307: A húbris épica de Trump e Hegseth

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🇵🇹 OPINIÃO

Sim, é possível odiar, com todas as forças, o regime do Irão, querer, desesperadamente, que ele acabe, e achar o ataque dos EUA e Israel uma completa, contraproducente e estulta barbaridade.

Desde que há pouco mais de uma semana Israel e os EUA iniciaram o seu ataque furioso ao Irão que tenho estado, pacientemente, a ouvir e a ler acusações descabeladas “à esquerda” e “às feministas de esquerda” sobre a sua alegada indiferença em relação ao destino das iranianas e iranianos que lutam contra o regime dos ayatollahs e até sobre a suposta defesa que a esquerda e as “feministas de esquerda” estariam a fazer desse mesmo regime.

Essa defesa, dizem e escrevem os que protagonizam tais diatribes, comprovar-se-ia pelo facto de a esquerda e as feministas de esquerda estarem, ao contrário dos iranianos que lutam contra o regime, a criticar a operação a que os EUA deram o nome de “fúria épica”. A Internet encheu-se de cartoons em que esquerdistas ocidentais explicam a iranianas por que motivo devem estar contra a intervenção e estas respondem sarcasticamente algo como “sim, deves saber melhor que eu e os meus o que é melhor para mim.”

Sem dúvida que há iranianas e iranianos a aplaudir o ataque, e sem dúvida que houve iranianas e iranianos a pedi-lo, a suplicar por ele. Há umas semanas, uma iraniana que está a viver em Portugal disse-me isso mesmo: “Precisamos de uma intervenção militar internacional.” Quem deveria intervir? “O mundo inteiro. Porque o que se está a passar dentro do país é um genocídio.” Quando falámos dos EUA e de Trump e do que este tinha dito — que iria intervir se começassem a matar manifestantes (o que como é sabido sucedeu, e aos milhares, havendo estimativas de até 40 mil opositores assassinados) —, ela não hesitou: “Queremos que os americanos intervenham no Irão. Quando não se vive sob aquela opressão, é fácil dizer que os EUA e Trump são bullies. Queremos que o regime caia, queremos ajuda, qualquer ajuda. Só queremos que seja cortada a cabeça da serpente.”

Quando quis saber o que, na opinião dela, sucederia ou deveria suceder caso os EUA interviessem (nem chegámos a discutir que tipo de intervenção poderia ter o resultado que ela almejava, ou seja, o que seria “cortar a cabeça da serpente”), respondeu: “Isso são muitas perguntas, não sei. São perguntas muito complicadas.”

Como tantos iranianas e iranianos dentro e fora do Irão, decerto esta jovem mulher terá festejado a notícia da morte, logo no primeiro dia dos bombardeamentos, do odioso Ali Khamenei, o clérigo xiita que desde 1989 ocupava o cargo de líder supremo do Irão, e sentido essa morte como o almejado princípio do fim do regime. Ao fim de tantas décadas de horrível repressão, de perseguição infrene aos que lutam por democracia, liberdade e um regime laico, do sangrento esmagar de sucessivas revoltas, a aniquilação do principal rosto da bárbara nomenclatura religiosa que submete o país não poderia deixar de ser recebido com júbilo. Mas, para além de causar satisfação — sim, podemos retirar satisfação da morte de um tirano sob cujas ordens incontáveis seres humanos foram perseguidos, presos, torturados e executados —, essa morte é o “cortar da cabeça da serpente” que a minha interlocutora deseja?

É cedo para dizer, mas a eleição, este domingo, do filho do líder assassinado para o seu lugar leva a crer que a resposta é negativa. Se o regime pode sobreviver às vagas sucessivas de bombardeamentos que estão a destruir as infra-estruturas do país não é possível prever, como não é possível perceber que plano, se algum, têm os EUA para o resultado da sua intervenção (os de Israel parecem bem mais claros: destruir o país e fragmentá-lo em unidades territoriais/étnicas, de modo a desaparecer como potentado regional, e o resto que se dane).

Ouvir Trump reconhecer, com impagável candura, que as pessoas com que contaria para fazer algo como o que está a fazer na Venezuela (eliminar Maduro e deixar o regime intacto, mantendo no poder a lugar-tenente do presidente raptado para que ela faça aquilo que ele manda, nomeadamente dar-lhe acesso ao petróleo) foram todas mortas ao mesmo tempo que Khamenei — olha o azar — ou o indescritível Peter Hegseth, “ministro da Guerra”, a debitar abjecções infantis e ocas, qual bully de liceu ou vilão de filme manhoso, como “morte e destruição caem do céu todo o dia”, “isto nunca foi suposto ser uma luta leal, atacámo-los quando estavam no chão e é assim que deve ser” e “esta guerra não é como as guerras politicamente corretas do passado, não há cá as estúpidas regras de engajamento” (em referência às regras da guerra que proíbem por exemplo o ataque a alvos civis, mas também ao Direito Internacional em geral), certificando que o objectivo nunca foi mudar o regime, não é decerto de molde a tranquilizar nem iranianos nem o mundo em geral.

O que parece é que Trump achou que era boa ideia, até pela quantidade de problemas internos com que se tem confrontado, dos ficheiros de Epstein aos crimes do ICE, aproveitar a boleia dos israelitas para dar um show de belicismo “the american way”, como se tudo isto fosse um filme de acção para ver com pipocas — aliás, há dias a Casa Branca publicou um vídeo a glorificar a intervenção que entremeia imagens dos ataques ao Irão com excertos de fitas de super-heróis. Não é de esperar que tenha reflectido muito sobre o como, e muito menos sobre o porquê e o para quê: tem o poder e usa-o como lhe apraz a cada momento, tanto mais que desta vez, em segundo mandato, se soube rodear de gente tão ignorante e alucinada como ele.

É pois altamente duvidoso que algo de positivo resulte de um tão épico aparato de estupidez e barbaridade como o que o governo americano neste momento apresenta. E não é o facto de muitas iranianas e iranianos terem, em desespero, desejado uma intervenção estrangeira e saído às ruas a celebrá-la que muda a triste realidade.

O tão corajoso povo do Irão, a tão orgulhosa nação iraniana, as bravas feministas que afrontaram e afrontam décadas de opressão merecem triunfar — mereceram-no a cada revolta banhada em sangue, a cada vez que acreditaram, como tantos fora do país acreditámos, que a vitória não ia escapar. Não será, porém, um autocrata que mais não tem feito que destruir a democracia no seu país, e já admitiu que não se importa se os fundamentalistas xiitas mantiverem o poder desde que seja ele a escolher quem fica, nem, decerto, o maléfico Netanyahu, a trazer-lhes a liberdade. Oxalá fossem — oxalá pudesse, de toda esta maldade, de tão desalmada húbris, sair algo de bom.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.03.2026

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306: Não há acordo para o pacote laboral. Negociações entre Governo, UGT e confederações terminam

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🇵🇹 PORTUGAL // NEGOCIAÇÕES // PACOTE LABORAL

Representantes terminam ronda esta segunda-feira sem qualquer possibilidade de compromisso. Executivo e Confederações empresariais acusam UGT de “intransigência”.

Reunião entre Governo, UGT e associações patronais.
Reinaldo Rodrigues

As negociações do pacote laboral chegaram ao fim, esta segunda-feira, 9 de Março, sem qualquer acordo entre Governo, representantes da UGT e das confederações patronais.

As reuniões decorriam no Ministério do Trabalho mas, ao que foi possível apurar, não há solução à vista.

“Houve uma falta de recuo do Governo em propostas sucessivas”, o que provocou um “desencontro estrutural e uma inadequação de propostas face ao que a UGT tinha sugerido”, confirma fonte desta central sindical ao DN. “Para a UGT acabou a negociação”.

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, confirma que o processo “terminou. Quando não se chega a acordo, dá-se o processo por terminado. Isto era um processo que se arrastava há sete meses. Não podemos prolongar isto. Nas últimas três semanas, foram 20 reuniões”, referiu, citado pelo ECO.

O responsável afirma ainda que “não houve vontade política por parte da UGT” para chegar a um compromisso. “Tentou-se tudo até ao infinito. Não houve vontade, não se pode forçar“, salienta Francisco Calheiros à mesma publicação.

Da mesma falta de vontade por parte da central sindical queixou-se a ministra do Trabalho. “A UGT está absolutamente intransigente. O Governo vai realizar todos os esforços para que seja possível um acordo”, garantiu Maria da Palma Ramalho, por seu lado.

E Armindo Monteiro, presidente da CIP, afinou pelo mesmo diapasão, referindo que as negociações sobre o pacote laboral terminaram sem acordo por responsabilidade daquela central sindical.

“É da responsabilidade da UGT não haver acordo”, afirmou o líder da CIP, acrescentando que “não é habitual ver a UGT ter a atitude que teve” durante o processo de negociação da reforma laboral proposta em Julho de 2025 pelo Governo.

Na reacção, à saída do encontro, Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, afirma que “dizer que a UGT é intransigente é falta de verdade. Havia conciliação a quase 60 propostas. À 25.ª hora, a CIP apresentou uma proposta maximalista que não permitia consensos”, considera o responsável.

Sérgio Monte elencou uma série de medidas contra as quais a central sindical sempre se mostrou contra, afirmando que não seriam negociáveis, como a reintegração de um trabalhador após vencer um processo de despedimento por justa causa ou o banco de horas individual.

“Não está morto o acordo”, garante Monte. “Mas para a CIP, pelos vistos, está. Há várias propostas inconstitucionais. O Governo é que tem de dizer se ainda existem ou não negociações”, continuou responsável que garante que não abandonarão “a mesa”.

“Nas traves mestras do Governo não houve alterações. Tivemos reuniões com os nossos 55 sindicatos e mais de 30 disseram que esta proposta não era susceptível de um acordo”, terminou o responsável.

Recorde-se que desde Julho de 2025 que está em negociação a reforma da lei do trabalho, altura em que o Governo aprovou em Conselho de Ministros e, posteriormente, apresentou na Concertação Social um anteprojecto que previa cerca de uma centena de 100 alterações à actual legislação laboral.

As centrais sindicais foram sempre contra o “pacotão” de medidas apresentado pelo Executivo de Luís Montenegro, e a sua discordância culminaria na greve geral de 11 de Dezembro – a primeira greve geral organizada pela UGT e pela CGTP desde os tempos da ‘troika‘, em 2013. Foi a quinta greve geral em cinco décadas de democracia.

Na altura, o secretário-geral adjunto da UGT, Sérgio Monte, realçava que o Governo não estava a negociar uma alteração á lei laboral, mas sim “a impor as suas vontades“. Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP dizia, por seu lado, que a reforma proposta “acentua a precariedade, facilita os despedimentos, desregula os tempos de trabalho, limita a actuação dos sindicatos, e ataca a negociação colectiva. Temos de exigir, neste momento, a retirada do pacote. É neste momento. Nenhum trabalhador perdoaria se não déssemos combate”.

O combate terminou hoje, assim, sem um vencedor claro. Mas vale a pena recordar que não será alheio a este resultado o facto de António José Seguro, que tomou esta segunda-feira posse como Presidente da República, já ter adiantado que não publicaria as alterações à legislação laboral tal como estão porque a questão “não fez parte” das propostas eleitorais e sem um acordo em concertação social. “Primeiro, não fez parte a proposta eleitoral dos partidos que estão hoje no lugar. Segundo, não houve acordo na concertação social”, afirmou Seguro durante uma intervenção na Faculdade de Economia do Porto, ainda durante a campanha para as presidenciais.

A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, que tem sido sempre a voz optimista destas negociações, acreditando que elas poderiam chegar a bom porto, tem feito saber, no entanto, que com ou sem acordo na Concertação Social, vai avançar com a proposta da alteração laboral no Parlamento, o que faz adivinhar que este poderá ser o primeiro teste de António José Seguro numa presidência que, fez questão de dizer e repetir durante, quer que seja de estabilidade.

com Lusa

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes, Frederico Bártolo, Ricardo Simões Ferreira
09.03.2026

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305: Doze distritos do continente sob aviso amarelo devido à neve e agitação marítima

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // MAU TEMPO

O IPMA prevê para esta terça-feira no continente, aguaceiros, em especial no Centro e Sul, que serão de neve nas terras altas, assim como formação de gelo.

João Manuel Ribeiro/Global Imagens

Doze distritos do continente estão esta terça-feira, 10 de Março, sob aviso amarelo devido à previsão de agitação marítima e queda de neve, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Os distritos da Guarda e Castelo Branco estiveram sob aviso amarelo até às 03h00, por causa da queda de neve acima de 1400 metros de altitude.

Num comunicado, o IPMA alerta que a queda e acumulação de neve e a possível formação de gelo pode causar perturbação, dando como exemplo vias condicionadas ou interditas, danos em estruturas ou árvores, abastecimentos locais prejudicados.

Até às 06h00, estiveram sob aviso amarelo devido à agitação marítima os distritos de Aveiro, Porto e Braga.

Com o mesmo aviso e também devido à agitação marítima estão os distritos de Coimbra (até às 09h00), Leiria (até às 12h00), Lisboa (até às 13h00), Faro, Beja e Setúbal (até às 15h00).

O instituto prevê a ocorrência de ondas de noroeste, com entre quatro a 4,5 metros de altura.

O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

O IPMA prevê para hoje no continente, aguaceiros, em especial no Centro e Sul, que serão de neve nas terras altas, assim como formação de gelo e descida da temperatura mínima e subida da máxima.

As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 1 graus Celsius (na Guarda) e os 10 (em Faro) e as máximas entre os 9 (na Guarda) e os 17 (em Braga).

Diário de Notícias
DN/Lusa
10.03.2026

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