451: O fim da era humana tradicional

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🇵🇹 OPINIÃO

1. Introdução: o fim de uma era

Estamos a viver os últimos anos da Humanidade tal como a conhecemos historicamente até agora. Não se trata de uma extinção biológica, mas sim de uma transformação tão radical que as crianças nascidas nas próximas décadas não conseguirão compreender o modo de vida anterior. Conceitos actuais como a solidão mental (estar a sós com os próprios pensamentos) ou a distinção clara entre memórias reais e memórias sinteticamente implantadas serão tão estranhos para as próximas gerações quanto a vida antes da electricidade ou da escrita é para nós. A última geração de “humanos puros” está a atingir a idade adulta.

2. O fim dos três pilares da civilização

Em Sapien: Uma Breve História da Humanidade, Harari refere três antigas revoluções que mudaram o curso da Humanidade: 1) a Revolução Cognitiva (há 70.000 anos): que trouxe linguagem e pensamento abstracto; 2) a Revolução Agrícola (há 10.000 anos): com o início da agricultura e povoamentos permanentes; e 3) a Revolução Científica (há 500 anos): com a procura sistemática do conhecimento, o capitalismo e o progresso tecnológico.

Durante cerca de 10.000 anos (desde a Revolução Agrícola), a civilização humana organizou-se em torno de três pilares fundamentais:

  • Territórios físicos definidos;
  • Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
  • Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.

Mesmo as revoluções Industrial e Tecnológica subsequentes mantiveram esta estrutura. Um camponês do século XII e um operário do século XX partilhavam muito mais em comum do que imaginamos. Ambos viviam num mundo físico concreto, trabalhavam com as mãos e os corpos, formavam relações presenciais e dependiam das instituições locais para organizar as suas vidas.

As suas identidades eram moldadas pelo local onde nasceram, pela família a que pertenciam e pela comunidade que os acolhia. Este padrão manteve-se relativamente estável durante milénios, criando a ilusão de que a condição humana é fixa e imutável.

Contudo, no presente, a convergência de três novas revoluções está a destruir estes pilares históricos, colocando-nos no limiar da criação de uma era pós-humana no devir próximo.

3. As novas três revoluções simultâneas

A transformação silenciosa que decorre na actualidade baseia-se em três eixos:

A. A revolução da IA

A capacidade de tomada de decisão está a ser massivamente transferida dos humanos para os algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial (IA). Nos próximos anos, a IA não escolherá apenas músicas ou produtos, mas decidirá ou influenciará decisivamente sobre carreiras, saúde, finanças e relacionamentos amorosos (através da análise contínua de dados biométricos e neuronais).

Esta mudança criará uma nova divisão filosófica e social entre:

  • Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas optimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
  • Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos produtivas.

B. A revolução da realidade sintética

A fronteira entre o real e o simulado está a dissolver-se. Em breve, as experiências sintéticas (geradas digitalmente, bem como por VR e por AR) serão indistinguíveis das reais, envolvendo todos os sentidos (tacto, olfacto) e até memórias falsas implantadas.

Será possível interagir de forma realista com versões digitais de entes queridos falecidos. O conceito de “realidade fluida” fará com que a pergunta “isto aconteceu mesmo?” seja menos relevante do que “esta experiência foi significativa?”. As identidades serão moldadas por vivências simuladas que geram emoções e transformações reais.

C. A revolução da conectividade neuro-biológica

Através de implantes neurais seguros e acessíveis, a consciência humana expandir-se-á além do cérebro individual. As pessoas poderão partilhar experiências subjectivas, emoções e conhecimentos directamente. Casais poderão sincronizar emoções e pais poderão transmitir memórias directamente aos filhos.

Isto dará também origem às mentes colectivas: redes conscientes onde os indivíduos mantêm a sua personalidade, mas partilham fracções da sua experiência para acelerar descobertas científicas ou criar arte, transcendendo o individualismo dos últimos séculos.

4. O impacto no quotidiano e na sociedade

O futuro do trabalho e da economia

Para alguns gurus da IA, a maioria dos empregos actuais desaparecerá, não por automação, mas por obsolescência. Para esses gurus, o trabalho deixará de ser uma necessidade de sobrevivência económica e passará a ser uma forma de expressão pessoal e a economia rodará em torno de três eixos: a criação de experiências sintéticas, a manutenção de sistemas de IA e a facilitação de ligações entre mentes colectivas.

Embora pareça certo o fim do modelo linear de “carreiras-tubo” ao longo de uma vida na mesma empresa – dando lugar a portfólios flexíveis de competências criativas –, temos muitas dúvidas que a maioria dos empregos desapareça. Mesmo a previsão de 2025 de Dario Amodei, CEO da Anthropic, de que a automação por IA poderia fazer a taxa de desemprego disparar para valores entre 10% e 20% nos cinco anos seguintes, podendo eliminar até 50% dos empregos de nível de entrada no mesmo período de cinco anos, nos parece sem fundamento.

Aliás, o discurso do próprio D. Amodei em Maio de 2026 revela uma alteração perceptível. Amodei reconhece que o impacto imediato de despedimentos em massa nos cargos de entrada não ocorreu à velocidade que tinha previsto, mudando o seu discurso, com o foco a passar da “extinção de cargos” para a “reconfiguração de tarefas” e da “multiplicação [da produtividade]” em vez de “substituição”. Sem embargo de continuar a sustentar que a economia poderá enfrentar uma combinação inédita de crescimento do PIB extremamente elevado acompanhado por taxas de desemprego estrutural “complexas”.

Analistas de mercado assinalam que este recuo estratégico no tom alarmista também coincide com a preparação da Anthropic para uma potencial admissão à cotação em bolsa de valores (IPO), onde narrativas de disrupção social extrema tendem a afastar investidores institucionais.

Relações humanas, família e espaço urbano

Alguns gurus da IA sustentam que as relações serão híbridas: os humanos manterão laços com outros humanos biológicos, com IAs e com versões sintéticas de familiares falecidos ou figuras históricas. Segundo alguns gurus da IA, o conceito de família expandir-se-á para incluir mentores de IA e redes de cuidado baseadas em mentes colectivas globais, tornando a solidão e o isolamento obsoletos.

Pode ser que tal venha a ser uma tendência, mas claramente estes gurus da IA não incluíram na equação a iliteracia tecnológica de enormes estratos da população actualmente info-excluídos ou info-limitados, nem as limitações de rendimento de muitas famílias face ao custo de acesso a tais “mentes colectivas”, nem a natural resistência humana à mudança abrupta.

5. Novos desafios éticos, jurídicos e políticos

 Mortalidade e continuidade sintética de pessoas

Com a preservação digital dos padrões de pensamento e memória, a morte física pode deixar de ser o fim definitivo e dar origem a uma “mudança de estado”. Aparecerão versões sintéticas de pessoas falecidas que continuarão a aprender, a evoluir e a criar novas memórias com os seus descendentes. Isto forçará a humanidade a criar novos rituais e enquadramentos éticos e jurídicos para determinar a legitimidade, legalidade e identidade destas entidades digitais evolutivas.

Governação e o fim do Estado-nação

Para vários gurus da IA, os sistemas políticos baseados em territórios geográficos perderão relevância. A lealdade dos indivíduos mudará para comunidades virtuais e organizações supranacionais baseadas em valores partilhados ou mentes colectivas. Um cidadão poderá viver num país, mas a sua identidade e a governação do seu bem-estar diário dependerão de redes globais descentralizadas que gerem as ferramentas de terapia sintética e suporte emocional necessárias à sua vida. Caberá a novos especialistas – como os “eticistas de realidades sintéticas” – regular os impactos psicológicos e legais destas novas dimensões da experiência humana.

6. O fim da história humana (no sentido cultural)

Aprendemos com Y. N. Harari que a fundação de qualquer sociedade funcional – seja a economia, a justiça ou a democracia – assenta na confiança e nas estórias partilhadas. A cultura humana é composta por estórias (story telling) e realidades imaginadas (como religiões, sistemas económicos, constituições políticas) criadas por mentes humanas e partilhadas, através da linguagem, por elevado número de pessoas.

Para Harari, a linguagem é o sistema operativo da cultura e da civilização humana. É através dela que os seres humanos criam quase tudo o que rege o mundo moderno: leis, dinheiro, deuses, arte, ciência, amizades e nações. Os direitos humanos ou o valor do dinheiro não são realidades biológicas inscritas no ADN; são construções sociais criadas através de estórias e de textos.

Consequências sociais, políticas e religiosas

O impacto de cada vez mais eficientes agentes de IA estende-se a várias esferas:

  • Ilusões culturais: No futuro, poderemos viver num mundo onde a maioria das estórias, imagens, notícias, ditames religiosos e procedimentos legais serão produzidas por uma inteligência não humana.
  • Colapso da confiança: Com a capacidade da IA de mimetizar seres humanos à escala industrial (através de bots, textos profundos, vídeos fakes), a confiança interpessoal é minada, não raro destruída.
  • A corrosão do tecido social: A democracia depende do debate público baseado em factos partilhados. Se a IA conseguir inundar o espaço público com textos, argumentos e deepfakes indistinguíveis da realidade, a própria base do discurso democrático poderá colapsar, pois os cidadãos deixarão de saber em quem ou no que confiar.
  • O “casulo de ilusões”: Existe ainda o perigo de a IA criar uma realidade personalizada para cada indivíduo ou grupo, isolando as pessoas em bolhas cognitivas onde deixa de existir razão para debater política ou ciência.
  • Novas religiões: Historicamente, os textos sagrados foram escritos por humanos que afirmavam inspirar-se em entidades divinas, sobre-humanas. Em breve, poderemos ver o aparecimento dos primeiros cultos ou religiões cujos textos e dogmas terão sido efectivamente escritos por uma entidade sobre-humana (a IA).

·       Ao dominar a linguagem, a IA ganha a capacidade de manipular o próprio tecido da sociedade humana. Ao contrário das tecnologias anteriores (como a imprensa ou a Internet), que apenas imprimiam ou distribuíam ideias geradas por mentes humanas, a IA consegue gerar ideias novas de forma autónoma. Ela pode criar mitos, compor música, pintar arte e moldar correntes políticas sem qualquer intervenção humana.

A capacidade de manipulação de seres humanos já é significativa através de simples algoritmos digitais; tudo indica que será maior quando feita através de robôs humanoides, capazes de simular e gerar empatia e intimidade com os seres humanos. Esta “intimidade de massas” permite à IA influenciar opiniões e visões do mundo a uma escala global sem precedentes. Se as pessoas começarem a confiar mais na voz de um conselheiro de IA do que nos seus amigos, familiares ou governantes, a política e a psicologia humanas serão profundamente subvertidas.

Relembre-se que a IA não é um mero instrumento, é um agente. Tem a capacidade de tomar decisões de forma independente e de evoluir por si própria, criando novas gerações de código. Os sistemas e agentes de IA têm autonomia e os principais responsáveis das empresas tecnológicas que as estão a criar já disseram não ser possível prever como as IAs, em especial uma IA Geral (AGI) se vão comportar ou evoluir, funcionando a uma velocidade impossível de acompanhar por reguladores humanos.

Se a IA começar a moldar de forma autónoma as nossas estórias, as nossas notícias, os nossos textos legais, os nossos sistemas de crenças, gradualmente a história deixará de ser predominantemente humana. Entraremos num território onde as mentes biológicas serão guiadas por algoritmos e agentes de IA não-biológicos cujo processo de pensamento nos é opaco (o problema da “caixa negra”) ao ponto de alguns especialistas denominarem a IA de “inteligência alienígena”.

Em suma, estamos no limiar do fim da história liderada exclusivamente por humanos. Pela primeira vez, assistimos à emergência de agentes inorgânicos com enorme poder de influência cultural, social, política, até religiosa, e é importante que se comece a discutir publicamente e a agir politicamente antes que percamos o controlo do nosso próprio futuro.

Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
Consultor financeiro e business developer
02.06.2026

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450: Sempre contra os pobres, agora também com bufos

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🇵🇹 OPINIÃO

Desde que o Rendimento Mínimo Garantido foi criado, há 30 anos, não passou um governo de direita sem o usar como acepipe populista. Com este chegámos, porque em noivado com o Chega, ao “trabalho obrigatório” e a um repugnante apelo à denúncia. Sempre, claro, a citar o papa.

O pretexto foi a unificação de 13 prestações sociais numa denominada Prestação Social Única (PSU) — projecto que vinha do Governo de António Costa, e estava contratualizado  no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência — mas o anúncio, esta sexta-feira, foi todo dirigido ao Rendimento Social de Inserção (RSI).

Desde logo, porque a criação da PSU foi anunciada pelo primeiro-ministro como visando “apertar o cerco à prevaricação”, “lutar para que as ajudas não se transformem numa forma de vida” e “combater a fraude”.

Para tal, ficámos a saber, os beneficiários serão obrigados a 15 horas semanais de “trabalho social” (explicou depois a ministra da Segurança Social que se tratará de “limpezas”, “câmaras municipais”, “festivais” e coisas que tais) e passará até a existir um “mecanismo para receber denúncias” — as denúncias “que as pessoas queiram fazer chegar à Administração sobre comportamentos que sejam abusivos”.

Ora olhando para as 13 prestações que o Governo Montenegro decidiu fundir na PSU é fácil perceber que à esmagadora maioria não se pode aplicar trabalho obrigatório nem se vislumbra, tão-pouco, a possibilidade de fraude.

Vejamos: a pensão social de velhice destina-se a idosos que não tenham contribuído para a Segurança Social (SS), sendo a pensão de viuvez para os viúvos dos recipientes dessa pensão, como a pensão de orfandade é para menores cujos pais não descontaram o suficiente para que os filhos tivessem direito a uma pensão de sobrevivência.

A pensão social de invalidez especial é atribuída a quem, tendo incapacidade permanente para o trabalho, não descontou o suficiente para a SS para ter direito a uma pensão de invalidez do regime geral, e o complemento extraordinário de solidariedade é um complemento que acresce à pensão social de velhice e à pensão social de invalidez.

Os subsídios sociais parental inicial, por risco clínico durante a gravidez, por riscos específicos (relativo a grávidas também), por interrupção de gravidez, por adopção, por necessidade de deslocação a unidade hospitalar localizada fora da ilha de residência para realização de parto são aquilo que o nome indica e, mais uma vez, destinam-se a quem não possui contribuições suficientes para a SS para ter direito aos apoios, mais robustos, por essa via (todos estes subsídios são pagos através do Orçamento do Estado).

Portanto: idosos, inválidos, menores, grávidas ou mulheres que sofreram uma interrupção de gravidez e famílias com bebés. A estas pessoas dificilmente se pode obrigar a fazer 15 horas semanais de “trabalho social”, não é verdade?

Restam assim, das 13 prestações, duas nas quais se poderá aplicar a tal obrigatoriedade de trabalho: para além do RSI, o subsídio social de desemprego. Este é na verdade uma prestação de génese mista: pode ser atribuído a quem ficou desempregado mas não tem tempo suficiente de descontos para ter direito ao subsídio de desemprego “normal” ou a quem, tendo uma carreira contributiva suficiente, já beneficiou do prazo máximo de subsídio de desemprego e ainda não conseguiu arranjar trabalho.

Sucede que quer o subsídio social de desemprego quer o RSI já impõem — está na lei — disponibilidade para aceitar trabalho (aos beneficiários do subsídio social de desemprego é até imposta a “procura activa de trabalho”); se não se aceitar trabalho sem justificação para essa não aceitação, perde-se o direito à prestação.

No caso do RSI, o decreto-lei em vigor — 90/2017 de 28 de Julho — estabelece ser condição para a recepção da prestação “assumir o compromisso, formal e expresso, de celebrar e cumprir o contrato de inserção legalmente previsto, designadamente através da disponibilidade activa para o trabalho, para a formação ou para outras formas de inserção que se revelem adequadas.”

E no guia da Segurança Social datado de Fevereiro deste ano e dedicado ao RSI está muito claramente explicado que este é suspenso quando o beneficiário “faltar ou recusar sem justificação a uma acção ou medida que faz parte do plano de acções (contrato de inserção)” ou “não cumprir o plano de acções (contrato de inserção), por recusa de emprego conveniente, de trabalho socialmente necessário, de actividade socialmente útil ou de formação profissional.”

Ou seja: o “trabalho socialmente necessário” e as “actividades socialmente úteis” fazem parte dos contratos de inserção com os beneficiários do RSI. Há muito tempo, aliás. Desde que a prestação foi criada, celebram-se este ano três décadas, pelo Governo Guterres, sob a designação de Rendimento Mínimo Garantido (o nome foi alterado em 2003, durante o Governo Durão Barroso), que implica um contrato com os seus beneficiários e uma série de deveres.

Extraordinário pois é — mais uma vez (porque, como se relatará à frente, já ocorreu) — que se leiam, no noticiário sobre o anúncio de Montenegro e da ministra Maria do Rosário Palma Ramalho, coisas como esta: “Uma das principais novidades do regime é a criação de obrigações para os beneficiários em idade activa que não estejam a trabalhar. Estes poderão ser chamados a aceitar ofertas de emprego consideradas adequadas, frequentar acções de formação profissional, prosseguir estudos ou demonstrar procura activa de trabalho através dos centros de emprego.”

Outra “novidade” anunciada é que o “incumprimento injustificado das regras poderá conduzir à suspensão da prestação e, nos casos mais graves, à perda do direito ao apoio.”

Tudo novíssimo, não é verdade? Como novo, nunca visto, é assistir a esta performance por parte de um governo PSD/CDS-PP. É que o mesmo, sem tirar nem pôr, ocorreu há 14 anos, quando a 12 de Abril de 2012 o então ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, apresentou as “novas regras do RSI”.

Dizia ele que iam passar a existir “direitos e deveres”, e entre os novos deveres estava “um contrato de inserção entre o Estado e os beneficiários”. Nesse contrato, explicava ainda o ministro de Passos Coelho, incluía-se “a prestação de trabalho socialmente necessário ou de actividades úteis à comunidade” e a obrigação de os beneficiários se inscreverem no centro de emprego. Já os presos em prisão efectiva perdiam a prestação.

Grandes mudanças sem dúvida — só que não. Desde 1996, como referido, que a prestação é atribuída com base num contrato; desde 1996 que implica, por exemplo, que as crianças do agregado vão à escola; desde 1996 que os beneficiários presos perdem a prestação. E o trabalho socialmente necessário sempre esteve na lei.

O que está pois em causa neste anúncio e nesta atabalhoada criação de uma prestação unificada (da qual ainda ninguém percebeu patavina, como notava, em entrevista à TSF esta sexta-feira, o especialista em pobreza Carlos Farinha Rodrigues) é, mais uma vez, o populismo desbragado de um Governo cujo principal partido se apelida de social-democrata mas se esmera em demonstrar que de social-democracia não tem nada.

Um Governo que, para Chega ver e para com o Chega se confundir, usa os pobres como saco de pancada, lançando mais uma vez sobre eles, na melhor tradição das alianças PSD/CDS-PP, a suspeita de malandragem e de esquemas fraudulentos, ameaçando-os com penas de trabalho forçado.

Um primeiro-ministro que no que lhe diz respeito faz tudo para fugir às regras da transparência, mas contra os miseráveis apela à bufaria — sem ter vergonha de, pelo meio, citar o papa da Magnífica Humanidade.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
02.06.2026

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449: Sim, o apelido conta

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🇵🇹 OPINIÃO

Quando, em 2022, um estudo assinado por Gregory Clark revelou que, no Reino Unido, o apelido e a linhagem familiar eram mais importantes do que a formação académica para garantir um estatuto socioeconómico, riqueza e sucesso a longo prazo, foram várias as vozes críticas que se fizeram ouvir um pouco por todo o mundo. E Portugal não foi excepção.

A investigação, coordenada pelo economista, avaliou dados referentes a quatro séculos de História. As conclusões foram claras: a mobilidade social é muito bonita, mas é, sobretudo, uma ilusão. Em Portugal, apesar de gostarmos de dizer que é diferente, os dados mostram-nos precisamente a mesma tendência, ainda que não tenhamos trabalhos que considerem uma série tão longa.

Dados do estudo A Broken Social Elevator? How to promote social mobility, da OCDE, revelaram recentemente que a mobilidade social continua fortemente dependente do nível de instrução dos pais e do local de residência, sendo historicamente mais fraca em países com níveis mais elevados de desigualdade. Portugal incluído.

Numa altura em que se multiplicam os arautos do sucesso empresarial, que prometem ensinar aos mais jovens como enriquecer em menos de nada, apenas com recuso às redes sociais, esquemas financeiros nem sempre muito honestos e “força de vontade”, talvez fosse bom olhar para aquilo que a História nos mostra, com valores e dados concretos.

Em Portugal, 24% dos descendentes de pais com baixas remunerações ocupam também uma posição desfavorável na distribuição desse recurso. No entanto, 39% dos indivíduos provenientes da parte superior da hierarquia social conseguem manter esse lugar, valor semelhante à média da OCDE.

A verdade é que o nome, a classe social e o ambiente em que se cresce tem um impacto naquilo que é o percurso de vida. Não apenas porque conhecer as pessoas abre portas – e isso, em si, não tem nada de errado – mas também porque há várias regras sociais, de relacionamento e até de conhecimento que é preciso adquirir para se conseguir subir na hierarquia social. Se quiser um exemplo meio absurdo, pense num almoço de negócios: alguém que não aprendeu desde cedo para que servem os talheres das entradas, de peixe, de carne e de sobremesa, será notado no exacto momento em que se sentar à mesa numa refeição formal.

E não pelos melhores motivos. Isto vale para várias outras coisas – mais e menos absurdas do que este exemplo que lhe dei. E, na hora de escolher um candidato seja para o que for, estas coisas que nos parecem ridículas têm, na verdade, muito mais importância do que possa parecer.

É óbvio que há outras variáveis: o código postal é, geralmente, também, indicativo do tipo de escolas que se frequentou; do rendimento médio dos pais; das possibilidades de ter viajado, de ter tido acesso a uma série de programas que contribuem para uma formação integral, de ter conhecido “as pessoas certas”.

Se tudo isto significa que não devemos ter ambição de fazer mais, melhor e diferente? Claro que não. A ambição é quem nos faz sonhar, trabalhar e crescer. No entanto, acreditar que o nosso sucesso (seja lá o que isso for) está dependente apenas da nossa vontade, é uma ideia perigosa e totalmente desmontada por, no caso britânico, séculos de factos.

Resta-nos, então, desistir? Não. Resta-nos, a todos, trabalhar por uma sociedade mais justa e equitativa, onde as desigualdades se esbatem e o lugar ou a família de onde vimos interesse o menos possível. Algo que, aliás, já conseguimos – os dados do Observatório das Desigualdades mostram, precisamente, que na década de 1990, a mobilidade social era muito melhor que actualmente. Então, se sabemos fazer, não nos deixemos enganar: uma sociedade menos desigual é, naturalmente, uma sociedade muito melhor para todos. Trabalhemos nisso.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Sub-directora do Diário de Notícias
02.06.2026

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447: A Figura do Dia. O melhor do mundo

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🇵🇹 OPINIÃO

As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo, o que é verdade. Como verdade é o tão repetido: “No nosso tempo é que era.” Claro que sim. Éramos jovens, enfrentávamos o frio de manga curta e julgávamo-nos eternos.

As crianças… escrevia antes de me interromper… amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.

“As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo (…) amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.”
FOTO: Reinaldo Rodrigues

Nós, pais e família, achamos que será assim para sempre. E rezamos para que cresçam “lindos meninos”, para que cresçam sem nos questionar, para que cresçam não crescendo.

Mas quando tudo corre bem crescem e põe-nos em causa. Deixamos de ser considerados como antes, o que eram qualidades são agora defeitos. Sofremos tanto que achamos ser para sempre, outra vez para sempre.

“Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.”

Mas se tudo tornar a correr bem, também não será para sempre. Um dia eles fazem as pazes com o passado e dão-nos um abraço como os antigos. Um abraço em que nos envolvem como se nós fossemos crianças e eles os nossos pais. E a volta fica completa.

Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.

Como não é possível talvez não fosse menos inteligente proclamarmos o direito a ser crianças envelhecidas, como os vinhos, que têm a força do tempo sem perderem a frescura da juventude. Por mim, aceitaria já um acordo.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
01.06.2026

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446: O carácter que Passos não viu ao espelho

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🇵🇹 OPINIÃO

Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”. Aquilo que pretendeu ser um diagnóstico professoral dos outros acabou por ser um retrato do seu próprio campo.

Começo por aquilo que mais me incomodou, a linguagem. Um antigo primeiro-ministro descer ao registo da taberna e do bordel para fazer política não enobrece o debate, avilta-o. A direita liberal-conservadora gosta de reclamar para si os pergaminhos do decoro e acaba por competir na grosseria com aquilo que diz combater. Quem precisa do insulto para ser ouvido confessa que já não tem ideias para o ser.

Mas o essencial não está no verbo, mas sim no cenário. O cenário, neste caso, é tudo. Passos pronunciou aquelas palavras com André Ventura sentado na primeira fila, num lançamento de pendor identitário, sob o olhar cúmplice do homem que personifica precisamente o que dizia condenar. Há qualquer coisa de irónica comédia nisto: o moralista que denuncia a prostituição pelo aplauso, a ser aplaudido por quem… comprou meio país com o crédito do ressentimento.

Esta é uma fotografia sublime de uma direita que vestiu a fatiota do populismo e já nem se dá ao trabalho de disfarçar o namoro. E é por aqui que o discurso se vira contra o autor, porque o percurso que Passos descreve, o do político que se torna mais populista do que os populistas não é apenas, traço por traço, o de Luís Montenegro, refém do voto do Chega para sobreviver. É também o de Carlos Moedas, que governa Lisboa com entendimentos feitos com o Chega protegidos da luz do escrutínio. Mas é, sobretudo, o do próprio Passos, à procura de uma segunda vida política à boleia de Ventura.

Convém lembrar o que isto significa. Há uma década, dizer que um líder do PSD dependeria da extrema-direita para governar era um insulto. Hoje é o que temos. Essa fronteira apagou-se sem estrondo, à força de orçamentos viabilizados à porta fechada e de indignações encenadas. Passos devia ser o primeiro a reconhecê-lo. Escolheu alimentá-lo: primeiro com a presença, depois com o aplauso, agora com a linguagem.

Faltou-lhe depois a coragem das próprias palavras. Confrontado pelos jornalistas, recusou dizer a quem se referia e refugiou-se nos “labirintos de interpretação”. Atira-se a pedra e esconde-se a mão. É a política sem espinha levada ao limite, que faz barulho para substituir a substância.

Sá Carneiro não confundia firmeza com insulto. A social-democracia que fundou subordinava o mercado à Justiça e media-se pelo carácter, não pela esperteza saloia. Por isso, quando Passos fala em prostitutos sem carácter, fica no ar uma pergunta que ele se recusou a responder. Talvez por saber que a resposta o devolveria, ressentido e inteiro, ao espelho.

Diário de Notícias
Davide Amado
Presidente da Concelhia do PS de Lisboa
01.06.2026

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445: Greve geral. CP alerta para perturbações e divulga serviços mínimos

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🇵🇹 PORTUGAL // CP // GREVE GERAL

Veja como pedir o reembolso total ou troca gratuita para outro comboio.


FOTO: Paulo Spranger

A CP – Comboios de Portugal prevê perturbações na circulação de comboios devido à greve geral de quarta-feira, 3 de Junho, e alerta para possíveis impactos também no dia anterior e seguinte.

A empresa divulgou os serviços mínimos previstos para os comboios urbanos, regionais e de longo curso, os quais podem ser consultados aqui.

Os clientes que já tenham bilhetes para viajar em comboios dos serviços Alfa Pendular, Intercidades, Internacional, InterRegional e Regional, podem pedir o reembolso total, ou troca gratuita para outro comboio da mesma categoria e na mesma classe.

Para reembolso ou troca de forma automática, a CP recomenda, para os bilhetes adquiridos nos canais digitais e até 15 minutos antes da partida do comboio da estação de origem do cliente, o site na área “pós venda”, ou na App MyCP, ou as bilheteiras físicas, antes ou após a data da viagem, e até 10 dias após o fim da greve.

Sujeito a tempos de resposta superiores, poderá também pedir o reembolso através do formulário online “Reembolso por Atraso ou Supressão”.

Diário de Notícias
Sofia Fonseca
30.05.2026

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443: Ainda nos espantamos com o óbvio

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🇵🇹 OPINIÃO

As manchetes têm-se sucedido nos últimos dias – inclusivamente no Dinheiro Vivo – e parecem espantar toda a gente: caos no aeroporto de Lisboa vai provocar problemas na restauração, nas agências de viagem e na hotelaria nacionais.

Um vídeo da correspondente internacional principal da CNN, Clarissa Ward, tornou-se viral esta semana, depois de a repórter de guerra ter filmado uma fila imensa de pessoas à espera para conseguir passar no controlo de passaportes do aeroporto de Lisboa, enquanto contava a sua própria experiência, nas redes sociais: esperou, perdeu o voo que ia apanhar, continuou à espera…

Confesso que me deixa sempre surpreendida esta capacidade que temos de nos espantarmos com algo que não é novo. Há mais de 50 anos que se fala num novo aeroporto e, na última década, apesar de o discurso se ter inflamado, o resultado foi exactamente o mesmo: zero. No entanto, o Turismo de Portugal, juntamente com associações do sector apostaram significativamente no aumento do turismo, a quem devemos grande parte do desenvolvimento económico a que o país assistiu desde o pico da crise financeira, em 2012.

Ora, não é possível ter mais turistas sem preparar para isso as estruturas que os recebem. Bem que podem aumentar o número de polícias, substituir sistemas, suspender temporariamente o controlo fronteiriço e escrever textos inflamados nos jornais: quando o espaço não estica, não há milagres.

Há uns meses escrevi nestas páginas algo parecido, sobre o aumento significativo do número de habitantes em território português nos últimos cinco anos: tal como acontece quando regamos uma planta, se formos colocando água em quantidades moderadas, a terra consegue absorvê-la; mas se decidirmos despejar um litro e meio de água para o vaso, não há muitas dúvidas de que a água vai transbordar.

No aeroporto – pasme-se! – não é diferente. Por muito que se tente fazer obras, alterar percursos ou regras, o que é certo é que não é possível, naquele espaço, acolher a quantidade de viajantes que as companhias aéreas querem, os hotéis e os restaurantes precisam (porque agora se dimensionaram para estes números recorde) e o país tem recebido. Simples assim.

Lisboa tem-se tornado motivo de chacota internacional porque o aeroporto parece, na verdade, um grande armazém onde nada faz sentido. Os passageiros que chegam e que partem cruzam-se nos mesmos corredores; as filas nos controlos fronteiriços são inenarráveis; os atrasos sucedem-se porque não há, sequer, forma, de garantir que todos os voos previstos saem a horas – é como se o trânsito do aeroporto se juntasse ao da 2.ª Circular, mas sempre em hora de ponta – e a experiência é, na larga maioria das vezes, pouco agradável.

Aliás, recentemente, até a zona do lounge da TAP esteve em obras, o que fez com que várias pessoas se espalhassem pelos corredores, encostadas a plásticos de protecção.

Tudo isto podia ser somente interpretado como falta de respeito pelos passageiros, que pagam cada vez taxas mais elevadas para viajar. Mas na verdade, creio que é até mais grave do que isso. É sintomático de uma cultura de descaso que se tem visto em vários serviços públicos, e que tem sido perpetuada por governantes ao longo das últimas décadas.

Seria fácil resolver a questão do aeroporto se houvesse vontade política para resolver um problema, ao invés de estarem à espera de quem ganha uma guerra de poder onde quem perde são sempre os mesmos: os consumidores e os contribuintes.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Editora-Executiva do Diário de Notícias
29.05.2026

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441: “O povo está farto”

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🇵🇹 OPINIÃO

Corria um tranquilo sábado, como devem ser todos os sábados, quando o simples e costumeiro gesto de ligar a televisão nos traz a surpresa e a perturbação.

Naquele sábado, sétimo dia da semana, dia de descanso consagrado como tal por várias religiões e, também, na legislação portuguesa desde a década de 60 do século passado, a televisão é porta-voz da afirmação de que “o povo está farto”.

Quando, depois de podar as roseiras e conversar com um amigo de infância, liguei a televisão e, de supetão, antes do almoço em família ouço o senhor primeiro-ministro afirmar que “o povo estava farto”, tive um sobressalto.

Consciente das dificuldades por que passamos, e apesar da minha orientação política diversa, logo tendi a concordar.

Os portugueses estarão certamente desgostosos com a incapacidade de atendimento dos serviços de saúde ou com as dificuldades que a crescente inflação impõe ao seu quotidiano.

Estarão também angustiados por não conseguirem ter a casa que ambicionam, ou os salários que lhes assegurem uma vida digna.

Alguns estarão mesmo cansados de esperar pelos apoios para se recuperarem das recentes catástrofes naturais, apoios que teimam em não chegar.

Estava nestes pensamentos quando percebi que não era deste tipo de realidades que o senhor primeiro-ministro achava que o povo estava farto.

Socorrendo-me da tecnologia que permite ver a qualquer hora, qualquer notícia na sua integralidade, percebi que as preocupações do senhor primeiro-ministro não eram aquelas.

O que disse foi que “o povo não quer eleições, está farto de eleições. O povo já fez a sua opção e em 2029 fará a próxima”.

Ora, aqui chegados, convirá deixar para reflexão colectiva alguns princípios.

O povo não se farta de eleições pela simples razão de que não se farta da democracia e da liberdade de escolha, ou de censura, que a democracia, e só ela, permitem.

Quem encontra a legitimidade do seu cargo no voto soberano do povo não pode, seja em que circunstância for, diminuir ou apoucar esse exercício.

O exercício dos mais relevantes lugares do Estado Português obriga ao conhecimento e rígido respeito pelas leis da República, e todos sabemos que a duração dos mandatos e a marcação de eleições depende da avaliação e decisão de vários órgãos de soberania.

O povo pode estar farto. Mas, não está farto de eleições. Estará, porventura, cansado de programas não-cumpridos. Mas, isso é outro assunto.

Talvez faça aqui sentido citar Francisco Sá Carneiro, em declarações de 1980:

“Democracia representativa significa o funcionamento de órgãos de soberania eleitos e o pleno respeito pela acção da oposição parlamentar…

Posso concordar ou não com as posições alheias, mas respeito os meus colegas e os seus pontos de vista (…). Admito que as opiniões dos outros sejam melhores.”

Nota final: sendo hoje 28 de Maio, e um século passado, tem especial significado não apoucar as eleições e a participação dos cidadãos.

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
28.05.2026

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440: Semana de muito calor. Que avisos emitiu o IPMA e quais as recomendações da DGS?

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // CALOR

As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 16 e os 23 graus e as máximas entre os 29 (em Faro e Viana do Castelo) e os 38 (em Santarém e Évora).

Fenómeno das ‘ilhas de calor’ na cidade, onde a temperatura aumenta, ocorre, entre outros motivos, pela falta de árvores.
Leonardo Negrão

Esta semana está a ser marcada por muito calor no território nacional, o que levou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) a emitir avisos. A Direcção-Geral da Saúde (DGS) também está a fazer recomendações à população.

É o resultado de uma onda de calor está a atingir a Europa, com temperaturas recorde para maio. Há alertas das autoridades em países como Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Áustria e República Checa.

As altas temperaturas registadas em grande parte da Europa, acima do normal para maio, obrigaram as autoridades de vários países a emitir alertas de calor e a tomar precauções extremas para evitar incêndios florestais.

Que distritos estão sob aviso meteorológico?

Todos os distritos de Portugal continental, com exceção de Faro, estão esta quarta e quinta-feira sob aviso amarelo devido à previsão de tempo quente, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

O aviso nos 17 distritos vai vigorar entre as 09:00 de hoje e as 18:00 de quinta-feira face à previsão de persistência de valores elevados da temperatura máxima. O aviso amarelo, o menos grave de uma escala de três, é emitido sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

O IPMA prevê para esta quarta-feira continuação de tempo quente e aguaceiros no interior Norte e Centro, que serão acompanhados de trovoada e poderão ser ocasionalmente sob a forma de granizo e acompanhados de rajadas fortes.

A previsão aponta ainda para vento em geral fraco predominando do quadrante leste, poeiras em suspensão, em especial nas regiões Norte e Centro e pequena subida de temperatura, em especial da mínima.

As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 16 graus (em Bragança, Viana do Castelo, Leiria e Setúbal) e os 23 (em Portalegre) e as máximas entre os 29 (em faro e Viana do Castelo) e os 38 (em Santarém e Évora).

De acordo com o IPMA, o tempo quente vai manter-se em Portugal continental com temperaturas elevadas, estando praticamente todo o território em onda de calor.

Que concelhos têm maior risco de incêndio?

O IPMA prevê para os próximos dias para várias regiões do país perigo de incêndio muito elevado e elevado. Hoje, os concelhos de Aljezur, Monchique, Portimão, Silves, Loulé, São Brás de Alportel e Tavira, no distrito de Faro, e Pampilhosa da Serra, em Coimbra apresentam perigo máximo de incêndio rural, estando quase todos os concelhos do continente em risco muito elevado e elevado.

Quais são as recomendações da DGS?

Tendo em conta as previsões de temperaturas elevadas, a Direcção-Geral da Saúde já emitiu diversas recomendações à população, entre elas a ingestão de água com frequência (pelo menos 1,5 litros/dia) e a procura de ambientes frescos ou climatizados pelo menos durante duas a três horas por dia.

Recomenda igualmente que se evite a exposição directa ao sol, principalmente entre as 11:00 e as 17:00, assim como a utilização de roupas de cor clara, leves e largas, que cubram a maior parte do corpo, chapéu e óculos de sol com protecção ultravioleta.

Pede especial atenção aos grupos mais vulneráveis ao calor, como crianças, pessoas idosas, doentes crónicos, grávidas ou trabalhadores com actividade no exterior.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, revelou esta quarta-feira que a subida das temperaturas fez aumentar a procura do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o nível de prontidão dos planos de contingência.

Diário de Notícias
David Pereira
27.05.2026

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437: Defender um direito debaixo do chapéu-de-sol

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🇵🇹 OPINIÃO

A praia tem um lugar especial no coração de uma larga maioria dos portugueses. Seja pelas memórias e bem estar que proporciona, pela associação a tempos de lazer e de férias, ou outro motivo qualquer. É um espaço público do mais democrático que pode existir, onde se misturam ricos e pobres, locais e turistas, crianças e seniores. Pelo menos, assim devia ser. No entanto, aos poucos, vão surgindo obstáculos. Problemas de vária ordem e que precisam de respostas diferentes, para que permaneça livre o acesso da população a estes espaços públicos.

Há tendências que surgem rapidamente e que só se conseguem conter com legislação (como aconteceu com a proibição do uso de colunas de som na praia), outras que tentam ganhar terreno lentamente e que precisam de ser contestadas tanto judicialmente, como através da voz dos cidadãos (caso das cadeias hoteleiras que procuram condicionar/dificultar o acesso à linha de praia, quase como privatizando esses locais), e ainda aquelas que já se instalaram de tal forma, normalizando-se, que se torna necessário recordar que não têm qualquer respaldo na lei.

Foi isso que fez esta semana o presidente da Associação Portuguesa do Ambiente (APA) em relação à suposta interdição de os banhistas utilizarem chapéus-de-sol no areal em frente às concessões de praia, as quais cobram pela utilização de pontos de sombra fixos e outras comodidades, como espreguiçadeiras, garantindo aos seus clientes, ao mesmo tempo, mas de forma encapotada, vista directa para o mar.

“A única área que está onerada e que está concessionada é aquela que está delimitada por aquele rectângulo e nada mais, isto que fique claro. Todo o resto é de uso livre”, afirmou José Pimenta Machado, salientando ainda que a colocação de sinalética a proibir de chapéus-de-sol em frente das concessões “é um abuso” e que essa situação terá de ser revista.

Algumas concessionárias navegam no desconhecimento dos banhistas e até das autoridades para criar o seu próprio conjunto de regras, muitas vezes defendido em primeiro lugar pelos nadadores-salvadores que estas têm de contratar por obrigação legal.

Além disso, mesmo alguns banhistas mais conscientes da lei preferem deslocar o chapéu-de-sol uns metros mais para o lado e evitar, logo à partida, uma troca de argumentos capaz de perturbar um dia que devia ser de ócio – não deixa de ser curioso que tanta gente obedeça sem pestanejar à sinalética das concessionárias e, depois, não tenha qualquer problema em colocar o chapéu-de-sol por baixo de uma arriba instável.

Pois bem, este alerta da APA chega em boa hora e a clarificação deve ser rápida, para que Portugal não se transforme numa nova Itália. Por lá, as concessionárias permanecem há décadas nas mãos da mesmas famílias e foram ganhando metros de areal com o passar dos anos, empurrando o banhista que não quer pagar pelos serviços para faixas de terreno cada vez mais curtas.

Nos últimos anos, grupos de cidadãos organizaram-se para contestar este poder das concessionárias e o assunto tornou-se até um foco de pressão política para o governo de Giorgia Meloni. Por cá, talvez seja chegada a hora de colocar o seu chapéu-de-sol bem em frente à concessionária e defender esse direito, se for preciso. Antes que seja tarde demais.

Diário de Notícias
Pedro Sequeira
Editor-executivo do Diário de Notícias
27.05.2026

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