49: Como serão as ondas noutros planetas?

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Num dia calmo, uma brisa leve mal consegue ondular a superfície de um lago na Terra. Mas em Titã, a maior lua de Saturno, um semelhante vento suave provocaria ondas de 3 metros de altura.

O mesmo vento suave que cria pequenas ondulações num lago na Terra (à direita) provocaria grandes ondas em Titã, a maior lua de Saturno (à esquerda). Nestas imagens, a escala é medida em metros.
Crédito: Schneck et al., 2026

Este comportamento do outro mundo é uma das previsões de um novo modelo de ondas desenvolvido por cientistas do MIT (Massachusetts Institute of Technology). O modelo é o primeiro a captar toda a dinâmica das ondas e o que é necessário para as provocar em diferentes condições planetárias.

Num estudo publicado na revista Journal of Geophysical Research: Planets, a equipa do MIT apresenta o modelo, ao qual deram o nome apropriado de “PlanetWaves”. Aplicam o modelo para prever como as ondas se comportam em corpos planetários que possam albergar lagos e oceanos líquidos, incluindo Titã, o antigo Marte e três planetas para lá do Sistema Solar.

O modelo prevê que um vento suave seria suficiente para agitar ondas enormes em Titã, onde os lagos estão cheios de hidrocarbonetos líquidos leves. Em contraste, seriam necessários ventos com a força de um furacão para mal mover a superfície de um lago no exoplaneta 55 Cancri e, que se pensa ser um mundo de lava coberto por rocha líquida quente e densa.

“Na Terra, estamos habituados a certas dinâmicas das ondas”, afirma o autor do estudo Andrew Ashton, cientista associado do WHOI (Woods Hole Oceanographic Institution) e membro do corpo docente do Programa Conjunto MIT-WHOI. “Mas com este modelo, podemos ver como as ondas se comportam em planetas com diferentes líquidos, atmosferas e gravidade, o que pode, de certa forma, desafiar a nossa intuição”.

A equipa está particularmente interessada em compreender como as ondas se formam em Titã. Esta grande lua é o único outro corpo planetário do Sistema Solar, além da Terra, que se sabe albergar actualmente lagos líquidos.

“Em qualquer lugar onde haja uma superfície líquida sobre a qual sopre vento, existe a possibilidade de se formarem ondas”, afirma Taylor Perron, professor de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias no MIT. “No caso de Titã, o que é intrigante é que não temos qualquer observação directa de como são esses lagos. Por isso, não sabemos ao certo que tipo de ondas poderão existir lá. Agora, este modelo dá-nos uma ideia”.

Se um dia os humanos enviassem uma sonda aos lagos de Titã, o novo modelo da equipa poderia servir de base para a construção de naves espaciais resistentes às ondas.

“Seria necessário construir algo capaz de resistir à energia das ondas”, afirma a autora principal, Una Schneck, estudante no Departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias do MIT. “Por isso, é importante saber que tipo de ondas estes instrumentos teriam de enfrentar”.

Entre os co-autores do estudo contam-se Charlene Detelich e Alexander Hayes, da Universidade de Cornell, e Milan Curcic, da Universidade de Miami.

“A primeira lufada”

Quando o vento sopra sobre a água, cria ondas que podem ser suficientemente fortes para esculpir linhas costeiras e redistribuir os sedimentos trazidos para a costa pelos rios. Através deste processo, as ondas podem ser uma força significativa na formação da paisagem ao longo do tempo. Schneck e colegas, que estudam a evolução da paisagem na Terra e noutros planetas, questionaram-se sobre como as ondas se comportariam noutros mundos onde a gravidade, as condições atmosféricas e a composição dos líquidos podem ser muito diferentes das encontradas na Terra.

“Já houve tentativas, no passado, de prever como a gravidade afectaria as ondas noutros planetas”, diz Schneck. “Mas não quantificam outros factores, como a composição do líquido que está a formar as ondas. Esse foi o grande avanço deste projecto”.

Ela e os seus colegas desenvolveram um modelo de ondas completo que tem em conta não só a gravidade de um planeta, mas também as propriedades do seu líquido superficial, tais como a densidade, a viscosidade e a tensão superficial, ou seja, a resistência de um líquido à formação de ondulações. A equipa também incorporou o efeito da pressão atmosférica de um planeta. Com este modelo, pretendiam prever como a superfície líquida de um planeta evoluiria em resposta a ventos de uma determinada velocidade.

“Imagine um lago completamente calmo”, sugere Ashton. “Estamos a tentar perceber qual é a primeira lufada de vento que vai criar aquelas primeiras ondulações minúsculas, até se transformar numa onda oceânica completa”.

Fazendo ondas

A equipa testou primeiro o seu novo modelo com dados de ondas na Terra. Utilizaram medições de ondas recolhidas por boias no Lago Superior ao longo de 20 anos. Descobriram que o modelo, que tinha em conta a gravidade da Terra, a composição do líquido (água) e as condições atmosféricas, era capaz de prever com precisão a velocidade do vento necessária para gerar ondas no lago e a altura que as ondas atingiam com uma determinada intensidade de vento.

Os investigadores aplicaram então o modelo para prever como as ondas se comportariam noutros corpos planetários que se sabe terem líquido na sua superfície. Analisaram primeiro Titã, onde a missão Cassini da NASA captou anteriormente imagens de radar de formações lacustres, que os cientistas suspeitam estarem actualmente cheias de metano e etano líquidos. A equipa utilizou o novo modelo para calcular a dinâmica das ondas da lua, tendo em conta a sua gravidade, pressão atmosférica e composição do líquido.

Descobriram que, em Titã, é surpreendentemente fácil formar ondas. O líquido relativamente leve, combinado com a baixa gravidade e a pressão atmosférica, faz com que até mesmo um vento suave consiga provocar ondas enormes.

“Parece um pouco como ondas altas a moverem-se em câmara lenta”, diz Schneck. “Se estivéssemos na margem deste lago, talvez sentíssemos apenas uma brisa suave, mas veríamos estas ondas enormes a fluir na nossa direcção, o que não é o que esperaríamos na Terra”.

Os investigadores também analisaram a actividade das ondas no antigo Marte. O Planeta Vermelho abriga muitas bacias de impacto que podem ter estado outrora cheias de água, antes de a atmosfera do planeta se dissipar e a água se evaporar. Uma dessas bacias é a Cratera Jezero, que está actualmente a ser explorada pelo rover Perseverance da NASA. Com o novo modelo, a equipa demonstrou que, à medida que a atmosfera de Marte desaparecia gradualmente, reduzindo a sua pressão ao longo do tempo, seriam necessários ventos mais fortes para criar as mesmas ondas.

Para além do Sistema Solar, os investigadores aplicaram o modelo a três exoplanetas diferentes. O primeiro, LHS 1140 b, é uma “super-Terra fria”, o que significa que é mais frio e maior do que a Terra. O planeta possui água líquida, embora, por ser tão grande, tenha uma gravidade mais forte. O modelo demonstrou que o mesmo vento na Terra geraria ondas de água muito mais pequenas na super-Terra, devido à diferença de gravidade.

A equipa também analisou Kepler-1649 b, um planeta semelhante a Vénus, que possui uma gravidade semelhante à da Terra, com lagos de ácido sulfúrico, cuja densidade é cerca de duas vezes superior à da água. Nestas condições, os investigadores descobriram que seriam necessários ventos muito fortes para provocar sequer uma ondulação neste “exo-Vénus”, em comparação com a Terra.

Este efeito é ainda mais pronunciado no terceiro planeta, 55 Cancri e – um mundo de lava que tem uma gravidade superior à da Terra e um líquido superficial muito mais denso e viscoso. Os cientistas suspeitam que o planeta abriga oceanos de rocha liquefeita. Neste ambiente, o modelo prevê que ventos com a força de um furacão na Terra, de cerca de 130 km/h, gerariam apenas pequenas ondas com alguns centímetros de altura no mundo de lava.

Para além de revelar novas formas como as ondas se podem comportar noutros planetas, Perron espera que o modelo responda a questões de longa data sobre a formação da paisagem planetária.

“Ao contrário da Terra, onde existe frequentemente um delta onde um rio encontra a costa, em Titã há muito poucas coisas que se assemelham a deltas, apesar de haver muitos rios e costas. Será que as ondas são responsáveis por isto?”, questiona-se Perron. “Este é o tipo de mistérios que este modelo nos ajudará a resolver”.

// MIT (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Journal of Geophysical Research: Planets)

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21.04.2026

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45: Webb redefine a linha divisória entre planetas e estrelas

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Onde fica a linha que divide as estrelas dos planetas mais massivos? Os cientistas pensam que isso possa depender da maneira como se formaram. Terá sido através de um processo ascendente, crescendo gradualmente ao longo do tempo, ou de um processo descendente, no qual uma grande colecção de gás e poeira se fragmenta em pedaços menores, do tamanho de planetas? Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA para estudar um objecto com uma massa cerca de 15 vezes superior à de Júpiter, o que o coloca exactamente na linha divisória entre os dois processos. Descobriram que o objecto, denominado 29 Cygni b, provavelmente se formou de modo ascendente, em vez de descendente. Por outras palavras, formou-se como um planeta, não como uma estrela.

O exoplaneta 29 Cygni b, visto aqui nesta representação artística, é um gigante gasoso com uma massa cerca de 15 vezes superior à de Júpiter. Orbita uma estrela do tipo A (visível no canto superior direito), ligeiramente mais quente e mais massiva do que o nosso Sol, a uma distância média de 2,4 mil milhões de quilómetros. Sabe-se que a estrela possui um disco de detritos empoeirado. Um fragmento hipotético de cometa é mostrado a aproximar-se do planeta, enquanto impactos anteriores deixaram manchas escuras no topo das suas nuvens, semelhantes às que foram observadas no impacto do Cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter, no nosso Sistema Solar.
Os astrónomos estudaram 29 Cygni b com o Webb para determinar que provavelmente foi formado por acreção, um processo ascendente em que pequenos pedaços de rocha e gelo se aglomeram e crescem com o tempo, em vez de por fragmentação do disco. Por outras palavras, formou-se como um planeta e não como uma estrela.
Crédito: NASA, ESA, CSA, J. Olmsted (STScI)

Os planetas, como os do nosso Sistema Solar, formam-se num processo de ascendente, em que pequenos pedaços de rocha e gelo se aglomeram e crescem com o tempo. Mas quanto mais pesado for o planeta, mais difícil é explicar a sua formação dessa forma.

Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb para examinar 29 Cygni b, um objecto com cerca de 15 vezes a massa de Júpiter que orbita uma estrela próxima. Encontraram múltiplas linhas de evidência de que 29 Cygni b se formou de facto a partir deste processo ascendente, recolhendo novas informações sobre como os planetas mais massivos surgiram. O artigo científico que descreve estas descobertas foi publicado na revista The Astrophysical Journal Letters.

Entende-se, de forma geral, que o processo de formação planetária ocorre dentro de gigantescos discos de gás e poeira em torno das estrelas, através de um processo chamado acreção. A poeira aglomera-se em seixos, que colidem e crescem cada vez mais, formando protoplanetas e, eventualmente, planetas. Os maiores, por sua vez, recolhem gás para se tornarem gigantes como Júpiter. Uma vez que a formação de gigantes gasosos demora mais tempo e o disco de material formador de planetas acaba por evaporar-se e desaparecer, os sistemas planetários acabam por ter muito mais planetas pequenos do que planetas grandes.

Em contrapartida, as estrelas formam-se quando uma vasta nuvem de gás se fragmenta e cada pedaço entra em colapso sob a sua própria gravidade, tornando-se cada vez mais pequeno e denso. Teoricamente, um processo de fragmentação semelhante poderia ocorrer também no interior dos discos protoplanetários. Isso poderia explicar por que razão alguns objectos muito massivos são encontrados a milhares de milhões de quilómetros das suas estrelas hospedeiras, em regiões onde o disco protoplanetário deveria ser demasiado rarefeito para que a acreção ocorresse.

Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb para obter imagens directas de 29 Cygni b, que tem 15 vezes a massa de Júpiter. Encontraram indícios de elementos químicos pesados, como o carbono e o oxigénio, o que sugere fortemente que se formou como um planeta por acreção dentro de um disco protoplanetário, e não como uma estrela por fragmentação
O instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Webb foi utilizado no seu modo coronográfico, o qual simula um eclipse da estrela hospedeira (rotulada com A e marcada com um símbolo de estrela) para revelar o planeta. Esta imagem combina luz de três filtros entre 4 e 5 micrómetros. O planeta é mais brilhante no filtro azul, depois no verde e, por fim, no vermelho, pelo que aparece como um ponto esbranquiçado na composição de cores. Se o dióxido de carbono não estivesse presente, o planeta pareceria visivelmente mais vermelho
Nesta imagem, a cor azul é atribuída à luz de 4,1 micrómetros, a verde à luz de 4,3 micrómetros e a vermelha à luz de 4,6 micrómetros.
Crédito: NASA, ESA, CSA, W. Balmer (JHU, STScI), L. Pueyo (STScI); processamento de imagem – A. Pagan (STScI)

29 Cygni b situa-se na linha divisória entre o que pode ser explicado por estes dois mecanismos diferentes. Tem 15 vezes a massa de Júpiter e orbita a sua estrela a uma distância média de 2,4 mil milhões de quilómetros, aproximadamente a mesma distância que Úrano no nosso Sistema Solar. A equipa de investigação escolheu-o como alvo porque poderia potencialmente resultar de qualquer um dos dois processos.

O programa de observação da equipa científica utilizou o instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Webb no seu modo coronográfico para captar imagens directas de 29 Cygni b. Este planeta foi o primeiro de quatro objectos alvo do programa, todos os quais se sabe que têm massas entre 1 e 15 vezes a de Júpiter. A equipa também exigiu que os seus alvos orbitassem até cerca de 15 mil milhões de quilómetros das suas estrelas.

Os planetas são todos jovens e ainda quentes devido à sua formação, com temperaturas que variam entre cerca de 530 e 1000 graus Celsius. Isto garantiria que a química atmosférica fosse semelhante à dos planetas do sistema HR 8799, que a equipa já tinha estudado anteriormente.

Ao escolher filtros adequados, a equipa conseguiu procurar sinais de luz absorvida pelo dióxido de carbono (CO2) e pelo monóxido de carbono (CO), o que lhes permitiu determinar a quantidade desses elementos químicos mais pesados, que os astrónomos designam colectivamente por metais.

Encontraram fortes indícios de que 29 Cygni b é rico em metais em relação à sua estrela hospedeira, que é semelhante ao nosso Sol em termos de composição. Dada a massa do planeta, a quantidade de elementos pesados que contém é equivalente a cerca de 150 Terras. Isto sugere que acretou grandes quantidades de sólidos ricos em metais a partir de um disco protoplanetário.

A equipa também utilizou uma rede de telescópios ópticos terrestres chamada CHARA (Center for High Angular Resolution Astronomy) para determinar se a órbita do planeta está alinhada com a rotação da estrela. Confirmaram esse alinhamento, o que seria de esperar para um objeto que se formou a partir de um disco protoplanetário.

Em conjunto, estas evidências sugerem fortemente que 29 Cygni b se formou dentro de um disco protoplanetário através da rápida acreção de material rico em metais. À medida que a equipa recolhe dados sobre os outros três alvos do seu programa, planeia procurar indícios de diferenças de composição entre os planetas de menor massa e os de maior massa. Isto deverá proporcionar novos conhecimentos sobre os seus mecanismos de formação.

// ESA/Webb (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)

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17.04.2026

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34: Como é que isto aconteceu? Um planeta gigante orbita uma estrela pequena

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Observações de um exoplaneta altamente invulgar, TOI-5205 b – por vezes denominado “proibido” -, realizadas pelo Telescópio Espacial James Webb, sugerem que a sua atmosfera contém menos elementos pesados do que a estrela hospedeira. Estas descobertas têm implicações para a nossa compreensão do processo de formação de planetas gigantes que ocorre nas fases iniciais da vida de uma estrela.

Impressão de artista do gigante gasoso TOI-5205 b em órbita de uma pequena e fria estrela vermelha.
Crédito: Katherine Caine, Instituto Carnegie

Publicadas a semana passada na revista The Astronomical Journal, estas descobertas representam o trabalho colaborativo de uma equipa internacional de astrónomos liderada por Caleb Cañas, do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, e que inclui Shubham Kanodia, do Instituto Carnegie.

TOI-5205 b é um planeta do tamanho de Júpiter que orbita uma estrela que, por sua vez, tem cerca de quatro vezes o tamanho de Júpiter e cerca de 40 por cento da massa do Sol. Quando passa à frente da sua estrela hospedeira – um fenómeno a que os astrónomos chamam “trânsito” -, o planeta bloqueia cerca de 6% da sua luz. Ao observar este trânsito com instrumentos telescópicos chamados espectrógrafos, que dividem a luz nas suas cores constituintes, os astrónomos podem tentar decifrar a composição atmosférica do planeta e aprender mais sobre a sua história e relação com a sua estrela hospedeira.

Os planetas nascem do disco giratório de gás e poeira que rodeia uma estrela na sua juventude. Embora seja geralmente aceite que os planetas gigantes se formam nestes discos resultantes do nascimento da estrela-mãe, a existência de planetas massivos como TOI-5205 b em órbita de estrelas frias a distâncias próximas levanta muitas questões sobre este processo.

Para esclarecer melhor esta questão, Kanodia, Cañas e Jessica Libby-Roberts, da Universidade de Tampa, EUA, estão a liderar o maior programa de exoplanetas do Ciclo 2 do Telescópio James Webb, intitulado “Anãs Vermelhas e os Sete Gigantes”, concebido para estudar mundos improváveis como TOI-5205 b – por vezes designados por GEMS (“giant exoplanets around M dwarf stars”).

Em 2023, Kanodia liderou o esforço que confirmou a existência de TOI-5205 b, dando seguimento às informações do TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA, que o identificou pela primeira vez como um candidato a planeta. Agora, ele co-lidera a equipa que fez as primeiras observações da sua composição atmosférica.

As suas observações de três trânsitos de TOI-5205 b revelaram algo que os astrónomos não conseguiram explicar facilmente. Ficaram surpreendidos ao ver que a atmosfera do planeta tem uma concentração mais baixa de elementos pesados – em relação ao hidrogénio – do que um planeta gigante gasoso do nosso próprio Sistema Solar, como Júpiter. Tem até uma metalicidade mais baixa do que a sua própria estrela hospedeira. Isto faz com que se destaque entre todos os planetas gigantes que foram estudados até à data.

Além disso, embora menos surpreendente, os trânsitos revelaram metano (CH₄) e sulfureto de hidrogénio (H₂S) na atmosfera de TOI-5205 b.

Para contextualizar as suas descobertas, os membros da equipa Simon Muller e Ravit Helled, da Universidade de Zurique, utilizaram modelos sofisticados do interior planetário para prever que a composição total de TOI-5205 b é cerca de 100 vezes mais rica em metais do que a sua atmosfera, tal como medido pelos trânsitos.

“Observámos uma metalicidade muito inferior à prevista pelos nossos modelos para a composição global do planeta, calculada a partir de medições da massa e do raio do planeta. Isto sugere que os seus elementos pesados migraram para o interior durante a formação e que, actualmente, o seu interior e a sua atmosfera não se misturam”, explicou Kanodia. “Em resumo, estes resultados sugerem uma atmosfera planetária muito rica em carbono e pobre em oxigénio”.

// Instituto Carnegie (comunicado de imprensa)
// Universidade de Birmingham (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astronomical Journal)

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07.04.2026

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7: Os astrónomos recolheram evidências raras da colisão entre dois planetas

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Representação do autor principal, Andy Tzanidakis, da colisão planetária que ele suspeita ter ocorrido, em 2021, em torno da estrela Gaia20ehk.
Crédito: Andy Tzanidakis

Anastasios (Andy) Tzanidakis estava a analisar dados telescópicos obtidos em 2020 quando descobriu uma estrela, de outra forma nada de especial, com um comportamento muito estranho. A estrela, denominada Gaia20ehk, encontra-se a cerca de 11.000 anos-luz da Terra, perto da constelação da Popa. É uma estrela estável de “sequência principal”, muito semelhante ao nosso Sol, o que significa que deveria emitir uma luz constante e previsível. No entanto, esta estrela começou a piscar descontroladamente.

“A emissão de luz estelar era regular e constante, mas a partir de 2016 apresentou estas três quedas de brilho. E depois, por volta de 2021, enlouqueceu completamente”, disse Tzanidakis, doutorando em astronomia na Universidade de Washington, EUA. “Nunca é demais salientar que estrelas como o nosso Sol não fazem isso. Por isso, quando vimos esta, ficámos tipo ‘Olá, o que se passa aqui?'”

A causa do cintilar não tinha nada a ver com a própria estrela: enormes quantidades de rocha e poeira – aparentemente vindas do nada – passavam à frente da estrela distante enquanto o material orbitava o sistema, ofuscando de forma irregular a luz que chegava à Terra. A provável origem de todos esses detritos era ainda mais notável: uma colisão catastrófica entre dois planetas.

“É incrível que vários telescópios tenham captado este impacto em tempo real”, disse Tzanidakis. “Existem apenas algumas outras colisões planetárias de qualquer tipo registadas, e nenhuma que apresente tantas semelhanças com o impacto que criou a Terra e a Lua. Se conseguirmos observar mais momentos como este noutros locais da Galáxia, isso ensinar-nos-á muito sobre a formação do nosso planeta”.

A análise da estrela foi publicada a 11 de Março na revista The Astrophysical Journal Letters.

Os planetas formam-se quando a gravidade agrupa a matéria – poeira, gás, gelo ou detritos rochosos, por exemplo – que orbita uma nova estrela. Os sistemas solares em fase inicial são caóticos – os planetas colidem e explodem frequentemente ou são lançados para o espaço exterior. Através deste processo, e ao longo de talvez 100 milhões de anos, sistemas solares como o nosso reduzem o número de planetas e estabelecem-se num equilíbrio.

Por mais comuns que estas colisões provavelmente sejam, observar uma num sistema solar distante requer paciência e sorte. As órbitas dos planetas têm de os levar directamente entre nós e a sua estrela, para que os detritos resultantes obscureçam parte da luz estelar. O cintilar revelador demora então anos a manifestar-se.

“O trabalho excepcional de Andy aproveita décadas de dados para encontrar coisas que estão a acontecer lentamente – histórias astronómicas que se desenrolam ao longo de uma década”, disse o autor sénior James Davenport, professor assistente de astronomia na Universidade de Washington. “Não há muitos investigadores a procurar fenómenos desta forma, o que significa que todo o tipo de descobertas está potencialmente ao nosso alcance”.

Tzanidakis, o principal autor do estudo, estuda a variabilidade extrema das estrelas ao longo do tempo. O seu trabalho anterior na Universidade de Washington identificou um sistema com uma estrela binária e uma grande nuvem de poeira que causou um eclipse com a duração de sete anos.

O comportamento de Gaia20ehk, no entanto, representou um novo mistério. A flutuação particular da estrela – breves quedas no brilho seguidas de caos – nunca tinha sido observada antes. A equipa ficou perplexa, até que Davenport sugeriu que usassem dados de um telescópio diferente para procurar luz infravermelha em vez de luz visível.

“A curva de luz infravermelha era o oposto completo da luz visível”, disse Tzanidakis. “À medida que a luz visível começava a cintilar e a enfraquecer, a luz infravermelha atingia picos. O que poderia significar que o material a bloquear a estrela era quente – tão quente que brilha no infravermelho”.

Uma colisão cataclísmica entre planetas produziria certamente calor suficiente para explicar a energia infravermelha. Além disso, o tipo certo de colisão poderia também explicar aquelas quedas iniciais de luminosidade.

O gráfico de cima mostra medições de brilho (pontos verdes e amarelos) de Gaia20ehk no espetro da luz ótica. São visíveis três pequenas quedas no brilho, seguidas de um declínio geral mais caótico. O gráfico de baixo mostra medições (pontos rosa, pretos e azuis) do brilho da estrela no infravermelho. As medições revelam um aumento acentuado no infravermelho à medida que o brilho óptico da estrela diminui.
Crédito: Tzanidakis et al./The Astrophysical Journal Letters

“Isso pode ter sido causado pelo facto de os dois planetas se aproximarem cada vez mais um do outro numa trajectória espiral”, afirmou Tzanidakis. “No início, ocorreram uma série de impactos tangenciais, que não produziriam muita energia infravermelha. Depois, tiveram a sua grande colisão catastrófica, e a radiação infravermelha aumentou consideravelmente”.

Existem também indícios de que a colisão se assemelha àquela que criou a Terra e a Lua há cerca de quatro mil milhões e meio de anos. A nuvem de poeira está a orbitar Gaia20ehk a cerca de uma unidade astronómica, a mesma distância que separa o Sol da Terra. A essa distância, o material pode eventualmente arrefecer o suficiente para se solidificar em algo semelhante ao nosso sistema Terra-Lua. Cientistas como Tzanidakis e Davenport não podem ter a certeza até que a poeira assente – literalmente – no sistema. Isso pode demorar alguns anos, ou alguns milhões.

Entretanto, a sua descoberta é um apelo à ação para encontrar mais colisões. O potente Simonyi Survey Telescope, do Observatório Vera C. Rubin, será ideal para a tarefa quando iniciar o seu LSST (Legacy Survey of Space and Time) ainda este ano; alguns cálculos rápidos de Davenport sugerem que o Rubin poderá encontrar 100 novos impactos nos próximos 10 anos. Isso poderá, em última análise, ajudar a restringir a busca por mundos habitáveis fora do nosso Sistema Solar.

“Quão raro foi o evento que deu origem à Terra e à Lua? Essa questão é fundamental para a astrobiologia”, afirmou Davenport. “Parece que a Lua é um dos ingredientes mágicos que tornam a Terra um local propício à vida. Pode ajudar a proteger a Terra de alguns asteróides, produz as marés oceânicas e as condições meteorológicas que permitem a interacção global entre a química e a biologia, e pode até desempenhar um papel na actividade das placas tectónicas. Neste momento, não sabemos quão comuns são estas dinâmicas. Mas se observarmos mais destas colisões, começaremos a perceber”.

// Universidade de Washington (comunicado de imprensa)
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17.03.2026

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