408: Ligação fluvial Trafaria-Belém retoma transporte de viaturas esta segunda-feira

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🇵🇹 PORTUGAL // TRAFARIA-BELÉM // LIGAÇÃO FLUVIAL

O Lisbonense, o único ferry que faz a ligação fluvial Trafaria/Porto Brandão e Belém, avariou a 05 de Abril.


Foto: Canva

O transporte de veículos na ligação fluvial entre a Trafaria e Belém, em Lisboa, é retomado na segunda-feira depois de concluída a reparação do ferry Lisbonense, avariado há mais de um mês, indicou hoje a Transtejo Soflusa.

Em comunicado, a Transtejo-Soflusa (TTSL), responsável pela ligação fluvial, refere que, “apesar de todos os esforços, a reparação em estaleiro do único ferry que estava a fazer a ligação da Trafaria acabou por ser mais demorada do que o previsto”.

O Lisbonense, o único ferry que faz a ligação fluvial Trafaria/Porto Brandão e Belém, avariou a 05 de Abril e desde então que o transporte de passageiros nesta ligação realizava-se de acordo com os horários em vigor.

A Transtejo Soflusa indica também que a avaria do Lisbonense ocorreu numa altura em que o ferry Almadense está fora de serviço e que, um ano e meio depois de estar imobilizado, este navio está agora em reparação, prevendo-se que esteja operacional no verão.

“A suspensão temporária do transporte fluvial de veículos resulta do desinvestimento na manutenção da nossa frota ao longo dos últimos anos, uma situação que temos vindo a trabalhar intensamente para inverter,” considera Rui Rei, presidente da TTSL – Transtejo Soflusa, citado no comunicado.

O Lisbonense e o Almadense entraram ao serviço em 2011 e são os únicos a integrar a frota destinada ao transporte de viaturas na ligação entre as duas margens do Tejo.

A Transtejo Soflusa é responsável pelas ligações fluviais entre o Seixal, Montijo, Cacilhas (Almada), Barreiro e Trafaria/Porto Brandão (Almada), no distrito de Setúbal, e Lisboa.

Diário de Notícias
DN/Lusa
10.05.2026

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407: Brincar aos deuses

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🇵🇹 OPINIÃO

Gattaca é um daqueles filmes de ficção distópica que deve fazer parte da colecção de culto dos tech bros de Silicon Valley. Filmado nos últimos anos do século passado, projectava um mundo futuro dominado pela engenharia genética, dividido entre os “válidos”, humanos escolhidos geneticamente em laboratório para serem mais inteligentes e saudáveis, e os “inválidos”, os que continuavam a carregar o peso biológico da imperfeição.

Na senda de outras distopias, como Admirável Mundo Novo, Blade Runner ou Matrix, Gattaca poderia ser hoje uma espécie de documentário sobre os projectos que fazem movimentar milhares de milhões de dólares na Meca da tecnologia. Numa reportagem recente, a revista norte-americana Mother Jones revela como muitos dos nomes da oligarquia tecnológica ligada aos projectos de Inteligência Artificial estão também a financiar startups de edição genética e selecção embrionária com um foco bem mais além do potencial terapêutico que algumas tecnologias oferecem para curar doenças genéticas.

A reportagem destapa um objectivo cada vez mais assumido de criar humanos geneticamente de “elite”, super-bebés capazes de enfrentar um futuro dominado pela IA que esses próprios gurus tecnológicos estão a desenvolver mais e mais.

A lógica é mais ou menos esta: se a IA poderá vir um dia a ultrapassar as capacidades humanas, como eles já admitem recear, então é preciso produzir crianças mais inteligentes – mesmo se as evidências científicas alertam que aquilo que somos (incluindo a inteligência que desenvolvemos) depende de múltiplos factores que vão para além da mera herança genética.

Financiada pelos suspeitos do costume, o mais inquietante é que esta já não é apenas uma mera tendência ou ambição empresarial, mas sim toda uma nova religião tecnológica que domina a cultura tech bro (de Silicon Valley e dos EUA até aos mais misteriosos hubs tecnológicos chineses), onde uma elite de semideuses tecnológicos desafia limites éticos em prol das suas crenças e ambições, e acredita poder vir a resolver os grandes mistérios da vida e do universo com a construção de um qualquer Admirável Mundo Novo feito de humanos optimizados, homens-máquina, super-inteligência artificial e mundos virtuais – o próprio Musk já disse que via “uma hipótese em mil milhões” de estarmos a viver de facto num mundo real e não num qualquer videojogo de uma civilização avançada.

A verdade é que, no futuro, as desigualdades arriscam deixar de ser apenas económicas e sociais para serem desde logo biológicas, como em Gattaca, transformando a humanidade num projecto de engenharia de uma oligarquia tecnológica que acredita ter não só o poder, mas o direito de redefinir a espécie.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
11.05.2026

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406: Um imposto extraordinário

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🇵🇹 OPINIÃO

A ideia do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, de criar um novo imposto para taxar lucros extraordinários deve perturbar alguns empresários deste país, mas desconfio que não pelas razões mais óbvias. A medida recupera uma iniciativa de 2022, protagonizada pelo governo PS de António Costa e por outros governos europeus, que pediram à Comissão Europeia de Von der Leyen para dar uma talhada nos “lucros caídos do céu” de algumas empresas. Motivo? A invasão russa sobre a Ucrânia fez disparar os preços dos combustíveis – e, depois, de tudo o resto – e foi preciso agitar muito os braços para parecer que se estava a fazer tudo para proteger o consumidor.

A eficácia foi reduzida. O Estado português, por exemplo, estimava arrecadar entre 50 e 100 milhões de euros, mas acabou por captar um total de “apenas” 8,3 milhões, como recordou recentemente a Helena Garrido no Observador. Portanto, não será o valor da cobrança a assustar as empresas.

Agora, uma nova guerra – desta feita no Irão – levou ao fecho do estreito de Ormuz e, consequentemente, à subida dos preços dos combustíveis e dos bens. E Miranda Sarmento vai criar uma taxa especial sobre as empresas energéticas.

Na verdade, já existe uma. Durante o programa de ajustamento da Troika – que se seguiu ao reconhecimento pelo governo de José Sócrates que iria entrar em “default” sem ajuda externa – o governo de Pedro Passos Coelho decidiu criar uma contribuição extraordinária sobre o Sector Energético, a CESE.

Na Lei do Orçamento do Estado de 2015, aliás, criou uma outra: sobre a Indústria Farmacêutica. Ambas, tanto a CESE como a CEIF (Contribuição Extraordinária sobre a Indústria Farmacêutica) ainda estão em vigor, mais de uma década depois, apesar dos processos movidos por várias empresas que as pagam.

Alguns destes processos resultaram no óbvio: o Tribunal Constitucional considerou que a permanência em vigor desta taxa, muito além do período de excepcionalidade que o motivo, viola princípios constitucionais de igualdade e proporcionalidade. Por exemplo, já travou a sua aplicação nos sectores do gás natural e do petróleo, correspondendo a uma pretensão da Galp, que desde o início contestou a CESE e recusou-se a pagá-la (mas constituindo provisões para essa eventualidade). O sector farmacêutico aguarda também que o TC se pronuncie nos processos que também tem a correr.

Foi também por causa de uma guerra que nasceu o mais antigo imposto do sistema fiscal português, o Imposto de Selo. Tudo porque a Coroa portuguesa – sob a regência de D. Luísa de Gusmão, que governou enquanto Afonso VI era menor – precisava de equilibrar as contas após a Guerra da Restauração da Independência, face a Espanha, e assim decidiu instaurar um imposto temporário que se aplicava a actos notariais e transferências de propriedade. O Estado recebia, por essa via, uma parte das transacções.

O alvará deste imposto sobre o “Papel Selado” foi rubricado na véspera de Natal de 1660. Está, portanto, temporariamente em vigor há 365 anos.

E o problema das empresas é mesmo esse. O Estado português – e os sucessivos ministros que o gerem – tem uma extraordinária dificuldade em aceitar o conceito da finitude temporal. Pelo menos no que diz respeito a impostos, taxas e outras cobranças.

Diário de Notícias
Nuno Vinha
Director-adjunto do Diário de Notícias
11.05.2026

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