353: Entre Moscovo, Washington e Bruxelas: a estratégia política de Orbán

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🇵🇹 OPINIÃO

Os eleitores húngaros decidirão no domingo, 12 de Abril, que forças políticas poderão formar uma maioria no Parlamento Nacional e, consequentemente, quem será o futuro primeiro-ministro do país. O resto da Europa aguarda ansiosamente pelo desfecho desta eleição.

Viktor Orbán, que está à frente do governo desde 2010, quer obter o seu quinto mandato consecutivo. Orbán, que joga em três tabuleiros simultaneamente – no russo de Putin, no americano de Trump e no europeu de Bruxelas – tem explorado sistematicamente cada um deles para maximizar as suas hipóteses de reeleição.

Ele representa uma forma contemporânea de autoritarismo político, exercido dentro de um quadro institucional formalmente democrático. Trata-se, segundo vários analistas, de um dos exemplos mais claros de uma política centrada no poder quase absoluto do chefe, um fenómeno antigo que está a renascer no espaço europeu, em paralelo com o que se passa noutras partes do globo.

As astúcias que tem utilizado são várias. Os distritos eleitorais foram redesenhados de forma a maximizar o peso relativo dos votos rurais, onde o seu partido, o Fidesz, controla mais facilmente o eleitorado. Em sentido inverso, o peso dos votos urbanos, que tradicionalmente vão no sentido da oposição, foi diluído. Aboliu o limite de gastos em campanha, o que beneficia de forma desproporcionada o partido presentemente no governo, ou seja, o Fidesz, que, segundo as conclusões de vários analistas, utiliza recursos do Estado como se fossem dinheiro próprio.

Esse é, aliás, um padrão recorrente de confusão deliberada entre recursos públicos e interesses partidários e privados. Diversos relatórios e análises têm assinalado que os fundos públicos, além de servirem para enriquecer quem está no poder, são utilizados como dinheiro vivo na arregimentação de suporte nas zonas rurais.

Mais ainda. O poder actual tornou mais fácil o registo dos húngaros residentes no estrangeiro, que tradicionalmente o apoiam. Controla directa ou indirectamente cerca de 90% da comunicação social, manipula as redes sociais, tudo com o objectivo de fazer passar a mensagem que o candidato da principal força opositora, Péter Magyar, seria um pau-mandado de Ursula von der Leyen e de Volodymyr Zelensky.

A Administração Trump apoia abertamente Viktor Orbán. O vice-presidente JD Vance, um político estranhamente ideológico e profundamente retrógrado, esteve há dias na Hungria. Interveio descaradamente no processo eleitoral de um país da UE. Deve haver coragem para dizer que uma ingerência desse género é um ato inaceitável.

Vance veio apoiar um líder europeu que tem ligações muito especiais com Vladimir Putin. O presidente russo tem no topo da sua agenda política a destruição da UE e da NATO. É um político que se afirma como nosso inimigo e que ameaça seriamente o nosso espaço democrático.

Orbán é um Cavalo de Troia de Putin, como acaba de ser equacionado pelo Washington Post. Segundo este prestigiado diário norte-americano, há relatos credíveis e abalizados por múltiplas fontes europeias de que o governo húngaro mantém o Kremlin informado, em tempo real, do que se discute nas reuniões de alto nível que decorrem em Bruxelas.

Por exemplo, há alegações credíveis, publicadas por meios de comunicação importantes e citadas por fontes de inteligência política, de que dirigentes húngaros aproveitariam as pausas das sessões do Conselho Europeu para telefonarem a Sergey Lavrov, com o intuito de obter instruções directas de Moscovo.

Por outro lado, suspeita-se que a NATO deixou de partilhar certos planos militares estratégicos com a Hungria. Existiria o receio de que o governo de Orbán possa comprometer segredos da Aliança no que respeita à defesa da Ucrânia.

Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco, considera Orbán e a sua clique uma ameaça directa contra a segurança da UE e dos seus Estados-membros. A opinião de Tusk, que foi presidente do Conselho Europeu e está à cabeça de um país que conhece bem as práticas subterrâneas do Kremlin, não pode ser ignorada, nem varrida para debaixo do tapete, como certos políticos têm o hábito de fazer.

Um dos acontecimentos mais característicos da maneira ardilosa de operar de Orbán e de Putin consistiu na tentativa, que muitos atribuem aos serviços secretos russos, de procurar preparar, nas vésperas das eleições, um falso atentado contra um oleoduto ou contra Orbán. A intenção seria clara: atribuir esses “crimes encenados” à oposição, supostamente a soldo de Zelensky e do estrangeiro, e aumentar assim emotivamente as chances de uma vitória de Orbán, o “verdadeiro” defensor da pátria.

Os partidos europeus aliados do Fidesz formam uma das famílias mais reaccionárias do Parlamento Europeu: os Patriotas pela Europa. Na verdade, não têm nenhum sentimento patriótico, nem de defesa dos valores europeus. Democracia com ética na vida pública não é com eles.

Não acreditam na importância vital da coesão na União Europeia e tudo fazem para a minar. Essa família política inclui o Rassemblement National ou RN de Marine Le Pen (França), o VOX (Espanha), a Liga (Itália) e os partidos ultranacionalistas e xenófobos da Chéquia, da Áustria, dos Países Baixos, e da Eslováquia, e até o Chega de Portugal, para citar apenas alguns dos mais radicais.

O perigo maior vem de França: se o RN vencesse as eleições presidenciais de 2027, os Patriotas pela Europa estariam em melhores condições de ajudar a conseguir o que o Kremlin e o movimento MAGA de Donald Trump tanto ambicionam – fazer implodir a União Europeia.

É fundamental que a oposição húngara obtenha a maioria no domingo. Mais do que uma anomalia, o caso Orbán expõe uma fragilidade europeia persistente: a dificuldade em defender a democracia quando o seu esvaziamento ocorre a partir do interior das próprias instituições ou dos Estados-membros.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
10.04.2026

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352: “Se não têm pão, que comam brioches”

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🇵🇹 OPINIÃO

Desde 2020, sobretudo, que em Portugal temos assistido à escalada dos preços da habitação, dos bens alimentares essenciais, dos prémios de seguros de saúde e dos combustíveis. Se os primeiros aumentos foram, como é natural, sendo absorvidos sem muito queixume, quando há subidas sucessivas em cima de aumentos expressivos, o caso muda de figura.

A cada dia 1 de Janeiro, com ou sem factores (ou guerras) excepcionais que os expliquem, temo-nos deparado com o mesmo cenário: estamos a pagar cada vez mais por bens e serviços, enquanto os salários se mantêm desesperadamente iguais.

O leite e o arroz registaram subidas entre os 30% e os 60% (consoante o tipo e a marca), a carne de vaca está cerca de 50% mais cara, o frango regista subidas que podem chegar aos 45% e os ovos dispararam cerca de 70%.

Se olharmos para os legumes o cenário é igual, e o mesmo acontece em produtos como pasta de dentes que, por alguma razão, que não entendo, não entra num cabaz de bens essenciais.

Do lado dos impostos, as alterações que existem têm genericamente penalizado o consumidor que vê, ainda, os serviços públicos a deteriorarem-se: meses de espera para consultas de especialidade no SNS, escolas públicas com falhas estruturais e falta de professores, tribunais que desesperam qualquer pessoa que queira justiça. Os privados vão aproveitando a escassez de oferta pública, e também eles sobem preços: consultas privadas, escolas particulares, seguros de saúde… tudo está mais caro desde 2020, e a qualidade não tem acompanhado os aumentos.

“Dados da Segurança Social mostram que, no ano passado, 79,65% dos salários auferidos em Portugal eram iguais ou inferiores a 1500 euros brutos”

Infelizmente, do lado dos salários, o cenário é exactamente o oposto: apesar das subidas expressivas do aumento nominal, a pressão da inflação atirou os portugueses para uma situação que é insustentável a médio prazo: entre 2020 e 2025, houve perda real do poder de compra, e só em 2026 havia expectativa de que houvesse uma inversão. Pelo menos até os EUA decidirem que era boa ideia começar uma guerra no Médio Oriente, o que deverá atirar, mais uma vez, as famílias para dificuldades – se o que tem acontecido nos combustíveis for apenas o início, não se augura nada de bom.

Dados da Segurança Social mostram que, no ano passado, 79,65% dos salários auferidos em Portugal eram iguais ou inferiores a 1500 euros brutos. Creio que não é preciso saber muito de matemática para conseguir chegar à conclusão óbvia deste texto: se tudo o que precisamos de comprar aumenta de preço, mas o nosso salário se mantém (quando não diminuiu, graças à inflação), há uma impossibilidade técnica de os portugueses não estarem sempre a “viver acima das suas possibilidades”, como a OCDE gosta de sugerir que acontece por cá.

Em resumo, talvez um dia alguém (entre governantes, sindicatos, empresários e especialistas que ditam as regras) descubra a fórmula mágica que permite pagar renda, supermercado, saúde e combustível com salários que teimam em não acompanhar a realidade. Até lá, resta-nos o consolo de saber que, se o pão ficar demasiado caro, há sempre brioches.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Editora-Executiva do Diário de Notícias
10.04.2026

Eu diria antes: “… se o pão ficar demasiado caro… passem fome!”

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