após o início do voo de teste, o estágio superior do foguetão SLS accionou-se para colocar a Orion numa órbita elíptica à volta da Terra. Uma segunda ignição planeada pelo estágio impulsionou a Orion, a que a tripulação deu o nome de “Integrity”, para uma órbita terrestre elevada que se estende cerca de 74.000 km além da Terra. Após a ignição, a Orion separou-se do estágio, voando livremente por conta própria.

Seguidamente, um anel situado no estágio superior do foguetão, que se encontrava a uma distância segura da nave espacial, lançou quatro CubeSats – quatro pequenos satélites da Argentina, Alemanha, Coreia do Sul e Arábia Saudita – para realizar investigações científicas e demonstrações tecnológicas.

A nave espacial permaneceu em órbita terrestre alta durante cerca de um dia, onde a tripulação realizou uma demonstração de pilotagem manual para testar as capacidades de manobra da Orion. Os astronautas, em conjunto com as equipas do Centro de Controlo da Missão no Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston, continuarão a verificar os sistemas da nave espacial.

Os controladores da missão deram ao módulo de serviço da Orion, de fabrico europeu, um comando para realizar a manobra de injecção translunar ontem, quinta-feira, 2 de abril. Esta manobra consiste numa ignição de aproximadamente seis minutos para colocar a nave espacial numa trajectória que levará simultaneamente a tripulação à volta da Lua, enquanto aproveita a gravidade lunar para os impulsionar de volta à Terra.

Durante uma aproximação lunar planeada com a duração de várias horas, na segunda-feira, 6 de Abril, os astronautas irão tirar fotografias e fazer observações da superfície lunar, sendo as primeiras pessoas a contemplar algumas áreas do lado oculto. Embora o lado oculto da Lua esteja apenas parcialmente iluminado durante a aproximação, as condições deverão criar sombras que se estendem pela superfície, realçando o relevo e revelando profundidade, cristas, encostas e orlas de crateras que são frequentemente difíceis de detectar sob iluminação total.

As observações da tripulação e outras investigações científicas relacionadas com a saúde humana durante a missão, como o AVATAR, contribuirão para o conhecimento científico em futuras missões lunares.

Após uma aproximação lunar bem-sucedida, os astronautas regressarão à Terra caindo no Oceano Pacífico.

A NASA planeia enviar astronautas do programa Artemis em missões cada vez mais difíceis para explorar mais da Lua, com vista a descobertas científicas, benefícios económicos e para construir as bases para as primeiras missões tripuladas a Marte.

// NASA (comunicado de imprensa)
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27: Confirmada a ligação entre a composição dos exoplanetas e das suas estrelas hospedeiras

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Os astrónomos descobriram que um planeta gigante, WASP-189b, reflecte a composição da sua estrela hospedeira, fornecendo a primeira evidência directa de um conceito fundamental da astrobiologia. Esta descoberta foi alcançada através da primeira medição simultânea de magnésio e silício gasosos na atmosfera de um planeta. A equipa utilizou o telescópio Gemini South, metade do Observatório Internacional Gemini.

Esta ilustração mostra um Júpiter ultra-quente a orbitar uma estrela azul-esbranquiçada do tipo A.
Crédito: Observatório Internacional Gemini/NOIRLab/NSF/AURA/J. Pollard

A quase 320 anos-luz de distância, na direcção da constelação de Balança, encontra-se WASP-189b, um exoplaneta classificado como Júpiter ultra-quente. Os Júpiteres ultra-quentes têm temperaturas suficientemente elevadas para vaporizar elementos formadores de rochas, como o magnésio (Mg), o silício (Si) e o ferro (Fe), oferecendo uma oportunidade rara de observar estes elementos através da espectroscopia – a técnica de decompor a luz nos seus comprimentos de onda componentes para identificar a presença de substâncias químicas.

Uma equipa internacional de astrónomos liderada por Jorge Antonio Sanchez, estudante na Universidade do Estado do Arizona, observou WASP-189b utilizando o instrumento IGRINS (Immersion GRating INfrared Spectrograph) quando este esteve temporariamente montado no telescópio Gemini South, no Chile. Este poderoso instrumento permitiu-lhes medir simultaneamente o conteúdo de magnésio e silício na atmosfera do exoplaneta.

Esta é a primeira vez que tal medição é realizada, e os dados revelam que WASP-189b partilha a mesma proporção de magnésio para silício que a sua estrela hospedeira. Esta descoberta fornece a primeira evidência observacional de uma hipótese amplamente aceite acerca da formação de planetas e abre um novo caminho para compreender como os exoplanetas se formam e evoluem.

“Estas descobertas demonstram a capacidade do Gemini para nos ajudar a compreender as características do notável conjunto de exoplanetas na vizinhança do nosso Sistema Solar”, afirma Chris Davis, director do programa da NSF para o NOIRLab. “Tais descobertas só são possíveis graças aos instrumentos de ponta do Gemini”.

Pensa-se que planetas gigantes e quentes como WASP-189b tenham uma camada exterior de gás cuja composição química é influenciada pelo disco de material no qual se formaram, conhecido como discos protoplanetários. E os investigadores assumem que a proporção de elementos formadores de rochas num disco protoplanetário corresponde à da estrela hospedeira, uma vez que ambos nasceram da mesma nuvem primordial de material.

Esta ligação química inferida entre uma estrela e os planetas que se formam à sua volta é frequentemente utilizada para modelar a composição de exoplanetas rochosos. Esta ligação baseava-se anteriormente em medições realizadas no nosso Sistema Solar e, até agora, não tinha sido observada directamente em planetas noutros locais.

“WASP-189b proporciona-nos um muito necessário ponto de referência observacional para a nossa compreensão da formação de planetas terrestres, uma vez que oferece uma quantidade mensurável que valida a suposta semelhança entre a composição estelar e a proporção de material rochoso em torno das estrelas hospedeiras utilizado para formar planetas”, afirma Sanchez.

Esta suposição não só é útil para compreender a formação de planetas, como também é fundamental para o campo da astrobiologia, que inclui o estudo de ambientes habitáveis no Sistema Solar. Ao medir a composição química de uma estrela, os cientistas podem inferir a abundância de elementos formadores de rochas nos exoplanetas da estrela, o que pode determinar as condições geoquímicas que tornam um planeta habitável.

Por exemplo, os elementos formadores de rochas na Terra são, em parte, responsáveis pelo nosso campo magnético protector, pela tectónica de placas e pela libertação de substâncias químicas essenciais à vida na nossa atmosfera, oceanos e solo.

À medida que o campo dos exoplanetas se volta para a caracterização de planetas terrestres e procura elucidar as condições habitáveis de mundos rochosos, as evidências empíricas que validam a relação entre as composições estelares e planetárias representam um fundamental passo em frente. E o nível de resolução espectral necessário para este tipo de estudos está actualmente disponível apenas em telescópios terrestres.

“O nosso estudo demonstra a capacidade dos espectrógrafos terrestres de alta resolução para determinar a presença de espécies críticas como o magnésio e o silício, dois elementos fundamentais a partir dos quais os planetas rochosos se formam”, afirma o co-autor do estudo Michael Line, professor associado da Universidade do Estado do Arizona. “Esta evolução abre uma dimensão totalmente nova no nosso estudo das atmosferas dos exoplanetas”.

Novas observações de alta resolução em múltiplos comprimentos de onda, para estudar atmosferas de exoplanetas como a de WASP-189b, vão ajudar a revelar o inventário químico mais abrangente que existe em mundos distantes. Tais estudos permitirão uma compreensão mais profunda das condições que regem as origens, a evolução e a potencial habitabilidade dos planetas.

// NOIRLab (comunicado de imprensa)
// Observatório Internacional Gemini (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Communications)

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03.04.2026

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26: A Terra formou-se a partir de blocos de construção locais

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Os cientistas planetários debatem há muito tempo a origem do material que formou a nossa Terra. Apesar da sua localização no Sistema Solar interior, consideram provável que 6 a 40 por cento desse material tenha vindo do Sistema Solar exterior, ou seja, para além de Júpiter.

Durante muito tempo, considerou-se que o material proveniente do Sistema Solar exterior era necessário para trazer componentes voláteis, como a água, para a Terra. Consequentemente, deve também ter havido uma troca de material entre o Sistema Solar exterior e o interior durante a formação da Terra. Mas será isso realmente verdade?

“Ficámos verdadeiramente surpreendidos”

Os cientistas planetários Paolo Sossi e Dan Bower, da ETH Zurique, compararam os dados existentes acerca dos rácios isotópicos de uma vasta gama de meteoritos, incluindo os provenientes de Marte e do asteróide Vesta, com os da Terra. Os isótopos são átomos irmãos do mesmo elemento (mesmo número de protões) que têm uma massa diferente (número diferente de neutrões).

Os investigadores analisaram estes dados de uma nova forma e chegaram a uma conclusão surpreendente: o material que compõe a Terra tem origem inteiramente da região interior do Sistema Solar.

Em contrapartida, é provável que o material proveniente do Sistema Solar exterior represente menos de dois por cento da massa da Terra, ou até mesmo nada. O estudo em questão foi publicado na revista Nature Astronomy.

“Os nossos cálculos deixam claro: o material de construção da Terra tem origem num único reservatório de material”, afirma Sossi. O seu colega Bower acrescenta: “Ficámos verdadeiramente surpreendidos ao descobrir que a Terra é composta inteiramente por material do Sistema Solar interior, distinto de qualquer combinação de meteoritos existentes”.

Para o seu estudo, os investigadores de Zurique utilizaram dados existentes sobre dez sistemas isotópicos diferentes provenientes de meteoritos e analisaram-nos utilizando um método estatístico especializado. Estudos anteriores consideraram, na sua maioria, apenas dois sistemas isotópicos.

“Os nossos estudos são, na verdade, experiências de ciência de dados”, afirma Sossi. “Realizámos cálculos estatísticos que raramente são utilizados em geoquímica, apesar de serem uma ferramenta poderosa”.

A assinatura isotópica revela a origem

Os isótopos presentes nos meteoritos têm sido utilizados há muito tempo pelos investigadores para determinar a origem dos corpos celestes, ou seja, de que parte do Sistema Solar provêm. Historicamente, porém, apenas os vários isótopos do elemento oxigénio podiam ser utilizados para determinar a sua proveniência.

Foi apenas no início da década de 2010 que um investigador americano descobriu que outros isótopos, como os do crómio e do titânio, também podiam ser utilizados para este fim. Isto permitiu aos investigadores classificar os meteoritos em duas categorias: os não carbonáceos, que se formam exclusivamente no Sistema Solar interior, e os carbonáceos, que contêm mais água e carbono e têm origem no Sistema Solar exterior.

A nova análise revela que a Terra é composta inteiramente por material não carbonáceo. Não foram encontradas evidências da troca anteriormente suspeitada entre os reservatórios do Sistema Solar exterior e interior.

Portanto, a Terra cresceu dentro de um sistema relativamente estático, incorporando os seus planetas vizinhos mais pequenos à medida que crescia. Isto também implica que a maioria dos elementos voláteis, como a água, já devia estar presente no Sistema Solar interior.

Júpiter actua como uma barreira material

Mas por que razão existem dois reservatórios distintos de matéria no nosso Sistema Solar? Os investigadores supõem que o nosso Sistema Solar se dividiu em dois reservatórios durante a sua formação, devido ao rápido crescimento e ao tamanho de Júpiter.

A gravidade do gigante gasoso abriu uma brecha no disco protoplanetário que orbitava o jovem Sol. Estes discos têm a forma de anéis e são constituídos por gás e poeira; são o local de nascimento dos planetas. Júpiter impediu que o material do Sistema Solar exterior entrasse na região interior. No entanto, a extensão da permeabilidade desta barreira permaneceu incerta até agora.

Na sua nova análise, os dois investigadores da ETH Zurique demonstram que quase nenhum material proveniente de além de Júpiter fluiu em direcção à Terra. “Os nossos cálculos são muito robustos e baseiam-se exclusivamente nos próprios dados, não em pressupostos físicos, uma vez que estes ainda não são totalmente compreendidos”, salienta Bower. A análise mostra também que a composição material da Terra é semelhante à de Vesta e de Marte.

Os investigadores suspeitam também que Vénus e Mercúrio se situam na mesma linha. “Com base na nossa análise, podemos prever teoricamente a composição destes dois planetas”, afirma Paolo Sossi. No entanto, não consegue verificar isto analiticamente, uma vez que não estão actualmente disponíveis para os investigadores amostras de rocha de Mercúrio e Vénus, que são os dois planetas mais internos do Sistema Solar.

Uma nova luz sobre a história da formação

“Os nossos resultados lançam uma nova luz sobre a história da formação da nossa Terra e dos outros planetas rochosos”, afirma Sossi.

Sossi e a sua equipa pretendem dar continuidade a este trabalho, investigando por que razão havia água suficiente no interior quente do Sistema Solar para formar os oceanos da Terra. Além disso, irão analisar se estes processos podem ser aplicados a sistemas exoplanetários.

“Porém, até lá, o Dan e eu teremos de participar em muitos debates acalorados sobre a composição material da Terra e dos planetas vizinhos, porque o diálogo científico sobre os blocos de construção da Terra está longe de terminar, apesar das novas descobertas”, afirma Sossi.

// ETH Zurique (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)

CCVALG
03.04.2026

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25: Astrónomos registam vários planetas orbitando uma estrela semelhante ao Sol.

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Astrónomos conseguiram registar pela primeira vez a imagem directa de vários planetas orbitando uma estrela semelhante ao Sol, localizada a cerca de 300 anos-luz da Terra. A descoberta oferece um raro vislumbre de como sistemas planetários podem se formar e evoluir ao longo do tempo.

As observações foram realizadas com o Very Large Telescope, um dos telescópios mais avançados do mundo, localizado no Chile. Os pesquisadores identificaram dois gigantes gasosos orbitando muito longe da estrela — aproximadamente 160 e 320 vezes a distância entre a Terra e o Sol.

Os planetas também chamam atenção pelo tamanho. Um deles possui cerca de 14 vezes a massa de Júpiter, enquanto o outro tem aproximadamente 6 vezes. Devido à pouca idade do sistema, estimada em cerca de 17 milhões de anos, esses mundos ainda estão quentes e brilhantes, o que facilita sua detecção pelos telescópios.

Capturar imagens directas de exoplanetas é extremamente difícil, porque o brilho intenso das estrelas costuma ocultar os planetas ao redor. Para superar esse desafio, os cientistas utilizaram um instrumento chamado coronógrafo, capaz de bloquear a luz da estrela e revelar objectos mais fracos nas proximidades.

Essa descoberta representa um importante avanço na astronomia e ajuda os cientistas a entender melhor como sistemas semelhantes ao nosso se formam. Além disso, oferece uma rara oportunidade de observar um possível “retrato do passado” do nosso próprio sistema solar em seus estágios iniciais.

Crédito: ESO/Bohn et al.
02.04.2026

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