293: O projecto de transformação de Passos

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🇵🇹 OPINIÃO

Regressado das brumas, o dom Sebastião da direita garante não querer desforras nem provar nada — quando, com a inestimável ajuda dos do costume, não faz outra coisa.

Vai por aí uma grande excitação com o regresso de Passos Coelho às lides. O que é completamente natural, tendo em conta que o ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD entrou logo a disparar canhões contra o seu ex-mui-delfim Luís Montenegro..

Criticou a política de nomeações para cargos no Estado, criticou a resposta do Governo às tempestades, criticou a passagem do ex-director da Polícia Judiciária para ministro da Administração Interna, criticou a falta de “ímpeto reformista” e, em entrevista este domingo publicada no Eco, na qual garante “não querer desforras nem provar nada”, o facto de Luís Montenegro não ter aproveitado “a grande maioria no Parlamento à direita” para tentar construir “um acordo de legislatura” com Chega e IL.

Dando-se o caso de esta entrevista ter ocorrido após as presidenciais, surpreende um pouco que Passos não tenha sido confrontado com a evidência de que a maioria bastante esmagadora dos eleitores da AD e até da IL votaram no socialista António José Seguro contra André Ventura — o que talvez queira dizer que não querem misturas com o Chega e prezam a ideia de uma cerca sanitária face à extrema-direita, mesmo quando isso implica votar à esquerda.

E surpreende ainda mais que, opinando Passos que o Chega estará bem posicionado para ganhar as próximas eleições, considere que a melhor solução para o PSD seria ter-se aliado a ele. Quiçá para melhor se deixar engolir, perdendo para o PS e a IL os (como se constatou, muitos) eleitores que rejeitam o discurso de ódio, racista e xenófobo de Ventura e apaniguados?

Tácticas à parte, sobre o que Passos pensa da extrema-direita também não vimos qualquer questão nesta bastante interminável entrevista — ficamos só a saber, caso tivéssemos ainda dúvidas (o entrevistador claramente não teve), que em nada o incomoda. O que não pode ser grande surpresa: foi com Passos e o PSD, através da candidatura à presidência da Câmara de Loures nas autárquicas de 2017, que Ventura estreou o seu discurso anti-ciganos (levando, recorde-se, o parceiro de coligação CDS-PP a afastar-se), iniciando, com o beneplácito da então direcção do partido, a caminhada de radicalização racista e desbragada que conduziu à criação do Chega.

Ainda assim, não se incomodando com o racismo e a xenofobia — que, de resto, o próprio assume, ao dizer a dada altura que, se Portugal precisa de imigrantes, não os quer “neste volume, nem estes”, e comentando: “Alguns já não são imigrantes, já são nacionais” — talvez fizesse sentido perguntar a Passos como defende uma aliança do PSD que quer “reformista” (do que entende por “reformista” falaremos a seguir) com um Chega que, para usar uma expressão do próprio entrevistado, “quer dar tudo a toda a gente”. Um Chega que passou do hiper-liberalismo a la Milei (e de certo modo a la Passos) do primeiro programa do partido, em 2019, para as actuais promessas de aumentos generalizados de pensões e de melhores salários para a função pública e para a recusa, como “bar aberto para os despedimentos” (Ventura dixit) da “reforma laboral” que o Governo Montenegro propõe e Passos elogia.

Talvez, claro, Passos tenha outras informações, que não as que constam nos programas do Chega e no discurso público do seu dirigente, sobre o que o partido e Ventura defendem/querem — sabemos bem quão elásticas são as respetivas posições.

Como, de resto, são as do próprio Passos. É que ainda não nos esquecemos (ou esquecemos?) que chegou a apresentar uma proposta de revisão constitucional “liberal” que, à imagem do que sucedeu ao primeiro programa do Chega, foi para a gaveta mal percebeu que lhe ia tirar votos.

Nem nos olvidámos (ou olvidámos?) do que dizia e prometia antes das eleições de 2011; como, em plena crise do euro, face à imposição de austeridade por parte da Comissão Europeia e parceiros europeus (a começar pela Alemanha) e mesmo já após o pedido de resgate, recusava a ideia de cortar pensões ou salários ou subsídios de Natal ou férias, como torcia as mãos face à ideia de aumentar impostos e como garantia que tudo se resolveria apenas “cortando as gorduras do Estado”. Era esse singelo e indolor corte “das gorduras do Estado” que, prometia o PSD à época, constituía as famosas “reformas estruturais” que até hoje Passos tanto incensa e apelida de o seu “projecto de transformação”.

As “reformas estruturais” que, uma vez no poder, consubstanciou em cortes e mais cortes de pensões, salários e apoios sociais, aumentos de impostos e venda ao desbarato (ao Estado chinês) de activos fulcrais como a rede eléctrica e a EDP.

Daí que seja verdadeiramente delicioso vê-lo agora a censurar Montenegro por não se ter, e cito, dirigido “aos eleitores naquela eleição [2024] pedindo-lhes um mandato para fazer reformas, com espírito reformista”. Isto porque Passos diz acreditar “que as reformas que duram são aquelas que as pessoas desejam” e portanto “um partido não pode chegar ao Governo e, de repente, mostrar às pessoas que, afinal, as surpreende com um pacote, um conjunto de reformas que as pessoas não esperavam que acontecessem e que poderiam até não gostar que fossem feitas.”

Foi, por acaso, exactamente o que o actual PSD fez com a proposta de reforma laboral — à imagem da estratégia de Passos quando governou: apresentar propostas, grande maioria delas inconstitucionais (e como tal declaradas pelo Tribunal Constitucional), que nunca submetera a sufrágio. E não se diga que houve circunstâncias supervenientes a justificá-lo: quando elaborou o programa eleitoral Portugal estava sob resgate, e os termos desse resgate foram também negociados com a troika FMI-Comissão Europeia-Banco Central Europeu pelo PSD, como o negociador-mor do partido, Eduardo Catroga, não se cansou de proclamar.

Era aliás à época director do FMI para a Europa o dirigente do PSD António Borges, que logo a seguir Passos convidaria para funcionar como uma espécie de “ministro à solta” com o pelouro das privatizações, em passagem directa do organismo que as impusera para um cargo cujo salário de centenas de milhares de euros o Governo recusou durante meses revelar (só o fazendo quando foi obrigado a isso). Em termos de portas giratórias e “precedentes graves” (foi a expressão que usou em relação à escolha de Luís Neves para o MAI), digamos que Passos não tem grandes lições a dar.

Não as tem, de resto, em nada. O homem que se quer apresentar como “sério” e “transparente” e é tantas vezes referido como “reserva moral da direita” já mudou radicalmente de ideias e discurso uma meia dúzia de vezes e foi tudo menos honesto quando se apresentou a eleições.

Sabe bem ele, e deveria saber toda a gente, que se tivesse em 2011 anunciado o que queria realmente fazer e que o seu sonho era pôr em prática a tal revisão constitucional que  meteu na gaveta em 2010 (quando, lembre-se, além de se apresentar como um liberal na economia também garantia sê-lo nos costumes, pronunciando-se a favor da legalização do aborto, do casamento das pessoas do mesmo sexo e da adoção por casais homossexuais), seria bastante improvável obter uma maioria absoluta.

Mas, reconheça-se, há um projecto de transformação do país que Pedro Passos Coelho conseguiu levar a bom porto: aquele que permite que, depois de tudo o que aconteceu, de tudo o que fez e disse, se alcandore a exemplo de probidade, lisura e ética. Isso sim é obra.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
03.03.2026

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292: Primeiro a Venezuela, depois a Gronelândia, agora o Irão: o que virá a seguir na agenda de Trump?

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🇵🇹 OPINIÃO

O mundo já não observa apenas com inquietação — observa com perplexidade. Em poucos meses, a segunda Presidência de Donald Trump transformou a política externa norte-americana numa demonstração aberta de força, onde a lógica do facto consumado substitui a diplomacia e o multilateralismo é tratado como obstáculo, não como instrumento.

A captura de Nicolás Maduro, as ameaças à Gronelândia e a eliminação do Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, não são episódios isolados. São peças de uma mesma estratégia: afirmar hegemonia através da coerção directa, testando até onde o mundo está disposto a tolerar.

A Operação Absolute Resolve, que levou Maduro de Caracas para Nova Iorque, não foi apenas uma acção cirúrgica contra um regime autoritário. Foi uma mensagem política inequívoca: Washington considera-se novamente com legitimidade para intervir unilateralmente no seu “quintal estratégico”. A Doutrina Monroe, que muitos julgavam um artefacto do século XIX, regressa sob nova embalagem — jurídica, mediática e militar.

O levantamento selectivo de sanções e a reconfiguração do setor petrolífero venezuelano revelam que a moralidade invocada anda de mãos dadas com interesses energéticos. A narrativa da libertação convive, sem grande pudor, com a reorganização económica sob tutela externa. E quando Trump declara que os Estados Unidos “gerirão o país até ser seguro entregá-lo”, a frase ecoa menos como promessa de transição democrática e mais como afirmação de protectorado.

O caso da Gronelândia é igualmente revelador. A pressão sobre a Dinamarca mostrou que, para esta administração, alianças são instrumentos contingentes, não compromissos estruturais. Ao admitir o uso da força para adquirir território aliado, Washington quebrou um tabu geopolítico dentro da própria NATO. A confiança — verdadeiro cimento da Aliança Atlântica — não resiste facilmente a este tipo de teste.

Mas foi no Irão que a doutrina da força atingiu o seu ponto máximo. A morte de Ali Khamenei, confirmada por Teerão, inaugurou uma fase de imprevisibilidade estratégica raramente vista desde o início do século XXI. Falar abertamente em “mudança de regime” numa potência regional com capacidade de retaliação assimétrica é jogar xadrez geopolítico com peças inflamáveis.

O Estreito de Ormuz sob ameaça, o petróleo em escalada, mísseis sobre Israel e bases americanas: a região entrou num ciclo de acção-reacção cujo fim ninguém controla plenamente. O risco já não é apenas regional; é sistémico.

Perante este padrão, a pergunta “qual será o próximo alvo?” deixa de soar especulativa e passa a ser estrutural.

Cuba surge como hipótese lógica, fragilizada pela perda do apoio energético venezuelano. A Coreia do Norte observa, calculando custos e oportunidades. No Indo-Pacífico, Taiwan permanece o epicentro latente de uma confrontação maior entre Washington e Pequim. Mesmo cenários aparentemente improváveis — como pressões acrescidas sobre o Panamá ou intervenções indirectas em África — deixam de parecer ficção estratégica.

O que une todos estes episódios não é apenas a retórica musculada; é a normalização da excepção. A ideia de que a estabilidade internacional depende menos de regras partilhadas e mais da capacidade de impor vontades.

Para a União Europeia, isto representa um dilema existencial. Se o principal aliado age de forma imprevisível e coerciva, a autonomia estratégica deixa de ser um slogan francês e passa a necessidade estrutural. Portugal, na periferia atlântica, mas no centro das rotas energéticas e comerciais, não pode assistir como mero espectador. A instabilidade no Atlântico Norte e no Médio Oriente atinge-nos directamente.

A questão central não é se estas acções são eficazes a curto prazo. Podem sê-lo. A questão é que mundo produzem a médio e longo prazo. Um mundo onde as potências agem sem constrangimentos multilaterais tende a tornar-se menos previsível, mais volátil e mais propenso a escaladas acidentais.

A era Trump 2.0 não é apenas uma mudança de estilo; é uma alteração de paradigma. Se esta lógica se consolidar, estaremos perante o regresso explícito da política de esferas de influência, onde o poder substitui a norma.

E quando a força passa a falar mais alto do que o direito, a História ensina-nos que raramente é a última palavra.

Diário de Notícias
José Manuel Maia
EuroDefense-Portugal
03.03.2026

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291: A chuva está de volta. Chega uma nova depressão a Portugal

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // CHUVA

Depois de um fim de semana de sol, Portugal acordou na manhã desta segunda-feira, 2 de Março, com o céu cinzento. É sinal de que está próxima a depressão Regina, que vai afectar o país a partir da tarde desta segunda-feira com chuva e vento, particularmente nas regiões Centro e Sul do país.

Chuva | Fotografia: Unsplash
© VERSA

Como se a chuva e vento não bastassem, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), as condições são favoráveis à ocorrência de trovoada a partir da tarde, em especial no Centro e Sul, e há ainda a possibilidade de queda de neve nos pontos mais altos da Serra da Estrela a partir da manhã.

Algo que também vai afectar o país esta segunda-feira são as poeiras do Chade, partículas finas de terra levantadas em zonas áridas de África que são transportadas pelos ventos para outros continentes e que podem irritar as vias respiratórias, particularmente devido à precipitação.

Quanto às temperaturas, as mínimas vão subir, já as máximas vão descer esta segunda-feira.

No meio de todo este cenário, menos sorte tem o arquipélago da Madeira, onde a depressão será mais sentida. Prevêem-se ventos fortes e lançam-se avisos quanto à agitação marítima e às rajadas que poderão afectar a circulação e as actividades ao ar livre.

A chuva, que está de regresso, vai manter-se, pelo menos, até quinta-feira, 5 de Março, dia em que o IPMA prevê períodos de chuva ou aguaceiros, que poderão ser de neve nos pontos mais altos da Serra da Estrela no final do dia. Esperemos que o fim de semana traga melhores notícias.

No entanto, enquanto a chuva persistir, garante que tens alguns dos acessórios úteis que mostramos na galeria de imagens.

Versa
Rafaela Simões
02.03.2026

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290: Fenómeno El Niño pode regressar: Organização Meteorológica Mundial prevê mais calor entre Março e Maio

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // EL NIÑO

Evento La Niña pode criar condições neutras e, posteriormente, um evento de aquecimento El Niño. Em 2024, o El Niño teve um papel importante no recorde das temperaturas globais.

Fenómeno El Niño pode regressar: Organização Meteorológica Mundial prevê mais calor entre Março e Maio

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU alertou esta terça-feira para a probabilidade crescente de, no período de Maio a Julho, se repetir o fenómeno climático conhecido por El Niño.

De acordo com o último boletim trimestral da OMM, espera-se que o recente evento La Niña, de menor intensidade, dê lugar a condições neutras e, posteriormente, a um evento de aquecimento El Niño.

Com base nas previsões dos centros de produção globais da OMM, espera-se que as condições neutras – indicando a ausência de um evento El Niño ou La Niña – persistam até Julho.

Para o período de Maio a Julho, a probabilidade de condições neutras é, portanto, de 60%, “enquanto a probabilidade de um evento El Niño aumentou constantemente para cerca de 40%”, afirmou a OMM.

A incerteza em torno das previsões de longo prazo está a aumentar, acrescentou a organização.

Em Janeiro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) estimou uma probabilidade de 50 a 60% de desenvolvimento do El Niño entre Julho e Setembro.

“A comunidade da OMM (Organização Meteorológica Mundial) vai monitorizar de perto a situação nos próximos meses para que se possam tomar de decisões”, comentou a Secretária-Geral da OMM, Celeste Saulo.

O último evento El Niño, ocorrido em 2023/24, foi um dos cinco mais intensos já registados e desempenhou um papel importante nas temperaturas globais recordes de 2024.

Um evento El Niño é caracterizado pelo aquecimento periódico e em larga escala das águas superficiais no Pacífico equatorial central e oriental, associado a mudanças na circulação atmosférica tropical, especificamente nos ventos, na pressão e nas chuvas. Geralmente, ele tem efeitos opostos aos da La Niña nos padrões climáticos e de precipitação.

De acordo com a OMM, para o período de Março a Maio, deve haver “um aumento nas temperaturas da superfície em todo o mundo”.

Em relação às previsões de precipitação, “o padrão esperado é semelhante ao de La Niña no Pacífico equatorial, mas em outras partes do mundo, o sinal é mais misto”.

A OMM reitera que “fenómenos climáticos naturais de grande escala, como El Niño e La Niña, fazem parte de um contexto mais amplo de mudanças climáticas antropogénicas, que estão a elevar as temperaturas globais a longo prazo, intensificando eventos climáticos extremos, alterando os padrões sazonais de precipitação e temperatura”.

SIC Notícias
Lusa
03.03.2026

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