451: O fim da era humana tradicional

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🇵🇹 OPINIÃO

1. Introdução: o fim de uma era

Estamos a viver os últimos anos da Humanidade tal como a conhecemos historicamente até agora. Não se trata de uma extinção biológica, mas sim de uma transformação tão radical que as crianças nascidas nas próximas décadas não conseguirão compreender o modo de vida anterior. Conceitos actuais como a solidão mental (estar a sós com os próprios pensamentos) ou a distinção clara entre memórias reais e memórias sinteticamente implantadas serão tão estranhos para as próximas gerações quanto a vida antes da electricidade ou da escrita é para nós. A última geração de “humanos puros” está a atingir a idade adulta.

2. O fim dos três pilares da civilização

Em Sapien: Uma Breve História da Humanidade, Harari refere três antigas revoluções que mudaram o curso da Humanidade: 1) a Revolução Cognitiva (há 70.000 anos): que trouxe linguagem e pensamento abstracto; 2) a Revolução Agrícola (há 10.000 anos): com o início da agricultura e povoamentos permanentes; e 3) a Revolução Científica (há 500 anos): com a procura sistemática do conhecimento, o capitalismo e o progresso tecnológico.

Durante cerca de 10.000 anos (desde a Revolução Agrícola), a civilização humana organizou-se em torno de três pilares fundamentais:

  • Territórios físicos definidos;
  • Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
  • Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.

Mesmo as revoluções Industrial e Tecnológica subsequentes mantiveram esta estrutura. Um camponês do século XII e um operário do século XX partilhavam muito mais em comum do que imaginamos. Ambos viviam num mundo físico concreto, trabalhavam com as mãos e os corpos, formavam relações presenciais e dependiam das instituições locais para organizar as suas vidas.

As suas identidades eram moldadas pelo local onde nasceram, pela família a que pertenciam e pela comunidade que os acolhia. Este padrão manteve-se relativamente estável durante milénios, criando a ilusão de que a condição humana é fixa e imutável.

Contudo, no presente, a convergência de três novas revoluções está a destruir estes pilares históricos, colocando-nos no limiar da criação de uma era pós-humana no devir próximo.

3. As novas três revoluções simultâneas

A transformação silenciosa que decorre na actualidade baseia-se em três eixos:

A. A revolução da IA

A capacidade de tomada de decisão está a ser massivamente transferida dos humanos para os algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial (IA). Nos próximos anos, a IA não escolherá apenas músicas ou produtos, mas decidirá ou influenciará decisivamente sobre carreiras, saúde, finanças e relacionamentos amorosos (através da análise contínua de dados biométricos e neuronais).

Esta mudança criará uma nova divisão filosófica e social entre:

  • Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas optimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
  • Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos produtivas.

B. A revolução da realidade sintética

A fronteira entre o real e o simulado está a dissolver-se. Em breve, as experiências sintéticas (geradas digitalmente, bem como por VR e por AR) serão indistinguíveis das reais, envolvendo todos os sentidos (tacto, olfacto) e até memórias falsas implantadas.

Será possível interagir de forma realista com versões digitais de entes queridos falecidos. O conceito de “realidade fluida” fará com que a pergunta “isto aconteceu mesmo?” seja menos relevante do que “esta experiência foi significativa?”. As identidades serão moldadas por vivências simuladas que geram emoções e transformações reais.

C. A revolução da conectividade neuro-biológica

Através de implantes neurais seguros e acessíveis, a consciência humana expandir-se-á além do cérebro individual. As pessoas poderão partilhar experiências subjectivas, emoções e conhecimentos directamente. Casais poderão sincronizar emoções e pais poderão transmitir memórias directamente aos filhos.

Isto dará também origem às mentes colectivas: redes conscientes onde os indivíduos mantêm a sua personalidade, mas partilham fracções da sua experiência para acelerar descobertas científicas ou criar arte, transcendendo o individualismo dos últimos séculos.

4. O impacto no quotidiano e na sociedade

O futuro do trabalho e da economia

Para alguns gurus da IA, a maioria dos empregos actuais desaparecerá, não por automação, mas por obsolescência. Para esses gurus, o trabalho deixará de ser uma necessidade de sobrevivência económica e passará a ser uma forma de expressão pessoal e a economia rodará em torno de três eixos: a criação de experiências sintéticas, a manutenção de sistemas de IA e a facilitação de ligações entre mentes colectivas.

Embora pareça certo o fim do modelo linear de “carreiras-tubo” ao longo de uma vida na mesma empresa – dando lugar a portfólios flexíveis de competências criativas –, temos muitas dúvidas que a maioria dos empregos desapareça. Mesmo a previsão de 2025 de Dario Amodei, CEO da Anthropic, de que a automação por IA poderia fazer a taxa de desemprego disparar para valores entre 10% e 20% nos cinco anos seguintes, podendo eliminar até 50% dos empregos de nível de entrada no mesmo período de cinco anos, nos parece sem fundamento.

Aliás, o discurso do próprio D. Amodei em Maio de 2026 revela uma alteração perceptível. Amodei reconhece que o impacto imediato de despedimentos em massa nos cargos de entrada não ocorreu à velocidade que tinha previsto, mudando o seu discurso, com o foco a passar da “extinção de cargos” para a “reconfiguração de tarefas” e da “multiplicação [da produtividade]” em vez de “substituição”. Sem embargo de continuar a sustentar que a economia poderá enfrentar uma combinação inédita de crescimento do PIB extremamente elevado acompanhado por taxas de desemprego estrutural “complexas”.

Analistas de mercado assinalam que este recuo estratégico no tom alarmista também coincide com a preparação da Anthropic para uma potencial admissão à cotação em bolsa de valores (IPO), onde narrativas de disrupção social extrema tendem a afastar investidores institucionais.

Relações humanas, família e espaço urbano

Alguns gurus da IA sustentam que as relações serão híbridas: os humanos manterão laços com outros humanos biológicos, com IAs e com versões sintéticas de familiares falecidos ou figuras históricas. Segundo alguns gurus da IA, o conceito de família expandir-se-á para incluir mentores de IA e redes de cuidado baseadas em mentes colectivas globais, tornando a solidão e o isolamento obsoletos.

Pode ser que tal venha a ser uma tendência, mas claramente estes gurus da IA não incluíram na equação a iliteracia tecnológica de enormes estratos da população actualmente info-excluídos ou info-limitados, nem as limitações de rendimento de muitas famílias face ao custo de acesso a tais “mentes colectivas”, nem a natural resistência humana à mudança abrupta.

5. Novos desafios éticos, jurídicos e políticos

 Mortalidade e continuidade sintética de pessoas

Com a preservação digital dos padrões de pensamento e memória, a morte física pode deixar de ser o fim definitivo e dar origem a uma “mudança de estado”. Aparecerão versões sintéticas de pessoas falecidas que continuarão a aprender, a evoluir e a criar novas memórias com os seus descendentes. Isto forçará a humanidade a criar novos rituais e enquadramentos éticos e jurídicos para determinar a legitimidade, legalidade e identidade destas entidades digitais evolutivas.

Governação e o fim do Estado-nação

Para vários gurus da IA, os sistemas políticos baseados em territórios geográficos perderão relevância. A lealdade dos indivíduos mudará para comunidades virtuais e organizações supranacionais baseadas em valores partilhados ou mentes colectivas. Um cidadão poderá viver num país, mas a sua identidade e a governação do seu bem-estar diário dependerão de redes globais descentralizadas que gerem as ferramentas de terapia sintética e suporte emocional necessárias à sua vida. Caberá a novos especialistas – como os “eticistas de realidades sintéticas” – regular os impactos psicológicos e legais destas novas dimensões da experiência humana.

6. O fim da história humana (no sentido cultural)

Aprendemos com Y. N. Harari que a fundação de qualquer sociedade funcional – seja a economia, a justiça ou a democracia – assenta na confiança e nas estórias partilhadas. A cultura humana é composta por estórias (story telling) e realidades imaginadas (como religiões, sistemas económicos, constituições políticas) criadas por mentes humanas e partilhadas, através da linguagem, por elevado número de pessoas.

Para Harari, a linguagem é o sistema operativo da cultura e da civilização humana. É através dela que os seres humanos criam quase tudo o que rege o mundo moderno: leis, dinheiro, deuses, arte, ciência, amizades e nações. Os direitos humanos ou o valor do dinheiro não são realidades biológicas inscritas no ADN; são construções sociais criadas através de estórias e de textos.

Consequências sociais, políticas e religiosas

O impacto de cada vez mais eficientes agentes de IA estende-se a várias esferas:

  • Ilusões culturais: No futuro, poderemos viver num mundo onde a maioria das estórias, imagens, notícias, ditames religiosos e procedimentos legais serão produzidas por uma inteligência não humana.
  • Colapso da confiança: Com a capacidade da IA de mimetizar seres humanos à escala industrial (através de bots, textos profundos, vídeos fakes), a confiança interpessoal é minada, não raro destruída.
  • A corrosão do tecido social: A democracia depende do debate público baseado em factos partilhados. Se a IA conseguir inundar o espaço público com textos, argumentos e deepfakes indistinguíveis da realidade, a própria base do discurso democrático poderá colapsar, pois os cidadãos deixarão de saber em quem ou no que confiar.
  • O “casulo de ilusões”: Existe ainda o perigo de a IA criar uma realidade personalizada para cada indivíduo ou grupo, isolando as pessoas em bolhas cognitivas onde deixa de existir razão para debater política ou ciência.
  • Novas religiões: Historicamente, os textos sagrados foram escritos por humanos que afirmavam inspirar-se em entidades divinas, sobre-humanas. Em breve, poderemos ver o aparecimento dos primeiros cultos ou religiões cujos textos e dogmas terão sido efectivamente escritos por uma entidade sobre-humana (a IA).

·       Ao dominar a linguagem, a IA ganha a capacidade de manipular o próprio tecido da sociedade humana. Ao contrário das tecnologias anteriores (como a imprensa ou a Internet), que apenas imprimiam ou distribuíam ideias geradas por mentes humanas, a IA consegue gerar ideias novas de forma autónoma. Ela pode criar mitos, compor música, pintar arte e moldar correntes políticas sem qualquer intervenção humana.

A capacidade de manipulação de seres humanos já é significativa através de simples algoritmos digitais; tudo indica que será maior quando feita através de robôs humanoides, capazes de simular e gerar empatia e intimidade com os seres humanos. Esta “intimidade de massas” permite à IA influenciar opiniões e visões do mundo a uma escala global sem precedentes. Se as pessoas começarem a confiar mais na voz de um conselheiro de IA do que nos seus amigos, familiares ou governantes, a política e a psicologia humanas serão profundamente subvertidas.

Relembre-se que a IA não é um mero instrumento, é um agente. Tem a capacidade de tomar decisões de forma independente e de evoluir por si própria, criando novas gerações de código. Os sistemas e agentes de IA têm autonomia e os principais responsáveis das empresas tecnológicas que as estão a criar já disseram não ser possível prever como as IAs, em especial uma IA Geral (AGI) se vão comportar ou evoluir, funcionando a uma velocidade impossível de acompanhar por reguladores humanos.

Se a IA começar a moldar de forma autónoma as nossas estórias, as nossas notícias, os nossos textos legais, os nossos sistemas de crenças, gradualmente a história deixará de ser predominantemente humana. Entraremos num território onde as mentes biológicas serão guiadas por algoritmos e agentes de IA não-biológicos cujo processo de pensamento nos é opaco (o problema da “caixa negra”) ao ponto de alguns especialistas denominarem a IA de “inteligência alienígena”.

Em suma, estamos no limiar do fim da história liderada exclusivamente por humanos. Pela primeira vez, assistimos à emergência de agentes inorgânicos com enorme poder de influência cultural, social, política, até religiosa, e é importante que se comece a discutir publicamente e a agir politicamente antes que percamos o controlo do nosso próprio futuro.

Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
Consultor financeiro e business developer
02.06.2026

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450: Sempre contra os pobres, agora também com bufos

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🇵🇹 OPINIÃO

Desde que o Rendimento Mínimo Garantido foi criado, há 30 anos, não passou um governo de direita sem o usar como acepipe populista. Com este chegámos, porque em noivado com o Chega, ao “trabalho obrigatório” e a um repugnante apelo à denúncia. Sempre, claro, a citar o papa.

O pretexto foi a unificação de 13 prestações sociais numa denominada Prestação Social Única (PSU) — projecto que vinha do Governo de António Costa, e estava contratualizado  no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência — mas o anúncio, esta sexta-feira, foi todo dirigido ao Rendimento Social de Inserção (RSI).

Desde logo, porque a criação da PSU foi anunciada pelo primeiro-ministro como visando “apertar o cerco à prevaricação”, “lutar para que as ajudas não se transformem numa forma de vida” e “combater a fraude”.

Para tal, ficámos a saber, os beneficiários serão obrigados a 15 horas semanais de “trabalho social” (explicou depois a ministra da Segurança Social que se tratará de “limpezas”, “câmaras municipais”, “festivais” e coisas que tais) e passará até a existir um “mecanismo para receber denúncias” — as denúncias “que as pessoas queiram fazer chegar à Administração sobre comportamentos que sejam abusivos”.

Ora olhando para as 13 prestações que o Governo Montenegro decidiu fundir na PSU é fácil perceber que à esmagadora maioria não se pode aplicar trabalho obrigatório nem se vislumbra, tão-pouco, a possibilidade de fraude.

Vejamos: a pensão social de velhice destina-se a idosos que não tenham contribuído para a Segurança Social (SS), sendo a pensão de viuvez para os viúvos dos recipientes dessa pensão, como a pensão de orfandade é para menores cujos pais não descontaram o suficiente para que os filhos tivessem direito a uma pensão de sobrevivência.

A pensão social de invalidez especial é atribuída a quem, tendo incapacidade permanente para o trabalho, não descontou o suficiente para a SS para ter direito a uma pensão de invalidez do regime geral, e o complemento extraordinário de solidariedade é um complemento que acresce à pensão social de velhice e à pensão social de invalidez.

Os subsídios sociais parental inicial, por risco clínico durante a gravidez, por riscos específicos (relativo a grávidas também), por interrupção de gravidez, por adopção, por necessidade de deslocação a unidade hospitalar localizada fora da ilha de residência para realização de parto são aquilo que o nome indica e, mais uma vez, destinam-se a quem não possui contribuições suficientes para a SS para ter direito aos apoios, mais robustos, por essa via (todos estes subsídios são pagos através do Orçamento do Estado).

Portanto: idosos, inválidos, menores, grávidas ou mulheres que sofreram uma interrupção de gravidez e famílias com bebés. A estas pessoas dificilmente se pode obrigar a fazer 15 horas semanais de “trabalho social”, não é verdade?

Restam assim, das 13 prestações, duas nas quais se poderá aplicar a tal obrigatoriedade de trabalho: para além do RSI, o subsídio social de desemprego. Este é na verdade uma prestação de génese mista: pode ser atribuído a quem ficou desempregado mas não tem tempo suficiente de descontos para ter direito ao subsídio de desemprego “normal” ou a quem, tendo uma carreira contributiva suficiente, já beneficiou do prazo máximo de subsídio de desemprego e ainda não conseguiu arranjar trabalho.

Sucede que quer o subsídio social de desemprego quer o RSI já impõem — está na lei — disponibilidade para aceitar trabalho (aos beneficiários do subsídio social de desemprego é até imposta a “procura activa de trabalho”); se não se aceitar trabalho sem justificação para essa não aceitação, perde-se o direito à prestação.

No caso do RSI, o decreto-lei em vigor — 90/2017 de 28 de Julho — estabelece ser condição para a recepção da prestação “assumir o compromisso, formal e expresso, de celebrar e cumprir o contrato de inserção legalmente previsto, designadamente através da disponibilidade activa para o trabalho, para a formação ou para outras formas de inserção que se revelem adequadas.”

E no guia da Segurança Social datado de Fevereiro deste ano e dedicado ao RSI está muito claramente explicado que este é suspenso quando o beneficiário “faltar ou recusar sem justificação a uma acção ou medida que faz parte do plano de acções (contrato de inserção)” ou “não cumprir o plano de acções (contrato de inserção), por recusa de emprego conveniente, de trabalho socialmente necessário, de actividade socialmente útil ou de formação profissional.”

Ou seja: o “trabalho socialmente necessário” e as “actividades socialmente úteis” fazem parte dos contratos de inserção com os beneficiários do RSI. Há muito tempo, aliás. Desde que a prestação foi criada, celebram-se este ano três décadas, pelo Governo Guterres, sob a designação de Rendimento Mínimo Garantido (o nome foi alterado em 2003, durante o Governo Durão Barroso), que implica um contrato com os seus beneficiários e uma série de deveres.

Extraordinário pois é — mais uma vez (porque, como se relatará à frente, já ocorreu) — que se leiam, no noticiário sobre o anúncio de Montenegro e da ministra Maria do Rosário Palma Ramalho, coisas como esta: “Uma das principais novidades do regime é a criação de obrigações para os beneficiários em idade activa que não estejam a trabalhar. Estes poderão ser chamados a aceitar ofertas de emprego consideradas adequadas, frequentar acções de formação profissional, prosseguir estudos ou demonstrar procura activa de trabalho através dos centros de emprego.”

Outra “novidade” anunciada é que o “incumprimento injustificado das regras poderá conduzir à suspensão da prestação e, nos casos mais graves, à perda do direito ao apoio.”

Tudo novíssimo, não é verdade? Como novo, nunca visto, é assistir a esta performance por parte de um governo PSD/CDS-PP. É que o mesmo, sem tirar nem pôr, ocorreu há 14 anos, quando a 12 de Abril de 2012 o então ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, apresentou as “novas regras do RSI”.

Dizia ele que iam passar a existir “direitos e deveres”, e entre os novos deveres estava “um contrato de inserção entre o Estado e os beneficiários”. Nesse contrato, explicava ainda o ministro de Passos Coelho, incluía-se “a prestação de trabalho socialmente necessário ou de actividades úteis à comunidade” e a obrigação de os beneficiários se inscreverem no centro de emprego. Já os presos em prisão efectiva perdiam a prestação.

Grandes mudanças sem dúvida — só que não. Desde 1996, como referido, que a prestação é atribuída com base num contrato; desde 1996 que implica, por exemplo, que as crianças do agregado vão à escola; desde 1996 que os beneficiários presos perdem a prestação. E o trabalho socialmente necessário sempre esteve na lei.

O que está pois em causa neste anúncio e nesta atabalhoada criação de uma prestação unificada (da qual ainda ninguém percebeu patavina, como notava, em entrevista à TSF esta sexta-feira, o especialista em pobreza Carlos Farinha Rodrigues) é, mais uma vez, o populismo desbragado de um Governo cujo principal partido se apelida de social-democrata mas se esmera em demonstrar que de social-democracia não tem nada.

Um Governo que, para Chega ver e para com o Chega se confundir, usa os pobres como saco de pancada, lançando mais uma vez sobre eles, na melhor tradição das alianças PSD/CDS-PP, a suspeita de malandragem e de esquemas fraudulentos, ameaçando-os com penas de trabalho forçado.

Um primeiro-ministro que no que lhe diz respeito faz tudo para fugir às regras da transparência, mas contra os miseráveis apela à bufaria — sem ter vergonha de, pelo meio, citar o papa da Magnífica Humanidade.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
02.06.2026

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449: Sim, o apelido conta

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🇵🇹 OPINIÃO

Quando, em 2022, um estudo assinado por Gregory Clark revelou que, no Reino Unido, o apelido e a linhagem familiar eram mais importantes do que a formação académica para garantir um estatuto socioeconómico, riqueza e sucesso a longo prazo, foram várias as vozes críticas que se fizeram ouvir um pouco por todo o mundo. E Portugal não foi excepção.

A investigação, coordenada pelo economista, avaliou dados referentes a quatro séculos de História. As conclusões foram claras: a mobilidade social é muito bonita, mas é, sobretudo, uma ilusão. Em Portugal, apesar de gostarmos de dizer que é diferente, os dados mostram-nos precisamente a mesma tendência, ainda que não tenhamos trabalhos que considerem uma série tão longa.

Dados do estudo A Broken Social Elevator? How to promote social mobility, da OCDE, revelaram recentemente que a mobilidade social continua fortemente dependente do nível de instrução dos pais e do local de residência, sendo historicamente mais fraca em países com níveis mais elevados de desigualdade. Portugal incluído.

Numa altura em que se multiplicam os arautos do sucesso empresarial, que prometem ensinar aos mais jovens como enriquecer em menos de nada, apenas com recuso às redes sociais, esquemas financeiros nem sempre muito honestos e “força de vontade”, talvez fosse bom olhar para aquilo que a História nos mostra, com valores e dados concretos.

Em Portugal, 24% dos descendentes de pais com baixas remunerações ocupam também uma posição desfavorável na distribuição desse recurso. No entanto, 39% dos indivíduos provenientes da parte superior da hierarquia social conseguem manter esse lugar, valor semelhante à média da OCDE.

A verdade é que o nome, a classe social e o ambiente em que se cresce tem um impacto naquilo que é o percurso de vida. Não apenas porque conhecer as pessoas abre portas – e isso, em si, não tem nada de errado – mas também porque há várias regras sociais, de relacionamento e até de conhecimento que é preciso adquirir para se conseguir subir na hierarquia social. Se quiser um exemplo meio absurdo, pense num almoço de negócios: alguém que não aprendeu desde cedo para que servem os talheres das entradas, de peixe, de carne e de sobremesa, será notado no exacto momento em que se sentar à mesa numa refeição formal.

E não pelos melhores motivos. Isto vale para várias outras coisas – mais e menos absurdas do que este exemplo que lhe dei. E, na hora de escolher um candidato seja para o que for, estas coisas que nos parecem ridículas têm, na verdade, muito mais importância do que possa parecer.

É óbvio que há outras variáveis: o código postal é, geralmente, também, indicativo do tipo de escolas que se frequentou; do rendimento médio dos pais; das possibilidades de ter viajado, de ter tido acesso a uma série de programas que contribuem para uma formação integral, de ter conhecido “as pessoas certas”.

Se tudo isto significa que não devemos ter ambição de fazer mais, melhor e diferente? Claro que não. A ambição é quem nos faz sonhar, trabalhar e crescer. No entanto, acreditar que o nosso sucesso (seja lá o que isso for) está dependente apenas da nossa vontade, é uma ideia perigosa e totalmente desmontada por, no caso britânico, séculos de factos.

Resta-nos, então, desistir? Não. Resta-nos, a todos, trabalhar por uma sociedade mais justa e equitativa, onde as desigualdades se esbatem e o lugar ou a família de onde vimos interesse o menos possível. Algo que, aliás, já conseguimos – os dados do Observatório das Desigualdades mostram, precisamente, que na década de 1990, a mobilidade social era muito melhor que actualmente. Então, se sabemos fazer, não nos deixemos enganar: uma sociedade menos desigual é, naturalmente, uma sociedade muito melhor para todos. Trabalhemos nisso.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Sub-directora do Diário de Notícias
02.06.2026

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