454: A Figura do Dia. Saudades dos ricos de antigamente

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🇵🇹 OPINIÃO

É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário. Não é possível desvalorizar o sentido de uma enormidade que nos coloca perante um mundo infinitamente mais difícil de prever e compreender.

O estudo da História faz-se de múltiplas variantes onde se inclui a análise da quantidade de pobres e da qualidade dos ricos. Habituámo-nos aos milionários de antigamente. Gente diabolizada pela luta de classes, mas que acumulava dinheiro previsivelmente. Dependiam da força dos braços dos trabalhadores, da sua produtividade. Muitos eram verdadeiros canalhas, outros verdadeiros senhores, mas nenhum deles punha em causa a necessidade de sermos uns para os outros.

“É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário.”
FOTO: EPA / Allison Dinner

Nos meus tempos de jovem estudante do materialismo dialéctico tal era a prova de uma perversidade, de uma degenerescência, de uma cruel injustiça social. Quem nada tinha continuaria sempre a nada ter, sem uma revolução existiriam até à eternidade exploradores e explorados.

Quando abandonei a adolescência tornei-me mais pessimista sobre a condição humana sem nunca ter deixado de ser um social-democrata, um menchevique, se preferir.

“Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade.”

Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade. São uma ironia de um Diabo cinéfilo e fortemente influenciado pelo Dr. Strangelove, personagem de Kubrick tornado real pelo chifrudo fabricante de enxofre.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.06.2026

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447: A Figura do Dia. O melhor do mundo

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🇵🇹 OPINIÃO

As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo, o que é verdade. Como verdade é o tão repetido: “No nosso tempo é que era.” Claro que sim. Éramos jovens, enfrentávamos o frio de manga curta e julgávamo-nos eternos.

As crianças… escrevia antes de me interromper… amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.

“As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo (…) amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.”
FOTO: Reinaldo Rodrigues

Nós, pais e família, achamos que será assim para sempre. E rezamos para que cresçam “lindos meninos”, para que cresçam sem nos questionar, para que cresçam não crescendo.

Mas quando tudo corre bem crescem e põe-nos em causa. Deixamos de ser considerados como antes, o que eram qualidades são agora defeitos. Sofremos tanto que achamos ser para sempre, outra vez para sempre.

“Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.”

Mas se tudo tornar a correr bem, também não será para sempre. Um dia eles fazem as pazes com o passado e dão-nos um abraço como os antigos. Um abraço em que nos envolvem como se nós fossemos crianças e eles os nossos pais. E a volta fica completa.

Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.

Como não é possível talvez não fosse menos inteligente proclamarmos o direito a ser crianças envelhecidas, como os vinhos, que têm a força do tempo sem perderem a frescura da juventude. Por mim, aceitaria já um acordo.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
01.06.2026

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424: Figura do dia: Esquadra com vista para a Capela do Rato

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🇵🇹 OPINIÃO

A pouco mais de 100 metros da esquadra, apenas um par de minutos a pé, está a Capela do Rato. Não podia ser mais simbólico do que somos: grotescos e anjos, perversos e generosos. A dois passos do Inferno, lugar de atrocidades e esgoto humano, um sítio que simboliza a tolerância, o conhecimento e a interioridade. Se as paredes daquela esquadra não fossem insonorizadas ter-se-iam ouvido as desesperadas súplicas dos que foram torturados por polícias fardados.

Esquadra do Rato
ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Gente pobre, excluída, sem-abrigos, toxicodependentes violados por cabos de vassoura e cassetetes amovíveis, humilhados e expostos em imagens que circularam como um vírus do Mal. A menos de 200 metros, a capela onde Tolentino pregou o Amor. Onde os católicos críticos do Estado Novo rezaram pelo fim da ditadura. Onde o Padre Alberto Neto, mentor da JUC, agitou as águas com palavras que indicavam o sentido do futuro. A dois minutos de distância da animalidade, uma capela despojada de artifícios para que só a Palavra possa sobreviver. E o silêncio.

Sabemos que o nosso destino está escrito: um dia a morte chegará. O problema por isso nunca foi o fim, mas o que fazemos até lá. O que somos, o que desejamos para a nossa vida. Que todos morremos não é uma surpresa, o que realmente me surpreende é encontrar pessoas que estando vivas nunca realmente viveram. A maldade a este nível não tem remissão ou se apaga com arrependimento, é puro veneno. São 200 metros, um pouco menos ou um pouco mais. Uma distância de dois minutos entre a vida e as trevas.

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Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
18.05.2026

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421: A figura do dia: O homem que guardava segredos

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🇵🇹 OPINIÃO

Morreu um desconhecido que tinha poder – o de escutar, o do silêncio, o de conhecer segredos, o de guardá-los, o de tratar bem quem lhe batia à porta, o de ser uma presença invisível. Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula.

Davide conheceu toda a gente na política portuguesa. Conversava com ministros, deputados, aspirantes a sê-lo, jornalistas, artistas e engolidores de fogo. Mantinha conversas suspensas que retomava quando o cliente tornava a aparecer, na sua cabeça existiam centenas de gavetas que abria e fechava como se fosse um jogador de xadrez num torneio de simultâneas.

“Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula.”
FOTO: Direitos reservados

Morreu o chefe que guardava uma parte dos segredos do país. E o segredo do melhor bife de Lisboa e das conversas pelo princípio da madrugada. Já não existem muitos como ele, até os bares e a noite estão em obras ou então fui eu que envelheci sem perceber que há outros lugares onde podemos confiar em alguém que nos serve um whisky de malte num copo baixo, sem gelo.

Davide partiu para um outro bar que um dia, quando me aborrecer, descobrirei. Há momentos em que devemos deixar a noite entrar. Abrir a janela de par em par e abraçar todas as sombras e estrelas. E há outros momentos em que devemos fazer o contrário. Fechar todas as janelas e impedir que a penumbra entre no que nos resta. Hoje estou assim.

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Luís Osório
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15.05.2026

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409: Figura do dia: Ele não morreu

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🇵🇹 OPINIÃO

Uma geração comoveu-se quando o astronauta desligou Hal. É uma das cenas mais poderosas da história do cinema, mas é bastante mais do que isso – Stanley Kubrich, com o seu 2001 Odisseia no Espaço, em colaboração directa com Arthur C. Clarke, ofereceu ao mundo uma máquina do tempo, a possibilidade de anteciparmos o futuro.

O filme foi realizado em 1968 e Hal era um supercomputador dotado de Inteligência Artificial e Dave Bowman o astronauta que o “mata” por perceber, com horror e espanto, que a máquina, por sua livre iniciativa, se preparava para assumir o controle da nave e eliminar toda a tripulação. O momento em que Dave apaga Hal é dramático e dilacerante. O computador pede para que ele não o faça, diz-lhe que tem medo, que não quer partir.

“O momento em que Dave apaga Hal é dramático e dilacerante. O computador pede para que ele não o faça, diz-lhe que tem medo, que não quer partir.”

Afinal, não morreu. Passados quase setenta anos, o mundo depende dele. Os sistemas operativos gerem a informação, o dinheiro, as armas, a electricidade, a água, os transportes, o GPS e os algoritmos manietam o que somos, compramos, amamos ou votamos. Nas redes sociais a mediação é feita por ele e todos os dias aumenta o número de pessoas que lhe fazem perguntas para poderem gerir a sua vida.

Foi ontem notícia que o BdP se tem reunido com os principais bancos portugueses para discutir medidas urgentes de prevenção contra futuros ataques gerados por Inteligência Artificial, infinitamente mais poderosos do que qualquer inimigo com quem tenhamos privado. Não estamos seguros em lado nenhum e agora é demasiado tarde para o desligar.

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Luís Osório
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11.05.2026

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402: A Figura do Dia. Pete Hegseth é o “mal”

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🇵🇹 OPINIÃO

Quando o Secretário da Guerra americano me entra pela casa, procuro o comando para o desmaterializar. Faço-o por repulsa, por incapacidade de tolerar uma energia que contamina, um veneno diabólico que se multiplica.

Pete Hegseth é o “mal”, uma sombra de filme de terror, um toque a reunir das bruxas de todas as encruzilhadas. Pergunto-me da razão para que tantos de nós não percebam o “mal” quando o vêem tão mal mascarado.

Pete Hegseth “tem o corpo tatuado a ódio. No peito, a Cruz de Jerusalém. Nos bíceps, a frase que era o grito dos Cruzados antes a matança: ‘Deus o Quer.’ Num braço, a palavra ‘Infiel’ escrita como se a tinta fosse sangue.”
FOTO: Yuri Gripas / EPA

É um fanático. Como outros na Administração americana. Acabará mal como todos os ícaros, mas até à sua queda fará o que for preciso para abocanhar a fatia maior do bolo que Trump distribui todas as manhãs ao mais fiel dos seus esfomeados lobos.

Tem o corpo tatuado a ódio. No peito, a Cruz de Jerusalém. Nos bíceps, a frase que era o grito dos Cruzados antes a matança: “Deus o Quer.” Num braço, a palavra “Infiel” escrita como se a tinta fosse sangue.

“Pete Hegseth é o ‘mal’, uma sombra de filme de terror, um toque a reunir das bruxas de todas as encruzilhadas. Pergunto-me da razão para que tantos de nós não percebam o ‘mal’ quando o vêem tão mal mascarado.”

Vendo a sua biografia, e a dos mais emblemáticos ditadores, sabemos algumas coisas que lhes são comuns: maltratados na infância, perversos, ressabiados e providencialistas. É lógico e compreensível que pessoas assim não desejem a democracia: deve ser-lhes insuportável aturar um regime onde são obrigados a respeitar os outros meninos e meninas do recreio.

Por isso, as vítimas, todas as vítimas dos fanáticos religiosos, são o preço justo a pagar, a conversão do mundo é a única coisa que conta. Um mundo sempre visto, aos seus olhos, como diabólico.

E o Diabo combate-se com fogo e martírio. Não é novo. É apenas humano, horrorosamente humano.

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Luís Osório
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07.05.2026

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383: A Figura do Dia. O cravo de Seguro

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OPINIÃO 🇵🇹🕊

Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.

Parece difícil de acreditar que muitos de nós não tenham orgulho num dos momentos mais bonitos e identitários de ser português – enquanto na Guerra Civil espanhola morreram mais de meio milhão de pessoas, não contabilizando os 100 mil que desapareceram, em Portugal preferimos armar as espingardas com cravos a matar-nos uns aos outros.

“António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa (…).”
FOTO: Leonardo Negrão

Os cravos são um símbolo da democracia, não necessariamente um património exclusivo da esquerda. Representam a vida em oposição à morte, a esperança em oposição ao medo, o optimismo em oposição ao fatalismo. É o símbolo da nossa inocência, de uma ingenuidade poética que me emociona e orgulha.

É também um abraço à memória de uma mulher, a dona Celeste, que começou a distribuir, por puro instinto, cravos aos soldados revoltosos, entusiasmando vendedoras de várias praças de Lisboa a fazerem o mesmo.

Não é bonito? Não é extraordinário? Não foi um verdadeiro milagre?

“Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.”

Renegar os cravos é virar as costas ao que temos de melhor, ao símbolo mais poderoso da tolerância democrática, da liberdade colectiva e individual.

Vamos lá a ver, António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa, por ser intolerante com o ressentimento dos que prefeririam que os cravos não existissem… ou a democracia.

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Luís Osório
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27.04.2026

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375: A Figura do Dia. O CDS morreu há vários anos

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🇵🇹 OPINIÃO

O CDS é um partido que morreu há uns anos. Esteve um tempo nos cuidados paliativos e, por obra e graça de um destino sempre deliciosamente irónico, uma alma caridosa decidiu desligar a máquina e evitar mais sofrimento.

Por isso, quando alguém me conta que estão no Governo e ocupam lugares no Parlamento, concluo que o delírio tomou conta dos palácios e das cabeças.

Há um ministro que “monta” cenários e se aproveita das tragédias para mostrar músculo. E há um deputado que, nos últimos tempos, repete um mantra para que o povo não se esqueça de que o CDS é o original e o Chega um a imitação.

Paulo Núncio esforça-se para multiplicar uma mensagem que indigna a história do partido fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa. Cada vez que esta gente surge com Deus na boca, mas com raiva e ressentimento nas acções, penso em todos os democratas-cristãos que combateram com coragem por uma sociedade conservadora, mas inspirada no humanismo cristão.

Não, caro Paulo Núncio, o CDS morreu com dignidade. O senhor ou o seu líder, ministro da Defesa, não representam o partido, mas apenas o nome que herdaram.

O CDS é o original, o Chega é a cópia, proclama o homem com voz grave e olhinhos vivos. O que diriam Francisco Lucas Pires, Adriano Moreira, Narana Coissoró, Krus Abecassis, Ribeiro e Castro, Lobo Xavier, Rui Pena e até Paulo Portas?

Não, caro Paulo Núncio, o CDS morreu com dignidade. O senhor ou o seu líder, ministro da Defesa, não representam o partido, mas apenas o nome que herdaram. Faria muita falta voltar a ter a democrata-cristã na nossa paleta de escolhas, seria até capaz de nela votar, mas a associação que os senhores representam é apenas um ardil, uma manigância, um insulto.

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Luís Osório
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22.04.2026

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373: A Figura do Dia. Cristina Ferreira

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A irresponsável opinião de Cristina Ferreira não tem defesa possível – e o seu comunicado apenas amplificou o embaraço –, mas talvez seja altura de perdermos um pouco de tempo com o essencial.

O país mediático agitou-se e rasgou as vestes. Como era possível tal monstruosidade dita em directo por alguém que tem a responsabilidade de falar para milhões de pessoas? Como se pode desculpabilizar uma violação feita a uma menor por quatro atrasados mentais? Como entender que a TVI não tivesse imediatamente retirado ilações?

Podemos voltar ao tempo do pelourinho ou da salvação pela purificação do fogo, mas a indignação colectiva conseguiu pasmar-me. De repente, Cristina era o “mal” e não a consequência do que nos estamos a tornar.

“Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore.”

Os programas com mais audiência têm como protagonistas gente ordinária, amoral, abjecta e violenta. Temos programas em que agricultores procuram mulheres como se a televisão se tivesse transformado num lugar de alterne. Temos muitas das nossas crianças a dançar músicas com letras em que os homens maltratam as mulheres e as rebaixam. Temos o Parlamento transformado numa tasca de vinho barato por culpa de deputados cujo partido não para de crescer. Temos tudo isso e mais o resto que aqui não cabe.

Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore. Até ao dia em que a indignação seja em nome de um mundo novo que possa salvar-nos da bestialidade e do esgoto.

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Luís Osório
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21.04.2026

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348: A Figura do Dia. Patópolis

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🇵🇹 OPINIÃO

Sempre que o mundo se incendiou, existiu quem inventasse sonhos novos. É absurdo, para os homens da guerra, quando surge a palavra “sonho” associada a novas ideias e falsas esperanças. Nos apocalipses, os que mandam para a morte não querem realidades alternativas ou hipóteses de revolta, precisam de carne fresca para alimentar a fome de poder.

O mundo caminha para um abismo. Em todo o lado há milhões de pessoas que legitimam loucos pelo voto. Não é isso que me surpreende, foi sempre assim. O que não foi sempre assim é a ausência de quem nos convença de que há um sonho para ser sonhado. Já não existem existencialistas, neo-realistas, surrealistas e abjeccionistas. Cada um está por si e a navegar à volta do seu umbigo – mesmo os que têm muito talento.

Já nem existe quem invente uma nova cidade, como Carl Barks, em 1944. Em plena 2.ª Guerra Mundial, quando na América se discutia a mortandade e ninguém sabia com o que contar, o desenhador fez nascer, com o talento de um lápis e de uma borracha, a cidade de Patópolis, onde os amigos das crianças estavam protegidos num mundo organizado e em ordem.

Em Patópolis “tinham a baía, uma colina, onde, no alto, vivia a caixa-forte de Patinhas, o rio Tule, calor no verão e neve no inverno e a quinta da Vovó Donalda.”
D.R. / Disney

Tinham a baía, uma colina, onde, no alto, vivia a caixa-forte de Patinhas, o rio Tule, calor no verão e neve no inverno e a quinta da Vovó Donalda. Em Patópolis até os Metralhas eram boa gente – ladrões com uma moral.

Precisamos urgentemente que alguém nos desenhe um novo lugar. Já não para as nossas crianças, mas para nós. Com tudo na ordem, com gente confiável, um rio, árvores e estações previsíveis. Talvez seja pedir muito.

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Luís Osório
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08.04.2026

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