464: Portugalidade vs. Prosperidade

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🇵🇹 OPINIÃO

Pelo Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República e o primeiro-ministro escolheram o Luxemburgo para celebrar o país, a diáspora e a identidade nacional. A escolha foi simbolicamente poderosa. Mas talvez tenha sido, involuntariamente, reveladora de uma contradição política que Portugal insiste em não enfrentar. Há algo de profundamente desconfortável em celebrar o patriotismo português perante uma comunidade que teve de sair do país para alcançar prosperidade, estabilidade e reconhecimento profissional.

Durante dias ouvimos discursos sobre orgulho nacional, pertença, memória e ligação afectiva à pátria. Tudo isso tem importância. Mas o patriotismo político não pode reduzir-se a uma liturgia emocional sem consequência material. Não pode limitar-se à evocação sentimental de Portugal, enquanto o próprio país continua incapaz de oferecer a muitos portugueses as condições mínimas para construírem uma vida digna dentro das suas fronteiras. E o Luxemburgo torna essa evidência impossível de disfarçar.

Num país, o salário mínimo ultrapassa os 2700 euros; no outro, permanece nos 920 euros. Num país, o trabalho permite autonomia e mobilidade social; no outro, uma parte crescente da população trabalha sem conseguir escapar à precariedade habitacional, à asfixia fiscal e à estagnação salarial. Mais perturbador ainda: o cabaz alimentar essencial custa praticamente o mesmo nos dois países. Esta comparação deveria ter dominado o debate político nacional. Mas quase não foi mencionada.

Porque ela expõe aquilo que sucessivos governos preferem evitar: o problema estrutural de Portugal não é a falta de talento, nem de esforço, nem sequer de patriotismo. O problema é a incapacidade persistente do Estado e da economia portuguesa para transformar trabalho em prosperidade.

As comunidades portuguesas no Luxemburgo são, por isso, simultaneamente motivo de orgulho e prova de falhanço nacional. Orgulho, porque revelam a extraordinária capacidade de adaptação, disciplina e mérito dos portugueses. Falhanço, porque demonstram que esse potencial continua demasiadas vezes a florescer apenas fora de Portugal.

Camões escreveu sobre um povo movido pela ambição do impossível: porém, talvez a maior tragédia contemporânea portuguesa seja esta, a de continuarmos a exportar os nossos melhores recursos humanos e depois celebrarmos essa diáspora como se ela fosse apenas uma expressão romântica da Portugalidade.

O Dia de Portugal não pode servir apenas para enaltecer símbolos, afectos ou memórias históricas. Tem de servir para uma reflexão séria sobre o estado do país. Sobre o empobrecimento relativo da classe média. Sobre a incapacidade de fixar talento. Sobre uma economia que há décadas cresce insuficientemente para reter aqueles que mais investiram na sua qualificação.

Porque o patriotismo verdadeiro não consiste apenas em amar o país. Consiste em construir um país onde as pessoas possam permanecer sem serem obrigadas a escolher entre identidade e prosperidade.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
10.06.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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463: O Dia de Camões

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🇵🇹 OPINIÃO

Que melhor programa para o nosso Dia Nacional, consagrado a um grande poeta, que um percurso pela Feira do Livro, ao encontro da melhor poesia e da melhor literatura?

É certo que os livros de venda mais assegurada (os best-sellers, os infanto-juvenis, os curandeiros das almas) cada vez ganham mais espaço e relevo, o que torna um pouco menos fácil (mas de forma alguma impossível) encontrar o que de bom se escreve e publica no nosso país. Há muita coisa a ver, a ler, a reler, e mesmo se o que mais nos interessou este ano já o comprámos em livraria, vale a pena correr os pavilhões das editoras e os pavilhões dos alfarrabistas, pois sempre estará à nossa espera um livro sonhado ou uma inesperada descoberta.

Dediquemos então um pensamento a Camões. António Gonçalves, impressor, foi o editor da 1.ª edição dos Lusíadas, devidamente aprovada a sua publicação pela Santa Inquisição, com critérios de suspeita abertura ao erotismo fervente de alguns episódios, o que não deixou de ser veementemente criticado poucos anos mais tarde por um pudibundo prelado de Coimbra, que todavia falhou no seu intento de proibir as escandalosas estrofes.

Era assim a vida dos editores naqueles tempos, tal como aliás em tempos bem próximos do nosso e que, para alguns, são saudosos. No meu tempo de escola, essas estrofes eram simplesmente desaconselhadas, pelo que, naturalmente, eram as primeiras a ser lidas pela nossa curiosidade adolescente: o magnífico Canto Nono.

Como trabalharia o editor António Gonçalves? Sabemos que uma contrafacção do livro foi imediatamente apresentada, com os pelicanos com o bico ao contrário (Rita Marnoto introduziu novas ideias sobre essa misteriosa rotação dos pelicanos). E sabemos mais: que o êxito do poema em Espanha foi imediato e que o nosso poeta foi considerado “o príncipe dos poetas das Espanhas”, nos tempos da monarquia dual dos Filipes.

Uma feira do livro será também uma boa ocasião para reencontrar Camões. Mas por que não ir ao encontro de toda a poesia, quer da nossa língua, quer traduzida, que encontraremos um pouco atrás, timidamente atrás, nas bancas das editoras, mas que lá estará presente, com as suas múltiplas vozes e  composições? Os clássicos, sim, incluindo os mais esquecidos, mas também os mais recentes, os que ousaram “penetrar surdamente no reino das palavras” onde “estão os poemas que esperam ser escritos”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, e enfrentar toda a grande poesia que os antecedeu.

Mais do que geral, a nossa língua é infinitamente particular, e não deve ter vergonha de se chamar português, como os americanos não têm vergonha de falar inglês e os canadianos do Québec não têm vergonha de falar francês. Os muitos falares do português contemporâneo e os mais que surjam no futuro só robustecem a nossa língua comum e partilhada, que não é geral, tem um nome de nascimento, um nome que vai guardando nas suas metamorfoses.

Vamos à Feira do Livro no Dia de Camões. Encontraremos escritas várias e plurais, sós e mudas em estado de livro impresso, que esperam apenas que um leitor as venha acordar, palavras como belas adormecidas à espera do seu príncipe. O leitor é o príncipe das suas leituras. E a nossa experiência de vida e conhecimento das coisas estará sempre incompleta e meio vazia sem esses encontros mágicos com a literatura, decisivos para a nossa formação humana.

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Embaixador jubilado e escritor
10.06.2026

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