🇵🇹 OPINIÃO
Os eleitores húngaros decidirão no domingo, 12 de Abril, que forças políticas poderão formar uma maioria no Parlamento Nacional e, consequentemente, quem será o futuro primeiro-ministro do país. O resto da Europa aguarda ansiosamente pelo desfecho desta eleição.
Viktor Orbán, que está à frente do governo desde 2010, quer obter o seu quinto mandato consecutivo. Orbán, que joga em três tabuleiros simultaneamente – no russo de Putin, no americano de Trump e no europeu de Bruxelas – tem explorado sistematicamente cada um deles para maximizar as suas hipóteses de reeleição.
Ele representa uma forma contemporânea de autoritarismo político, exercido dentro de um quadro institucional formalmente democrático. Trata-se, segundo vários analistas, de um dos exemplos mais claros de uma política centrada no poder quase absoluto do chefe, um fenómeno antigo que está a renascer no espaço europeu, em paralelo com o que se passa noutras partes do globo.
As astúcias que tem utilizado são várias. Os distritos eleitorais foram redesenhados de forma a maximizar o peso relativo dos votos rurais, onde o seu partido, o Fidesz, controla mais facilmente o eleitorado. Em sentido inverso, o peso dos votos urbanos, que tradicionalmente vão no sentido da oposição, foi diluído. Aboliu o limite de gastos em campanha, o que beneficia de forma desproporcionada o partido presentemente no governo, ou seja, o Fidesz, que, segundo as conclusões de vários analistas, utiliza recursos do Estado como se fossem dinheiro próprio.
Esse é, aliás, um padrão recorrente de confusão deliberada entre recursos públicos e interesses partidários e privados. Diversos relatórios e análises têm assinalado que os fundos públicos, além de servirem para enriquecer quem está no poder, são utilizados como dinheiro vivo na arregimentação de suporte nas zonas rurais.
Mais ainda. O poder actual tornou mais fácil o registo dos húngaros residentes no estrangeiro, que tradicionalmente o apoiam. Controla directa ou indirectamente cerca de 90% da comunicação social, manipula as redes sociais, tudo com o objectivo de fazer passar a mensagem que o candidato da principal força opositora, Péter Magyar, seria um pau-mandado de Ursula von der Leyen e de Volodymyr Zelensky.
A Administração Trump apoia abertamente Viktor Orbán. O vice-presidente JD Vance, um político estranhamente ideológico e profundamente retrógrado, esteve há dias na Hungria. Interveio descaradamente no processo eleitoral de um país da UE. Deve haver coragem para dizer que uma ingerência desse género é um ato inaceitável.
Vance veio apoiar um líder europeu que tem ligações muito especiais com Vladimir Putin. O presidente russo tem no topo da sua agenda política a destruição da UE e da NATO. É um político que se afirma como nosso inimigo e que ameaça seriamente o nosso espaço democrático.
Orbán é um Cavalo de Troia de Putin, como acaba de ser equacionado pelo Washington Post. Segundo este prestigiado diário norte-americano, há relatos credíveis e abalizados por múltiplas fontes europeias de que o governo húngaro mantém o Kremlin informado, em tempo real, do que se discute nas reuniões de alto nível que decorrem em Bruxelas.
Por exemplo, há alegações credíveis, publicadas por meios de comunicação importantes e citadas por fontes de inteligência política, de que dirigentes húngaros aproveitariam as pausas das sessões do Conselho Europeu para telefonarem a Sergey Lavrov, com o intuito de obter instruções directas de Moscovo.
Por outro lado, suspeita-se que a NATO deixou de partilhar certos planos militares estratégicos com a Hungria. Existiria o receio de que o governo de Orbán possa comprometer segredos da Aliança no que respeita à defesa da Ucrânia.
Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco, considera Orbán e a sua clique uma ameaça directa contra a segurança da UE e dos seus Estados-membros. A opinião de Tusk, que foi presidente do Conselho Europeu e está à cabeça de um país que conhece bem as práticas subterrâneas do Kremlin, não pode ser ignorada, nem varrida para debaixo do tapete, como certos políticos têm o hábito de fazer.
Um dos acontecimentos mais característicos da maneira ardilosa de operar de Orbán e de Putin consistiu na tentativa, que muitos atribuem aos serviços secretos russos, de procurar preparar, nas vésperas das eleições, um falso atentado contra um oleoduto ou contra Orbán. A intenção seria clara: atribuir esses “crimes encenados” à oposição, supostamente a soldo de Zelensky e do estrangeiro, e aumentar assim emotivamente as chances de uma vitória de Orbán, o “verdadeiro” defensor da pátria.
Os partidos europeus aliados do Fidesz formam uma das famílias mais reaccionárias do Parlamento Europeu: os Patriotas pela Europa. Na verdade, não têm nenhum sentimento patriótico, nem de defesa dos valores europeus. Democracia com ética na vida pública não é com eles.
Não acreditam na importância vital da coesão na União Europeia e tudo fazem para a minar. Essa família política inclui o Rassemblement National ou RN de Marine Le Pen (França), o VOX (Espanha), a Liga (Itália) e os partidos ultranacionalistas e xenófobos da Chéquia, da Áustria, dos Países Baixos, e da Eslováquia, e até o Chega de Portugal, para citar apenas alguns dos mais radicais.
O perigo maior vem de França: se o RN vencesse as eleições presidenciais de 2027, os Patriotas pela Europa estariam em melhores condições de ajudar a conseguir o que o Kremlin e o movimento MAGA de Donald Trump tanto ambicionam – fazer implodir a União Europeia.
É fundamental que a oposição húngara obtenha a maioria no domingo. Mais do que uma anomalia, o caso Orbán expõe uma fragilidade europeia persistente: a dificuldade em defender a democracia quando o seu esvaziamento ocorre a partir do interior das próprias instituições ou dos Estados-membros.
Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
10.04.2026




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Desde 2020, sobretudo, que em Portugal temos assistido à escalada dos preços da habitação, dos bens alimentares essenciais, dos prémios de seguros de saúde e dos combustíveis. Se os primeiros aumentos foram, como é natural, sendo absorvidos sem muito queixume, quando há subidas sucessivas em cima de aumentos expressivos, o caso muda de figura.