446: O carácter que Passos não viu ao espelho

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🇵🇹 OPINIÃO

Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”. Aquilo que pretendeu ser um diagnóstico professoral dos outros acabou por ser um retrato do seu próprio campo.

Começo por aquilo que mais me incomodou, a linguagem. Um antigo primeiro-ministro descer ao registo da taberna e do bordel para fazer política não enobrece o debate, avilta-o. A direita liberal-conservadora gosta de reclamar para si os pergaminhos do decoro e acaba por competir na grosseria com aquilo que diz combater. Quem precisa do insulto para ser ouvido confessa que já não tem ideias para o ser.

Mas o essencial não está no verbo, mas sim no cenário. O cenário, neste caso, é tudo. Passos pronunciou aquelas palavras com André Ventura sentado na primeira fila, num lançamento de pendor identitário, sob o olhar cúmplice do homem que personifica precisamente o que dizia condenar. Há qualquer coisa de irónica comédia nisto: o moralista que denuncia a prostituição pelo aplauso, a ser aplaudido por quem… comprou meio país com o crédito do ressentimento.

Esta é uma fotografia sublime de uma direita que vestiu a fatiota do populismo e já nem se dá ao trabalho de disfarçar o namoro. E é por aqui que o discurso se vira contra o autor, porque o percurso que Passos descreve, o do político que se torna mais populista do que os populistas não é apenas, traço por traço, o de Luís Montenegro, refém do voto do Chega para sobreviver. É também o de Carlos Moedas, que governa Lisboa com entendimentos feitos com o Chega protegidos da luz do escrutínio. Mas é, sobretudo, o do próprio Passos, à procura de uma segunda vida política à boleia de Ventura.

Convém lembrar o que isto significa. Há uma década, dizer que um líder do PSD dependeria da extrema-direita para governar era um insulto. Hoje é o que temos. Essa fronteira apagou-se sem estrondo, à força de orçamentos viabilizados à porta fechada e de indignações encenadas. Passos devia ser o primeiro a reconhecê-lo. Escolheu alimentá-lo: primeiro com a presença, depois com o aplauso, agora com a linguagem.

Faltou-lhe depois a coragem das próprias palavras. Confrontado pelos jornalistas, recusou dizer a quem se referia e refugiou-se nos “labirintos de interpretação”. Atira-se a pedra e esconde-se a mão. É a política sem espinha levada ao limite, que faz barulho para substituir a substância.

Sá Carneiro não confundia firmeza com insulto. A social-democracia que fundou subordinava o mercado à Justiça e media-se pelo carácter, não pela esperteza saloia. Por isso, quando Passos fala em prostitutos sem carácter, fica no ar uma pergunta que ele se recusou a responder. Talvez por saber que a resposta o devolveria, ressentido e inteiro, ao espelho.

Diário de Notícias
Davide Amado
Presidente da Concelhia do PS de Lisboa
01.06.2026

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270: Já não há desculpas, Carlos!

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🇵🇹 OPINIÃO

Corria o ano de 2011 quando Mário Soares publicou o ensaio autobiográfico, político e ideológico Um Político Assume-se. O título revelou-se particularmente feliz: não só descrevia com rigor a vida e o modo de estar de Mário Soares, como acabou por se tornar um verdadeiro critério distintivo entre dois tipos de actores públicos.

De um lado, os que assumem inequivocamente que fazem política, com o objectivo de garantir direitos e liberdades, gerir recursos públicos, criar impacto económico e influenciar o futuro do país. Do outro, aqueles que constroem carreiras alavancadas na política partidária, mas dela se afastam sempre que tal lhes convém, num exercício de cinismo cuidadosamente calculado.

Esta reflexão serve de enquadramento para compreender o acordo que Carlos Moedas celebrou com a extrema-direita, à revelia dos lisboetas e sem nunca ter assumido, durante a última campanha autárquica, que essa seria uma opção em cima da mesa.

O mesmo Carlos Moedas que acusa de “radical” qualquer exercício legítimo de oposição ao seu paupérrimo desempenho enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa é, afinal, o Carlos Moedas que faz acordos de bastidores com o Chega, negociando lugares em troca de votos favoráveis ao Orçamento Municipal e, simultaneamente, tentando silenciar os seus opositores políticos.

Há aqui uma contradição difícil de ignorar. O autarca obcecado com a imagem e com a comunicação, que procura afastar-se da figura do político tradicional desgastado pelo populismo, é o mesmo que decide “comprar” uma vereadora que, por curiosa coincidência, abandona o Chega para assumir pelouros, como o do Desperdício Alimentar, que certamente seriam apelidados de tachos no linguarejar do próprio… Chega. Um gesto que diz muito sobre a natureza real deste entendimento e pouco sobre coerência política ou respeito pelo eleitorado.

Carlos Moedas governa agora com uma maioria que os lisboetas não lhe deram nas urnas. E, com isso, deixaram de existir desculpas. O mandato que aí vem adivinha-se particularmente exigente: a vitimização tem agora a perna tão curta como a mentira. Durante quatro anos, repetiu até à exaustão que não fazia mais porque “não o deixavam”, recorrendo sistematicamente à poderosa máquina de comunicação que montou no município. Essa narrativa está, a partir de agora, esgotada.

Sem obras planeadas pelo Executivo liderado por Fernando Medina para inaugurar, e sem eventos excepcionais, como a visita do Papa, que lhe permitam ganhar protagonismo mediático, resta-lhe apenas um caminho possível: arregaçar as mangas, governar efectivamente a cidade e pensar mais em Lisboa e menos numa estratégia pessoal para substituir Luís Montenegro. O acordo de Moedas com o Chega tem essa virtude: já não há desculpas para não fazer, Carlos!

Diário de Notícias
Davide Amado
23.02.2026

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