🇵🇹 PORTUGAL // CENTROS DE SAÚDE // MÉDICOS DE FAMÍLIA
Ministério da Saúde faz mais uma alteração ao Registo Nacional de Utentes. Desta vez, elimina das listas de médicos de família quem não procura cuidados no SNS há cinco anos. Neste situação, estão mais de 121 mil utentes. E o objectivo “é libertar a vaga” para utentes sem médico. Associação de Medicina Familiar diz-se “preocupada” com efeito da medida, “mais parece ser uma forma administrativa de reduzir lista de utentes sem médico”.
No país, há 1,5 milhões de utentes sem médico de família. ANTÓNIO PEDRO SANTOS
Utentes que não vão ao centro de saúde há cinco anos deixam de ter médico de família
Ministério da Saúde faz mais uma alteração ao Registo Nacional de Utentes. Desta vez, elimina das listas de médicos de família quem não procura cuidados no SNS há cinco anos. Neste situação, estão mais de 121 mil utentes. E o objectivo “é libertar a vaga” para utentes sem médico. Associação de Medicina Familiar diz-se “preocupada” com efeito da medida, “mais parece ser uma forma administrativa de reduzir lista de utentes sem médico”.
O Despacho n.º 3118/2026, publicado no dia 11 de Março, vem alterar, mais uma vez, as “regras de organização e gestão do Registo Nacional de Utentes (RNU) e as condições de inscrição nos cuidados de saúde primários”. Agora, e segundo a nota de esclarecimento enviada às redacções pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), com o objectivo de “melhorar o acesso aos cuidados de saúde”, “reforçar a qualidade dos sistemas de informação usados no SNS”, “actualizar e aperfeiçoar as tipologias de registo do RNU”, “ajustar as condições de inscrição nos cuidados de saúde primários” e “melhorar o processo de atribuição e manutenção de médico de família”.
Uma alteração que já está a suscitar reacções da parte dos profissionais no terreno, nomeadamente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), que diz estar “preocupada” com os efeitos que a medida pode vir a ter na actividade dos centros de saúde.
O vice-presidente da APMGF, António Luz, destaca ao DN que “o objectivo da medida parece ser perceber-se se os utentes que não vão há cinco anos ao seu médico de família estão em território nacional ou não, mas a questão é que podem existir utentes residentes em Portugal sem necessidade de cuidados durante este período, mas a que qualquer momento podem ter necessidade deles e foram eliminados da lista do seu médico. E a nossa preocupação é evitar esta exclusão”.
Até porque, “o trabalho de um médico de família, além de ter de estar disponível para o utente quando este necessita, é também o de ser proactivo noutras áreas, nomeadamente na vacinação e no controlo de algumas doenças. E se estes utentes são retirados das listas, o médico de família deixa de ter a capacidade de alertar para desempenhar este papel e de poder alertar o utente para a actualização de vacinas ou para a realização de rastreios”.
Mas há outro efeito colateral que a APMGF teme. “Sempre que há alterações deste tipo há uma corrida a consultas nos centros de saúde por parte de utentes que já nem se lembram se não vão lá há dois, três, quatro ou cinco anos. Isto acontece sempre, porque os utentes tentam desta forma administrativa garantir que não perdem o médico de família”.
Questionado pelo DN se era necessária mais uma alteração ao RNU, o vice-presidente da APMGF relembra que “nos últimos anos temos vindo a assistir a várias actualizações no regulamento do registo nacional, quando o ideal seria que não tivéssemos mudanças tão frequentes. Primeiro tivemos alterações relativas à falta de dados actualizados de quem era residente ou tinha morada no estrangeiro, agora está em causa o contacto com o Serviço Nacional de Saúde e a saída das listas de médicos de família”, reforçando que “deveria haver maior previsibilidade neste regulamento, porque o mais importante para qualquer profissional de saúde é poder dar cuidados à população que necessita. E, neste caso, é fundamental assegurarmos que esta limpeza de utentes não suprime os direitos desses utentes”.
António Luz argumenta ainda que com esta alteração “mais parece que querem diminuir os números de utentes sem médico de família, não cativando mais médicos de família a trabalhar no SNS e com uma melhor organização do que são os serviços de saúde em Portugal, mas administrativamente, retirando utentes que existem, que têm necessidades em saúde, e que a partir daí acabam por ficar fora daquilo que é a gestão de doentes pelo médico de família”.
Despacho publicado altera outros dois em vigor desde 2024 e 2025
O despacho publicado na quarta-feira, 11 de Março, e que entra em vigor já esta quinta-feira, dia 12, e com efeitos práticos ao fim de 90 dias, a meio de Junho, vem alterar dois outros documentos, o Despacho n.º 14830/2024, relativo às regras de organização e gestão do RNU, e o Despacho n.º 40/2025, relativo às regras de inscrição nos cuidados de saúde primários.
Na nota de esclarecimento, a ACSS garante que os cuidados aos utentes não estão em causa e que o objectivo “é dar médico a quem aguarda”, explicando que o despacho em causa altera os artigos 6.º e 14.º.
O primeiro referente às “tipologias de registo” cria uma nova designação, “registo actualizado não residente”, aplicável a cidadãos portugueses que não residem em Portugal, e mantém as três outras já existentes – “registo em curso”, “registo incompleto” e “registo em histórico”. O segundo diz respeito aos “encargos que as entidades assumem cuidados de saúde”.
Relativamente à inscrição dos utentes nos cuidados de saúde primários, as alterações passam a exigir no RNU a seguinte clarificação “registo actualizado” ou “registo actualizado não residente”.
No artigo 4.º, por exemplo, “a inscrição para atribuição de médico de família passa a exigir que, dentro da dimensão previamente contratualizada com as unidades em relação às listas de utentes com médicos de família atribuído: − haja disponibilidade de vagas de médicos de família na unidade local de saúde do utente; − o utente esteja inscrito no SNS com a tipologia de “registo actualizado”.
Mas é o artigo 5 que traz a maior das alterações no que respeita àactualização das listas dos cuidados de saúde primários. Como refere a ACSS, “utentes com médico de família que não tenham contacto com o SNS há mais de cinco anos libertam a respectiva vaga para a lista de utentes com médico de família, não perdendo, no entanto, a inscrição e acesso a cuidados de saúde primários, desde que tenham a tipologia ‘registo actualizado’”.
Ou seja, os utentes não deixam de estar inscritos no SNS, mas perdem médico de família. E é neste aspecto que a APMGF defende que a metodologia usada por quem tutela o SNS deveria ser outra, nomeadamente “o contacto directo com estes utentes por telefone ou outras vias para identificar a sua situação, e não ser uma limpeza administrativa”.
ACSS garante que alteração não discrimina utentes ou limita acesso
A ACSS garante nas suas explicações que esta alteração no RNU “não vai discriminar os portugueses ou limitar o seu acesso ao SNS”, argumentando que “é apenas uma tipologia adicional de registo no RNU que permite melhorar a classificação administrativa e gestão no RNU, reforçando o cumprimento do Regime Geral de Protecção de Dados”, defendendo também que é uma forma de dar “também uma maior qualidade e fiabilidade dos dados e melhor articulação entre sistemas de informação que asseguram a prestação de cuidados de saúde aos utentes”.
Por outro lado, assume que o impacto desta medida é que mais de 121 mil utentes saiam das listas “libertando vagas para atribuição de médico de família a utentes que estão a aguardar”.
Os dados da ACSS revelam que, neste momento, há 10.003.2026 inscritos no SNS e que destes 121.959 utentes não têm contacto com o Centro de Saúde ou Unidade de Saúde Familiar há mais de cinco anos. A grande maioria dos utentes está entre os 18 e os 64 anos (108.777), seguem-se depois os que têm mais de 65 anos (7.593) e, por fim, os que estão entre os zero e os 17 anos (5.589). Neste último caso, e segundo é explicado, estão apenas os menores que “pertencem a um agregado familiar em que todos os elementos não têm contacto com o SNS há mais de cinco anos”.
Conforme é referido pela ACSS, “o objectivo das actuais medidas é assegurar que os utentes actualmente sem médico de família possam beneficiar de acompanhamento regular nos cuidados de saúde primários, promovendo o acesso efectivo e equitativo aos cuidados de saúde”.
Seis distritos de Portugal continental vão estar na sexta-feira e no sábado sob aviso amarelo devido à previsão de agitação marítima forte, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
O aviso para os distritos do Porto, Viana do Castelo, Leiria, Aveiro, Coimbra e Braga vai vigorar entre as 21h00 de sexta-feira e as 18h00 de sábado, face à previsão de ondas de noroeste com 04 a 05 metros.
O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.
O IPMA prevê para hoje no continente céu em geral pouco nublado, com nebulosidade matinal no litoral norte e centro, vento em geral fraco, neblina ou nevoeiro matinal, acentuado arrefecimento nocturno e pequena subida de temperatura.
As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 04 graus Celsius (em Bragança) e os 10 (em Lisboa e Portalegre) e as máximas entre os 15 (na Guarda, Porto, Aveiro e Viana do Castelo) e os 21 (em Lisboa, Santarém, Setúbal, Évora e Faro).
Há poucas semanas, quando boa parte de Portugal estava a ser assolada pelos temporais, Timor-Leste decidiu enviar um donativo de apoio. Não foi a primeira vez que chegou a Portugal essa solidariedade do outro lado do mundo, o mais distante dos países lusófonos: no ano passado, também as autoridades timorenses tinham oferecido uma ajuda em resposta aos fogos em território português.
Aliás, não resta dúvida da forte ligação emocional entre Portugal e a sua antiga colónia asiática. Os timorenses não esquecem a solidariedade do Estado Português, e do povo português, durante a ocupação indonésia, que durou entre 1975 e 1999. Foi obra da diplomacia portuguesa o referendo patrocinado pelas Nações Unidas que permitiu ouvir a vontade dos timorenses sobre o futuro que ambicionavam para a sua terra: quatro em cada cinco escolheram então a independência, proclamada finalmente em 2002, depois de uma primeira tentativa frustrada em 1975.
Se há nome que simboliza a resistência timorense é José Ramos-Horta. Com Xanana Gusmão a liderar a guerrilha nas montanhas de Timor, coube-lhe liderar a frente externa. O Nobel da Paz que recebeu em 1996, cinco anos depois de o massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, ter exposto ao mundo a brutalidade do Exército ocupante, foi um passo decisivo para mobilizar a comunidade internacional contra a tentativa de anexação.
“Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9.” Paulo Spranger
Herdeira das Índias Orientais Holandesas, desde a independência em 1949, a Indonésia sempre tinha respeitado a soberania portuguesa sobre a metade leste da ilha de Timor, onde os nossos navegadores chegaram no início do século XVI. Sukarno, primeiro presidente, chegou a visitar Portugal. Mas com Suharto no poder, e no contexto da Guerra Fria, Timor foi invadida no mesmo ano em que se deu a queda de Saigão. Para contrariar a teoria do dominó, e alegando que a descolonização portuguesa tinha aberto portas ao comunismo, Suharto procurou transformar os timorenses em indonésios, mas falhou. E hoje Timor-Leste é um jovem país que merece elogios, basta ver a posição que ocupa nos índices de democracia e de liberdade de imprensa.
Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9. No Facebook contou que foram muitas horas a viajar, mas que não podia faltar, para cumprimentar o novo Presidente português. Voou de Díli para Bali, dai para Hong Kong, depois para Zurique e finalmente aterrou em Lisboa. “Chegámos no dia 8, a meio do dia. Temperatura amena, agradável. Não podia faltar. Cerimónia comovente, mais uma pedagogia de democracia. Parabéns Portugal. Vir a Portugal é vir à segunda Casa Mãe”, escreveu o presidente timorense, que me recordo de nos anos 1990 ir ao DN, no edifício histórico da Avenida da Liberdade, encontrar-se com Carlos Albino, o jornalista que acompanhava a difícil situação em Timor.
“Timor-Leste merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e materiais, e oferecendo bolsas de estudo no país.”
Também me recordo de o ter entrevistado em Díli, em 2021, antes de voltar a ser eleito presidente. Então, Ramos-Horta mostrou-se optimista sobre o futuro da língua portuguesa em Timor-Leste, que é oficial a par do tétum. Se o grande legado português é o catolicismo (e a Igreja foi essencial na defesa da identidade aquando da ocupação pelo maior país muçulmano), a opção pela língua portuguesa em detrimento do bahasa ou do inglês foi uma escolha política que merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e manuais, e oferecendo bolsas de estudo.
É longe? Sim, é longe, mas isso nunca impediu a solidariedade nos tempos de resistência à Indonésia, nem que agora Ramos-Horta viajasse longas horas para assistir à passagem de testemunho de Marcelo Rebelo de Sousa a Seguro. A distância também não existiu, quando Timor, país pobre, indo buscar aos seus limitados recursos petrolíferos, se lembrou de ajudar Portugal em tempo de tempestade ou de fogos.
Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Diretor-adjunto do Diário de Notícias
11.03.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Há quem fale de “psychic numbing” (“entorpecimento psicológico”) e quem use a expressão “fadiga da solidariedade”. Certo é que parece haver cada vez mais pessoas, face ao carrossel de tragédias e ao sentimento de “tudo cada vez pior”, a querer desistir de acompanhar a actualidade e a desligar a empatia.
Manifestação em Israel, em Setembro de 2025, pela libertação dos reféns ainda então detidos pelo Hamas e o fim da guerra em Gaza. Este é um dos conflitos/tragédias que, em conjunto com a invasão russa da Ucrânia e, agora, a intervenção dos EUA e Israel no Irão, mais são referidos como motivo da overdose de pessimismo que leva ao desligar da empatia. ABIR SULTAN / EPA
“Parece que estamos a ser bombardeados de todos os lados e para onde quer que se olhe é tudo mau.”
“Chamo-lhe o PAEC: processo de alienação em curso.”
“Às tantas já não sei se é normal ou se se passa algo de errado comigo. Olho para as coisas com um distanciamento e um pessimismo enorme. Não vejo qualquer tipo de esperança ou de futuro para o mundo, para a sociedade.”
“Esse sentimento de ‘Epá, não, desisto, não quero saber mais, não adianta, não posso fazer nada e quem podia/pode, ou já não pode ou não quer fazer’, sim, tem-me vindo a assolar bastante nos últimos tempos.”
As vozes são de quatro pessoas diferentes, em resposta, no Twitter/X, à pergunta “mais alguém está a sentir que ante tanta merda a acontecer quer desligar por se afogar em impotência?” A última das quatro é Pedro, 40 anos, bancário. Questionado sobre o momento em que foi invadido por tal desalento, aponta para 2025: “No último ano esse sentimento acentuou-se. Parece que vivemos em ‘última hora’ de forma permanente: nem bem terminou a pandemia, começou a invasão da Ucrânia, o genocídio em Gaza, o descalabro da democracia nos EUA, o lambe-botismo da UE, o Direito Internacional a ser enterrado… Daí a sensação de impotência elevada à nona potência.”
Mas não é só, precisa, “a sensação de impotência, como a da inevitabilidade (de que algo, de facto, terá de acontecer). Tento desviar alguma atenção deste círculo vicioso: menos consumo de notícias, mais de tudo o resto (livros, filmes, séries, meditação, ginásio, etc). Mas não é fácil porque estão, de facto, a acontecer coisas, e viver na ignorância por opção parece-me, no mínimo, muito estranho. Talvez afine mais o que leio/vejo, sobretudo online. Claro que as redes sociais (X, principalmente) contribuem para este estado de actualização permanente, mas acaba por ser inevitável, já que são acontecimentos verdadeiramente cruciais. Um detox digital urge mas não será fácil.”
Rita, 50 anos, que como auxiliar de acção directa num serviço de apoio domiciliário trabalha exclusivamente com idosos com demência, está no mesmo sítio: “Estou a tentar não pensar nos assuntos, não ter muita informação. Neste momento sinto que viver ‘na ignorância’ é uma estratégia para manter a minha sanidade mental face à actualidade. Penso que tem vindo a escalar depois da pandemia e guerra na Ucrânia. Não sei se será apenas impotência, no meu caso talvez seja mais falta de esperança em voltar a viver num mundo normal… E será sentimento de impotência ou egoísmo? Também penso nisso.”
O egoísmo de não querer sentir que se é totalmente impotente, que seja o que for que se pense ou deseje ou se faça não serve para nada? Mariana, 30 anos, académica que tem nas suas áreas de investigação “especialização em paz e conflitos”, assente: “Agora, acordar, pegar no telemóvel às sete da manhã ou antes de ir dormir, e ler que os EUA e Israel continuam a violar o Direito Internacional, a bombardear países, crianças, seres humanos, saber que quase nenhum estado do Norte Global os pode ou os quer parar, dá uma sensação geral de impotência enorme. Também porque destrói as bases dos valores que defendo, do que estudei, dos temas com que trabalho. Sempre senti isto, mas de forma muito intensa desde o genocídio na Palestina, que, em última análise, foi onde se testaram os limites da banalidade do mal no nosso século.”
Para tentar “não sucumbir à apatia”, Mariana faz um esforço para “transformar estes sentimentos em acção, activismos”, e tenta “limitar os horários de acesso a algumas redes sociais para reduzir a intensidade”.
Já Tânia, 49 anos, economista que trabalha em marketing, recusa desligar mas, reconhece, “é uma luta”. Inventou uma palavra, “desesperância”, para descrever o que sente “desde Gaza” e aventa que possa haver, no que respeita a alguns actores ou movimentos políticos, uma deliberação no bombardeamento de enormidades, de modo a criar apatia: “Conheço várias pessoas que me dizem que já não conseguem ver notícias, que já está para além delas, do que conseguem aguentar. Julgo que o sentimento é de negação porque é mau demais. Começo a achar que é uma estratégia premeditada. Decerto foram percebendo que, ultrapassando um determinado limite, as pessoas bloqueiam e a intenção é mesmo essa. Bloqueados é o estado que julgo nos define melhor neste carrossel de horrores.”
O triunfo do mal e a “fadiga da compaixão”
A noção de que, confrontados com calamidades avassaladoras — ou aquilo que sentem ou percebem como tal —, as pessoas tendem a desenvolver indiferença ou apatia tem vindo a ser frequentemente resumida na expressão “psychic numbing”, ou “entorpecimento psicológico”. Usada na actualidade para referir sobretudo o sentimento expresso pelas pessoas que responderam à citada pergunta no Twitter — um sentimento nascido sobretudo da observação de acontecimentos terríveis à distância, através dos media —, a expressão foi cunhada a partir de algo bastante mais radical: o efeito de uma das mais terríveis tragédias registadas na história em pessoas que a viveram directamente.
O seu autor é o psiquiatra americano Robert Jay Lifton, a partir da investigação junto de sobreviventes da bomba largada pelos EUA a 6 de Agosto de 1945 sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Os seus entrevistados, escreveu Lifton em Death in Life: The Survivors of Hiroshima/Morte em vida: os sobreviventes de Hiroshima, ficaram emocionalmente bloqueados em resposta às horríficas cenas de morte em massa a que assistiram. Algumas décadas depois, a expressão foi utilizada pelo psicólogo americano Paul Slovic para referir um outro mecanismo: aquele que leva a que, ante a notícia de hecatombes humanitárias nas quais perecem dezenas ou centenas de milhar de seres humanos, se instale uma indiferença que, para este cientista social, advém precisamente da dimensão da catástrofe.
“If I Look at the Mass I will Never Act: Psychic Numbing and Genocide/Se eu olhar para a multidão nunca agirei: Entorpecimento psicológico e genocídio” (2007) é um dos artigos que publicou sobre esse fenómeno. Partindo da asserção de que ao longo da história recente “as pessoas boas repetidamente ignoraram o homicídio em massa e o genocídio”, Slovic aprestou-se a perceber porquê, para concluir que “as estatísticas de homicídio em massa e genocídio, não importa quão esmagadores os números, não conseguem representar o verdadeiro significado dessas atrocidades. O reporte do número de mortes corresponde a estatísticas sem interesse, ‘seres humanos com as lágrimas secas’, que não logram desencadear emoção ou sentimento e portanto não motivam acção.”
Tendo pedido emprestada à freira albanesa-indiana que ficou conhecida como madre Teresa de Calcutá a frase do título — “Se olhar para a multidão nunca agirei. Se olhar só para uma pessoa, sim” — , Slovic cita um colunista digital que em 2005 observou: “Há mais de 60 anos, desde a libertação dos campos de morte nazis, dissemos ‘nunca mais’. Desde então assistimos a extermínios em massa de seres humanos, seja por maldade deliberada ou por pura, sanguinária, estupidez ideológica, na China, no Cambodja, na Nigéria, na Etiópia, no Kosovo, no Rwanda. De cada vez censuramos, censuramos, mas… não fazemos nada. ‘Nunca mais’ transformou-se em mais e mais outra vez.”
O psicólogo prossegue a reflexão referindo que as organizações humanitárias há muito perceberam que para obter dádivas é muito mais eficaz apresentar uma única criança, com nome e rosto e história, que pedir para a grande causa das crianças desvalidas ou em perigo. Há experiências que o comprovam, como é o caso daquela em que esteve envolvido, publicada em 2007: um grupo de pessoas foi confrontado com a possibilidade de doar cinco dólares (4,30 euros na actual taxa de câmbio) para uma ONG (Save the Children), com três opções: uma criança identificada com nome, rosto e história; número total de vítimas; vítima identificada mais informação sobre o número total de vítimas. Em todas as opções, era dada a informação de que “todo o dinheiro doado seria usado para mitigar a fome na Etiópia e na África Austral”. As doações para a criança identificada foram muito superiores às dirigidas às vítimas em geral. Mas mais relevante ainda, e, lamenta Slovic, “mais desanimador”, é que ante a opção que aliava a cara, nome e história da criança individualizada com os números das outras vítimas as pessoas doavam menos que quando estava só em causa essa mesma criança.
Há pior: um grupo de estudantes suecos foi usado numa experiência em que foram divididos em três grupos, cada um para uma destas três opções: doar a uma criança identificada do sexo feminino; doar a uma criança identificada do sexo masculino; doar às duas. Para cada opção, deviam pontuar o seu nível de afecto de 1 (negativo) a 5 (positivo). A conclusão foi de que no caso das crianças individualizadas o valor da doação estava fortemente relacionada com o sentimento; no caso do par, essa correlação era muito menor. Se, conclui Slovic, a nossa capacidade de sentir é limitada, esta experiência parece indicar que a “fadiga da compaixão”, começa nos muito pequenos números — no número dois, pelos vistos.
E Slovic conclui: “Robert Jay Lifton cunhou o termo ‘psychic numbing’ para designar o ‘desligar’ do sentimento que possibilitava, no horrífico rescaldo do bombardeamento de Hiroshima, que quem tentava ajudar pudesse continuar a fazê-lo; aqui estamos perante um entorpecimento sem qualquer resultado positivo. É, ao contrário, um entorpecimento que leva à apatia e à inacção, consistente com aquele a que temos repetidamente assistido na reacção ao homicídio em massa e ao genocídio.”
Um bom exemplo desses vieses é a forma como o mundo ocidental reagiu em Setembro de 2015 à imagem do cadáver de Alan Kurdi, o menino de três anos fotografado numa praia turca após o naufrágio do barco de refugiados sírios em que seguia com a família (da qual só o pai se salvou). Também aí se proclamou “nunca mais”. Alan foi apenas uma de muitas, muitos milhares, de crianças mortas devido à guerra na Síria — mas ali estava, vestido como um menino ocidental, branco como um menino ocidental, igual a qualquer criança ocidental e portanto identificado e sentido como “nosso”. De repente, toda a gente garantia que era preciso salvar os Alan Kurdis, que não podia continuar a indiferença e a crueldade que lhes barrava a entrada na Europa. Mas, como é sabido, nada mudou — ou, na verdade, as coisas mudaram para pior, com o movimento anti-imigração e anti-refugiados a ganhar cada vez mais apoiantes e políticas de acolhimento como a que Angela Merkel aplicou na Alemanha a serem responsabilizadas pelo escalar do extremismo nativista de extrema-direita. A mágoa e a empatia europeias/ocidentais esgotaram-se nas lágrimas por aquela criança morta, sem reflexo em todas as outras que poderiam ser salvas.
“Somos todos humanos, ou alguns são mais humanos que os outros? Se acreditamos que todos os humanos são humanos, como é que o provamos? Só podemos prová-lo através das nossas acções”, escreveu o militar canadiano Roméo Dallaire, que comandava a missão da ONU no Rwanda aquando do genocídio que ocorreu naquele país africano, em 1994, e que não conseguiu que lhe dessem autorização nem tropas para tentar impedir a mortandade que ceifou 800 mil vidas em 100 dias.
Ao contrário de Dallaire, a maioria de nós não está em situação de tentar impedir massacres — só podemos envolver-nos de formas muito mais distantes e bem menos arriscadas. E, no entanto, a tendência geral será, como aduz Slovic, para nos afastarmos emocionalmente desse tipo de ocorrência, de soçobrarmos à fadiga da compaixão e da solidariedade.
“Há um fenómeno de saturação. As pessoas estão constantemente a ser bombardeadas com informação. Quando as coisas começam a atingir uma determinada intensidade, quanto maior é essa intensidade, mais temos tendência para nos protegermos. Começamos a ficar como que saturados de nos expormos e então procedemos ao fenómeno de evitamento, procedemos a uma negação afectiva”, diz ao DN a psicóloga Ana Cardoso de Oliveira. “Começamos por empatizar, mas os seres humanos foram feitos para a acção, e quando, ante algo de horrível, sentimos que não podemos fazer nada, o impulso é fugir. E o fugir é omitir essa informação dentro de mim, é desligar. A ideia é ‘não consigo fazer nada, portanto, olha, é deixá-los.’ E quanto mais os acontecimentos são distantes, menos empatia temos. Aí temos tendência para intelectualizar, enquadramos do ponto de vista histórico, encontramos razões. Porque somos extremamente etnocentrados.”
“Se te sentes sem saída não estás só”
Pode ser esse etnocentrismo a explicar que aquilo a que se dá o nome de psychic numbing esteja a afirmar-se entre nós de forma mais generalizada nos últimos tempos, aventa esta psicóloga, que nota um crescendo desse tipo de fenómeno na sua prática clínica. O que se deverá, crê, não só à imersão diária no tsunami informativo mas também ao facto de “haver mais coisas a acontecer no hemisfério ocidental”.
Nos últimos anos, a incerteza sobre o presente e o futuro passou a atingir de forma particularmente aguda a Europa e as Américas. Se a pandemia, com o seu sabor apocalíptico, surtiu um grande rombo na forma como vemos as coisas, será provavelmente a partir da segunda invasão da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro de 2022, a que se seguiu, a 7 de Outubro de 2023, o horrendo ataque do Hamas a Israel e a infindável e genocida retaliação deste país sobre Gaza, e logo depois a alteração, com a segunda era Trump, a partir de 2025, do papel dos EUA no mundo e na relação com a Europa, e também agora o ataque conjunto de EUA e Israel ao Irão, que o sentimento de “é de mais, não consigo” se notabiliza.
Claro que, como bem nota Ana Cardoso de Oliveira, a preocupação com Gaza e com as consequências da mudança política nos EUA ou com a actual ofensiva contra o Irão “não estão presentes em todas as pessoas, mas mais nas camadas diferenciadas da população”. Dever-se-á, de resto, sublinhar que aquilo que para uns é grande motivo de angústia — a escalada do extremismo nativista, do racismo, xenofobia e misoginia, e o aumento do apoio a ideias, regimes ou políticos autocráticos e belicistas — será para outros razão de alegria, esperança, maior confiança no futuro.
Nesta matéria, há uma forte divisão entre a esquerda e a direita. Quem, como a antropóloga britânica Theresa MacPhail num artigo publicado em Janeiro no Guardian (“Vivemos num tempo de policrise. Se te sentes sem saída não estás só”), fala da incapacidade de imaginar “um futuro melhor”, da sensação paralisante de apenas existirmos, sem horizonte, encurralados no agora, não pertence decerto às fileiras dos movimentos que recuperam ideologias que se julgou, pelo menos no que respeita ao Ocidente, terem sido para sempre derrotadas há quase um século.
“Não tinha realmente percebido o quanto a ideia de um futuro melhor me aguentava — como me tornava a vida mais vivível, as dificuldades mais suportáveis, e possibilitava a criatividade. Quando podíamos facilmente imaginar um mundo mais justo e mais saudável, era mais fácil comprometermo-nos com projectos de longo prazo e investir na próxima geração”, escreve MacPhail.
É como se a linha daquilo que uma parte das pessoas — as que sentem este desalento, precisamente — via como progresso se tivesse partido, e a reacção fosse a de deixar cair os braços, porque se sente que, perante uma tal regressão, não vale mais a pena lutar. Que, como na canção dos Xutos e Pontapés O Homem do Leme (“a vida é sempre a perder”), a história, o mundo, são sempre a perder.
No Twitter e nas respostas à pergunta inicial, a conta anónima @masquepiadaéqueissotem resume, como num longo e soturno suspiro, esse desânimo: “Sinto uma certa pena e um certo desapontamento por não poder deixar um mundo melhor como os meus pais acreditavam que me deixavam a mim. Mas olhando a história, o período de paz e acalmia que se viveu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial foi uma excepção na humanidade. E foi uma excepção europeia. (…) No fim de contas, não temos como resolver nada sobre as guerras em curso. Mas lamento profundamente que se esteja a regressar a um mundo mais inconstante, onde manda o bully da escola.”
Também no Twitter mas em sentido contrário, a escritora e jornalista Inês Pedrosa, 63 anos, aconselha contextualização e, portanto, esperança e ganas. “Todos os dias ao acordar, desde muito miúda, agradeço à sorte não ter nascido num país islâmico. Nos dias piores, ler Hannah Arendt também ajuda. Ou a História da Idade Média, ou da Roma Antiga. Ou a vida das mulheres na encantadora democracia grega. (…) Além desta epígrafe existencial que roubei ao Savater: ‘Recusar-me-ia a nascer antes da invenção da anestesia’. (Cuja hoje em dia não é acessível a nenhuma mulher no Afeganistão…) O progresso não é uma linha recta, mas existe.”
Sim, é possível odiar, com todas as forças, o regime do Irão, querer, desesperadamente, que ele acabe, e achar o ataque dos EUA e Israel uma completa, contraproducente e estulta barbaridade.
Desde que há pouco mais de uma semana Israel e os EUA iniciaram o seu ataque furioso ao Irão que tenho estado, pacientemente, a ouvir e a ler acusações descabeladas “à esquerda” e “às feministas de esquerda” sobre a sua alegada indiferença em relação ao destino das iranianas e iranianos que lutam contra o regime dos ayatollahs e até sobre a suposta defesa que a esquerda e as “feministas de esquerda” estariam a fazer desse mesmo regime.
Essa defesa, dizem e escrevem os que protagonizam tais diatribes, comprovar-se-ia pelo facto de a esquerda e as feministas de esquerda estarem, ao contrário dos iranianos que lutam contra o regime, a criticar a operação a que os EUA deram o nome de “fúria épica”. A Internet encheu-se de cartoons em que esquerdistas ocidentais explicam a iranianas por que motivo devem estar contra a intervenção e estas respondem sarcasticamente algo como “sim, deves saber melhor que eu e os meus o que é melhor para mim.”
Sem dúvida que há iranianas e iranianos a aplaudir o ataque, e sem dúvida que houve iranianas e iranianos a pedi-lo, a suplicar por ele. Há umas semanas, uma iraniana que está a viver em Portugal disse-me isso mesmo: “Precisamos de uma intervenção militar internacional.” Quem deveria intervir? “O mundo inteiro. Porque o que se está a passar dentro do país é um genocídio.” Quando falámos dos EUA e de Trump e do que este tinha dito — que iria intervir se começassem a matar manifestantes (o que como é sabido sucedeu, e aos milhares, havendo estimativas de até 40 mil opositores assassinados) —, ela não hesitou: “Queremos que os americanos intervenham no Irão. Quando não se vive sob aquela opressão, é fácil dizer que os EUA e Trump são bullies. Queremos que o regime caia, queremos ajuda, qualquer ajuda. Só queremos que seja cortada a cabeça da serpente.”
Quando quis saber o que, na opinião dela, sucederia ou deveria suceder caso os EUA interviessem (nem chegámos a discutir que tipo de intervenção poderia ter o resultado que ela almejava, ou seja, o que seria “cortar a cabeça da serpente”), respondeu: “Isso são muitas perguntas, não sei. São perguntas muito complicadas.”
Como tantos iranianas e iranianos dentro e fora do Irão, decerto esta jovem mulher terá festejado a notícia da morte, logo no primeiro dia dos bombardeamentos, do odioso Ali Khamenei, o clérigo xiita que desde 1989 ocupava o cargo de líder supremo do Irão, e sentido essa morte como o almejado princípio do fim do regime. Ao fim de tantas décadas de horrível repressão, de perseguição infrene aos que lutam por democracia, liberdade e um regime laico, do sangrento esmagar de sucessivas revoltas, a aniquilação do principal rosto da bárbara nomenclatura religiosa que submete o país não poderia deixar de ser recebido com júbilo. Mas, para além de causar satisfação — sim, podemos retirar satisfação da morte de um tirano sob cujas ordens incontáveis seres humanos foram perseguidos, presos, torturados e executados —, essa morte é o “cortar da cabeça da serpente” que a minha interlocutora deseja?
É cedo para dizer, mas a eleição, este domingo, do filho do líder assassinado para o seu lugar leva a crer que a resposta é negativa. Se o regime pode sobreviver às vagas sucessivas de bombardeamentos que estão a destruir as infra-estruturas do país não é possível prever, como não é possível perceber que plano, se algum, têm os EUA para o resultado da sua intervenção (os de Israel parecem bem mais claros: destruir o país e fragmentá-lo em unidades territoriais/étnicas, de modo a desaparecer como potentado regional, e o resto que se dane).
Ouvir Trump reconhecer, com impagável candura, que as pessoas com que contaria para fazer algo como o que está a fazer na Venezuela (eliminar Maduro e deixar o regime intacto, mantendo no poder a lugar-tenente do presidente raptado para que ela faça aquilo que ele manda, nomeadamente dar-lhe acesso ao petróleo) foram todas mortas ao mesmo tempo que Khamenei — olha o azar — ou o indescritível Peter Hegseth, “ministro da Guerra”, a debitar abjecções infantis e ocas, qual bully de liceu ou vilão de filme manhoso, como “morte e destruição caem do céu todo o dia”, “isto nunca foi suposto ser uma luta leal, atacámo-los quando estavam no chão e é assim que deve ser” e “esta guerra não é como as guerras politicamente corretas do passado, não há cá as estúpidas regras de engajamento” (em referência às regras da guerra que proíbem por exemplo o ataque a alvos civis, mas também ao Direito Internacional em geral), certificando que o objectivo nunca foi mudar o regime, não é decerto de molde a tranquilizar nem iranianos nem o mundo em geral.
O que parece é que Trump achou que era boa ideia, até pela quantidade de problemas internos com que se tem confrontado, dos ficheiros de Epstein aos crimes do ICE, aproveitar a boleia dos israelitas para dar um show de belicismo “the american way”, como se tudo isto fosse um filme de acção para ver com pipocas — aliás, há dias a Casa Branca publicou um vídeo a glorificar a intervenção que entremeia imagens dos ataques ao Irão com excertos de fitas de super-heróis. Não é de esperar que tenha reflectido muito sobre o como, e muito menos sobre o porquê e o para quê: tem o poder e usa-o como lhe apraz a cada momento, tanto mais que desta vez, em segundo mandato, se soube rodear de gente tão ignorante e alucinada como ele.
É pois altamente duvidoso que algo de positivo resulte de um tão épico aparato de estupidez e barbaridade como o que o governo americano neste momento apresenta. E não é o facto de muitas iranianas e iranianos terem, em desespero, desejado uma intervenção estrangeira e saído às ruas a celebrá-la que muda a triste realidade.
O tão corajoso povo do Irão, a tão orgulhosa nação iraniana, as bravas feministas que afrontaram e afrontam décadas de opressão merecem triunfar — mereceram-no a cada revolta banhada em sangue, a cada vez que acreditaram, como tantos fora do país acreditámos, que a vitória não ia escapar. Não será, porém, um autocrata que mais não tem feito que destruir a democracia no seu país, e já admitiu que não se importa se os fundamentalistas xiitas mantiverem o poder desde que seja ele a escolher quem fica, nem, decerto, o maléfico Netanyahu, a trazer-lhes a liberdade. Oxalá fossem — oxalá pudesse, de toda esta maldade, de tão desalmada húbris, sair algo de bom.
Representantes terminam ronda esta segunda-feira sem qualquer possibilidade de compromisso. Executivo e Confederações empresariais acusam UGT de “intransigência”.
Reunião entre Governo, UGT e associações patronais. Reinaldo Rodrigues
As negociações do pacote laboral chegaram ao fim, esta segunda-feira, 9 de Março, sem qualquer acordo entre Governo, representantes da UGT e das confederações patronais.
As reuniões decorriam no Ministério do Trabalho mas, ao que foi possível apurar, não há solução à vista.
“Houve uma falta de recuo do Governo em propostas sucessivas”, o que provocou um “desencontro estrutural e uma inadequação de propostas face ao que a UGT tinha sugerido”, confirma fonte desta central sindical ao DN. “Para a UGT acabou a negociação”.
O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, confirma que o processo “terminou. Quando não se chega a acordo, dá-se o processo por terminado. Isto era um processo que se arrastava há sete meses. Não podemos prolongar isto. Nas últimas três semanas, foram 20 reuniões”, referiu, citado pelo ECO.
O responsável afirma ainda que “não houve vontade política por parte da UGT” para chegar a um compromisso. “Tentou-se tudo até ao infinito. Não houve vontade, não se pode forçar“, salienta Francisco Calheiros à mesma publicação.
Da mesma falta de vontade por parte da central sindical queixou-se a ministra do Trabalho. “A UGT está absolutamente intransigente. O Governo vai realizar todos os esforços para que seja possível um acordo”, garantiu Maria da Palma Ramalho, por seu lado.
E Armindo Monteiro, presidente da CIP, afinou pelo mesmo diapasão, referindo que as negociações sobre o pacote laboral terminaram sem acordo por responsabilidade daquela central sindical.
“É da responsabilidade da UGT não haver acordo”, afirmou o líder da CIP, acrescentando que “não é habitual ver a UGT ter a atitude que teve” durante o processo de negociação da reforma laboral proposta em Julho de 2025 pelo Governo.
Na reacção, à saída do encontro, Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, afirma que “dizer que a UGT é intransigente é falta de verdade. Havia conciliação a quase 60 propostas. À 25.ª hora, a CIP apresentou uma proposta maximalista que não permitia consensos”, considera o responsável.
Sérgio Monte elencou uma série de medidas contra as quais a central sindical sempre se mostrou contra, afirmando que não seriam negociáveis, como a reintegração de um trabalhador após vencer um processo de despedimento por justa causa ou o banco de horas individual.
“Não está morto o acordo”, garante Monte. “Mas para a CIP, pelos vistos, está. Há várias propostas inconstitucionais. O Governo é que tem de dizer se ainda existem ou não negociações”, continuou responsável que garante que não abandonarão “a mesa”.
“Nas traves mestras do Governo não houve alterações. Tivemos reuniões com os nossos 55 sindicatos e mais de 30 disseram que esta proposta não era susceptível de um acordo”, terminou o responsável.
Recorde-se que desde Julho de 2025 que está em negociação a reforma da lei do trabalho, altura em que o Governo aprovou em Conselho de Ministros e, posteriormente, apresentou na Concertação Social um anteprojecto que previa cerca de uma centena de 100 alterações à actual legislação laboral.
As centrais sindicais foram sempre contra o “pacotão” de medidas apresentado pelo Executivo de Luís Montenegro, e a sua discordância culminaria na greve geral de 11 de Dezembro – a primeira greve geral organizada pela UGT e pela CGTP desde os tempos da ‘troika‘, em 2013. Foi a quinta greve geral em cinco décadas de democracia.
Na altura, o secretário-geral adjunto da UGT, Sérgio Monte, realçava que o Governo não estava a negociar uma alteração á lei laboral, mas sim “a impor as suas vontades“. Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP dizia, por seu lado, que a reforma proposta “acentua a precariedade, facilita os despedimentos, desregula os tempos de trabalho, limita a actuação dos sindicatos, e ataca a negociação colectiva. Temos de exigir, neste momento, a retirada do pacote. É neste momento. Nenhum trabalhador perdoaria se não déssemos combate”.
O combate terminou hoje, assim, sem um vencedor claro. Mas vale a pena recordar que não será alheio a este resultado o facto de António José Seguro, que tomou esta segunda-feira posse como Presidente da República, já ter adiantado que não publicaria as alterações à legislação laboral tal como estão porque a questão “não fez parte” das propostas eleitorais e sem um acordo em concertação social. “Primeiro, não fez parte a proposta eleitoral dos partidos que estão hoje no lugar. Segundo, não houve acordo na concertação social”, afirmou Seguro durante uma intervenção na Faculdade de Economia do Porto, ainda durante a campanha para as presidenciais.
A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, que tem sido sempre a voz optimista destas negociações, acreditando que elas poderiam chegar a bom porto, tem feito saber, no entanto, que com ou sem acordo na Concertação Social, vai avançar com a proposta da alteração laboral no Parlamento, o que faz adivinhar que este poderá ser o primeiro teste de António José Seguro numa presidência que, fez questão de dizer e repetir durante, quer que seja de estabilidade.
O IPMA prevê para esta terça-feira no continente, aguaceiros, em especial no Centro e Sul, que serão de neve nas terras altas, assim como formação de gelo.
João Manuel Ribeiro/Global Imagens
Doze distritos do continente estão esta terça-feira, 10 de Março, sob aviso amarelo devido à previsão de agitação marítima e queda de neve, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Os distritos da Guarda e Castelo Branco estiveram sob aviso amarelo até às 03h00, por causa da queda de neve acima de 1400 metros de altitude.
Num comunicado, o IPMA alerta que a queda e acumulação de neve e a possível formação de gelo pode causar perturbação, dando como exemplo vias condicionadas ou interditas, danos em estruturas ou árvores, abastecimentos locais prejudicados.
Até às 06h00, estiveram sob aviso amarelo devido à agitação marítima os distritos de Aveiro, Porto e Braga.
Com o mesmo aviso e também devido à agitação marítima estão os distritos de Coimbra (até às 09h00), Leiria (até às 12h00), Lisboa (até às 13h00), Faro, Beja e Setúbal (até às 15h00).
O instituto prevê a ocorrência de ondas de noroeste, com entre quatro a 4,5 metros de altura.
O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.
O IPMA prevê para hoje no continente, aguaceiros, em especial no Centro e Sul, que serão de neve nas terras altas, assim como formação de gelo e descida da temperatura mínima e subida da máxima.
As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 1 graus Celsius (na Guarda) e os 10 (em Faro) e as máximas entre os 9 (na Guarda) e os 17 (em Braga).
Bragança, Viseu, Porto, Vila Real, Viana do Castelo, Aveiro, Coimbra e Braga vão estar sob aviso amarelo entre as 9:00 e as 21:00 e Guarda e Castelo Branco entre as 9:00 e as 03:00 de terça-feira.
Neve em Vila Pouca de Aguiar, no distrito de Vila Real PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA
Dez distritos de Portugal continental estão esta segunda-feira, 9 de Março, sob aviso amarelo devido à previsão de queda, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Os distritos de Bragança, Viseu, Porto, Vila Real, Viana do Castelo, Aveiro, Coimbra e Braga vão estar sob aviso amarelo entre as 9:00 e as 21:00 e Guarda e Castelo Branco entre as 9:00 desta segunda-feira e as 03:00 de terça-feira.
Paralelamente, Faro e Beja vão estar sob aviso amarelo por causa da agitação marítima entre as 03:00 e as 15:00 de terça-feira, prevendo-se ondas de noroeste com 04 a 4,5 metros.
O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.
O IPMA prevê para esta segunda-feira, em Portugal continental, céu muito nublado, períodos de chuva, passando a aguaceiros, em especial no norte e centro, queda de neve, formação de gelo, descida da temperatura máxima e agitação marítima forte a norte do cabo Espichel.
As temperaturas mínimas vão oscilar entre os -2 graus Celsius (na Guarda) e os 09 (em Faro) e as máximas entre os 05 (na Guarda) e os 17 (em Faro).
A actividade parlamentar da última semana voltou a trazer para o centro do debate uma questão difícil que ainda consome muita gente de bem: como deve a democracia lidar com quem testa constantemente os seus limites? Num prato da balança pesam-se os riscos de dar palco à vitimização que faz parte das narrativas “anti-sistema”; no outro, os riscos de normalizar atropelos e abusos quando apenas se encolhem os ombros.
Antes de mais, convém perceber que a Assembleia da República não é apenas um palco de confronto político, mas também, e antes de mais, a casa da democracia. Um espaço onde a liberdade de expressão e o debate aceso devem conviver com regras de respeito institucional, responsabilidade e decoro. Quando essas regras são sistematicamente desafiadas e desrespeitadas, estamos perante uma tentativa de redefinir as fronteiras do jogo democrático.
Foi isso que Teresa Morais decidiu não deixar passar em claro, esta semana, no Parlamento. A vice-presidente da AR tomou as rédeas das sessões, na ausência do presidente Aguiar-Branco, e decidiu ser vocal na defesa da honra da instituição a que presidia naquele momento.
Primeiro, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, assinalando a André Ventura que não podia deturpar as regras da interpelação à mesa para continuar o discurso político e não recuando perante as desconsiderações do presidente do Chega, que a tentou menorizar dizendo-lhe que “nem deveria estar ali” naquele dia.
Depois, no dia seguinte, quando decidiu não deixar passar uma acusação de Ventura à deputada Isabel Moreira, do PS, e às líderes parlamentares do Livre e do PCP, de ficarem caladas quando as mulheres são violadas por cidadãos estrangeiros. Ao afirmar que nenhuma deputada quer esconder violadores ou ignorar crimes contra mulheres, Teresa Morais não fez uma intervenção partidária, nem agitou qualquer bandeira feminista. “Limitou-se” a fazer o essencial: defender a honra da instituição a que presidia naquele momento.
Há quem veja nesta atitude a ingenuidade de alimentar a narrativa preferida dos populistas: a do “sistema” que os quer silenciar. Basta lembrar como o antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, foi tantas vezes acusado de contribuir para o crescimento do Chega por isso.
Numa abordagem diferente está, por exemplo, o estilo do actual presidente, José Pedro Aguiar-Branco, defensor de deixar que a própria dinâmica do debate parlamentar regule os conflitos.
Ambas as abordagens têm riscos evidentes. Mas quando um dia olharmos para trás para fazer o balanço deste tempo político, será importante perceber que houve quem não hesitou em erguer a voz para defender as instituições democráticas e os valores da decência. Teresa Morais, seguramente, não poderá ser acusada de ter assistido em silêncio.
Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
09.03.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê que a próxima semana traga frio e chuva, com temperaturas abaixo da média “para esta altura do ano”. Eis as previsões.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) divulgou, esta sexta-feira, a previsão do estado do tempo para a próxima semana, entre os dias 9 e 15 de Março, em Portugal continental. Segundo o instituto, os próximos dias contarão com temperaturas “abaixo dos valores médios para esta altura do ano”.
No boletim semanal, o IPMA revela que, na próxima semana, Portugal continental será “influenciado pela passagem de sistemas frontais, com ocorrência de precipitação em geral fraca”.
A precipitação será “mais provável” nas regiões Norte e Centro na segunda-feira, 9 de Março, e no litoral Norte na quarta-feira, 11 de Março.
Há ainda a “possibilidade de ocorrer queda de neve nas serras do Norte e Centro” na segunda-feira, mas à data de hoje a probabilidade é “inferior a 50%”.
Na próxima semana, “a temperatura irá estar abaixo dos valores médios para esta altura do ano”, estando previstas máximas a variar entre 6 e 16ºC e mínimas entre 1 e 9ºC na segunda e terça-feira.
Nos mesmos dias, as temperaturas podem variar entre os -2 e 0ºC no interior Norte e Centro e prevê-se que atinjam os -6ºC nos pontos mais altos da Serra da Estrela.
Já a partir de quarta-feira, 11 de Março, “haverá um aumento de temperatura, com valores máximos a variar entre 12 e 20 °C e valores mínimos entre 1 e 10 °C em todo o território”.