36: Eis cinco coisas que a sonda JUICE revelou sobre o cometa 3I/ATLAS

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Em Novembro de 2025, a JUICE (Jupiter Icy Moons Explorer) encontrava-se no local certo, na altura certa e com o equipamento ideal para observar o cometa interestelar 3I/ATLAS logo após a sua aproximação máxima ao Sol. As equipas de operações da missão activaram cinco dos instrumentos científicos da JUICE para recolher informações sobre o comportamento do cometa activo naquele momento.

Observações do cometa 3I/ATLAS pela câmara JANUS da JUICE, no dia 5 de Novembro de 2025, quando o cometa se encontrava a 64 milhões de km da sonda. O comprimento da cauda que se estende na direcção oposta ao Sol parece ser de cerca de 6 milhões de km.
Crédito: ESA/JUICE/JANUS

Após uma espera de três meses para receber os dados cá na Terra, os cientistas que trabalham com cada um destes instrumentos passaram as últimas semanas a analisar as fotografias, os espectros e os números. Os resultados ainda são preliminares, o trabalho continua, mas eis cinco coisas que já aprenderam.

Os instrumentos científicos da sonda JUICE
Crédito: ESA

1. O cometa estava a libertar o equivalente a 70 piscinas olímpicas de vapor de água todos os dias

No dia 2 de Novembro de 2025, apenas quatro dias depois do 3I/ATLAS ter feito a sua aproximação máxima ao Sol, o MAJIS (Moons And Jupiter Imaging Spectrometer) da JUICE detectou que o cometa estava a expelir 2000 kg de vapor de água por segundo – o equivalente a 70 piscinas olímpicas por dia.

Os cometas – fazendo jus à sua alcunha de “bolas de neve sujas” – são compostos principalmente por gelo. À medida que se aproximam do Sol, este gelo transforma-se em gás e escapa do cometa. A quantidade de vapor de água que saía do 3I/ATLAS não é excepcional, mas situa-se na gama superior do que seria de esperar de um cometa próximo do Sol, com base no que já se observou anteriormente em cometas como o 67P (300 kg por segundo) e o Halley (20.000 kg por segundo).

Estes valores dependem muito do tamanho do cometa e da sua distância em relação ao Sol. O MAJIS voltou a detectar o 3I/ATLAS nos dias 12 e 19 de Novembro, enquanto este se afastava do Sol. A 12 de Novembro, a quantidade de vapor de água libertada pelo cometa não parecia ter diminuído significativamente. A equipa responsável pelo instrumento tenciona analisar os dados de 19 de Novembro nas próximas semanas.

Observações infravermelhas, pelo MAJIS, do cometa 3I/ATLAS, sobrepostas a uma imagem da câmara de navegação da JUICE. O instrumento detectou vapor de água e dióxido de carbono a serem libertados pelo cometa.
Crédito: ESA/JUICE/MAJIS

2. A maior parte deste vapor de água estava a ser libertado na direcção do Sol

O SWI (Submillimeter Wave Instrument) da JUICE também detectou vapor de água proveniente do 3I/ATLAS, revelando que a maior parte estava a ser libertado do lado do cometa voltado para o Sol. Parece também que grande parte deste vapor de água não provém, na verdade, directamente da parte sólida do cometa (o seu núcleo), mas sim de grãos de poeira gelada que escaparam para um halo circundante de poeira e gás (a sua cabeleira).

A equipa do SWI continua a analisar os dados para determinar a quantidade de água “leve” (H₂O normal) que o 3I/ATLAS estava a libertar. É interessante comparar isto com a quantidade de água “semi-pesada” (HDO) do cometa, que foi medida pelos telescópios ALMA e Webb. Esta proporção é um número muito importante nos estudos do Universo, fornecendo uma espécie de “impressão digital” que descreve como e onde um objecto se formou.

O ALMA e o Webb constataram que esta proporção era inesperadamente e extremamente elevada no caso do 3I/ATLAS – possivelmente porque o cometa se formou num ambiente muito frio e muito antigo, onde esteve exposto a uma grande quantidade de radiação ultravioleta proveniente de estrelas jovens. A equipa do SWI está a investigar se os dados da JUICE corroboram estas conclusões.

3. O gás e a poeira estendem-se pelo menos 5 milhões de km a partir do núcleo do cometa

O UVS (Ultraviolet Imaging Spectrograph) da JUICE captou luz proveniente de átomos de oxigénio, hidrogénio e carbono no gás e na poeira que rodeiam e seguem o cometa. O oxigénio, o hidrogénio, o carbono e a poeira emitem fotões em comprimentos de onda específicos, que o UVS registou como contagens por segundo.

O UVS observou estes elementos gasosos e poeira a estenderem-se por mais de 5 milhões de km a partir do núcleo do 3I/ATLAS. O gás e a poeira são comuns em torno de cometas activos, com caudas que por vezes atingem até 10 milhões de km de comprimento.

Concentrações de oxigénio, hidrogénio, carbono e poeira medidas pelo instrumento UVS da sonda JUICE no cometa 3I/ATLAS.
Crédito: ESA

4. Este cometa interestelar parece-se… tal e qual um cometa normal!

A câmara científica de alta resolução da sonda JUICE, a JANUS (Jovis Amorum ac Natorum Undique Scrutator – latim para “Observador de Júpiter, de todos os seus amores e descendentes”), também observou o 3I/ATLAS a expelir gás e poeira.

O cometa 3I/ATLAS visto através de filtros vermelho até violeta. No filtro vermelho (que parece laranja neste GIF), o centro brilhante da cabeleira é mais compacto e há duas caudas – uma a descer em linha recta e outra mais difusa que se estende para a parte inferior esquerda. No filtro violeta (que parece azul neste GIF), a cabeleira é maior, mas mais fraca, e apenas uma cauda se destaca claramente. As diferenças surgem porque diferentes partículas de gás e poeira libertam ou reflectem luz em comprimentos de onda diferentes.
Crédito: ESA

Apesar de estar a mais de 60 milhões de km do 3I/ATLAS, a JANUS revela claramente a cabeleira na qual o núcleo se esconde, bem como duas caudas. Uma cauda estende-se para longe do Sol, e a outra segue a trajectória percorrida pelo cometa através do Sistema Solar. Também podemos ver formas mais ténues dentro da cabeleira e das caudas que indicam vários processos e interacções com a radiação, as partículas e o campo magnético do Sol. A equipa da JANUS está actualmente a investigar estas formas com mais detalhe.

Em geral, a JANUS mostra que, apesar da sua origem interestelar, o cometa 3I/ATLAS se comportava como um cometa típico do Sistema Solar durante uma aproximação ao Sol.

5. O 3I/ATLAS está a apoiar os esforços de defesa planetária – mas talvez não da forma que se possa pensar

A NavCam (Navigation Camera) da JUICE foi especialmente concebida para ajudar a sonda a navegar em torno das luas geladas de Júpiter após a sua chegada em 2031. O encontro com o 3I/ATLAS permitiu fazer algo totalmente inesperado com ela.

Os cientistas já utilizaram telescópios na Terra e arredores para estimar a localização e a trajectória do cometa 3I/ATLAS através do Sistema Solar. Parece vir da direcção do disco da Via Láctea e, por isso, foi provavelmente formado há mais de 10 mil milhões de anos.

A NavCam teve uma visão muito mais próxima do 3I/ATLAS, a partir de um ângulo diferente do dos telescópios terrestres, e numa altura em que o cometa não era visível a partir da Terra. Isto significou que a equipa de Defesa Planetária da ESA pôde alinhar imagens da NavCam ao longo de Novembro para ter uma ideia mais clara da posição e trajectória variáveis do cometa.

Desta forma, a equipa – que normalmente rastreia asteróides potencialmente perigosos – demonstrou o quão poderosas podem ser as observações de missões no espaço profundo para calcular com precisão as órbitas de cometas ou asteróides que não podem ser vistos imediatamente a partir da Terra.

Além disso, como a trajectória de um cometa é ligeiramente afectada pela libertação de poeira e gás, a equipa está a começar a utilizar as medições de trajectória baseadas nas imagens da NavCam para compreender que materiais – e em que quantidade – o cometa está a deixar no seu rasto.

A NavCam teve uma vista muito mais próxima do 3I/ATLAS, a partir de um ângulo diferente do dos telescópios terrestres, e numa altura em que o cometa não era visível a partir da Terra. Isto significou que as imagens da NavCam captadas ao longo de Novembro de 2025 puderam ser alinhadas para se ter uma ideia mais clara da evolução da posição e da trajectória do cometa.
Crédito: ESA/JUICE/NavCam

O que se segue para a JUICE?

As equipas responsáveis pelos instrumentos vão continuar a analisar os dados, estando muitas delas a planear publicar artigos científicos acerca dos seus resultados nos próximos meses.

“O 3I/ATLAS é um visitante raro e inesperado; a sua chegada foi uma surpresa total”, afirma Olivier Witasse, cientista do projecto JUICE da ESA. “Mas quando nos demos conta que a JUICE estaria perto do cometa na altura da sua aproximação máxima ao Sol, percebemos que esta era uma oportunidade única para recolher um conjunto de dados que só se tem uma vez na vida”.

Ele continua: “Observar o cometa foi um desafio, sem garantias de sucesso, mas, no final, acabou por ser um grande bónus para a JUICE durante a sua viagem até Júpiter”.

A distância mínima a que a JUICE chegou de 3I/ATLAS foi de cerca de 60 milhões de km, enquanto vai observar as luas de Júpiter a apenas algumas centenas de quilómetros de distância. Mesmo assim, tendo sido concebidos e equipados para estudar luas geladas, os instrumentos da JUICE revelaram-se perfeitos para o cometa interestelar gelado.

Ainda temos de esperar cinco anos até que a JUICE chegue a Júpiter em 2031, mas todos os seus instrumentos serão ligados novamente em Setembro de 2026, quando a JUICE regressar à Terra para outra manobra de assistência gravitacional.

“Os dados que já estamos a ver dos instrumentos da JUICE são realmente promissores”, afirma a co-cientista do projecto Claire Vallat. “Estamos cada vez mais entusiasmados com o bom funcionamento dos instrumentos e com o quanto iremos revelar sobre Júpiter e as suas luas geladas na década de 2030”.

// ESA (comunicado de imprensa)

CCVALG
07.04.2026

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