54: Neste exoplaneta semelhante a Júpiter podem existir nuvens de gelo de água

1
0

 

Uma equipa de astrónomos liderada por Elisabeth Matthews, do Instituto Max Planck de Astronomia, fez uma descoberta que destaca os limites da maioria dos modelos actuais das atmosferas dos exoplanetas: nuvens de gelo de água num exoplaneta distante semelhante a Júpiter, denominado Epsilon Indi Ab. A forma como as observações foram realizadas tem implicações mais amplas para a investigação exoplanetária: constitui um passo imediato e interessante no caminho para, eventualmente, encontrar e caracterizar um exoplaneta análogo à Terra.

Representação artística do planeta Epsilon Indi Ab, com nuvens de água na sua atmosfera rica em amoníaco.
Crédito: E. C. Matthews, Instituto Max Planck de Astronomia/T. Müller, HdA

Passo a passo rumo a uma segunda Terra

A investigação exoplanetária tem um objectivo ambicioso a longo prazo: em algum momento nas próximas décadas, os astrónomos esperam ser capazes de detectar vestígios de vida num exoplaneta. A caminho desse objectivo, a investigação exoplanetária passou por várias fases.

Na primeira fase da investigação, de 1995 a cerca de 2022, o foco principal dos investigadores de exoplanetas era a detecção de cada vez mais exoplanetas, utilizando métodos indirectos que lhes forneciam informações sobre as massas de alguns exoplanetas, os diâmetros de outros e, em alguns casos, tanto a massa como o diâmetro.

Quando o Telescópio Espacial James Webb começou em sério funcionamento em 2022, a investigação exoplanetária entrou numa segunda fase: tornaram-se disponíveis informações detalhadas e de alta qualidade sobre as atmosferas de muitos exoplanetas, e os investigadores começaram a reconstruir as propriedades dessas atmosferas com algum detalhe. Isto ainda está, pelo menos, a uma etapa de distância de buscas realistas por vida em exoplanetas, que se espera que exijam a próxima geração de telescópios espaciais.

Com este novo estudo, os astrónomos estão a explorar alguns aspetos destes métodos de próxima geração – embora ainda não para um planeta como a Terra. Elisabeth Matthews (Instituto Max Planck de Astronomia), autora principal do estudo, afirma: “O JWST está finalmente a permitir-nos estudar em pormenor planetas análogos aos do Sistema Solar. Se fôssemos alienígenas, a vários anos-luz de distância, e olhássemos para o Sol, o JWST seria o primeiro telescópio que nos permitiria estudar Júpiter em detalhe. Para estudar a Terra em detalhe, precisaríamos, no entanto, de telescópios muito mais avançados”.

Exo-Júpiteres esquivos

Mas, por mais surpreendentes que sejam os resultados do JWST sobre as atmosferas dos exoplanetas, estudar os análogos de Júpiter revelou-se surpreendentemente difícil. Quase todos os gigantes gasosos estudados com o Webb até agora diferem de Júpiter por serem muito, muito mais quentes – para que o método mais comum de estudar as atmosferas dos exoplanetas funcione, o planeta precisa de passar à frente da sua estrela hospedeira, da perspectiva de um observador na Terra, e a probabilidade dessa configuração é muito maior quando o planeta está mais próximo da sua estrela, o que, por sua vez, torna o planeta comparativamente mais quente.

O novo estudo de Elisabeth Matthews e dos seus colegas utiliza uma técnica diferente. Nunca os observadores se aproximaram tanto de estudar um análogo de Júpiter – e há pelo menos uma surpresa!

Matthews e colegas utilizaram o instrumento MIRI (Mid-Infrared Instrument) do Webb para obter imagens diretas do planeta Epsilon Indi Ab. As convenções de nomenclatura para exoplanetas são tais que esta designação indica o primeiro planeta descoberto a orbitar a estrela Epsilon Indi A, na constelação do Índio (no céu do hemisfério sul). Bhavesh Rajpoot, estudante de doutoramento no Instituto Max Planck de Astronomia que contribuiu para o estudo, afirma: “Este planeta tem uma massa consideravelmente maior do que Júpiter – o novo estudo fixa a sua massa em 7,6 massas de Júpiter – mas o diâmetro é aproximadamente o mesmo que o do seu primo do Sistema Solar”.

Um Júpiter mais massivo e ligeiramente mais quente

Epsilon Indi Ab está a uma distância da sua estrela central cerca de quatro vezes superior à distância de Júpiter ao Sol. A própria estrela Epsilon Indi A é um pouco menos massiva e um pouco menos quente do que o nosso Sol. Isto torna a temperatura superficial de Epsilon Indi Ab muito baixa, situando-se entre os 200 e os 300 Kelvin (entre -70 e 20 graus Celsius).

A razão pela qual o planeta é ligeiramente mais quente do que Júpiter (140 K) é que ainda existe muito calor remanescente da fase de formação do planeta. Ao longo dos próximos milhares de milhões de anos, Epsilon Indi Ab irá arrefecer progressivamente, acabando por se tornar mais frio do que Júpiter.

Os astrónomos utilizaram o coronógrafo do instrumento MIRI para bloquear a luz da estrela central, que, de outra forma, ofuscaria a luz muito mais fraca do planeta. Em seguida, captaram uma imagem através de um filtro muito específico: 11,3 μm, que se situa logo a seguir à região de comprimento de onda próxima dos 10,6 μm, característica das moléculas de amoníaco NH3. A comparação com imagens a 10,6 μm que Matthews e a sua equipa já tinham captado em 2024 permitiu aos astrónomos estimar a quantidade de amoníaco presente.

Evidência surpreendente de nuvens

No caso de Júpiter, tanto o gás amoníaco como as nuvens de amoníaco dominam as camadas superiores da atmosfera visíveis nas observações. Dadas as suas propriedades, pensava-se que Epsilon Indi Ab também tivesse quantidades massivas de gás amoníaco, embora não nuvens de amoníaco. Surpreendentemente, a comparação fotométrica revelou uma quantidade de amoníaco ligeiramente inferior à esperada.

A melhor explicação que Matthews e os seus colegas encontraram para este défice foi a presença de espessas nuvens de gelo de água, mas irregulares, semelhantes às nuvens cirros de alta altitude na atmosfera da Terra – uma complicação inesperada!

Ao interpretar observações deste tipo, os astrónomos comparam os seus dados com simulações de atmosferas planetárias. No entanto, a maioria dos modelos publicados não inclui as nuvens, uma vez que a presença destas torna os cálculos muito mais complexos – algo que os teóricos terão claramente de resolver! James Mang (Universidade do Texas em Austin), co-autor do estudo, afirma: “É um óptimo problema para se ter, e demonstra o imenso progresso que estamos a fazer graças ao JWST.

O que antes parecia impossível de detectar está agora ao nosso alcance, permitindo-nos investigar a estrutura destas atmosferas, incluindo a presença de nuvens. Isto revela novas camadas de complexidade que os nossos modelos estão agora a começar a captar e abre a porta a uma caracterização ainda mais detalhada destes mundos frios e distantes”.

Uma oportunidade para o Telescópio Espacial Roman

Do lado positivo, há uma oportunidade iminente para observar as nuvens de gelo de água, que são muito reflectoras: o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman da NASA tem lançamento previsto para 2026-2027 e deverá ser adequado exactamente para esse tipo de observação.

Entretanto, Matthews e os seus colegas estão a candidatar-se a tempo de observação com o Webb para estudar outros análogos frios de Júpiter. E, enquanto Matthews e outros astrónomos estão a aprender mais sobre exo-Júpiteres frios, as suas técnicas de observação estão a lançar as bases que, se tudo correr bem, ajudarão futuros observadores a procurar planetas semelhantes à Terra, em busca de vida.

// Sociedade Max Planck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv)

CCVALG
24.04.2026

🇵🇹 Aqui escreve-se em Português de Portugal (não adulterado), pré-AO 🇵🇹

Portal: https://inforgomes.pt/

Webdesigner, Computer Networks and Systems, Programmer, Astronomer, Photographer, Blogger, Culinary Cook, Certificate Microsoft Network Server, Administrative and Financial Manager, IA, Scientific Researcher, Digital Content Performer, Musician: Spanish Classical Viola, Double Bass, Vocalist and Drummer

published in: 5 dias ago

 

Loading

45: Webb redefine a linha divisória entre planetas e estrelas

1
0

 

Onde fica a linha que divide as estrelas dos planetas mais massivos? Os cientistas pensam que isso possa depender da maneira como se formaram. Terá sido através de um processo ascendente, crescendo gradualmente ao longo do tempo, ou de um processo descendente, no qual uma grande colecção de gás e poeira se fragmenta em pedaços menores, do tamanho de planetas? Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA para estudar um objecto com uma massa cerca de 15 vezes superior à de Júpiter, o que o coloca exactamente na linha divisória entre os dois processos. Descobriram que o objecto, denominado 29 Cygni b, provavelmente se formou de modo ascendente, em vez de descendente. Por outras palavras, formou-se como um planeta, não como uma estrela.

O exoplaneta 29 Cygni b, visto aqui nesta representação artística, é um gigante gasoso com uma massa cerca de 15 vezes superior à de Júpiter. Orbita uma estrela do tipo A (visível no canto superior direito), ligeiramente mais quente e mais massiva do que o nosso Sol, a uma distância média de 2,4 mil milhões de quilómetros. Sabe-se que a estrela possui um disco de detritos empoeirado. Um fragmento hipotético de cometa é mostrado a aproximar-se do planeta, enquanto impactos anteriores deixaram manchas escuras no topo das suas nuvens, semelhantes às que foram observadas no impacto do Cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter, no nosso Sistema Solar.
Os astrónomos estudaram 29 Cygni b com o Webb para determinar que provavelmente foi formado por acreção, um processo ascendente em que pequenos pedaços de rocha e gelo se aglomeram e crescem com o tempo, em vez de por fragmentação do disco. Por outras palavras, formou-se como um planeta e não como uma estrela.
Crédito: NASA, ESA, CSA, J. Olmsted (STScI)

Os planetas, como os do nosso Sistema Solar, formam-se num processo de ascendente, em que pequenos pedaços de rocha e gelo se aglomeram e crescem com o tempo. Mas quanto mais pesado for o planeta, mais difícil é explicar a sua formação dessa forma.

Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb para examinar 29 Cygni b, um objecto com cerca de 15 vezes a massa de Júpiter que orbita uma estrela próxima. Encontraram múltiplas linhas de evidência de que 29 Cygni b se formou de facto a partir deste processo ascendente, recolhendo novas informações sobre como os planetas mais massivos surgiram. O artigo científico que descreve estas descobertas foi publicado na revista The Astrophysical Journal Letters.

Entende-se, de forma geral, que o processo de formação planetária ocorre dentro de gigantescos discos de gás e poeira em torno das estrelas, através de um processo chamado acreção. A poeira aglomera-se em seixos, que colidem e crescem cada vez mais, formando protoplanetas e, eventualmente, planetas. Os maiores, por sua vez, recolhem gás para se tornarem gigantes como Júpiter. Uma vez que a formação de gigantes gasosos demora mais tempo e o disco de material formador de planetas acaba por evaporar-se e desaparecer, os sistemas planetários acabam por ter muito mais planetas pequenos do que planetas grandes.

Em contrapartida, as estrelas formam-se quando uma vasta nuvem de gás se fragmenta e cada pedaço entra em colapso sob a sua própria gravidade, tornando-se cada vez mais pequeno e denso. Teoricamente, um processo de fragmentação semelhante poderia ocorrer também no interior dos discos protoplanetários. Isso poderia explicar por que razão alguns objectos muito massivos são encontrados a milhares de milhões de quilómetros das suas estrelas hospedeiras, em regiões onde o disco protoplanetário deveria ser demasiado rarefeito para que a acreção ocorresse.

Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb para obter imagens directas de 29 Cygni b, que tem 15 vezes a massa de Júpiter. Encontraram indícios de elementos químicos pesados, como o carbono e o oxigénio, o que sugere fortemente que se formou como um planeta por acreção dentro de um disco protoplanetário, e não como uma estrela por fragmentação
O instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Webb foi utilizado no seu modo coronográfico, o qual simula um eclipse da estrela hospedeira (rotulada com A e marcada com um símbolo de estrela) para revelar o planeta. Esta imagem combina luz de três filtros entre 4 e 5 micrómetros. O planeta é mais brilhante no filtro azul, depois no verde e, por fim, no vermelho, pelo que aparece como um ponto esbranquiçado na composição de cores. Se o dióxido de carbono não estivesse presente, o planeta pareceria visivelmente mais vermelho
Nesta imagem, a cor azul é atribuída à luz de 4,1 micrómetros, a verde à luz de 4,3 micrómetros e a vermelha à luz de 4,6 micrómetros.
Crédito: NASA, ESA, CSA, W. Balmer (JHU, STScI), L. Pueyo (STScI); processamento de imagem – A. Pagan (STScI)

29 Cygni b situa-se na linha divisória entre o que pode ser explicado por estes dois mecanismos diferentes. Tem 15 vezes a massa de Júpiter e orbita a sua estrela a uma distância média de 2,4 mil milhões de quilómetros, aproximadamente a mesma distância que Úrano no nosso Sistema Solar. A equipa de investigação escolheu-o como alvo porque poderia potencialmente resultar de qualquer um dos dois processos.

O programa de observação da equipa científica utilizou o instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Webb no seu modo coronográfico para captar imagens directas de 29 Cygni b. Este planeta foi o primeiro de quatro objectos alvo do programa, todos os quais se sabe que têm massas entre 1 e 15 vezes a de Júpiter. A equipa também exigiu que os seus alvos orbitassem até cerca de 15 mil milhões de quilómetros das suas estrelas.

Os planetas são todos jovens e ainda quentes devido à sua formação, com temperaturas que variam entre cerca de 530 e 1000 graus Celsius. Isto garantiria que a química atmosférica fosse semelhante à dos planetas do sistema HR 8799, que a equipa já tinha estudado anteriormente.

Ao escolher filtros adequados, a equipa conseguiu procurar sinais de luz absorvida pelo dióxido de carbono (CO2) e pelo monóxido de carbono (CO), o que lhes permitiu determinar a quantidade desses elementos químicos mais pesados, que os astrónomos designam colectivamente por metais.

Encontraram fortes indícios de que 29 Cygni b é rico em metais em relação à sua estrela hospedeira, que é semelhante ao nosso Sol em termos de composição. Dada a massa do planeta, a quantidade de elementos pesados que contém é equivalente a cerca de 150 Terras. Isto sugere que acretou grandes quantidades de sólidos ricos em metais a partir de um disco protoplanetário.

A equipa também utilizou uma rede de telescópios ópticos terrestres chamada CHARA (Center for High Angular Resolution Astronomy) para determinar se a órbita do planeta está alinhada com a rotação da estrela. Confirmaram esse alinhamento, o que seria de esperar para um objeto que se formou a partir de um disco protoplanetário.

Em conjunto, estas evidências sugerem fortemente que 29 Cygni b se formou dentro de um disco protoplanetário através da rápida acreção de material rico em metais. À medida que a equipa recolhe dados sobre os outros três alvos do seu programa, planeia procurar indícios de diferenças de composição entre os planetas de menor massa e os de maior massa. Isto deverá proporcionar novos conhecimentos sobre os seus mecanismos de formação.

// ESA/Webb (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)

CCVALG
17.04.2026

Be the first to write a review

🇵🇹 Aqui escreve-se em Português de Portugal (não adulterado), pré-AO 🇵🇹

Portal: https://inforgomes.pt/

Webdesigner, Computer Networks and Systems, Programmer, Astronomer, Photographer, Blogger, Culinary Cook, Certificate Microsoft Network Server, Administrative and Financial Manager, IA, Scientific Researcher, Digital Content Performer, Musician: Spanish Classical Viola, Double Bass, Vocalist and Drummer

published in: 2 semanas ago

 

Loading

27: Confirmada a ligação entre a composição dos exoplanetas e das suas estrelas hospedeiras

1
0

 

Os astrónomos descobriram que um planeta gigante, WASP-189b, reflecte a composição da sua estrela hospedeira, fornecendo a primeira evidência directa de um conceito fundamental da astrobiologia. Esta descoberta foi alcançada através da primeira medição simultânea de magnésio e silício gasosos na atmosfera de um planeta. A equipa utilizou o telescópio Gemini South, metade do Observatório Internacional Gemini.

Esta ilustração mostra um Júpiter ultra-quente a orbitar uma estrela azul-esbranquiçada do tipo A.
Crédito: Observatório Internacional Gemini/NOIRLab/NSF/AURA/J. Pollard

A quase 320 anos-luz de distância, na direcção da constelação de Balança, encontra-se WASP-189b, um exoplaneta classificado como Júpiter ultra-quente. Os Júpiteres ultra-quentes têm temperaturas suficientemente elevadas para vaporizar elementos formadores de rochas, como o magnésio (Mg), o silício (Si) e o ferro (Fe), oferecendo uma oportunidade rara de observar estes elementos através da espectroscopia – a técnica de decompor a luz nos seus comprimentos de onda componentes para identificar a presença de substâncias químicas.

Uma equipa internacional de astrónomos liderada por Jorge Antonio Sanchez, estudante na Universidade do Estado do Arizona, observou WASP-189b utilizando o instrumento IGRINS (Immersion GRating INfrared Spectrograph) quando este esteve temporariamente montado no telescópio Gemini South, no Chile. Este poderoso instrumento permitiu-lhes medir simultaneamente o conteúdo de magnésio e silício na atmosfera do exoplaneta.

Esta é a primeira vez que tal medição é realizada, e os dados revelam que WASP-189b partilha a mesma proporção de magnésio para silício que a sua estrela hospedeira. Esta descoberta fornece a primeira evidência observacional de uma hipótese amplamente aceite acerca da formação de planetas e abre um novo caminho para compreender como os exoplanetas se formam e evoluem.

“Estas descobertas demonstram a capacidade do Gemini para nos ajudar a compreender as características do notável conjunto de exoplanetas na vizinhança do nosso Sistema Solar”, afirma Chris Davis, director do programa da NSF para o NOIRLab. “Tais descobertas só são possíveis graças aos instrumentos de ponta do Gemini”.

Pensa-se que planetas gigantes e quentes como WASP-189b tenham uma camada exterior de gás cuja composição química é influenciada pelo disco de material no qual se formaram, conhecido como discos protoplanetários. E os investigadores assumem que a proporção de elementos formadores de rochas num disco protoplanetário corresponde à da estrela hospedeira, uma vez que ambos nasceram da mesma nuvem primordial de material.

Esta ligação química inferida entre uma estrela e os planetas que se formam à sua volta é frequentemente utilizada para modelar a composição de exoplanetas rochosos. Esta ligação baseava-se anteriormente em medições realizadas no nosso Sistema Solar e, até agora, não tinha sido observada directamente em planetas noutros locais.

“WASP-189b proporciona-nos um muito necessário ponto de referência observacional para a nossa compreensão da formação de planetas terrestres, uma vez que oferece uma quantidade mensurável que valida a suposta semelhança entre a composição estelar e a proporção de material rochoso em torno das estrelas hospedeiras utilizado para formar planetas”, afirma Sanchez.

Esta suposição não só é útil para compreender a formação de planetas, como também é fundamental para o campo da astrobiologia, que inclui o estudo de ambientes habitáveis no Sistema Solar. Ao medir a composição química de uma estrela, os cientistas podem inferir a abundância de elementos formadores de rochas nos exoplanetas da estrela, o que pode determinar as condições geoquímicas que tornam um planeta habitável.

Por exemplo, os elementos formadores de rochas na Terra são, em parte, responsáveis pelo nosso campo magnético protector, pela tectónica de placas e pela libertação de substâncias químicas essenciais à vida na nossa atmosfera, oceanos e solo.

À medida que o campo dos exoplanetas se volta para a caracterização de planetas terrestres e procura elucidar as condições habitáveis de mundos rochosos, as evidências empíricas que validam a relação entre as composições estelares e planetárias representam um fundamental passo em frente. E o nível de resolução espectral necessário para este tipo de estudos está actualmente disponível apenas em telescópios terrestres.

“O nosso estudo demonstra a capacidade dos espectrógrafos terrestres de alta resolução para determinar a presença de espécies críticas como o magnésio e o silício, dois elementos fundamentais a partir dos quais os planetas rochosos se formam”, afirma o co-autor do estudo Michael Line, professor associado da Universidade do Estado do Arizona. “Esta evolução abre uma dimensão totalmente nova no nosso estudo das atmosferas dos exoplanetas”.

Novas observações de alta resolução em múltiplos comprimentos de onda, para estudar atmosferas de exoplanetas como a de WASP-189b, vão ajudar a revelar o inventário químico mais abrangente que existe em mundos distantes. Tais estudos permitirão uma compreensão mais profunda das condições que regem as origens, a evolução e a potencial habitabilidade dos planetas.

// NOIRLab (comunicado de imprensa)
// Observatório Internacional Gemini (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Communications)

CCVALG
03.04.2026

How useful was this post?

Click on a star to rate it!

Average rating 0 / 5. Vote count: 0

No votes so far! Be the first to rate this post.

Be the first to write a review

🇵🇹 Aqui escreve-se em Português de Portugal (não adulterado), pré-AO 🇵🇹

Portal: https://inforgomes.pt/

Webdesigner, Computer Networks and Systems, Programmer, Astronomer, Photographer, Blogger, Culinary Cook, Certificate Microsoft Network Server, Administrative and Financial Manager, IA, Scientific Researcher, Digital Content Performer, Musician: Spanish Classical Viola, Double Bass, Vocalist and Drummer

published in: 4 semanas ago

 

Loading

10: Investigadores revelam uma nova classe de planetas fundidos

1
0

 

Ilustração artística do exoplaneta L 98-59 d.
Crédito: Mark A. Garlick

O exoplaneta conhecido como L 98-59 d orbita uma pequena estrela vermelha a cerca de 35 anos-luz da Terra. Observações recentes do Telescópio Espacial James Webb e de observatórios terrestres sugeriram algo invulgar: o planeta tem uma densidade particularmente baixa, dado o seu tamanho (que é cerca de 1,6 vezes o da Terra) e contém quantidades significativas de sulfureto de hidrogénio na sua atmosfera.

Até agora, os astrónomos teriam classificado um planeta como este numa de duas categorias conhecidas: ou um “anão gasoso” e rochoso com uma atmosfera de hidrogénio, ou um mundo rico em água composto por oceanos profundos e por gelo. Mas estas novas descobertas revelam que L 98-59 d não se enquadra em nenhuma dessas descrições – ao invés, parece pertencer a uma classe totalmente diferente de planetas, contendo moléculas pesadas de enxofre.

Um planeta com um oceano de magma

Utilizando simulações computacionais avançadas, uma equipa de investigadores da Universidade de Oxford, da Universidade de Groninga, da Universidade de Leeds e da ETH Zurique reconstruiu a história do planeta desde pouco depois do seu nascimento até aos dias de hoje – um período de quase cinco mil milhões de anos. Ao ligar directamente as observações telescópicas a estes modelos físicos detalhados do interior e da atmosfera planetária, conseguiram determinar o que deve estar a ocorrer nas profundezas do planeta.

Os seus resultados revelam que o manto de L 98-59 d é provavelmente constituído por silicato fundido (semelhante à lava na Terra), com um oceano global de magma que se estende por milhares de quilómetros abaixo da superfície. Este vasto reservatório fundido permite que o planeta armazene quantidades extremamente grandes de enxofre nas profundezas do seu interior, ao longo de escalas geológicas de tempo.

O oceano de magma também ajuda L 98-59 d a reter uma atmosfera espessa rica em hidrogénio, contendo gases que contêm enxofre, como o sulfureto de hidrogénio (H2S). Normalmente, este seria perdido para o espaço ao longo do tempo, devido aos raios X produzidos pela estrela hospedeira.

Ao longo de milhares de milhões de anos, as interacções químicas entre o seu interior fundido e a atmosfera moldaram o que os telescópios observam hoje em L 98-59 d. Os investigadores sugerem que L 98-59 d pode ser o primeiro membro reconhecido de uma população mais ampla de planetas sulfurosos ricos em gás que sustentam oceanos de magma e de longa duração. Se assim for, a diversidade de mundos na nossa Galáxia pode ser ainda maior do que se imaginava anteriormente.

O autor principal, Dr. Harrison Nicholls (Departamento de Física, Universidade de Oxford), afirmou: “Esta descoberta sugere que as categorias que os astrónomos utilizam actualmente para descrever planetas pequenos podem ser demasiado simples. Embora seja improvável que este planeta fundido sustente vida, reflecte a ampla diversidade dos mundos que existem para lá do Sistema Solar. Podemos então perguntar: que outros tipos de planetas estão à espera de serem descobertos?”

Como o enxofre molda o planeta

As observações Webb realizadas em 2024 indicaram a presença de dióxido de enxofre, entre outros gases sulfurosos, nas camadas superiores da atmosfera de L 98-59 d. Os novos modelos da equipa mostram que estes gases podem ser criados quando a luz ultravioleta da estrela hospedeira, a anã vermelha L 98-59, desencadeia reacções químicas.

Ao mesmo tempo, o oceano de magma abaixo actua como um enorme reservatório para armazenar estes gases voláteis, acumulando-os e libertando-os ao longo de milhares de milhões de anos após a formação do planeta. Esta combinação de armazenamento profundo de voláteis no seu interior e da química atmosférica impulsionada pelos raios ultravioleta explica as propriedades notáveis do planeta.

De acordo com as simulações, L 98-59 d provavelmente formou-se com uma quantidade muito grande de material volátil e pode ter-se assemelhado, em tempos, a um planeta sub-Neptuno de maiores dimensões. Ao longo de milhares de milhões de anos, foi encolhendo gradualmente à medida que arrefecia e perdia parte da sua atmosfera.

É importante referir que os oceanos de magma representam os estados iniciais universais de todos os planetas rochosos (incluindo a Terra e Marte), pelo que novos conhecimentos acerca da física dos oceanos de magma podem dar-nos informações sobre o nosso próprio mundo e sobre a sua história primordial.

O co-autor e professor Raymond Pierrehumbert (Departamento de Física da Universidade de Oxford), afirmou: “O que é excitante é que podemos utilizar modelos computacionais para desvendar o interior oculto de um planeta que nunca iremos visitar. Embora os astrónomos só possam medir o tamanho, a massa e a composição atmosférica de um planeta à distância, esta investigação demonstra que é possível reconstruir o passado remoto destes mundos alienígenas – e descobrir tipos de planetas sem equivalente no nosso próprio Sistema Solar”.

O Telescópio Webb está a fornecer uma grande quantidade de novos dados, com mais a caminho pelas futuras missões Ariel e PLATO. A equipa de investigação pretende aplicar as suas simulações a estas novas medições, utilizando métodos de aprendizagem de máquina, para mapear a diversidade de mundos para lá do Sistema Solar e estabelecer ligações com as suas histórias iniciais. Ao fazê-lo, vamos aprender como os planetas se formam, como evoluem e, assim, definir expectativas sobre quais podem ser habitáveis (ou não).

O Dr. Richard Chatterjee (Universidade de Leeds/Universidade de Oxford) afirmou: “Os nossos modelos computacionais simulam vários processos planetários, permitindo-nos efectivamente recuar no tempo e compreender como este exoplaneta rochoso invulgar, L 98-59 d, evoluiu.

O gás sulfureto de hidrogénio, responsável pelo cheiro a ovos podres, parece desempenhar um papel de destaque nesse planeta. Mas, como sempre, são necessárias mais observações para compreender este planeta e outros semelhantes. Investigações futuras poderão ainda revelar que planetas com odores bastante pungentes são surpreendentemente comuns”.

// Universidade de Oxford (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)

CCVALG
20.03.2026

How useful was this post?

Click on a star to rate it!

Average rating 0 / 5. Vote count: 0

No votes so far! Be the first to rate this post.

🇵🇹 Aqui escreve-se em Português de Portugal (não adulterado), pré-AO 🇵🇹

Portal: https://inforgomes.pt/

Webdesigner, Computer Networks and Systems, Programmer, Astronomer, Photographer, Blogger, Culinary Cook, Certificate Microsoft Network Server, Administrative and Financial Manager, IA, Scientific Researcher, Digital Content Performer, Musician: Spanish Classical Viola, Double Bass, Vocalist and Drummer

published in: 1 mês ago

 

Loading