
Esta ilustração mostra a colisão de dois grupos de galáxias, com caudas de gás e poeira azuis a estender-se no espaço e pequenas galáxias alaranjadas ao longo dessas caudas. Na inserção do Chandra e do Hubble, uma galáxia muito ténue aparece envolta numa corrente de gás, enquanto um brilho azul indica raios X produzidos pela colisão de duas estrelas de neutrões, evento que gerou elementos pesados como ouro e platina.
Crédito: raios X – NASA/CXC/Universidade do Estado da Pensilvânia/S. Dichiara; infravermelho – NASA/ESA/STScI; ilustração – ERC BHianca 2026/Fortuna e Dichiara; processamento – NASA/CXC/SAO/P. Edmonds
De acordo com uma equipa internacional de astrónomos liderada por cientistas da Universidade do Estado da Pensilvânia, EUA, um flash de energia recentemente detectado parece ter sido emanado dos destroços de galáxias em colisão. A explosão, conhecida como GRB 230906A, foi provavelmente causada pela colisão de duas estrelas de neutrões há centenas de milhões de anos e agora está a lançar luz sobre como o Universo cria alguns dos seus elementos mais pesados.
O sinal, detectado pela primeira vez pelo satélite Fermi da NASA em Setembro de 2023, pertencia a uma classe peculiar de explosões curtas de raios gama, explosões tão poderosas que ofuscam brevemente galáxias inteiras. Estas explosões ocorrem quando duas estrelas de neutrões – remanescentes mortos de estrelas massivas – espiralam uma em direcção à outra e colidem, libertando uma grande quantidade de energia e forjando elementos pesados como ouro e platina, explicou Simone Dichiara, professor assistente de astronomia e astrofísica na Penn State e autor principal de um artigo científico acerca da descoberta publicado no passado dia 10 de Março na revista The Astrophysical Journal Letters.
Usando o Observatório de Raios X Chandra e o Telescópio Espacial Hubble, os investigadores localizaram a explosão numa galáxia fraca que parece fazer parte de um grupo maior a cerca de 8,5 mil milhões de anos-luz de distância. Este grupo está a passar por uma fusão cósmica – galáxias colidindo e interagindo, estimulando a formação estelar.
A explosão ocorreu no campo de detritos desta colisão galáctica, um longo e fino fluxo de estrelas e gás que se estende pelo espaço. Quando as galáxias interagem, a gravidade faz com que se atraiam mutuamente com tanta força que material como estrelas, poeira e gás são esticados para o espaço, formando uma estrutura semelhante a uma cauda que os cientistas chamam de “cauda de maré”.
“Isto pode ser uma indicação de que a interacção de marés entre galáxias pode desencadear a formação estelar e duas estrelas de neutrões que evoluem a partir das novas estrelas podem acabar por se fundir, desencadeando estas grandes explosões e emissões energéticas que observamos”, afirmou Dichiara.
Acrescentou que tais explosões, também chamadas fusões de estrelas binárias compactas, geram emissões de quilonovas: halos brilhantes de luz que são um dos principais locais de produção de elementos pesados no Universo.
“Isto pode fornecer uma explicação natural para o motivo pelo qual vemos uma taxa superior de produção de elementos pesados no halo das galáxias em interacção”, disse.
A equipa afirma suspeitar que as estrelas de neutrões que colidiram nasceram durante uma onda de formação estelar desencadeada pela fusão galáctica há cerca de 700 milhões de anos. A sua eventual colisão não só produziu a poderosa explosão de raios gama detectada pelos investigadores, como também espalhou elementos pesados recém-formados para o espaço circundante.
“Nós tivemos uma rara oportunidade de ver como a destruição pode ser catalisador da criação”, disse Jane Charlton, professora de astronomia e astrofísica na Penn State e co-autora do artigo científico. “O ouro que temos na Terra foi produzido num evento explosivo desta natureza. Os elementos pesados no nosso corpo, como o ferro, por exemplo, vêm de cerca de 10.000 estrelas da nossa Galáxia que morreram. Demorou milhares de milhões de anos, mas esse ferro persistiu na Terra e, à medida que os nossos corpos se formaram e evoluíram, utilizaram esse material”.
Charlton disse que os resultados da equipa sublinham como as interacções violentas entre galáxias podem preparar o terreno para eventos cósmicos poderosos que podem alterar a composição dos elementos no Universo. Ela também salientou a importância das imagens de raios X. Sem o Observatório de Raios X Chandra, a ténue galáxia hospedeira poderia ter sido totalmente ignorada.
Por agora, a distância exacta da explosão permanece incerta. Pode estar ainda mais distante, tornando-se uma das explosões curtas de raios gama mais distantes já registadas. Observações futuras com telescópios de próxima geração podem resolver a questão, disse Charlton.
“É muito comum que as galáxias tenham vizinhas. Isso não é nada invulgar, mas que elas colidam, é”, disse. “A nossa própria Galáxia, a Via Láctea, tem uma vizinha, a galáxia de Andrómeda, e daqui a quatro ou cinco mil milhões de anos vai fundir-se com a Via Láctea. Estas colisões entre estrelas de neutrões poderão acontecer, e poderão formar-se caudas de maré, espalhando elementos pesados e enriquecendo o Universo”.
// Universidade do Estado da Pensilvânia (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// Chandra/Harvard (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)
CCVALG
13.03.2026

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published in: 2 meses ago
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