455: Apocalipse

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🇵🇹 OPINIÃO

Temos vivido o primeiro semestre de 2026 entre tempestades com impactos que desconhecíamos, chuvas fora de tempo, temperaturas imprevisíveis e, sobretudo, com uma incerteza que, até há pouco, desconhecíamos.

Os líderes mundiais andam, há décadas, a realizar sucessivas cimeiras para debate sobre alterações climáticas, suas causas e consequências, e, sobretudo, como as evitar ou mitigar.

Pedindo aos países para adoptarem acções urgentes a fim de alterar o curso das mudanças climáticas. É preciso ir mais longe e saber que mundo queremos construir. Mais desenvolvido e mais igualitário ou perpetuando as desigualdades? Mais livre, mas que permita um exercício da soberania à escala mundial?

A Conferência do Rio de Janeiro de 1992 gerou enormes expectativas. Mais de 30 anos volvidos, a urgência das decisões aumentou, os efeitos da não-decisão tornaram-se evidentes aos olhos de todos. Na última década quatro mil milhões de pessoas sofreram com desastres relacionados com o clima.

As tempestades violentas e fora de época, as inundações de dimensões nunca antes vistas, incêndios florestais de proporções devastadoras. Há, por isso, que encontrar novas respostas para novos problemas.

À globalização da economia, dos mercados e da finança não se acrescentou a necessária consequência. A governação à escala global. Pelo contrário, as instituições internacionais parecem enfraquecer-se, as lideranças mundiais assumem, com demasiada frequência, vocações hegemónicas e instala-se um crescente sentimento de tensão.

Sendo que as questões climáticas desconhecem o conceito de fronteira política.

Podem, por isso, as soluções ser encontradas país a país, território a território? Quando os problemas são globais não se imporá que a humanidade encontre uma solução global?

Confrontados com os problemas com que hoje estamos não deveríamos considerar a existência de “bens do domínio público colectivo da Humanidade “? Bens de que todos teríamos de suportar os custos na proporção da riqueza detida e dos danos crescentes e futuros que causamos.

Poderei eu continuar a andar de carro porque o meu vizinho espera décadas pelo rendimento incerto da sua floresta que capta o carbono que eu emito? Pode uma parte da população viver com a comodidade do aquecimento à distância de um clique, porque 30% da população, no caso português, vive sem os recursos necessários para pagar o seu próprio aquecimento?

Há uma questão climática urgente. É verdade. E há um modelo económico, e um quadro jurídico-político internacional que a realidade demonstrou estar esgotado. Talvez ainda mais grave, um modelo que conduziu uma parte significativa da Humanidade a níveis de bem-estar nunca antes alcançados e que pode conduzir-nos, a todos, ao desaparecimento.

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
04.06.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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441: “O povo está farto”

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🇵🇹 OPINIÃO

Corria um tranquilo sábado, como devem ser todos os sábados, quando o simples e costumeiro gesto de ligar a televisão nos traz a surpresa e a perturbação.

Naquele sábado, sétimo dia da semana, dia de descanso consagrado como tal por várias religiões e, também, na legislação portuguesa desde a década de 60 do século passado, a televisão é porta-voz da afirmação de que “o povo está farto”.

Quando, depois de podar as roseiras e conversar com um amigo de infância, liguei a televisão e, de supetão, antes do almoço em família ouço o senhor primeiro-ministro afirmar que “o povo estava farto”, tive um sobressalto.

Consciente das dificuldades por que passamos, e apesar da minha orientação política diversa, logo tendi a concordar.

Os portugueses estarão certamente desgostosos com a incapacidade de atendimento dos serviços de saúde ou com as dificuldades que a crescente inflação impõe ao seu quotidiano.

Estarão também angustiados por não conseguirem ter a casa que ambicionam, ou os salários que lhes assegurem uma vida digna.

Alguns estarão mesmo cansados de esperar pelos apoios para se recuperarem das recentes catástrofes naturais, apoios que teimam em não chegar.

Estava nestes pensamentos quando percebi que não era deste tipo de realidades que o senhor primeiro-ministro achava que o povo estava farto.

Socorrendo-me da tecnologia que permite ver a qualquer hora, qualquer notícia na sua integralidade, percebi que as preocupações do senhor primeiro-ministro não eram aquelas.

O que disse foi que “o povo não quer eleições, está farto de eleições. O povo já fez a sua opção e em 2029 fará a próxima”.

Ora, aqui chegados, convirá deixar para reflexão colectiva alguns princípios.

O povo não se farta de eleições pela simples razão de que não se farta da democracia e da liberdade de escolha, ou de censura, que a democracia, e só ela, permitem.

Quem encontra a legitimidade do seu cargo no voto soberano do povo não pode, seja em que circunstância for, diminuir ou apoucar esse exercício.

O exercício dos mais relevantes lugares do Estado Português obriga ao conhecimento e rígido respeito pelas leis da República, e todos sabemos que a duração dos mandatos e a marcação de eleições depende da avaliação e decisão de vários órgãos de soberania.

O povo pode estar farto. Mas, não está farto de eleições. Estará, porventura, cansado de programas não-cumpridos. Mas, isso é outro assunto.

Talvez faça aqui sentido citar Francisco Sá Carneiro, em declarações de 1980:

“Democracia representativa significa o funcionamento de órgãos de soberania eleitos e o pleno respeito pela acção da oposição parlamentar…

Posso concordar ou não com as posições alheias, mas respeito os meus colegas e os seus pontos de vista (…). Admito que as opiniões dos outros sejam melhores.”

Nota final: sendo hoje 28 de Maio, e um século passado, tem especial significado não apoucar as eleições e a participação dos cidadãos.

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
28.05.2026

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322: Espanto e estupefacção

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🇵🇹 OPINIÃO

Vivemos um momento difícil da nossa vida enquanto colectividade. Nem tudo o que aparece aos nossos olhos ou é dito e escrito é verdade. Nem tudo o que de censurável ocorre é objecto de sanção.

Entre percepções, realidade virtual e narrativas criadas com o propósito de enganar, vai todo um percurso que exige, cada vez mais, maior lucidez de cada um de nós.

É certo que se instalou um certo voyeurismo sobre figuras públicas, quase uma certa obrigatoriedade de striptease integral. No entanto, há que não confundir coscuvilhice com transparência e, sobretudo, há que não exigir transparência no que não releva para a res publica.

O que é importante são os comportamentos e atitudes que aos cidadãos é lícito apreciar e “julgar” de acordo com o soberano princípio de que todos somos iguais e, portanto, devemos ser tratados da mesma forma.

É este meu axioma que me leva a comentar três recentes revelações.

1 – Esquadra do Rato

Temos vindo a ser invadidos por notícias da Esquadra do Rato. O que começou por parecer um desvio comportamental de alguns agentes da PSP configura-se, agora, com uma dimensão outra.

Vários agentes terão sido presentes às autoridades judiciárias e nove agentes terão, nos termos da lei, ficado em prisão preventiva.

O que agora terá acontecido é que outros seis agentes, da mesma esquadra, estarão a ser investigados pelo MP.

Especialmente chocante é a fragilidade das vítimas: toxicodependentes e sem-abrigo.

Também especialmente chocante é não se conhecer nenhuma posição pública relevante da hierarquia da PSP, o que denuncia uma certa crise de comando e disciplina. Situação especialmente grave numa força hierarquizada. Calar pode não ser consentir, mas é revelador de uma cobarde cumplicidade, e os cidadãos precisam de confiar nas suas polícias.

2 – Crime global

Neste mundo global em que vivemos vamos sabendo do que acontece a muitos milhares de quilómetros.

Revelados mais de um milhão de e-mails de Epstein, ficámos a saber: vivemos rodeados de perversos tarados; os poderosos acham que podem tudo; a pobreza não é boa companhia para resistir aos poderosos; etc.

Só que, o que é verdadeiramente relevante, é que não sabemos quem terá cometido os crimes, ninguém foi julgado, não há arguidos, não há processos em tribunal e, claro, não há condenados.

O processo Epstein é bom para distrair papalvos: ninguém viu, ninguém sabe, ninguém participou. Mais algum tempo e concluiremos que as vítimas foram criadas pela Inteligência Artificial na sua versão pré-histórica…

E, sobretudo, que do que o “suicidado” terá tratado, além das sempre oportunas e encobridoras perversões sexuais dos poderosos, não haverá “notícia”.

3 – O exemplo

O doutor Salazar instilou nos portugueses a abominável ideia do “remediado”, levando os portugueses a “viverem habitualmente”. Para que todos pensassem que esse era o caminho, difundiu a ideia de que ele próprio vivia comendo as galinhas e os ovos que a sua fiel governanta produzia nos jardins de São Bento. Isto, apesar dos seus regulares, e não-revelados, dominicais almoços com a família Espírito Santo.

A democracia veio exigir outros exemplos. De igualdade, de transparência e de uniformidade de tratamento.

Um bom exemplo foi dado pelo actual Presidente da República ao abdicar da subvenção a que tinha direito.

Um mau exemplo é o do ex-governador do Banco de Portugal que, sem quebrar qualquer regra, é certo, terá uma subvenção que decorre de um estatuto de privilégio quanto ao montante e quanto à idade.

A democracia lida, cada vez mais, com maior dificuldade com estatutos de privilégio.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
19.03.2026

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