53: Determinando a idade de uma anã castanha através de minúsculas pulsações estelares

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Os astrónomos recorreram ao Observatório W. M. Keck, em Maunakea, no Hawaii, para determinar uma das idades mais precisas até à data para uma estrela semelhante ao Sol que possui uma anã castanha como companheira. O resultado constitui um novo e importante teste sobre a forma como as anãs castanhas arrefecem e evoluem ao longo do tempo, ajudando a resolver um desafio de longa data na astrofísica.

Ilustração, gerada por IA, de uma estrela e de uma anã castanha num sistema binário.
Crédito: ChatGPT/Universidade do Hawaii

O estudo centrou-se no sistema próximo HR 7672, que inclui uma estrela semelhante ao Sol e uma companheira anã castanha pouco brilhante. Utilizando o KPF (Keck Planet Finder) do Observatório Keck, a equipa detectou oscilações subtis na superfície da estrela, ondulações que revelaram que a sua idade é de 2,3 mil milhões de anos.

Como a anã castanha se formou juntamente com a estrela, esta idade estelar precisa serve de referência para a evolução da companheira, oferecendo uma oportunidade rara de testar directamente modelos teóricos do arrefecimento das anãs castanhas.

“A incerteza de 18% quanto à idade estabelece o sistema HR7672 como uma referência valiosa para os próximos anos”, afirmou Yaguang Li, autor principal e investigador da Universidade do Hawaii em Mānoa.

O estudo, liderado pelo Instituto de Astronomia da Universidade do Hawaii, foi publicado na revista The Astrophysical Journal.

Uma trajectória científica de duas décadas

O sistema HR 7672 tem desempenhado um papel histórico no estudo de objectos sub-estelares. A companheira, conhecida como HR 7672B, foi descoberta pela primeira vez pelo investigador Michael Liu, co-autor e professor do Instituto de Astronomia da Universidade do Hawaii. HR 7672B foi a primeira anã castanha a ser directamente fotografada em órbita de uma estrela semelhante ao Sol.

Utilizando o instrumento NIRC2 (Near-Infrared Camera) do Observatório Keck e o sistema de Óptica Adaptativa do telescópio para corrigir a distorção atmosférica, Liu obteve uma imagem mais nítida da anã castanha, que é 2000 vezes mais fraca do que a sua brilhante estrela hospedeira.

“As observações pioneiras com o Observatório Keck ajudaram a esclarecer o chamado ‘deserto das anãs castanhas’, a escassez de tais companheiras em torno de estrelas semelhantes ao Sol a distâncias pequenas”, afirmou Liu.

Agora, mais de duas décadas depois, uma nova geração de instrumentos do Observatório Keck continua a avançar esse legado. Utilizando medições ultra-precisas da estrela hospedeira com o instrumento KPF (Keck Planet Finder), os astrónomos detectaram minúsculas pulsações estelares que revelam a estrutura interna e a idade da estrela com uma precisão sem precedentes.

“O modo especial de leitura rápida do Keck Planet Finder torna-o o único instrumento no hemisfério norte capaz de registar oscilações em escalas de tempo tão curtas”, acrescentou Li.

Testando como as anãs castanhas arrefecem ao longo do tempo

As anãs castanhas são estrelas falhadas, demasiado pequenas para sustentar uma fusão de hidrogénio estável, pelo que arrefecem gradualmente e desvanecem-se à medida que envelhecem. O seu brilho, portanto, depende significativamente tanto da sua massa como da sua idade. No entanto, os astrónomos têm tido dificuldade em testar modelos teóricos deste arrefecimento, em parte porque raramente se dispõe de idades fiáveis.

Agora, com esta nova e precisa medição da idade, combinada com a luminosidade e massa bem conhecidas de HR 7672B, o sistema torna-se uma “referência” excepcional para testar modelos evolutivos das anãs castanhas.

Comparando as observações com seis modelos teóricos de arrefecimento diferentes, a equipa encontrou a melhor concordância com os modelos mais recentes que incorporam física interior actualizada. Sem os novos dados, a equipa não teria sido capaz de distinguir este modelo das outras cinco possibilidades.

Estes resultados demonstram que idades estelares de alta precisão são essenciais para compreender a evolução sub-estelar – e mostram que a espectroscopia de precisão, com a próxima geração de observações, irá finalmente fornecer esta informação.

“A investigação de Yaguang tornou este objecto ainda mais valioso para a nossa compreensão teórica das anãs castanhas”, afirmou Liu.

Como próximo passo, os investigadores planeiam generalizar este método a um conjunto mais vasto de sistemas de referência e testar modelos evolutivos de anãs castanhas em diferentes regimes.

// Observatório W. M. Keck (comunicado de imprensa)
// Universidade do Hawaii (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal)

CCVALG
24.04.2026

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48: Será a matéria escura constituída por buracos negros de outro universo? Um novo estudo diz que sim

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Os buracos negros são regiões do espaço-tempo nas quais grandes volumes de matéria são comprimidos num espaço extremamente pequeno.


iStock © iStock

Por sua vez, a matéria escura é aquela que não absorve nem reflecte a luz, o que impede a sua detecção directa com os instrumentos desenvolvidos pela humanidade e que levou a que fosse apelidada de “a substância mais esquiva do universo”. Embora seja impossível saber com certeza, este elemento poderá representar até 85% do cosmos e desempenharia um papel fundamental como “cola” nas galáxias.

Mas que relação existe entre os buracos negros e a matéria escura? Ao que parece, mais do que se poderia imaginar. Pelo menos, é o que afirma Enrique Gaztanaga, professor de astrofísica da Universidade de Portsmouth, num artigo publicado no portal The Conversation. Através desse artigo, o cientista procurou explicar a sua investigação mais recente, que pode ser consultada na Physical Review D e que defende que a matéria escura seria composta por buracos negros “relíquias”, os quais se teriam formado num universo anterior ao Big Bang.

Esta hipótese surge da chamada cosmologia do salto (Big Bounce), um modelo em que o cosmos atravessa fases sucessivas de contracção e expansão. De acordo com a investigação, o universo não nasceu de uma singularidade de densidade infinita, mas sim de um salto quântico que permitiu a persistência de estruturas físicas de um período anterior à grande expansão inicial.

O SALTO cósmico

Os autores do trabalho sugerem que o universo entrou em colapso antes de experimentar a expansão actual, transformando o Big Bang num simples ponto de transição. Este cenário permite que os buracos negros de dimensões superiores tenham resistido ao processo, actuando como a cola gravitacional que mantém a coesão das galáxias que observamos hoje.

Ao contrário da visão tradicional que procura uma partícula subatómica invisível, esta abordagem utiliza a relatividade geral e a mecânica quântica para explicar a massa em falta. A matéria escura manifesta-se através da sua influência gravitacional e estes vestígios antigos possuem exactamente as propriedades de massa e ausência de luz que os físicos há décadas tentam identificar.

Buracos negros “relíquia”

Existem dois mecanismos possíveis para o surgimento destas entidades: a sobrevivência directa de objectos compactos ou o colapso da matéria durante a fase de contracção. “As galáxias e as estrelas na fase de contracção colapsam efectivamente em buracos negros, apagando a maior parte da sua estrutura detalhada, mas conservando a sua massa”, afirma o investigador.

Esta teoria poderia resolver as anomalias detectadas pelo telescópio James Webb, que localizou objectos extremamente vermelhos e massivos no amanhecer cósmico. Estes pontos luminosos parecem ser buracos negros super-massivos que cresceram com uma rapidez inexplicável para as leis da física padrão, a menos que já existissem sementes anteriores ao salto.

A proposta oferece um quadro teórico em que a energia escura e a inflação emergem naturalmente devido à estrutura finita do espaço. Além disso, abre a possibilidade de que as ondas gravitacionais detectadas por instrumentos terrestres contenham sinais de uma fase anterior, permitindo que a ciência explore eventos que ocorreram antes da formação do nosso Sistema Solar.

Embora ainda seja necessário contrastar estes dados com as medições de precisão do fundo cósmico de micro-ondas, a abordagem revela-se revolucionária para a astrofísica. Talvez o universo não tenha tido um início único, mas sim um sistema que se expande após ter ricocheteado, deixando para trás relíquias escuras que hoje definem a forma das galáxias.

National Geographic Portugal
Rubén Badillo
17.04.2026

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40: Será que foi detectado o primeiro par íntimo de buracos negros super-massivos?

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Descobertas actuais sugerem a existência de um buraco negro super-massivo no centro de quase todas as grandes galáxias, com uma massa milhões ou mesmo milhares de milhões de vezes superior à do nosso Sol. Ainda não se sabe ao certo como é que conseguem atingir massas tão grandes. A simples acreção do gás da área circundante demoraria demasiado tempo, pelo que é provável que tenham de se fundir com outros buracos negros massivos. Já foram observadas colisões de galáxias em todo o nosso Universo. É, portanto, muito provável que os buracos negros super-massivos no centro destas galáxias em colisão também se fundam, primeiro orbitando-se cada vez mais perto e, por fim, fundindo-se num só.

A representação artística mostra o centro da galáxia Markarian 501, de onde são emanados dois jactos poderosos. O buraco negro super-massivo no centro, cuja existência já era conhecida, desvia parcialmente a luz do jacto que se encontra por detrás dele, formando o chamado anel de Einstein. Este jacto curvado tem, muito provavelmente, origem num segundo buraco negro, ainda não observado. As observações de rádio são visíveis como contornos no fundo.
Crédito: Emma Kun/Observatório HUN-REN Konkoly/realizado com apoio da IA

Um revelador feixe de partículas

No entanto, os modelos teóricos ainda não conseguem descrever com precisão esta fase final. Para complicar ainda mais as coisas, ainda não foi detectado de forma fiável nenhum par íntimo de buracos negros massivos, apesar de as colisões entre galáxias serem comuns em escalas cósmicas de tempo.

Uma equipa internacional liderada por Silke Britzen, do Instituto Max Planck de Radioastronomia em Bona, Alemanha, encontrou evidências directas da existência de um par deste tipo no centro de Markarian 501. O seu trabalho foi aceite para publicação na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e aparecerá numa próxima edição.

O buraco negro no centro de Markarian 501 ejecta para o espaço um poderoso jacto de partículas que viajam quase à velocidade da luz. Para o estudo, a equipa analisou observações de alta resolução da região. Estas abrangem várias frequências de rádio e foram recolhidas ao longo de dúzias de dias, num período de aproximadamente 23 anos. Estes dados de longo prazo revelam não só um único jacto, mas também um segundo.

Trata-se da primeira imagem directa de um sistema deste tipo no centro de uma galáxia e uma indicação clara da existência de um segundo buraco negro super-massivo. “Procurámos durante tanto tempo e foi uma surpresa total não só poder ver um segundo jato, mas também acompanhar o seu movimento”, relata Silke Britzen.

Dança íntima de buracos negros

O primeiro jato aponta para a Terra, razão pela qual nos parece particularmente brilhante e é conhecido há muito tempo. O segundo jato está orientado de forma diferente e foi, por isso, mais difícil de detectar. Ao longo de um período de apenas algumas semanas, os astrónomos observaram mudanças significativas: o segundo jacto começa atrás do buraco negro maior e move-se, à sua volta, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Este processo repete-se. “Avaliar os dados foi como estar num navio. Todo o sistema de jactos está em movimento. Um sistema de dois buracos negros pode explicar isto: o plano orbital oscila”, explica Silke Britzen.

Num dia de observação em Junho de 2022, a radiação emitida pelo sistema chegou até nós por um percurso tão sinuoso que parecia ter a forma de um anel – o chamado anel de Einstein. Uma explicação consistente com a interpretação de um sistema binário de buracos negros seria que o sistema estava perfeitamente alinhado com a Terra. A lente gravitacional do buraco negro conhecido em frente moldou então a luz do segundo jato por detrás.

A representação gráfica mostra a região central da galáxia Markarian 501 a uma frequência de 43 gigahertz em três dias diferentes. Os contornos indicam a intensidade da emissão, enquanto os círculos cinzentos assinalam regiões brilhantes dentro do jacto, identificadas através de cálculos de modelos. É possível acompanhar o movimento dos jactos observando a evolução destas regiões. O jacto anteriormente conhecido (Jacto 1, linha laranja) que aponta para a Terra é claramente visível. O segundo jacto recém-descoberto (Jacto 2, azul) alterou o seu aspecto no espaço de algumas semanas. Ambos os fluxos de partículas têm origem próximos um do outro, no núcleo da galáxia. A posição do buraco negro (BH) associado ao Jacto 1 está marcada com uma seta.
Crédito: S. Britzen

Ao analisar a evolução ao longo do tempo e os padrões recorrentes no brilho dos jactos, os investigadores conseguiram deduzir que os dois buracos negros se orbitam um ao outro com um período de aproximadamente 121 dias. Estão separados por uma distância cerca de 250 a 540 vezes superior à distância entre a Terra e o Sol – uma distância minúscula para objectos tão extremos, com massas entre 100 milhões e mil milhões de vezes a do Sol. Dependendo das suas massas reais, a distância entre eles poderia diminuir tão rapidamente que poderiam fundir-se em apenas 100 anos.

Contagem decrescente para o final

Devido à grande distância entre a galáxia Markarian 501 e a Terra, nem mesmo os métodos de observação mais avançados conseguem captar os dois buracos negros como objectos separados. Nem mesmo o EHT (Event Horizon Telescope), que nos forneceu as primeiras imagens de buracos negros em 2019 e 2022, é suficientemente potente. A órbita cada vez mais pequena do par em Markarian 501 não será, portanto, directamente observável. No entanto, os cientistas esperam encontrar evidências claras da separação cada vez menor entre os dois buracos negros: o sistema deverá emitir ondas gravitacionais em frequências muito baixas, que poderão ser detetadas utilizando redes de temporização de pulsares.

Os sistemas binários de buracos negros super-massivos já constituem a explicação mais provável para o fundo de ondas gravitacionais observado, cujas evidências foram encontradas em 2023 pela EPTA (European Pulsar Timing Array) e por outras instituições.

Markarian 501 é agora uma das principais candidatas para atribuir a emissão de ondas gravitacionais, medida com as redes de temporização de pulsares, a um sistema binário específico de buracos negros super-massivos. “Se forem detectadas ondas gravitacionais, poderemos até ver a sua frequência aumentar de forma constante à medida que os dois gigantes espiralam para a colisão, oferecendo uma oportunidade rara de assistir ao desenrolar de uma fusão de buracos negros super-massivos”, salienta o co-autor Héctor Olivares.

// Sociedade Max Planck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)

CCVALG
10.04.2026

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