381: Oito distritos sob aviso amarelo por causa da chuva

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // CHUVA

Os distritos de Bragança, Viseu, Porto, Guarda, Vila Real, Viana do Castelo, Aveiro e Braga estão sob aviso amarelo devido à previsão de chuva, podendo ser acompanhada de trovoada e de queda de granizo, segundo o IPMA.

Chuva (Associated Press)
© TVI Notícias

De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o aviso amarelo para estes oito distritos vai estar em vigor entre as 12:00 e as 21:00 deste domingo.

A previsão para estas localidades é de aguaceiros, por vezes fortes, de granizo e acompanhados de trovoada, em especial nas zonas montanhosas.

Para o resto do país, a previsão é de céu geralmente pouco nublado, com períodos de mais nebulosidade durante a tarde e neblina ou nevoeiro matinal em alguns locais do litoral Norte e Centro, bem como uma pequena subida de temperatura.

O aviso amarelo, o menos grave de uma escala de três, é emitido sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

TVI Notícias
Agência Lusa
26.04.2026

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378: EUA-Irão: a escalada, o jogo político e a saída possível

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🇵🇹 OPINIÃO

Constantemente promovido pelos canais televisivos e por outros meios de comunicação social – incluindo as plataformas digitais –, o espectáculo político funciona como uma droga de efeito rápido: estimula, excita, mas não alimenta; promete cura, mas não trata a doença. E depois, quando a adrenalina baixa, volta a pergunta que incomoda: onde estão os resultados? No dia a dia, o que resta são os custos exorbitantes dos combustíveis, da Saúde, da habitação e de tudo o resto, somados a uma sensação crescente de insegurança.

Passado o efeito, fica tudo na mesma – ou pior. O circo acaba, com o tempo, por revoltar o espectador contra os actores políticos, que não produzem resultados, e contra os comentadores, que falham previsões como quem troca de camisa. É uma política feita para a fotografia: o essencial é manter-se visível, no centro da arena.

Quando os resultados não se materializam, a estratégia costuma mudar de direcção: ou se anunciam reformas em catadupa (no estilo faz-de-conta), ou se aumenta a polarização e se procura um inimigo a quem atribuir todas as culpas. O espectáculo pode mobilizar multidões – pode, até, ganhar eleições. Mas é o resultado concreto que sustém o poder e, por algum tempo, garante a paz social.

Ou então, para continuar no poder, o mau líder tenta destruir – ou, pelo menos, enfraquecer – as instituições que sustentam os regimes democráticos. Se é um fascista, procura capturá-las, subjugá-las, torná-las inteiramente obedientes. Se é um populista, o objectivo é mais rasteiro: reduzir a capacidade de controlo e fiscalização, eliminar os travões. A partir daí, manda-se como se quer.

Nero, um imperador errático, cultivava obsessivamente a adulação popular e o culto da personalidade. Projectar-se como figura divina – de Apolo ao Sol – e governou quase sempre em confronto com o Senado. Trump não pode ir tão longe num sistema com separação de poderes e uma imprensa plural.

Mas tem tentado empurrar os limites: minimizar o papel do Congresso, pressionar a Justiça, atacar governadores democráticos, condicionar os media e as plataformas sociais. E, quando convém, volta ao velho expediente das operações militares externas: projectar força, ocupar o ciclo noticioso, galvanizar franjas do eleitorado.

À falta de resultados que melhorem o quotidiano das famílias, ataca as fundações da democracia e explora o nacionalismo: os EUA são apresentados como a potência número um na cena internacional. Tudo isto é feito com o calendário eleitoral a apertar: aproximam-se as eleições intercalares de 3 de Novembro.

Nesse dia estará em jogo o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes, vários lugares de governador e outras posições. Na prática, é o próprio poder de Donald Trump que vai a votos. E os sinais, em geral, não lhe são favoráveis. Daí a urgência de conter – e, idealmente, encerrar – a escalada com o Irão antes que ela ganhe vida própria.

Como irá evoluir esta escalada e qual é a saída possível – uma saída que evite um recuo eleitoral expressivo? É esta, creio, a pergunta central, numa altura em que volta a circular a hipótese de uma segunda ronda de contactos entre as partes, em Islamabad.

A resposta – um acordo em Islamabad, sim ou não? – não depende de uma única variável. Eu resumiria assim: Ormuz, a questão nuclear, o futuro da política interna iraniana e, por fim, o factor israelita (com o peso particular da linha dura e inaceitável de Netanyahu). Um entendimento minimamente viável teria de baixar a temperatura no Estreito, estabilizar o dossier nuclear e criar canais de desescalada que funcionassem fora das câmaras e dos grandes cabeçalhos – e não apenas em comunicados para consumo internacional.

Seria um erro enorme se as autoridades de Teerão concluíssem que não vale a pena voltarem a sentar-se com uma delegação americana. Conhece-se a lista de exigências de Washington – maximalista, no limite daquilo que Teerão pode aceitar sem se desautorizar internamente – e conhece-se também a posição iraniana perante cada uma dessas condições.

Ainda assim, é plausível que um encontro, mesmo sem “negociações” formais, evite o retorno a hostilidades em larga escala e permita a outros actores continuar o trabalho diplomático já em curso – da China à Turquia, sem esquecer o Paquistão (aliado próximo de Pequim) – e, também, em vários países asiáticos e do Golfo.

A China e o Paquistão parecem estar a pressionar Teerão para que essa nova ronda de contactos – é cedo demais para lhe chamar “negociações” – aconteça agora ou em breve.

Ambos os lados teriam a ganhar com um acordo limitado. Para Washington, a vantagem é óbvia: travar uma dinâmica de escalada que, além de perigosa no terreno, aumenta o risco de violações do Direito Internacional Humanitário e degrada ainda mais a sua imagem na região e no Sudeste Asiático. E, convenhamos, a imagem americana hoje é muitas vezes lida através de dois filtros: a tentação do “músculo” e o alinhamento automático com a liderança israelita.

Para Teerão, o cálculo é igualmente claro: evitar o colapso económico e não cair na armadilha de uma guerra de represálias contra instalações petrolíferas e de gás natural – e contra portos dos Estados vizinhos do Golfo, onde basta um incidente para incendiar tudo.

Esta é uma crise que precisa de ser travada depressa. Em condições normais, seria assunto para o Conselho de Segurança da ONU. Vivemos, porém, num mundo em que as grandes potências escolhem, à carta, quais preceitos do Direito Internacional levam a sério.

Ainda assim, uma conjugação de esforços de um novo tipo – China, Índia e União Europeia, com um par de países do Sul (Paquistão e Indonésia, por exemplo) – poderia fazer a diferença, no meu entender, onde a ONU está paralisada: manter canais de contacto permanentes, fazer aceitar medidas de cessar-fogo minimamente verificáveis e desenhar um roteiro pragmático para Ormuz e para o dossier nuclear. É este o tipo de trabalho diplomático que evita desastres. Essencial.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
24.04.2026

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Já passei muito ‘kokushobi’ no Alentejo

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🇵🇹 OPINIÃO

Sabe aqueles dias em que está tanto calor que não consegue imaginar fazer mais nada além de estar na praia, de preferência com os pés dentro de água para refrescar? Aqueles dias em que o nosso querido Eça de Queiroz diria estar “um calor de ananases”? Os japoneses arranjaram um nome para se referir a esses dias: kokushobi.

A palavra, apresentada há dias pela Agência Meteorológica do Japão, significa “dia de calor insuportável”, “dia de calor brutal” ou “dia de calor extremo”. Foi a vencedora de uma sondagem online realizada a nível nacional e refere-se, especificamente, a dias em que as temperaturas ultrapassem os 40ºC. A ideia de fazer uma sondagem surgiu depois de o Japão ter registado em 2025 o verão mais quente desde que há registos.

Quem participou no inquérito podia escolher entre 13 opções para descrever os dias mais quentes. Realizado entre Fevereiro e Março, este recebeu mais de 478 mil respostas. Ideia inovadora? Nem tanto, afinal o Japão é conhecido por gostar de “inventar” palavras. Um outro exemplo? Tsundoku, ou seja, a arte de empilhar no chão livros por ler. E em relação ao calor, já tinham palavras específicas para dias com temperaturas superiores a 25°C, 30°C e 35°C.

Por cá, se ainda não inventámos uma palavra para os designar também nós nos habituámos a Verões cada vez mais quentes. E, como alentejana – mesmo da “espécie” que cresceu na Suíça e gosta bastante mais de neve do que de calor -, já enfrentei muitos dias com os termómetros acima dos 40ºC. E ainda não esqueci aquele verão de 2003 em que a Amareleja chegou aos 47,3ºC, ainda hoje o recorde de temperatura em Portugal.

No Alentejo, antigamente, quando o mercúrio subia e nem bolia uma aragem, os mais antigos escondiam-se atrás das paredes grossas das casas, caiadas de branco para afugentar o calor, e só voltavam a sair ao final da tarde para se sentar às portas e queixar-se da “calmaça” que esteve.

Se não é inventada como as dos japoneses, esta palavra também não vem no dicionário, sendo uma espécie de equivalente local a “caloraça” mas com “calma”, como os alentejanos gostam de chamar ao calor. Hoje, infelizmente, as paredes das casas já não são tão grossas e se o branco ainda domina no Alentejo, os ares condicionados continuam a ser excepção nas casas de habitação.

Ora são cada vez mais estes dias de calor extremo, no Japão, em Portugal e um pouco por todo o mundo, reflexo dessas alterações climáticas que alguns insistem em negar e outros pretendem combater lançando tinta sobre obras de arte. Mas contra as quais há muito devíamos ter começado a agir para evitar ondas de calor ou tempestades destruidoras, como as do último inverno em Portugal.

Afinal, mesmo quem gosta do verão, dispensa com certeza muitos dias de caloraça… ou de kokushobi.

Diário de Notícias
Helena Tecedeiro
Editora-executiva do Diário de Notícias
24.04.2026

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376: Mau tempo está mesmo de volta a Portugal? Afinal, o que podemos esperar?

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // MAU TEMPO

Tem havido muitas oscilações no que toca à meteorologia e parece que já não sabemos quando faz sol ou faz frio. E sempre que ouvimos falar em tempestade, o pensamento corre imediatamente para cenários mais graves, muito por culpa do que aconteceu há poucos meses em cidades como Leiria. Mas, felizmente, a depressão que afectou Portugal esta terça-feira, 21 de Abril, vai já embora.

Meteorologia | Fotografia: Sebnem Coskun/Anadolu via Getty Images
© VERSA

Ora a partir desta quarta-feira, 22, a massa de ar muito quente que passou em Portugal nos últimos dias será substituída por uma massa de ar mais frio vinda do Atlântico, o que resultará numa descida das temperaturas para níveis mais típicos da estação, de acordo com o Meteored.

Este cenário deve-se à intensidade dos centros de pressão que irão dominar o Atlântico Norte: por um lado, um anticiclone nas proximidades da Islândia apresentará valores de pressão muito elevados; por outro, uma depressão a norte dos Açores atingirá níveis de pressão bastante baixos.

Já na quinta-feira, 23, o tempo deverá manter-se maioritariamente seco, embora com aumento de nebulosidade e possibilidade de chuvisco em algumas zonas do interior alentejano e do sotavento algarvio.

Contudo, a instabilidade poderá regressar com mais força na sexta-feira, 24, dia em que se prevê um aumento da frequência e intensidade dos aguaceiros e trovoadas, podendo abranger uma área mais vasta do território. Existe ainda alguma incerteza quanto ao fim de semana prolongado do 25 de Abril, mas não se exclui a continuidade deste padrão instável.

Versa
Rafaela Simões
22.04.2026

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375: A Figura do Dia. O CDS morreu há vários anos

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🇵🇹 OPINIÃO

O CDS é um partido que morreu há uns anos. Esteve um tempo nos cuidados paliativos e, por obra e graça de um destino sempre deliciosamente irónico, uma alma caridosa decidiu desligar a máquina e evitar mais sofrimento.

Por isso, quando alguém me conta que estão no Governo e ocupam lugares no Parlamento, concluo que o delírio tomou conta dos palácios e das cabeças.

Há um ministro que “monta” cenários e se aproveita das tragédias para mostrar músculo. E há um deputado que, nos últimos tempos, repete um mantra para que o povo não se esqueça de que o CDS é o original e o Chega um a imitação.

Paulo Núncio esforça-se para multiplicar uma mensagem que indigna a história do partido fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa. Cada vez que esta gente surge com Deus na boca, mas com raiva e ressentimento nas acções, penso em todos os democratas-cristãos que combateram com coragem por uma sociedade conservadora, mas inspirada no humanismo cristão.

Não, caro Paulo Núncio, o CDS morreu com dignidade. O senhor ou o seu líder, ministro da Defesa, não representam o partido, mas apenas o nome que herdaram.

O CDS é o original, o Chega é a cópia, proclama o homem com voz grave e olhinhos vivos. O que diriam Francisco Lucas Pires, Adriano Moreira, Narana Coissoró, Krus Abecassis, Ribeiro e Castro, Lobo Xavier, Rui Pena e até Paulo Portas?

Não, caro Paulo Núncio, o CDS morreu com dignidade. O senhor ou o seu líder, ministro da Defesa, não representam o partido, mas apenas o nome que herdaram. Faria muita falta voltar a ter a democrata-cristã na nossa paleta de escolhas, seria até capaz de nela votar, mas a associação que os senhores representam é apenas um ardil, uma manigância, um insulto.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
22.04.2026

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374: Porque é que sou machista, por Cristina Ferreira

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🇵🇹 OPINIÃO

“Quero saber o que é que passa na cabeça de quatro jovens que, ouvindo um não, não respeitaram aquela rapariga (a provar-se isso, porque está ainda em julgamento). Quero perceber, quando um violador ouve o não, porque é que ele não o ouviu. E não o ouviu não é no sentido literal do termo. Porque, é claro, ele não quis ouvir. Porque é que eu sou machista em querer perceber o comportamento de um violador?

Esta é a explicação que Cristina Ferreira deu esta terça no Jornal Nacional da TVI, em entrevista a José Alberto Carvalho, sobre as palavras que lhe valeram uma multidão de críticas, mais de quatro mil queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e uma carta aberta intitulada “A violação não é matéria de opinião”, na qual é acusada de banalização da violência e ausência de empatia.

Lembremos que palavras foram essas, proferidas num programa da manhã em que os presentes comentavam o início do julgamento de quatro jovens acusados de, em Fevereiro de 2025 em Loures, terem violado uma adolescente de 16 anos e difundido as imagens do crime: “Temos de falar disto: mesmo que ela [a miúda] tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que têm de ouvir, mas alguém entende aquele ‘não quero mais’?”

Há vários elementos muito interessantes — porque muito reveladores — nisto que Cristina disse e que apresenta como uma pergunta. Desde logo, assumir que os rapazes (porque são rapazes, não é?) podem estar “a fazer sexo com uma rapariga” sem a ouvir, sem darem atenção ao que ela diz, faz, sente, se quer ou não quer, e que isso é uma coisa banal, nada tem de violento, reprovável ou ilícito: “Estão naquela adrenalina.”

Depois, considerar que é até atendível, expectável, “rapazes” não valorizarem um “não quero mais”. Porque Cristina questiona: “Alguém entende aquele não quero mais”?

“Alguém”. Como quem diz “cabe na cabeça de alguém que uma rapariga que alegadamente quis ter sexo deixe de querer a meio?”. Como quem diz “mas o que é que ela esperava, ao pôr-se naquela situação?” Questão, de resto, reiterada pela intervenção de uma das convidadas no programa, a psicóloga (psicóloga, imagine-se) Inês Balinha Carlos: “Nós temos de ser honestos e perceber que é muito mais difícil — não querendo justificar nada — parar a meio; é preciso muito mais maturidade para controlar os seus impulsos quando já vamos a meio do ato do que antes de começar o ato. Temos de ter essa honestidade e perceber a idade deles, sem justificar rigorosamente nada.”

É certo que, no Jornal Nacional, a apresentadora (a qual, recorde-se, é também acionista e administradora do canal), lamentou “não ter usado as palavras certas” na sua “pergunta”, admitindo que se a tivesse escrito não sairia assim. Mas recusou pedir desculpa, e sobretudo não dirigiu uma palavra à jovem de cuja alegada violação estava a falar — não disse: peço desculpa se aquilo que disse te magoou, se pareceu que trivializei, que te culpabilizei.

Não: nem quando José Alberto referiu o facto de Cristina ser acusada de falta de empatia e observou que para aquela rapariga só pode ser altamente doloroso ouvir discutir o assunto, reviver os detalhes sobre o que sucedeu, a entrevistada percebeu a deixa. Em vez disso, retorquiu, cortante: “Não tenho dúvida nenhuma. Como deve ter sido mais doloroso ainda tudo isto que se fez nos dias seguintes.” Ou seja, doloroso mesmo terá sido a onda de críticas (incluindo da família da jovem) que se abateu sobre a apresentadora. Que ainda perguntou: “Mas a minha empatia era o quê? Não perguntar sobre o comportamento do violador? Era essa a empatia?”

Porque Cristina está, garante, focada no “comportamento do violador”. Daí que frise que a sua “pergunta” surgiu na sequência do que disse outro comentador do programa da manhã, “psicólogo forense”: que “em tribunal é dificílimo uma vítima provar o não.” É que, prossegue, ”são feitas perguntas muito difíceis. Temos um juiz à frente que pergunta: Mas disse não? Mas disse não como? E o não foi expressivo? E o não foi dito em alta voz? E o não foi olhado pelo seu violador?” Para concluir: “Percebes o difícil que é, para uma vítima, ter que, em tribunal, dizer uma vez mais… E mais, nem sempre a vítima tem capacidade de dizer que não. Há reacções muito diferentes. E isto eu ouço há muitos anos. Há reacções muito diferentes de vítimas. Há vítimas que congelam. Que são incapazes de ter qualquer tipo de reacção. Há vítimas que gritam constantemente que se pare, e que o não seja cumprido. E se ele não é, estamos perante uma violação.”

Não sabemos como sairiam estas explicações se Cristina as tivesse escrito, mas fica bastante claro que para ela não é uma questão que os tribunais concentrem o seu questionamento, a sua avaliação, em suma, o seu julgamento, na vítima, mesmo se, como sucede desde 2019, a lei penal define violação como penetração contra a “vontade cognoscível da vítima” (antes de 2015 a jurisprudência exigia à vítima provas de “resistência”, não considerando sequer um não como suficiente).

E para Cristina isso não é uma questão porque, se repete que quer perceber o violador, na verdade é a vítima que não compreende — é o comportamento da vítima que ela põe em causa. Daí que nos quase 30 minutos que durou a entrevista nunca tenha manifestado a sua indignação por, como relata, os juízes se focarem na existência audível de um não ou de uma clara objecção por parte da vítima, em vez de fazerem ao arguido a pergunta óbvia: como é que se certificou da “vontade cognoscível” daquela pessoa de ser penetrada? Foi alguma coisa que ela fez? Foi alguma coisa que ela disse? Ou ela não fez nem disse nada e mesmo assim achou que era de avançar?

Por mais que nos garanta que há muitos anos “estuda” este assunto, o da violência de género, e que as suas perguntas são feitas de  forma a “ajudar a informar as pessoas menos informadas”, Cristina só evidencia a sua desinformação, ignorância, preconceito. E a sua imensa, desmesurada, arrogante, crueldade.

Foi ela a apresentadora que em 2020, ante a difusão de imagens de uma jovem a ter sexo com dois jovens num comboio, falou do caso psiquiatrizando-a, enquanto deles dizia que era normal, como rapazes que eram, fazerem sexo assim, em qualquer sítio, ela é que ia “ficar marcada”. Foi ela a apresentadora que, falando de uma mulher que tinha sido assassinada por um ex-companheiro, a acusou de “se ter posto a jeito”. Justificando, na entrevista a José Alberto Carvalho: “Essa expressão foi utilizada porque estávamos a falar de uma senhora que já era agredida há algum tempo. E nós, aquilo que é o nosso dever, e que o fizemos, foi alertar qualquer vítima de agressão de que não pode abrir a porta a um agressor. Não pode entrar no carro com alguém que já a agrediu, com alguém que já a ameaçou. Porquê? Porque sabemos que é aí que acontece.”

É tudo para ensinar as pessoas, percebem? Para ensinar as pessoas a culpabilizar as vítimas, para ensinar que as mulheres têm de medir bem os riscos, ter cuidado, e que os homens, os rapazes, são assim uma espécie de animais selvagens incontroláveis, “naquela adrenalina”.

E por favor não se se diga, como Cristina previu que se diria mal terminasse a entrevista, que ela se esteve a vitimizar, que é narcisista, que não tem percepção dos seus comportamentos, que não tem qualquer tipo de responsabilidade social. Realmente: nem começou a entrevista por assegurar “estou bem”, nem reduziu as criticas que recebeu a “ódio” e “busca de visualizações”, nem ameaçou que no dia em que sinta que “ao me sentar nesta cadeira estiver a pensar naquilo que vou dizer, no que não posso dizer, naquilo que não me permitem dizer, está na hora de ir embora.”

Como é que alguém se poderá atrever a exigir a Cristina que, ante os milhões que a vêem e seguem, no lugar em que está, pense naquilo que vai dizer e no que não deve dizer?

E — isso então — como podem chamar-lhe machista, logo a ela que, se tantas vezes assegurou não ser feminista, decidiu agora revelar -nos o seu feminismo de “20 anos de televisão a mostrar através do meu exemplo que é possível, que a igualdade se pode conquistar”? Mas, atenção, avisa: “Isso não se faz com o derrube do homem.” Porque, já se sabe, as outras feministas, as que não são a Cristina, as más e doidas que a criticam, querem é “derrubar o homem”. O feminismo da Cristina nunca põe em causa o lugar do homem, dos “rapazes”; derrubar, só mulheres. Sempre.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
23.04.2026

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373: A Figura do Dia. Cristina Ferreira

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🇵🇹 OPINIÃO

A irresponsável opinião de Cristina Ferreira não tem defesa possível – e o seu comunicado apenas amplificou o embaraço –, mas talvez seja altura de perdermos um pouco de tempo com o essencial.

O país mediático agitou-se e rasgou as vestes. Como era possível tal monstruosidade dita em directo por alguém que tem a responsabilidade de falar para milhões de pessoas? Como se pode desculpabilizar uma violação feita a uma menor por quatro atrasados mentais? Como entender que a TVI não tivesse imediatamente retirado ilações?

Podemos voltar ao tempo do pelourinho ou da salvação pela purificação do fogo, mas a indignação colectiva conseguiu pasmar-me. De repente, Cristina era o “mal” e não a consequência do que nos estamos a tornar.

“Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore.”

Os programas com mais audiência têm como protagonistas gente ordinária, amoral, abjecta e violenta. Temos programas em que agricultores procuram mulheres como se a televisão se tivesse transformado num lugar de alterne. Temos muitas das nossas crianças a dançar músicas com letras em que os homens maltratam as mulheres e as rebaixam. Temos o Parlamento transformado numa tasca de vinho barato por culpa de deputados cujo partido não para de crescer. Temos tudo isso e mais o resto que aqui não cabe.

Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore. Até ao dia em que a indignação seja em nome de um mundo novo que possa salvar-nos da bestialidade e do esgoto.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
21.04.2026

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372: Temos pena, o SNS está fechado para si!

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🇵🇹 OPINIÃO

Há experiências que dispensam qualquer esforço de imaginação distópica. Não é preciso invocar George Orwell, nem revisitar Franz Kafka. Basta tentar marcar uma consulta no SNS pelos meios digitais, sobretudo quando se descobre, sem aviso e sem alternativa, que se ficou de fora, pois o médico de família reformou-se, mudou-se para o privado e o sistema não preencheu o vazio.

Tudo começa com uma promessa convincente, hoje concentrada na app SNS24. A aplicação é clara e organizada. Parece oferecer serviços, caminhos e soluções. Mas essa ordem é superficial. Por detrás da interface existe um sistema fragmentado, onde o digital não resolve, apenas expõe as suas deficiências.

O primeiro clique da “Marcação de consultas” revela a realidade com a mensagem “Sem vagas disponíveis”. Para muitos utentes, isto não é um imprevisto, é o estado permanente. E para quem não tem médico de família, é ainda pior, devido à inexistência formal de acesso. Não há agenda, não há referência, não há continuidade. O sistema não está atrasado, está indisponível.

É aqui que o problema deixa de ser apenas um incómodo e passa a ser perigoso. Sem consulta, não há prescrição. Sem prescrição, não há renovação de medicação crónica. Doentes com doenças prolongadas ficam sem seguimento regular e passam a gerir a sua terapêutica como podem. O risco deixa de ser teórico e torna-se clínico.

Sem consulta, não há exames, não há análises de rotina, não há diagnóstico precoce e não há vigilância. O sistema deixa de prevenir e passa a reagir, frequentemente tarde demais. A doença evolui enquanto o acesso permanece bloqueado.

A própria app, que deveria simplificar o percurso, limita-se a formalizar o impasse. Sugere alternativas que não existem na prática, encaminha para contactos que não respondem e apresenta funcionalidades “indisponíveis”. O digital deixa de ser solução e passa a ser a interface do problema.

Perante isto, muitos utentes recorrem ao privado. Fazem exames, obtêm respostas, mas quando regressam ao SNS, essa informação não entra. Os resultados não são integrados no dossier clínico, pois o sistema não reconhece o que já foi feito. A informação existe, mas não conta.

Quem não pode pagar insiste, espera ou acaba nas urgências hospitalares. É aqui que o sistema revela a sua falha mais grave. As urgências tornam-se a porta de entrada para cuidados básicos. Não por decisão clínica, mas por ausência de alternativas. O resultado é previsível, com serviços saturados, longos tempos de espera e decisões tomadas sob pressão.

Este não é apenas um problema de funcionamento. É um risco estrutural. Um sistema que não garante acesso regular empurra os doentes para situações mais graves. Um sistema que não integra informação perde capacidade de decisão. Um sistema que depende da urgência para funcionar está, na prática, em modo de falha contínua.

No meio de tudo isto, há a excepção da prescrição electrónica que funciona de forma simples, eficaz e invisível. É a prova de que o SNS consegue fazer bem, mas também é a prova de que essa competência não foi aplicada ao essencial, de garantir acesso, continuidade e integração.

O problema já não é tecnológico, é de governação, pois um sistema digital mal governado não é neutro. Cria desigualdade e separa quem consegue aceder de quem fica de fora. Não por decisão explícita, mas por acumulação de barreiras. E essa desigualdade está a tornar-se estrutural, entre quem tem médico de família e quem não tem, entre quem pode pagar e quem não pode, entre quem consegue insistir e quem desiste.

O SNS continua a ser universal no princípio, contudo na prática o acesso está a tornar-se condicional. Porque um sistema de saúde não falha apenas quando não responde, falha quando normaliza a ausência de resposta, quando transforma o bloqueio em rotina e quando aceita que haja cidadãos para quem a aplicação funciona… mas o sistema não.

No fim, o paradoxo é claro. O sistema sabe quem somos. A app SNS24 autentica-nos, identifica-nos, regista-nos, mas não garante que sejamos tratados. E quando um sistema de saúde chega a este ponto, já não estamos perante um problema digital, estamos perante um problema de confiança pública.

Diário de Notícias
Luís Vidigal
Governação electrónica
22.04.2026

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371: ERC já recebeu 4200 queixas por declarações de Cristina Ferreira

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🇵🇹 PORTUGAL // SOCIAL // ERC // QUEIXAS

As participações encontram-se em apreciação pelos serviços da ERC, no seguimento do procedimento de averiguações determinado pelo Conselho Regulador.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu até segunda-feira, 20 de Abril, 4.200 participações sobre as declarações de Cristina Ferreira relativas à violação de uma menor, mais 900 que quinta-feira.

Contactada pela Lusa, fonte oficial da ERC adiantou esta terça-feira, 21, que “o total de participações actualizado ao dia de ontem [segunda-feira] ronda já as 4.200”.

Em 16 de Abril, a ERC tinha recebido 3.300 participações relativas às declarações de Cristina Ferreira no programa ‘Dois às 10’, da TVI.

As participações encontram-se em apreciação pelos serviços da ERC, no seguimento do procedimento de averiguações determinado pelo Conselho Regulador, adiantou, na semana passada, a mesma fonte.

Em causa estão as declarações de Cristina Ferreira na semana passada, no programa ‘Dois às 10’, sobre o caso dos quatro ‘influencers’ acusados de, em 2025, terem violado uma adolescente de 16 anos e filmado os actos sexuais, em Loures, que começaram a ser julgados à porta fechada na segunda-feira, 13 de Abril.

“Porque nós temos de falar disto. Porque é assim: mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele: ”Não quero mais'”, questionou a apresentadora no programa da TVI, o que gerou polémica e as queixas à ERC.

Na sequência disso, na quarta-feira, a TVI emitiu um comunicado em que rejeita as acusações de banalização de um caso de violação discutido no programa, afirmando que a pergunta colocada por Cristina Ferreira foi descontextualizada e alvo de “manipulação grosseira”.

“A pergunta aconteceu, o comentário não e muito menos a expressão da banalização do crime”, referiu a TVI, que criticou ainda a propagação de acusações nas redes sociais, que considera serem feitas de forma “gratuita e leviana”, indicando que irá recorrer aos tribunais para repor a justiça.

A Lusa contactou na semana passada a empresa e questionou quem escreveu o comunicado. Questionou também se o director-geral da TVI, José Eduardo Moniz, e o presidente executivo (CEO) da Media Capital, Pedro Morais Leitão, consideram que aquela comunicação da TVI espelha a posição do grupo. Fonte oficial respondeu que “o comunicado é da TVI”.

De acordo com a acusação do Ministério Público, os arguidos no caso referido têm actualmente entre 18 e 21 anos e respondem por um crime de violação agravado e 27 crimes de pornografia de menores agravados.

Um dos ‘influencers’ está ainda acusado de três crimes de ofensa à integridade física e outro de um da mesma natureza.

O caso remonta a 12 de Fevereiro de 2025, quando a vítima se encontrou com os quatro arguidos, então com canais nas redes sociais e públicos significativos, num jardim público em Santo António dos Cavaleiros, concelho de Loures, na área metropolitana de Lisboa.

Segundo a acusação, os actos sexuais, gravados com o telemóvel, terão começado de forma consensual no jardim público e continuado, contra a vontade da vítima, numa garagem próxima.

DN/Lusa

Diário de Notícias
21.04.2026

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370: Quem tem medo da transparência?

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🇵🇹 OPINIÃO

Ciclicamente, o tema da transparência é convocado para o centro do debate político. Desta vez foi recuperado por Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, ao defender que a declaração de rendimentos e interesses deve deixar de ser de acesso público. Este posicionamento, que lhe valeu severas críticas da oposição, é sintomático de um mal maior. Não há representação democrática de qualidade sem transparência.

Quem exerce poder em nome de outros tem de aceitar o escrutínio. Relativizar a sua importância é contribuir para o desgaste das instituições e da própria democracia. Nesse quesito, vários casos recentes servem de exemplo.

O primeiro é o da relação entre o principal cliente da empresa associada à família do primeiro-ministro e o financiamento do PSD; o segundo diz respeito à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos que, cinco anos depois, continua a pedir explicações sobre dinheiro sem origem conhecida nas contas dos principais partidos; o terceiro e último é o da decisão que tornou inacessível ao público a identidade de quem financia partidos e campanhas. Todos estes casos representam sintomas da fragilidade e da importância dos mecanismos de escrutínio. Mas mais importante, representam um retrocesso na transparência.

A relação entre transparência, confiança e integridade institucional está bem documentada. No plano institucional, a OCDE demonstra que a transparência só produz efeitos quando acompanhada de mecanismos eficazes de escrutínio e responsabilização. Isto suportado em dados que apontam para a sensibilidade do público à percepção de abertura, integridade e capacidade de prestação de contas das instituições.

Académicos como Stiglitz ou Larry Diamond defendem que o direito à informação é condição para o debate público informado e que a qualidade da democracia depende da capacidade de os cidadãos controlarem efectivamente o poder político. Quando esse controlo enfraquece, é a própria democracia que se desgasta.

A erosão da confiança pública nas instituições não resulta de um caso isolado, mas de sinais de opacidade contínuos – estes mais preocupantes num contexto em que forças populistas, radicais e abertamente antidemocráticas crescem na Europa, explorando a desconfiança nas instituições representativas.

A responsabilidade dos partidos é, por isso, ainda maior. Não dizer nada é contribuir para a descrença. Não aceitar o escrutínio é alimentar a dúvida. E aceitar a generalização da ignorância sobre quem financia, influencia, ou condiciona o exercício da representação, é dar munições a quem quer enfraquecer a democracia por dentro.

Com as já anunciadas iniciativas legislativas para alterar a Lei do Financiamento dos Partidos Políticos e das Campanhas Eleitorais, está agora nas mãos dos partidos com assento parlamentar tomar uma decisão. Têm agora a oportunidade de reverter a decisão, sujeitando-se ao escrutínio e debate que caracterizam as democracias representativas ou contribuir para menos informação, mais opacidade e desconhecimento.

A transparência é desconfortável para quem exerce poder. É precisamente por isso que é indispensável.

Diário de Notícias
André Santos Pereira
Professor universitário e analista político
20.04.2026

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