454: A Figura do Dia. Saudades dos ricos de antigamente

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🇵🇹 OPINIÃO

É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário. Não é possível desvalorizar o sentido de uma enormidade que nos coloca perante um mundo infinitamente mais difícil de prever e compreender.

O estudo da História faz-se de múltiplas variantes onde se inclui a análise da quantidade de pobres e da qualidade dos ricos. Habituámo-nos aos milionários de antigamente. Gente diabolizada pela luta de classes, mas que acumulava dinheiro previsivelmente. Dependiam da força dos braços dos trabalhadores, da sua produtividade. Muitos eram verdadeiros canalhas, outros verdadeiros senhores, mas nenhum deles punha em causa a necessidade de sermos uns para os outros.

“É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário.”
FOTO: EPA / Allison Dinner

Nos meus tempos de jovem estudante do materialismo dialéctico tal era a prova de uma perversidade, de uma degenerescência, de uma cruel injustiça social. Quem nada tinha continuaria sempre a nada ter, sem uma revolução existiriam até à eternidade exploradores e explorados.

Quando abandonei a adolescência tornei-me mais pessimista sobre a condição humana sem nunca ter deixado de ser um social-democrata, um menchevique, se preferir.

“Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade.”

Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade. São uma ironia de um Diabo cinéfilo e fortemente influenciado pelo Dr. Strangelove, personagem de Kubrick tornado real pelo chifrudo fabricante de enxofre.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.06.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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453: América

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🇵🇹 OPINIÃO

Um presidente dos EUA como Donald Trump e a actuação internacional dos Estados Unidos sob a sua Administração seria, se assumida por outras geografias e outras personagens, motivo de uma condenação estrutural e generalizada por todo o ocidente, ainda mais notória e intensa.

Trump, para além do mais recente folhetim persa que criou, ao boicotar negociações com uma intervenção militar para voltar a negociações em piores condições, conseguiu, em dois anos, afastar-se de parceiros decisivos no seu continente, como o Canadá, o México, o Brasil ou a Colômbia. Conseguiu indispor aliados naturais tão diversos como a Dinamarca, a Alemanha, a África do Sul ou a Austrália. Tornou a NATO, a organização internacional mais fiável e previsível das últimas sete décadas, num reality show de má qualidade.

Destruiu a credibilidade dos EUA e a força moral que lhes restasse ao raptar um chefe de Estado, ao apresentar projectos imobiliários para um Estado estrangeiro sob ataque ilegal de um terceiro, ao afastar os Estados Unidos de contribuições para a saúde global, a cooperação internacional ou as alterações climáticas e ao censurar cientistas, professores e universidades norte-americanas, bem como ao expulsar os seus alunos estrangeiros.

Quando fala e quando age, consegue transformar de uma só vez o imperialismo russo, a soberba chinesa e a teocracia iraniana em momentos destacados de racionalidade, prudência e bom senso. Falar-se de vergonha alheia é atenuar sentimentos. Não terá havido outro momento da História em que se esperasse pela mudança do senhor do país mais forte do planeta com esta mistura tão inusitada de esperança e de agonia.

E, como é habitual em personagens deste tipo, escolhe para o acompanhar uma turma que medra no nepotismo e na subserviência basal. Pensar-se que, apesar dos tiques teocráticos e de monocultura política do seu regime, os Estados Unidos chegaram a este ponto de exercício do poder, e sem grande dissenso consequente, é confrangedor. Um excelente alerta para o que aí vem, em força.

A partir do momento em que nem a sabedoria, nem a prudência política, nem o pudor valem o que seja e, pelo contrário, é a boçalidade e a manifestação exacerbada dos instintos mais primários a serem incensadas, está o caminho aberto para a irrelevância da malha de direitos e de solidariedades que levaram séculos a concertar. Quer dentro de cada Estado, quer entre estes.

Podia ser um pouco irritante nos anos 60 e 70 a superioridade moral dos marxistas, nas suas distintas declinações. Podia ser francamente aborrecida a discussão de sociólogos sobre sociais-democracias, trabalhismos e terceiras vias dos anos 90. Ou os debates ideológicos sobre mais ou menos regulação, maior ou menor peso do Estado.

Tudo isso estaria muito bem… e interessaria e seria compreendido por 20% dos eleitores. Mas também não seria preciso este change the game tão radical… O que diferencia o exercício do poder da mera demonstração da força é a capacidade de auto-limitação do primeiro e a sua necessidade de se justificar e legitimar de forma racional. É isso que se está a perder.

Quando os eleitores deixarem de escolher opções no exercício do poder e apenas escolherem intensidades de uso da força, saberemos que acabou.

Diário de Notícias
Miguel Romão
03.06.2026

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452: José Eduardo ‘Aguageral’

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🇵🇹 OPINIÃO

Há polémicas culturais que revelam muito mais do que aparentam à primeira vista. A recente proposta de substituir a designação “Língua Portuguesa” por “Língua Geral”, defendida por José Eduardo Agualusa, é um desses casos. Porque a questão já não é apenas linguística: é profundamente simbólica, ideológica e civilizacional.

Convém começar pelo essencial: o português chama-se português porque nasceu historicamente em Portugal. Não se trata de uma opinião identitária, nem de uma reivindicação nacionalista; trata-se de um facto histórico elementar. Foi em Portugal que esta língua se formou, se consolidou e se projectou globalmente. O facto de hoje pertencer também ao Brasil, a Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Timor-Leste não elimina essa origem, tal como o alcance planetário do inglês não obriga ninguém a renomeá-lo para evitar referências à Inglaterra.

Existe actualmente, em certos sectores intelectuais ocidentais, uma tendência preocupante para reinterpretar toda a história através de categorias morais simplistas, divididas entre opressores e oprimidos. Dominantes e dominados. Tiranos e vítimas. Nesse contexto, tudo o que possua raízes históricas europeias parece exigir permanente revisão, desconstrução ou expiação simbólica. A proposta de abandonar a designação “língua portuguesa” inscreve-se claramente nessa lógica de deslegitimação cultural.

O problema é que esta obsessão revisionista raramente produz aproximação entre povos. Pelo contrário: tende a alimentar ressentimentos históricos, fragmentações identitárias e antagonismos artificiais entre comunidades que partilham precisamente uma herança comum. Uma língua internacional não se fortalece apagando a sua história; fortalece-se reconhecendo a complexidade dessa mesma história, incluindo as suas contradições.

Importa, aliás, recordar que a expressão “Língua Geral” não é neutra nem inocente. Historicamente, designava línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperar hoje essa designação para substituir “português” não constitui um simples exercício terminológico: representa uma tentativa deliberada de deslocação simbólica da matriz histórica da língua.

Há aqui também uma evidente incoerência intelectual. Durante décadas, foi-nos dito que o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário para preservar a unidade da língua portuguesa. Em nome dessa suposta unidade, sacrificaram-se tradições ortográficas, referências etimológicas e especificidades nacionais. Contudo, alguns daqueles que defenderam essa uniformização parecem agora não ver qualquer problema em questionar o próprio nome histórico da língua. Afinal, a unidade era linguística ou ideológica?

Naturalmente, a literatura vive também da provocação. E talvez esta proposta não passe disso mesmo: um gesto literário destinado a gerar debate. Ainda assim, as palavras têm consequências, sobretudo quando partem de figuras públicas com influência cultural significativa. Os escritores possuem liberdade absoluta para questionar heranças históricas, mas têm igualmente responsabilidade intelectual na forma como contribuem (ou não) para a preservação de espaços comuns de entendimento entre povos.

O português não necessita de ser renomeado para se tornar mais plural, mais inclusivo ou mais universal. Já o é. É uma das grandes línguas globais precisamente porque soube atravessar séculos, geografias e culturas sem perder continuidade histórica. Negar essa continuidade não representa progresso intelectual; representa, isso sim, uma forma subtil de amputação cultural.

Defender o nome da Língua Portuguesa não é defender qualquer nostalgia imperial. É apenas recusar a ideia perigosa de que uma civilização deve pedir desculpa permanentes pela sua própria existência histórica.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
03.06.2026

 

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