452: José Eduardo ‘Aguageral’

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🇵🇹 OPINIÃO

Há polémicas culturais que revelam muito mais do que aparentam à primeira vista. A recente proposta de substituir a designação “Língua Portuguesa” por “Língua Geral”, defendida por José Eduardo Agualusa, é um desses casos. Porque a questão já não é apenas linguística: é profundamente simbólica, ideológica e civilizacional.

Convém começar pelo essencial: o português chama-se português porque nasceu historicamente em Portugal. Não se trata de uma opinião identitária, nem de uma reivindicação nacionalista; trata-se de um facto histórico elementar. Foi em Portugal que esta língua se formou, se consolidou e se projectou globalmente. O facto de hoje pertencer também ao Brasil, a Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Timor-Leste não elimina essa origem, tal como o alcance planetário do inglês não obriga ninguém a renomeá-lo para evitar referências à Inglaterra.

Existe actualmente, em certos sectores intelectuais ocidentais, uma tendência preocupante para reinterpretar toda a história através de categorias morais simplistas, divididas entre opressores e oprimidos. Dominantes e dominados. Tiranos e vítimas. Nesse contexto, tudo o que possua raízes históricas europeias parece exigir permanente revisão, desconstrução ou expiação simbólica. A proposta de abandonar a designação “língua portuguesa” inscreve-se claramente nessa lógica de deslegitimação cultural.

O problema é que esta obsessão revisionista raramente produz aproximação entre povos. Pelo contrário: tende a alimentar ressentimentos históricos, fragmentações identitárias e antagonismos artificiais entre comunidades que partilham precisamente uma herança comum. Uma língua internacional não se fortalece apagando a sua história; fortalece-se reconhecendo a complexidade dessa mesma história, incluindo as suas contradições.

Importa, aliás, recordar que a expressão “Língua Geral” não é neutra nem inocente. Historicamente, designava línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperar hoje essa designação para substituir “português” não constitui um simples exercício terminológico: representa uma tentativa deliberada de deslocação simbólica da matriz histórica da língua.

Há aqui também uma evidente incoerência intelectual. Durante décadas, foi-nos dito que o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário para preservar a unidade da língua portuguesa. Em nome dessa suposta unidade, sacrificaram-se tradições ortográficas, referências etimológicas e especificidades nacionais. Contudo, alguns daqueles que defenderam essa uniformização parecem agora não ver qualquer problema em questionar o próprio nome histórico da língua. Afinal, a unidade era linguística ou ideológica?

Naturalmente, a literatura vive também da provocação. E talvez esta proposta não passe disso mesmo: um gesto literário destinado a gerar debate. Ainda assim, as palavras têm consequências, sobretudo quando partem de figuras públicas com influência cultural significativa. Os escritores possuem liberdade absoluta para questionar heranças históricas, mas têm igualmente responsabilidade intelectual na forma como contribuem (ou não) para a preservação de espaços comuns de entendimento entre povos.

O português não necessita de ser renomeado para se tornar mais plural, mais inclusivo ou mais universal. Já o é. É uma das grandes línguas globais precisamente porque soube atravessar séculos, geografias e culturas sem perder continuidade histórica. Negar essa continuidade não representa progresso intelectual; representa, isso sim, uma forma subtil de amputação cultural.

Defender o nome da Língua Portuguesa não é defender qualquer nostalgia imperial. É apenas recusar a ideia perigosa de que uma civilização deve pedir desculpa permanentes pela sua própria existência histórica.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
03.06.2026

 

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91: A estratégia de Putin

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OPINIÃO

As chamadas exigências de Putin não são, na verdade, propostas negociais. São instrumentos de pressão, construídos para moldar a narrativa e colocar o Ocidente na defensiva. No seu “programa” de 28 pontos, o Kremlin apresenta condições que não só ultrapassam qualquer enquadramento realista para um acordo de paz, como procuram reescrever regras fundamentais da ordem internacional.

Entre os exemplos mais flagrantes está a exigência de travar a expansão da NATO – uma decisão que cabe exclusivamente à própria Aliança e aos Estados soberanos que nela desejem entrar. Pretender condicioná-la externamente é negar a autonomia política europeia e norte-americana.

Segue-se a proposta de reintegrar a Rússia no grupo das economias avançadas, como se tal dependesse de um tratado de paz e não da vontade soberana dos membros que compõem esse foro. A mensagem implícita é clara: Moscovo exige privilégios políticos enquanto prossegue uma guerra de agressão.

Ainda mais preocupante é a tentativa de impor uma amnistia para criminosos de guerra. Mesmo que a Ucrânia possa tomar decisões relativas ao seu próprio território e jurisdição, nenhuma negociação pode anular processos da justiça internacional, nomeadamente os do Tribunal Penal Internacional. A guerra trouxe crimes documentados; fingir que não existiram seria uma capitulação moral e jurídica.

Tudo indica que estas condições não foram formuladas para serem aceites. Pelo contrário: são tão provocatórias que parecem feitas para garantir a rejeição e permitir a Putin acusar o Ocidente de bloquear a paz. Trata-se de uma estratégia conhecida – criar impasses artificiais, inflamar tensões e inverter responsabilidades. No fundo, é esta a estratégia de Putin.

Pedir o impossível para ser recusado e dizer que foi a Europa, os Estados Unidos e em particular, a Ucrânia, que não desejaram a paz. É assim, justificar a continuação da guerra ou, até, levar que esta tenha outras ramificações.

Perante isto, a resposta necessária é simples: dizer não. Não a imposições que violam princípios básicos. Não a condições que distorcem a realidade. Não à chantagem diplomática. É preferível rejeitar firmemente do que permitir que tais “exigências” se transformem em norma. Como aconteceu com Chamberlain, as cedências levaram ao inevitável. E a História repete-se.

Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS). Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
26.11.2025

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80: Complexo Brasil ou Brasil Complexado?

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OPINIÃO

A Fundação Calouste Gulbenkian tem uma exposição temporária com o nome “Complexo Brasil”. No seu catálogo, há um texto da jornalista premiada Eliane Brum com o título Carta de Desfundação do Brasil — Dirigida aos descendentes dos súbditos do Rei Dom Manuel I. Com este título, já se adivinha o que está por ali afora. Exactamente como o título indica, há, segundo essa jornalista, um peso de responsabilidade de todos os portugueses descendentes dos “súbditos de D. Manuel I”. Uma responsabilidade colectiva, não individual (era o que faltava também…).

Esqueceu-se é que grande parte dos descendentes desses súbditos, alguns milhões, estão no Brasil. Mas coloca o peso da História apenas nos ombros daqueles que estão em Portugal. Porém, quando pede responsabilidade, qual? A responsabilidade foi entregar-lhes um país que é um continente, heterogéneo, multirracial, multicultural, gigante em todos os sentidos. Infelizmente, não souberam cuidar dele.

Destila um ódio xenófobo aos portugueses que é desconcertante. Não sei se a jornalista conhece a fábula de Esopo, ou de La Fontaine, mas é o que faz lembrar. Quando o cordeiro diz ao lobo que não poderia ter feito uma determinada acção porque ainda não tinha nascido, o lobo diz “se não foste tu, foi o teu pai, ou o teu avô!”, para justificar o ataque ao cordeiro. E é isto que cada vez mais se vê. A justificação da incompetência dos brasileiros em que, em 203 anos, não foram capazes de transformar aquele país numa potência.

Como os Estados Unidos da América, cuja declaração de Independência surge apenas 46 anos antes da do Brasil. Querem que os portugueses façam o quê sobre o passado entre o século XVI e o início do século XIX? Denegrir num texto raivoso, cheio de fel sobre a História não vai curar as feridas do passado. Pelo contrário, vai acicatar, aumentar e destruir qualquer entendimento que os dois povos vinham construindo.

Para quem tem Portugal como um dos principais destinos de emigração, o Brasil não se mostra muito inteligente em construir fossos culturais, com pedidos de responsabilidade histórica. Isso sim, é discurso de ódio. E a mim admira-me que a Gulbenkian, essa instituição extraordinária e que foi sempre uma ilha de oxigénio a artistas e investigadores, permita que, num catálogo de uma exposição, que tinha por bem promover a ligação entre dois países que se diziam irmãos, se desenvolva discursos de ódio, revisionismo, anacronismo e alimento para aumentar o fosso de rancor que se nota em crescendo na sociedade.

Eu ainda me lembro de um tempo em que os portugueses ficavam muito felizes em acolher os brasileiros. Chamavam-nos (eu também sou brasileira, porque nasci lá) de irmãos. Com carinho, admiração, bondade e felicidade.

Com este tipo de atitudes e com os estragos que uma parte da emigração brasileira tem feito em Portugal, esse sentimento deixou de existir.

Instigar os ânimos não vai melhorar em nada o que se vive, actualmente, na sociedade portuguesa.

E a culpa já não é da escravatura: é mesmo da escravidão de pensamento sobre Portugal.

E não vai correr bem.

Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
19.11.2025

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