388: A Figura do Dia. O amor

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🇵🇹 OPINIÃO

O amor não tem a ver com o tempo que dura. Não se mede com cruzinhas no calendário, como na adolescência, em que a primeira semana ou o segundo mês são festejados como se fossem bodas de ouro.

Quando fizermos o balanço (tu e eu), concluiremos que um amor pode ter-nos feito maiores durando uma semana ou ter-nos feito gastar a única vida que tínhamos. Não há regras, nem relógios.

“Que fácil seria e que enfadonho se tornaria. Uma vida de amores-perfeitos que deixariam de ser perfeitos se a um sucedesse outro. Não resultaria.”
FOTO: DR / Wikicommons

Podemos encontrar quem nos preencha por um dia como mais ninguém preencheu. E podemos partilhar toda a vida com quem nos obrigou a ser piores do que merecíamos. É por isso que devemos festejar o amor, não o tempo que dura.

O problema, neste ofício de viver, é que as oportunidades não nos surgem como os autocarros e os comboios – se tal fosse possível perderíamos um e apanhávamos o outro, fracassávamos num amor perfeito e surgia-nos outro na carruagem imediatamente a seguir, caíamos num emprego e outro nos agradaria se esperássemos cinco minutos.

“Quando fizermos o balanço (tu e eu), concluiremos que um amor pode ter-nos feito maiores durando uma semana ou ter-nos feito gastar a única vida que tínhamos. Não há regras, nem relógios.”

Mas nesta estação as oportunidades chegam quando o condutor decide que nesse dia trabalhará no nosso carril: pode demorar anos a decidir-se ou breves segundos. Que fácil seria e que enfadonho se tornaria. Uma vida de amores-perfeitos que deixariam de ser perfeitos se a um sucedesse outro. Não resultaria.

Mas o condutor abusa no que nos faz esperar. É cruel e desumano. Mas tantas vezes somos nós que não estamos na estação quando ele se resolve a passar, somos nós que desistimos. E desistir da viagem é a única coisa a que não nos podemos dar ao luxo. Porque o resto quase não parece ser connosco.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
29.04.2026

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387: Salário médio anual dos portugueses 38% abaixo da média da UE

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🇵🇹 PORTUGAL // UE // SALÁRIOS MISERÁVEIS

De acordo com um relatório promovido pela Associação Business Roundtable Portugal, verifica-se, em termos absolutos, uma diferença de 15 mil euros.

Leonardo Negrão

O salário médio anual dos portugueses cresceu 1.600 euros entre 2023 e 2024, para 24.800 euros, mas continua 38% abaixo da média da União Europeia, segundo um relatório promovido pela Associação Business Roundtable Portugal.

“Apesar do incremento de 1.600 euros entre 2023 e 2024, o salário médio dos portugueses continuava 38% abaixo da média salarial da União Europeia, que se cifrou em 39.800 euros”, indicou, em comunicado, a associação.

Verifica-se, em termos absolutos, uma diferença de 15.000 euros.

Assim, um trabalhador médio da União Europeia ganha cerca de 60% mais do que um em Portugal.

O salário médio anual em Portugal avançou 7% em 2024, em comparação com o ano anterior, para 24.800 euros.

O relatório hoje divulgado concluiu ainda que o salário médio nacional, naquele ano, ficou cerca de 6% abaixo do que foi praticado pelos países concorrentes – Espanha, Eslovénia, Estónia, Grécia, Hungria, Itália, Polónia e Chéquia -, cuja remuneração média se fixou em 26.300 euros, mais 1.500 euros do que em Portugal.

De acordo com a mesma análise, a diferença salarial entre Portugal e a União Europeia pode ser explicada por factores como a estrutura social do emprego, ou seja, nos últimos anos, o emprego tem crescido em sectores com remunerações médias mais baixas.

Em Portugal, o sector das tecnologias de informação e comunicação (TIC) é o que melhores salários paga (acima dos 40.000 euros) e teve um aumento de 42% no número de trabalhadores entre 2020 e 2024.

Destacam-se ainda os sectores da energia e ambiente e dos transportes (ambos com salários médios anuais de 33.000 euros) e a indústria (25.800 euros).

A Associação Business Roundtable Portugal é composta por 42 líderes de empresas e grupos que, em conjunto, acumulam receitas globais de 124.000 milhões de euros, sendo 59.000 milhões de euros a nível nacional.

No total empregam 424.000 pessoas, 218.000 só em Portugal.

Dinheiro Vivo
DN/Lusa
29.04.2026

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386: O nosso 25 de Abril

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🇵🇹 OPINIÃO

Todos os anos vamos para a rua pôr à vista uma realidade que contraria as ilusões instiladas pela extrema-direita na opinião pública – que a maioria o da população se reconhece no 25 de Abril, que os jovens não viraram as costas ao 25 de Abril e que a crítica a determinadas políticas públicas do Estado, seja de que área política elas venham, não quer dizer que rejeitemos a forma democrática de governo.

Este consenso transcende esquerda e direita e não é exclusivo de velhinhos a tremer pelas suas reformas, pois vimos muitos jovens na rua, com os cravos bem vermelhos a brilhar nas mãos.

Quer isto dizer que não existem problemas com as gerações que não viveram a Revolução e não conheceram o regime que nos foi imposto pela extrema-direita? Não, esse problema existe, essa distância é real, e, como disse o nosso Presidente da República, não podemos pedir aos mais jovens que amem o 25 de Abril por imposição, pois “ninguém ama por decreto ou procuração aquilo que não viveu”.

Por isso teremos de repetir sem quebras o que significou para nós essa data e, sobretudo, o que é viver num país democrático. Teremos de contrariar, com um discurso simples e sem chavões, as falsidades da extrema-direita, de onde surgiu agora a mentira da “facada nas costas” que teria sido dada pelo 25 de Abril a uma Guerra Colonial justa, ganha e aplaudida internacionalmente.

A mentira tem de ser desmentida com clareza, em vez de ser difundida acriticamente por uma comunicação social fascinada com as falsidades, quando as verdades não vendem.

Há uma desilusão com a política, quando a política falha nas promessas que faz aos eleitores. E é fácil, demasiado fácil, atribuir à maldade dos partidos e dos eleitos os fracassos havidos, em lugar de debater as soluções que cada força política propõe (ou não propõe) para os problemas. É que resolver problemas é mais complicado do que gritar “vergonha” no Parlamento e insinuar que um chefe todo-poderoso daria num ápice a felicidade a todos.

Acabar com a corrupção é fácil, quando se dispõe de uma censura eficaz, pois o que não vem a público deixa de existir. Minimizar as falhas dos serviços do Estado é fácil, desde que elimine, por via autoritária, qualquer escrutínio público. Nós lembramo-nos disso. Lembramo-nos da guerra e da miséria, dos interditos e das prisões. Lembramo-nos dos coronéis da censura e dos informadores da PIDE. Lembramo-nos da tortura nas prisões, dos Tribunais Plenários, das medidas de segurança, que permitiam manter um cidadão ou uma cidadã na prisão por tempo indefinido, mesmo sem acusação processual, mesmo com sentença de absolvição lavrada.

Hoje a prioridade política é defendermo-nos dos falsos salvadores.

Viva o 25 de Abril!

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor
29.04.2026

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385: O Chega e a Bíblia de Tarantino

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🇵🇹 OPINIÃO

Nos EUA, um ministro pretende fazer um sermão bíblico recitando, em pose Chuck Norris, a fala furiosa de um gangster num filme; em Portugal, um partido invoca o laicismo do Estado para declarar que o país é católico e, portanto, podem-se ilegalizar outras confissões.

Já toda a gente, menos o próprio, terá dado umas boas gargalhadas ao ver Pete Hegseth, o burlesco ministro da Guerra de Trump, recitar entusiasticamente, do princípio ao fim, convencido de que está a reproduzir um excerto bíblico, o inesquecível “sermão” de Samuel L Jackson em Pulp Fiction — aquele que a personagem, esbirro de um mafioso, declama sempre antes de despachar mais uma vítima com um tiro entre os olhos.

Engraçado porém que a maioria dos comentários sobre o equívoco do governante se detiveram na sua reveladora ignorância bíblica, sem mencionarem algo bem mais relevante: admitindo que não se tinha enganado, e citara mesmo a Bíblia e não uma criação de Quentin Tarantino, como se admite, num país com alegada separação entre Estado e religião, um ministro “oficiar” numa cerimónia religiosa? Mais, que sentido faz uma cerimónia religiosa num edifício estatal (o Pentágono)?

A razão pela qual — em Portugal, pelo menos — ninguém colocou essas questões é que, apesar de termos desde 1976 uma Constituição que deixa clara a separação entre Estado e igrejas, estamos há estes mesmos 50 anos a assistir a negações práticas dessa separação. Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante — ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS —, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões.

Este é, de resto, um assunto praticamente tabu — de cada vez que alguém se lembra de abordar tais privilégios, é tratado de herege raivoso para baixo.

Nem que apenas se proteste, por exemplo, contra o facto de a Igreja Católica portuguesa ter levado duas décadas para aceitar examinar com seriedade a horripilante questão dos crimes de abuso sexual de menores no seu seio, sem nunca ter sido a tal forçada pelo Estado. Ou se chame a atenção para o facto de a renitente interdição do sacerdócio às mulheres, mantendo-as num estatuto de menorização na hierarquia, constituir, nas palavras do teólogo suíço Hans Küng, “uma difamação essencial das mulheres” que nega o princípio fundamental da igualdade de género.

Ou ainda, numa nota mais leve, alguém se insurja  por num determinado dia santo para os crentes do catolicismo toda uma zona da cidade ser apetrechada com altifalantes para que o som da música (tocada pela banda da GNR, claro) e cânticos de uma procissão, mais o sermão do padre que lhe preside, possam propagar-se em alto e bom som por vários quarteirões.

Que faria então se, em vez de questionar apenas a necessidade de altifalantes que obrigam toda a gente nas imediações a escutar a celebração como se tivesse resolvido passar o dia na missa, a proposta fosse de interditar as procissões, alegando que, ao ocupar o espaço público, incomodam quem nelas não participa, podendo de resto defender-se que são contrárias aos valores e gostos da maioria, já que, como resulta evidente, só uma ínfima minoria da população, mesmo quando sucedem em feriados, a elas ocorre?

Tal proposta — a de interditar as procissões por a maioria nelas não participar nem por elas se interessar — seria decerto e bem classificada como um atentado à liberdade em geral e à liberdade religiosa em particular. Não faltaria quem lembrasse que é assim que agem os estados totalitários e as teocracias, onde, em nome do alegado império de uma maioria e do bem da nação, os que professam religiões minoritárias (ou qualquer religião) são frequentemente invisibilizados, discriminados, obrigados a esconderem-se para as celebrar. E até insultados, perseguidos, escorraçados, brutalizados e mortos.

Haveria inclusive quem recordasse como em Portugal, o Portugal monárquico em que Igreja Católica e Estado não se distinguiam, foram a certa altura discriminados, perseguidos, escorraçados e obrigados a esconder a sua religião, para não serem expulsos ou assassinados, os judeus.

Tudo impensável hoje, no país democrático e liberal, com separação entre confissões e Estado e garantia constitucional de não discriminação com base na religião, que somos.

Ou não: num projecto de lei apresentado em Março, e que esta quarta-feira vai a discussão em comissão, a dos assuntos constitucionais, da Assembleia da República, o Chega propõe precisamente, em nome de uma “matriz cultural e espiritual da nação”, e da “identidade católica portuguesa”, alterar a Lei da Liberdade Religiosa (de 2001) para combater “a crescente diversidade religiosa”.

Passando então os respectivos artigos 4º e 5º a rezar assim (alterações a itálico): “O Estado não adopta qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas, contanto que as mesmas não contrariam os valores constitucionais ou a ordem pública (…)”; “O Estado cooperará com as igrejas e comunidades religiosas radicadas em Portugal e compatíveis com os valores nacionais (…).”

O objectivo, entre outros, tal como se admite no muito instrutivo preâmbulo do diploma, assinado pelos 60 deputados do partido, é desde logo proibir “celebrações muçulmanas em espaços públicos”, com a justificação de que ser muçulmano é não ser português: “Não pode, nem deve, o Estado, disponibilizar os seus espaços públicos, e até, financiar, celebrações que nada têm que ver com a matriz do ser português.”

Assistimos assim à expulsão simbólica de todo e qualquer muçulmano da identidade nacional, ficando aliás a saber, os que de nós não são católicos, que deixamos muito a desejar como portugueses (como aliás nos lembrou ainda há semanas o ministério da Defesa, ao partilhar nas redes sociais o desejo de “Uma Santa Páscoa”) e podemos, quiçá, ser os próximos.

O mais curioso, porém, é que o Chega apresenta estas propostas em nome do “princípio constitucionalmente protegido da liberdade religiosa”. E como? Alegando que “em algumas comunidades muçulmanas há sistemas normativos, como a Xaria, nos quais a distinção entre o direito religioso e o direito civil não é formalmente estabelecida, prática substancialmente distinta do princípio ocidental da separação entre Estado e religião, consagrado na Constituição da República Portuguesa (…).” Um “princípio ocidental” que, lembre-se, até 1975 não vigorava em Portugal, já que o divórcio civil era interditado a quem tivesse celebrado um casamento católico — mas isso agora não interessa nada, muito menos ao partido “dos três salazares”.

Concluímos assim que para defender a ideia de que uma confissão (reconhecida pelo Estado, como é o caso da islâmica) não pode ser tratada como igual às outras, o que significa, obviamente, que aqueles que a professam não são cidadãos como os outros, se invoca o princípio da liberdade religiosa.  Mais: parte-se “da premissa constitucional de um Estado laico cuja política pública deve preservar a respectiva neutralidade e a igualdade entre cidadãos, sem prejuízo das garantias de liberdade religiosa (…).”

O que este extraordinário diploma nos diz é que é para defender o Estado laico — o Estado que não tem religião — que propõe ilegalizar a manifestação pública de uma determinada confissão, porque essa manifestação pública colide com “o núcleo identitário português”, ou seja, com uma proclamada identidade católica nacional. E isto tudo, imagine-se, “não pretendendo alinhar qualquer juízo de valor discriminatório”.

Não é preciso ser constitucionalista ou sequer jurista para saber que este projecto de lei não tem ponta por onde se lhe pegue — os próprios autores saberão bem disso. Mas o que pretendem não é aprovar uma lei. É, como Hegseth quis com o seu sermão tarantinesco, fazer um show. Num caso como no outro, de ódio — porque é esse o seu único reino.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
29.04.2026

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