299: A farsa dos loucos e Portugal

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🇵🇹 OPINIÃO

Querem um exemplo concreto da relevância do multilateralismo entre estados que também protege as populações portuguesas e Ocidentais? Olhem para o caos no Médio Oriente com a resposta do Irão à Operação Fúria Épica e onde tudo isso esteve ausente desde o primeiro momento.

Num contexto em que a União Europeia tanto invoca a “autonomia estratégica” pretendida, seria expectável que, pelo menos os estados afirmassem, o primado do Direito Internacional e da diplomacia. Alguns fizeram-no. Portugal optou pelo silêncio administrativo. Algo que nos tornou perigosamente coniventes. Mesmo que de forma prudente, a União tenha apelado à contenção e à legalidade institucional. Fora desse espectro, até o Reino Unido que é o grande aliado dos americanos, foi contundente e não renunciou ao reflexo na utilização das suas bases.

Lê-se grande parte da opinião pública americana e europeia, e existe uma crítica com pouco ou nada de ideológico a esta investida e que sublinha aquilo que já se deveria ter aprendido com a História recente. As mudanças de regime não acontecem assim num país da dimensão do Irão e com as células terroristas que dali espoletam. Antes, têm tendência a reforçá-las e até a reacender o que estava adormecido.

Netanyahu é um carniceiro que pretende dizimar a região para distrair aquilo que recai sobre si e Trump, de forma quase idêntica, é alguém que despreza os serviços de inteligência, a diplomacia e tudo o que é aconselhável na cautela que se deve ter sobre aquela região. Não será um pormenor esta guerra ter sido iniciada por quem foi do lado Ocidental.

Com o tema da utilização da Base das Lajes e os EUA como Estado agressor, Portugal colocou-se à margem de um dos maiores desafios na relevância da UE: a reabilitação do multilateralismo e do Direito Internacional. Perdemos espaço para a crítica recorrente da falta de força política e de autonomia da União.

Como se poderá exigir isso a partir daqui? É verdade que o Governo Português não participa no ataque, mas politicamente a resposta é insuficiente em relação às Lajes. Nem nos enquadrámos de forma pragmática. Se é certo que provavelmente não corremos o risco de ser atingidos por um míssil, também o é que a guerra assimétrica pode vir a revelar-se por outros meios e aí a comprometer-nos.

Nada aprendemos com a História. O resultado da invasão do Iraque à margem culminou num país devastado, de uma instabilidade regional duradoura e do fortalecimento de dinâmicas extremistas que ainda hoje moldam o Médio Oriente.

No Afeganistão, duas décadas de intervenção resultaram num regresso ao ponto de partida, com mais de dois milhões de mortos e custos financeiros incalculáveis.

Mudanças de regime promovidas externamente, por mais tenebroso e sanguinário que seja o mesmo – e o do Irão é tudo do pior – produzem efeitos desastrosos. Ignorar essa memória colectiva é um luxo ao qual a Europa não se pode dar. Muito menos um Estado como Portugal. Ao evitar qualquer afirmação política, o Governo enfraquece a relevância portuguesa e contribui para aquilo que tem sobrado: uma UE sem peso estratégico.

Pequenos Estados não ganham influência pelo alinhamento subserviente, mas pela consistência dos princípios que defendem. Se queremos uma Europa com voz própria, temos de começar por exercê-la. Caso contrário, continuaremos a queixar-nos da fragilidade europeia enquanto voluntariamente, somos hoje o principal promotor.

Olhemos para o nosso vizinho e entendamos como se mantém a lucidez, os princípios, a realpolitik e a coluna num tempo de ignorância trumpista e em que a farsa dos loucos comanda.

Podemos ser mais do que isto.

Diário de Notícias
Gonçalo Ribeiro Telles
Comentador Político. Fundador e consultor de Comunicação na GRiT Communication & Political Risk
04.03.2026

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298: A guerra que nos cerca

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🇵🇹 OPINIÃO

What passing-bells for those who die as cattle?
– Only the monstruous anger of the guns.
Only the stuttering rifles’ rapid rattle
– Wilfred Owen
(1893 – 1918)

As nossas mentes e as nossas escritas conseguem alhear-se deste clima de guerra total que nos rodeia e envolve? A bem da nossa saúde mental, era bom que continuássemos a falar de outras coisas, a olhar para fora de nós e das notícias terríveis que hora a hora nos chegam e em que, crescentemente, “cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas” (Eugénio de Andrade).

A nossa época está a transformar-se numa daquelas épocas em que os tempos se transformam por cima das nossas vontades, quaisquer que elas sejam, e em que se procede a uma destruição selvagem e radical do que passámos décadas a acumular. Como se a guerra fosse a limpeza que fazem os donos da casa antes de mudar a mobília.

O nosso drama é que não sabemos quem são os donos da casa, nem que nova mobília querem trazer, porque os fins da guerra ultrapassam sempre as estratégias mais ou menos racionais que movem os líderes que são instigadores e agentes das guerras. Por isso, no final, os resultados são tão diferentes do que vencedores e vencidos tinham previsto!

Outra característica de todas as guerras é que duram sempre muito mais tempo do que o programado. Daí que nalguns casos sejam os militares, conscientes da insustentabilidade dos objectivos bélicos, a impor a paz aos poderes políticos; mas a situação inversa pode também registar-se.

No momento presente, verificamos uma grande indefinição nos propósitos finais desta guerra generalizada no Médio Oriente, além do objectivo claro e permanente, por parte dos Estados Unidos, de garantir a segurança de Israel, mesmo que o final tenha de ser como o da história bíblica de Sansão…

A Ucrânia e, por tabela, a Europa, arriscam-se a perder força e presença nesta conjuntura, em que o Médio Oriente vai claramente passar à frente do drama ucraniano.

A situação do povo iraniano é cruelmente paradoxal: a esmagadora maioria das pessoas qualificadas e educadas, fora da burocracia estatal, odeia a ditadura teocrático-militar que lhes foi imposta; mas não creio que, apesar de tudo, possam ver com agrado o seu país ser atacado e destruído por forças estrangeiras.

Não penso de todo que isso leve estas pessoas (e qual será o seu peso relativo na população iraniana?) a solidarizar-se com um regime que odeiam. Mas não vemos emergir uma alternativa consistente e organizada no seio da valente oposição daquele país.

Rumi, o grande poeta e místico sufi (1207 – 1273) dizia das guerras que elas tinham a consistência “das brigas das crianças”. Infelizmente, entre essa consistência e as consequências das guerras a distância é enorme e mortal.

Há um costume no Irão de ir junto ao túmulo do poeta Hafez (século XIV) e, abrindo ao acaso o livro dos seus poemas, procurar nele o guia para o nosso futuro. Quando lá estive, vi muitos jovens a procurar o seu futuro num poema de Hafez tirado ao acaso. Fiz o mesmo agora, ao terminar este artigo, e surgiu-me este poema, que vos transmito aqui, com os meus agradecimentos a Hafez, e dedicado ao bravo povo iraniano que luta pela sua liberdade:

Os guerreiros domaram
as bestas
Em seus passados para que os cascos das patas
da noite
Não pudessem mais
quebrar a visão
Ricamente ornamentada do coração.

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor
04.03.2026

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297: Figura do Dia. Actores pornográficos em escolas de crianças

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🇵🇹 OPINIÃO

O Ministro da Educação admite uma investigação ao que está a acontecer nas escolas públicas frequentadas por crianças e adolescentes. A reportagem no Público criou ondas de choque: 79 associações de estudantes, de escolas de norte a sul, pagaram a actores pornográficos e misóginos para animar a malta. As sessões levaram os alunos ao delírio e vários professores assistiram à performance de “machonitos” de tronco nu e cuecas a transbordar das calças.

A indignação obriga-me a um sorriso triste. Porque a maioria dos que se chocaram não faz ideia da música que os miúdos ouvem, dos influencers que os contaminam, da linguagem que usam, das referências que têm.

Artur Machado

Há centenas de escolas primárias, para não falar dos outros ciclos, em que as festas de final de período, incluindo o Natal, são feitas à base das músicas rascas que as crianças conhecem e consomem em casa. Música funk, com letras ordinárias, machistas, sexualizadas e altamente promiscuas.

Não sou moralista. Acredito no futuro e nas gerações dos meus filhos e futuros netos. No entanto, que não haja ilusões. Há uma multidão de miúdos que está a crescer sem referências. Lê pouco ou nada, está online em permanência e venera pessoas de quem nunca ouvimos falar, gente com milhares e milhares de seguidores que são populares por serem “manos muita-malucos e bacanos”.

Estamos chocados pelos idiotas que entram nas escolas dos nossos filhos com a autorização dos directores, mas ligamos pouco ou nada ao que nos trouxe até aqui.

Diário de Notícias
Luís Osório
04.03.2026

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296: Vento, agitação marítima e neve colocam vários distritos sob aviso

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // MAU TEMPO

Vários distritos de Portugal continental vão estar a partir de quinta-feira sob avisos devido à agitação marítima, vento e neve, informou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Mar agitado e vento forte na costa de Lagoa, ilha de São Miguel, devido à tempestade tropical Gabrielle (Lusa/ Eduardo Costa)
© TVI Notícias

Os distritos de Lisboa, Leiria e Coimbra vão estar com aviso amarelo entre a 21:00 de quinta-feira e as 03:00 de sexta-feira devido à agitação marítima, passando depois a laranja até às 19:00 de sexta-feira, prevendo-se ondas de noroeste com 05 a 6,5 metros de altura, podendo atingir os 11 metros de altura máxima.

Também por causa do estado do mar, o IPMA emitiu aviso amarelo para os distritos de Setúbal, Porto, Faro, Viana do Castelo, Beja, Aveiro e Braga entre as 21:00 de quinta-feira e as 19:00 de sexta-feira.

Porto, Faro, Setúbal, Viana do Castelo, Lisboa, Leiria, Beja, Aveiro, Coimbra e Braga vão estar também sob aviso amarelo entre as 00:00 e as 19:00 de sexta-feira por causa do vento forte com rajadas da ordem dos 70/80 quilómetros por hora.

O IPMA colocou também os distritos da Guarda e Castelo Branco sob aviso amarelo devido à queda de neve acima de 1.400/1.600 metros de altitude entre as 21:00 de quinta-feira e as 19:00 de sexta-feira.

A costa norte da ilha da Madeira e o Porto Santo estão até às 12:00 de hoje sob aviso amarelo por causa da agitação marítima, prevendo-se ondas de noroeste com 04 a 05 metros.

O aviso laranja é emitido pelo IPMA sempre que existe “situação meteorológica de risco moderado a elevado, e o amarelo quando há uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

CNN Portugal
Agência Lusa
04.03.2026

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295: Depressão Regina deixa as serras da Madeira pintadas de branco

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🇵🇹 PORTUGAL // MADEIRA // METEOROLOGIA

Temperaturas chegaram quase aos 3 graus negativos na terça-feira no Pico do Areeiro. Veja os vídeos registados por madeirenses e turistas nos pontos mais altos da ilha nos últimos dias.

A passagem da depressão Regina levou, na terça-feira, neve até às regiões montanhosas da ilha da Madeira, que estão agora pintadas de branco.

A estação meteorológica do Pico do Areeiro chegou ontem a registar -2.9ºC, a temperatura mais baixa do país na terça-feira.

O arquipélago da Madeira foi atingido pela depressão Regina, que, segundo as previsões, iria condicionar o estado do tempo até esta manhã.

As imagens partilhadas nas redes sociais mostram um manto branco nos pontos altos da ilha.

O Serviço Regional de Protecção Civil emitiu um aviso à população, alertando para a necessidade de adoptar uma condução defensiva, reduzindo a velocidade e tendo especial cuidado com a possível formação de gelo nas vias; não circular em vias afectadas pela acumulação de neve, respeitar as interdições dos acessos às zonas com neve e garantir que os sistemas de aquecimento dos veículos se encontram em bom estado de funcionamento.

Por outro lado, veículos pesados devem evitar circular naquelas vias, em particular articulados, veículos com reboque e veículos de tracção traseira.

A população deve também manter-se atenta às informações da meteorologia.

A Protecção Civil deu também conta das estradas que estão condicionadas.

A Polícia de Segurança Pública (PSP) anunciou que reforçou o patrulhamento nas zonas de maior altitude da região, “devido às baixas temperaturas e à queda de neve verificada nas últimas horas”.

“Vários acessos encontram-se encerrados por razões de segurança e a circulação está condicionada em algumas vias devido à formação de gelo e acumulação de neve”, lê-se numa publicação feita nas redes sociais na terça-feira.

À semelhança da Protecção Civil, também a PSP alerta para que sejam “evitadas deslocações para estas zonas enquanto se mantiverem as actuais condições meteorológicas, mesmo que as viaturas sejam consideradas preparadas”.

“A presença de gelo e o eventual bloqueio de vias podem colocar pessoas e veículos em situação de risco”, lê-se na mesma nota.

Quanto aos voos, o aeroporto da Madeira parece ter retomado a normalidade esta quarta-feira, depois de mais de 80 voos com partida ou destino para a ilha terem sido cancelados na terça-feira.

Notícias ao Minuto
Tomásia Sousa
04.03.2026

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294: O dilema de Rangel nas Lajes

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🇵🇹 OPINIÃO

A utilização da Base das Lajes para o reabastecimento de aviões norte-americanos a caminho do Médio Oriente, para apoiar as operações contra o Irão, voltou a colocar Portugal no centro de uma polémica sensível. Especialistas contestam a versão do ministro dos Negócios Estrangeiros e defendem que os Estados Unidos precisariam de autorização explícita para usar a base no âmbito de uma ofensiva militar.

O ministro argumentou que nenhum aparelho que tenha passado pelas Lajes foi utilizado no ataque, mas terão sido usados em funções de reabastecimento, o que significa que Portugal terá facilitado a intervenção norte-americana e israelita. E isso tem consequências políticas.

O problema é que esta não é uma questão de resposta simples. Em teoria, Portugal poderia recusar o uso da base, como prevê o tratado assinado nos anos 50. Mas, na prática, uma recusa colocaria em causa uma aliança que, desde há décadas, contribui para a nossa segurança e para a preservação da nossa integridade territorial. É aqui que a política externa deixa de ser um exercício académico e passa a ser um confronto com a realidade.

A cedência da base na Terceira nasceu no contexto da Guerra Fria, numa altura em que os Estados Unidos procuravam apresentar-se como uma potência democrática e pós-colonial, distinta dos antigos impérios europeus e guiada por valores que sustentavam a sua ambição de liderar o “mundo livre”. O acordo foi assinado entre estados soberanos que, no papel, se tratavam como iguais. Mas Salazar sabia que a recusa das pretensões norte-americanas poderia pôr em risco a sobrevivência do Estado Novo e até a integridade territorial do país.

A memória da Segunda Guerra Mundial estava demasiado presente: em 1943, as potências anglo-saxónicas deixaram claro que poderiam ocupar os Açores, se necessário, como fizeram na Gronelândia e na Islândia, se Portugal não permitisse a sua utilização. Além disso, desde a Restauração, Portugal sempre procurou manter uma aliança com a potência marítima dominante, para garantir a sua independência e preservar o império colonial.

“A margem jurídica para rejeitar a utilização da base existe, mas a margem estratégica é estreita. A decisão de Rangel é um exercício de equilíbrio entre a autonomia política e a dependência estrutural do país.”
Igor Martins

Setenta anos depois, o mundo mudou, o país democratizou-se e o império desvaneceu-se, mas a nossa geografia continua a ser a mesma. Portugal é um pequeno país atlântico, responsável por uma vasta área oceânica que inclui dois arquipélagos e recursos submarinos ainda pouco explorados. Por estas águas passam rotas essenciais do comércio marítimo internacional.

Ao contrário de países europeus com grande profundidade continental, Portugal não tem o luxo de poder dispensar uma relação estreita com a principal potência marítima. E esta tem dado sinais de que está disposta a contornar a ordem internacional construída no pós-guerra e a regressar a lógicas de competição imperial, chegando a admitir a anexação de territórios alheios, como se viu na Gronelândia.

É verdade que não estamos sozinhos, dado que Portugal integra a União Europeia, mas trata-se de uma construção recente e de futuro incerto. A geografia, porém, não muda. Com ou sem União Europeia, Portugal vai ser sempre um país marítimo e os EUA vão permanecer a grande potência do Atlântico Norte.

É neste contexto que qualquer governo português tem de decidir se autoriza ou não o uso das Lajes. A margem jurídica existe, mas a margem estratégica é estreita. A decisão nunca é apenas técnica ou legal. É, acima de tudo, um exercício de equilíbrio entre autonomia política e dependência estrutural, num mundo em que a geografia e o poder continuam a pesar mais do que as declarações formais.

Diário de Notícias
Filipe Alves
Director do Diário de Notícias

04.03.2026

Ainda sobre as constantes agressões ao Direito Internacional e à Carta das Nações Unidas por parte de psicopatas terroristas que não possuem o mínimo respeito pelos valores humanos, voltámos à Idade da Pedra.

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