214: Manifesto dos mais-ou-menos-assumidos por Ventura

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🇵🇹 OPINIÃO

Ler e ouvir quem, mais ou menos assumidamente, apela ao voto em Ventura é uma experiência fascinante. Há inclusive — juro — os que invocam como principal motivo as “convicções” do líder do Chega.

“Sei que ficamos espantados quando há gente com convicções na política”.

A frase é de Teresa Nogueira Pinto, a “ministra da Cultura sombra” do Chega — que, filha da centrista Maria José Nogueira Pinto e do hagiógrafo de Salazar Jaime Nogueira Pinto, melhor teria o cognome de enviada-especial-do-Chega-para-a-velha-direita-endinheirada — num programa da Rádio Observador, referindo André Ventura. E que convicções lobrigou na pessoa em causa esta Nogueira Pinto, nas últimas semanas em pressuroso rodopio de entrevistas e comentários no desiderato de apor a sua patine bon-chic-bon-genre ao candidato presidencial da extrema-direita? Vejamos.

Supõe-se que o encontraremos explicado num texto que publicou no Expresso intitulado “porque voto Ventura”. Nele, começa por referir “a tríade ‘Deus, Pátria, Família’” — que, como é sabido, foi usada por Salazar como esteio central do seu regime e tem sido apropriada pelo líder do Chega. Segundo Nogueira Pinto, essa tríade, que “tanto horror suscita ao progressismo dominante”, não nasceu com Salazar mas sim da pena de um italiano oitocentista democrata e revolucionário, e é “uma ideia bonita e simples”.

Conviria quiçá lembrar que o ditador português Salazar pediu emprestado o slogan ao ditador italiano Mussolini — a quem, creio, ninguém se atreverá a negar o apodo de fascista — dando-se o caso, nada secreto, de Salazar ser contemporâneo do fascismo italiano. Tentar refutar essa referência evidente — tanto mais evidente quando Ventura anda a clamar aos quatro ventos que o que faz falta são “três salazares” — faz tanto sentido como asseverar que se alguém andar aí de cabeça rapada a vender T-shirts com “O trabalho liberta” se está a referir ao bem que faz trabalhar e ao título do livro de 1873 do alemão Lorenz Diefenbach (outro oitocentista) e não aos infames letreiros dos campos de concentração nazis.

Teresa Nogueira Pinto, obviamente, sabe-o bem — o seu pequeno texto é uma espécie de prestidigitação infantil, onde semeia aquilo a que se costuma dar o nome de “apitos de cão” enquanto pretende estar a negá-los. Porque a ideia é precisamente acicatar. Quando no citado programa da Rádio Observador assevera que é preciso “debater com toda a serenidade” matérias como a imigração, logo de seguida desculpabiliza como “uso da retórica e da comunicação política” o facto de Ventura assegurar que com ele como presidente haveria pessoas que iriam presas. É, diz a militante do Chega que se apresenta como “especialista em ciência política” e “professora universitária”, não um anúncio de alteração de regime e do fim da separação de poderes que caracteriza o Estado de direito democrático, mas “uma espécie de pedra que se manda para o charco de águas paradas, e funciona, porque ficámos a falar dos três salazares.”

Desde que funcione, tudo bem, então — supõe-se que Nogueira Pinto, que parece considerar muito a religião e a fé, também não achará mal que Ventura se tenha anunciado escolhido pelo seu deus para salvar Portugal (afirmação que deu origem a uma das melhores perguntas alguma vez feitas numa entrevista — aquela que Miguel Pinheiro, o director do Observador, colocou ao líder do Chega sobre tal revelação: “Quando é que isso aconteceu?”).

Talvez seja essa uma das “convicções” que a ministra-sombra vê no presidente do seu partido: a de ter sido ungido pelo Deus dos católicos. Certo é que no texto que escreveu sobre o seu candidato não colhemos referência às alegadas convicções que este terá, e que, segundo ela, o distinguem — só a certificação de que Ventura é “dissenso”, “divergência e alternativa” a “um consenso sufocante e despolitizado”. É, portanto, “contraditório”, ou “do contra”. Em quê? Para quê? Bom, isso agora não interessa nada.

O mesmo vale para o historiador e colunista do Observador Rui Ramos, que, num texto justamente intitulado “Ventura contra todos os outros”, garante ser esse “o único líder político em actividade que interessa aos portugueses”, mas não, ao contrário do que “os rivais crêem”, pelos seus truques de comunicação, mas pela “substância”. E a substância é? “O choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controlo da imigração.”

Passando à frente, por motivos de espaço, da afirmação de que “foi abolido qualquer controlo de imigração”, talvez seja de recordar que quando Ventura se começou a afirmar politicamente, ainda como candidato do PSD à autarquia de Loures, em 2017, a sua “causa” — Rui Ramos afirma que “é o único político activo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público” — era o ataque aos ciganos e àquilo a que dá o nome de “subsídio-dependência”.

É estranho estar a chamar a atenção de um historiador para a história, mas a tal “causa existencial” que segundo ele faz o sucesso de Ventura só surgiu no seu discurso em 2024, quando o Chega já tinha um bom número de deputados e o seu líder era há muito o político mais entrevistado pelas TV portuguesas. Pelo que, lamento, não, não é de todo verdade o que Rui Ramos diz. Se Ventura tem desde o início da sua ascensão política uma causa, é a da discriminação dos discriminados, à mistura com os “apitos de cão” que Teresa Nogueira Pinto tão diligentemente refere no texto citado.

Acresce que, nas dores de crescimento, o Chega, ou seja o seu líder (porque o Chega é o seu líder), largou o hiper-liberalismo à Milei do programa inicial (de 2019) e transformou-se num partido que defende o Estado Social, ou seja, mais dinheiro para os hospitais públicos, as escolas públicas, os funcionários públicos, mais dinheiro para os pensionistas (incluindo os que pouco ou nada contribuíram para a Segurança Social, numa curiosa contradição face à sua propalada aversão à “subsídio-dependência”) — em suma, aquilo a que os “liberais económicos”, como será o caso de Rui Ramos, execram como “socialismo”.

De resto, o Chega é sistematicamente apanhado a votar contra, a favor e a abster-se no mesmo assunto — ou seja, destituído de convicções, a não ser uma: a de que tudo, incluindo todas as piruetas, vale para chegar ao poder. Se há algo que distingue André Ventura, algo em que é realmente exímio, é em não ter qualquer outra convicção a não ser a de que tem de fazer tudo o que for preciso, por mais repugnante e por mais vil, para chegar onde quer.

Não pode haver ninguém com o mínimo de cultura política e histórica que não veja e não saiba isso — pelo que todos os que, de forma mais ou menos sonsa, tentam articular defesas intelectuais do voto em Ventura são, como ele, meros oportunistas que ou pretendem uma boleia para o que esperam seja o seu destino ou sonham poder usá-lo.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
04.02.2026

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145: Adeus direito internacional, olá império da mafia

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🇵🇹 OPINIÃO

Não é que seja inédito ver um país forte a fazer o que quer dos mais fracos; não é que nunca tenhamos assistido a invasões, ocupações e “operações especiais” ilegais. A novidade é mesmo a assunção sem disfarce da extorsão mafiosa como princípio — e, ainda assim, tanta gente a fingir que não vê.

Para quem seja capaz desse distanciamento (muito aconselhável para não se enlouquecer), há grande capital de diversão nos últimos acontecimentos. Desde logo pelo espectáculo que é ver muitos dos que invectivaram o PCP pelo seu vergonhoso discurso sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, um discurso que se esforçava por justificá-la sem sequer a nomear, a adoptar agora o mesmíssimo tipo de retórica (e, ao contrário, assistir à delícia que é o rasgar de vestes de PCP e amigos, de repente tão indefectíveis da soberania dos países e do Direito Internacional, com a acção dos EUA na Venezuela).

Se no caso do PCP, na sua retórica sobre a invasão da Ucrânia, a palavra chave foi — e continua a ser — a “paz” (“Somos a favor da paz, nós só queremos a paz”), nos que procuram justificar a intervenção de Trump na Venezuela o mote é a democracia: “Somos a favor da democracia, nós só queremos a democracia”.

Só há um problema, o mesmo com o qual esbarrava a argumentação (se lhe podemos assim chamar) de PCP e apaniguados: a clareza da justificação apresentada por Trump e seus ministros para a acção na Venezuela, como antes fora clara a justificação de Putin para invadir a Ucrânia. Se, em suma, Putin afirma que a Ucrânia não existe, porque é e nunca foi outra coisa senão parte da Rússia (para além, claro, de certificar que o governo ucraniano é ilegítimo, criminoso e nazi), Trump diz que a Venezuela, ou seja, os seus recursos naturais, passa a ser propriedade dos EUA (melhor dizendo sua propriedade).

Recordemos que no sábado (16H40 na hora portuguesa) Trump assumiu perante os media, de viva voz, isso mesmo sem qualquer hesitação: que os EUA iam “controlar” o país e empresas americanas iam tomar conta das respectivas reservas de petróleo. Ou seja, anunciou um plano de extorsão.

E não só não usou, sequer uma vez, a palavra democracia como afastou a possibilidade de que a mulher apresentada como a líder da oposição venezuelana, recipiente do mais recente prémio Nobel da Paz pelos seus alegados esforços em prol da instauração de um regime democrático no país (Maria Corina Machado), possa ser a pessoa por si escolhida para assumir o poder. Disse aliás esperar que o restante governo venezuelano, ou seja o regime de Maduro, se mantenha, sem Maduro, em funções sob as suas ordens — sob pena de outro show de força.

A preocupação de Trump com a instauração de uma democracia na Venezuela é de resto tão intensa como a que demonstra com o processo democrático no seu próprio país: assumiu esta segunda-feira que, se não pediu a necessária autorização do Congresso para aquilo que só pode ser descrito como um ato de guerra e nem sequer teve o cuidado de o informar previamente, falou, antes e depois da intervenção, com as empresas petrolíferas americanas. Privilegiou o que sempre privilegia: os negócios.

De resto, logo no sábado, em conversa telefónica com a Fox News, anunciara já que tencionava fazer a mesma coisa noutros países:  “Fizemos uma coisa incrível ontem à noite, e podemos fazê-lo outra vez, vamos fazê-lo outra a vez. Ninguém nos pode impedir, ninguém tem a mesma capacidade.”

Difícil ver diferença em relação ao que na lei americana é referido como o crime de “racketeering”, ou “prática de negócio coerciva”, e que estamos habituados a ver nos filmes de mafiosos: uma organização criminosa oferece “protecção” a uma empresa ou negócio, desde que essa empresa ou negócio passem a funcionar como seus, entregando-lhe uma parte, quando não todo, o produto da laboração. Uma prática simbolizada na célebre frase “fiz-lhe uma oferta que ele não pôde recusar”, do filme O Padrinho, de Francis Ford Coppola.

Mas, bom, há quem persista no desígnio de apresentar tudo isto como tendo “intenções benignas”. É o caso do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. Falando no sábado horas após as primeiras declarações de Trump à imprensa, Rangel recusou condenar a acção dos EUA ou sequer qualificá-la como infringindo o Direito Internacional.

“Em termos de doutrina internacional, há muitos, diria que a maioria, que consideram uma operação feita nestes termos, independentemente das suas intenções, que são benignas, não conforme ao Direito Internacional”, disse o governante. “Mas também, atendendo à ilegitimidade de Maduro, e designadamente à ideia da criação de uma elite de Narco-Estado, há também quem entenda que possa haver algum grau de legitimação dessa intervenção.”

Numa obscena cambalhota retórica, Rangel quis inclusive colar quem defende o respeito pelo Direito Internacional à defesa de Maduro: “O que é que defendem as pessoas focadas nessa questão [da violação do Direito Internacional] é o que pergunto: quando se diz que é uma intervenção ilegítima, o que se quer dizer é que devíamos voltar à situação anterior? O que propõem como solução? É devolver Maduro ao governo da Venezuela?”

É algo fascinante ver um jurista reputado a desconsiderar a classificação de uma acção, que segundo noticiado matou dezenas de cidadãos venezuelanos, incluindo civis, como legal ou ilegal — e ainda mais quando se trata da mesma pessoa que como ministro dos Negócios Estrangeiros convocou há apenas quatro meses o embaixador russo para pedir explicações sobre a violação do espaço aéreo polaco por drones russos.

E mais fascinante ainda se torna quando umas horas depois das citadas declarações de Rangel ouvíamos Trump a concretizar o seu desejo de repetir a “coisa magnífica” perpetrada na madrugada de sábado dando o exemplo da Colômbia e — alô, Europa? Está aí alguém? — da Gronelândia como os fregueses que se seguem. Decerto sempre com as mais benignas das intenções, já que sobre isso não conseguimos ainda ouvir um pio de Rangel, do primeiro-ministro ou do Presidente da República  ou dos muitos que continuam obstinadamente a defender a acção dos EUA na Venezuela como “pela democracia” e como defesa legítima do país contra o narcotráfico e a criminalidade organizada e etc e tal.

Podem sempre dizer que não estão sós, pelo contrário: a esmagadora maioria dos líderes europeus, à excepção do governo espanhol (o único a condenar a intervenção dos EUA na Venezuela) e, pour cause, do governo dinamarquês (cujo embaixador nos Estados Unidos, compreensivelmente nervoso, foi para o Twitter lembrar que a Dinamarca faz parte da NATO e que sempre colaborou com os Estados Unidos em matérias de defesa), estão a fingir que não deram por nada. O primeiro-ministro britânico e vários outros membros do seu governo rivalizaram amplamente com Rangel nas figuras tristes nas TV, com jornalistas a qualificarem as respostas de “patéticas”, e Macron produziu um tuite lamentável em que só faltou bater palminhas e agradecer a Trump.

Sabemos que há muito a perder, sem dúvida, que no meio de tudo isto o destino da Ucrânia está cada vez mais periclitante e que é decerto também com os ucranianos em mente que os líderes europeus medem as palavras — ainda que caiba lembrar que no seu testemunho de 2019 ante o Congresso, Fiona Hill, ex-membro do gabinete de Trump, falou de uma proposta russa de “trocar” a Ucrânia pela Venezuela.

Sabemos que a Europa ainda não se capacitou de que tem de encontrar ganas para enfrentar um mundo no qual não conta com os EUA como aliado, pelo contrário, e para convencer os seus cidadãos de que é preciso lutar ou rendermo-nos. Mas quanto mais tarde levantarmos a cabeça mais hipótese há de que já não a tenhamos — costuma ser assim quando nos havemos com mafiosos.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
06.01.2026

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9: CSI. Governo assume derrapagem de 36% em 2025 mas volta a fazer “contas por baixo” para 2026

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ECONOMIA / CSI

De Janeiro de 2024 a Agosto de 2025 contabilizam-se mais 93 mil beneficiários do CSI; só desde Janeiro de 2025 são mais 23 mil. Mas o valor alocado à medida pelo Governo em 2026 consome-se quase todo (mais de 98%) com os actuais 231 mil beneficiários.

Custo do Complemento Solidário para Idosos deverá atingir 552,9 milhões em 2025, muito acima do orçamentado no OE2025. Em 2026, valor de referência da prestação aumenta 40 euros e Governo prevê gastar 671,8 milhões — mas deixa menos de 2% para novos beneficiários

O Governo estima que as contas de 2025 fechem com uma derrapagem de 146,1 milhões de euros no Complemento Solidário para Idosos (CSI) face ao orçamentado. O custo desta prestação deverá assim atingir 552,9 milhões, ou seja mais 36% que os 406,8 milhões previstos no OE2025. Com base nesta projecção, o Orçamento do Estado de 2026 aloca 671,8 milhões para o CSI. Trata-se de um acréscimo de 118,0 milhões (mais 21,5%) face à despesa que agora prevê para 2025.

“A despesa com o complemento solidário para idosos deverá atingir o montante de 671,8 milhões de euros, reflectindo principalmente, face a 2025, o aumento do valor de referência em 40 euros mensais adicionais em 2026, na sequência do aumento efectuado em 5% sobre o valor de referência a partir de Janeiro de 2025”, lê-se no documento.

Este é o primeiro reconhecimento público da aparatosa derrapagem ocorrida em 2025, já que o Governo nunca respondeu às perguntas, quer do DN quer de outros órgãos jornalísticos, a propósito do descontrolo na despesa associada a esta prestação. Descontrolo para o qual este jornal tinha já chamado a atenção em Maio — quando, com base em cálculos próprios e a partir do número de beneficiários contabilizados em Abril, previu que a despesa com CSI deveria neste ano situar-se entre 523 e 546 milhões (abaixo, ainda assim, da estimativa agora assumida pelo Governo).

Já o Conselho de Finanças Públicas (CFP), no seu último relatório (Setembro 2025) acredita que a derrapagem será ainda maior. Este órgão fiscalizador das contas do Estado projectou para 2025 uma despesa de 577 milhões em CSI, e sem contar, sublinhou, com “a despesa com os benefícios adicionais de saúde (BAS), nomeadamente com medicamentos gratuitos (…) que até maio de 2025 já totalizava 16,2 milhões de euros”. Concluindo assim que a promessa de aumentar o valor de referência da prestação até 870 euros em 2029 (que o Governo mantém, referindo-a várias vezes no OE2026) “constitui um risco acrescido para a despesa”.

Tanto mais assim é, adverte o CFP, quando “o universo dos potenciais beneficiários” — ou seja, o número de idosos com rendimentos inferiores ao valor base do CSI, à medida que este vai subindo — é muito considerável.

Actuais beneficiários consomem mais de 98% da verba para 2026

Não consta do OE ou dos seus relatórios qualquer projecção quanto ao número de beneficiários que poderão, em face do aumento do valor de referência em 2026, ter acesso à prestação.

Nem, tão-pouco, os custos associados ao CSI em termos de “benefícios adicionais de saúde” — a começar pela gratuitidade de medicamentos prescritos, em vigor desde Junho de 2024 e cuja despesa disparou desde então (de acordo com os dados do Infarmed a que o DN teve acesso, entre Junho de 2024 e o primeiro trimestre de 2025 aumentara 68%; segundo o CFP, totalizava, só até maio, 16,2 milhões de euros, apontando-se assim para uma despesa anual de cerca de 40 milhões). O DN requereu, insistentemente, ao ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social que indique onde se pode encontrar o orçamentado para esta medida (que envolve também o ministério da Saúde), mas este nunca respondeu.

Porém é possível fazer contas simples para chegar ao número de novos beneficiários que “cabem” nas contas do Governo. Assim, atendendo a que a última contabilidade, de Agosto de 2025, é de 230 934 recipientes da prestação, e que o valor médio desta é de 199 euros, se adicionarmos a este valor os 40 euros que acrescem em 2026 e multiplicarmos o resultado (239 euros) pelo número de beneficiários vezes os 12 meses do ano, o resultado é 662,3 milhões.

O que significa que quase todo o montante — mais de 98% — alocado pelo Governo para a prestação se consome com os actuais beneficiários, sobrando apenas 9,5 milhões de euros.

Se partirmos do princípio (duvidoso) de que só acederão em 2026 à prestação pessoas que até agora, por terem um rendimento mensal de 630 euros, não preenchiam o critério, e portanto apenas poderão receber os 40 euros mensais do acréscimo, concluímos que só há dotação orçamental para um pouco menos de 20 mil novos beneficiários.

Recorde-se que, tendo chegado ao governo em Abril de 2024, quando o valor de referência do CSI que vigorava era 550 euros (por via do OE2024, do executivo de António Costa, que acrescentou 62 euros ao montante anterior de 488 euros), Montenegro decidiu, em Junho, aumentar de novo o valor de referência para 600. Alterou também as regras de acesso à prestação, afastando o rendimento dos filhos do idoso do cálculo, e tornou os medicamentos prescritos inteiramente grátis (a comparticipação adicional, era, até aí, de 50%) para os idosos inscritos no CSI.

A projecção do Governo era de que essas alterações atraíssem cerca de 24 mil novos beneficiários. Mas acabou confrontado com um salto, entre Janeiro de 2024 e Agosto de 2025, de 92 960 beneficiários.

A subida mais expressiva ocorreu a partir de Julho de 2024, mas o número de beneficiários tem estado sempre a crescer: de Janeiro (quando ocorreu outro aumento do valor de referência, para os actuais 630 euros) a Agosto de 2025, contaram-se mais 23 151.

Em 2024, 65% (1,2 milhões) das pensões valiam entre 319 e 783 euros

Não há informação pública disponível sobre qual o universo dos pensionistas que, tendo rendimento mensal abaixo de 670 euros, não possuam outros rendimentos (ou não vivam com alguém com rendimentos superiores, ultrapassando os valores máximos para o agregado permitidos no CSI).

De acordo com os relatórios do OE2026, o valor médio da pensão de velhice em 2024 foi de 610,91 euros, sendo o valor médio das pensões das mulheres (que eram 65,5% das beneficiárias do CSI em Agosto) muito mais baixo: 452,09 euros. Acresce que, segundo a mesma fonte, “em Dezembro de 2024 a maioria das pensões de velhice encontrava-se no escalão do valor de pensão com valor monetário igual ou superior ao montante da pensão mínima inferior a 15 anos de contribuições [319,49 euros em 2024] e inferior a 1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais [509,26 euros em 2024]”.

Essa maioria corresponde a “65,1% do total das pensões de velhice”, ou seja 1 282 992 pensões. Traduzindo: mais de metade das pensões actuais terão um valor bruto entre 331,79 euros (montante da pensão mínima inferior a 15 anos de contribuições em 2025) e 783,75 euros (1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais em 2025).

Por outro lado, e ainda segundo os relatórios do OE2026, em 2024 entraram a pagamento mais de 12 mil novas pensões mínimas de montante inferior a 319,49 euros, e mais 60 mil entre 319,49 e 783,75 euros. E, citando os referidos relatórios, “a maioria das novas pensões de velhice com primeiro processamento no ano de 2024 tinha um valor monetário inferior a 1,5 vezes o montante do Indexante de Apoios Sociais (mais de 72 mil), o que equivale a 74,2% do total de novas pensões de velhice, 62,7% referentes a pensões auferidas por homens e 86,2% por mulheres”.

Sublinhe-se que estas pensões, ao contrário do CSI, são pagas com subsídios de férias e de Natal, o que implica que, para saber se um pensionista tem direito ao CSI, é preciso dividir o valor anual da respectiva pensão por 12 (significando que a referida pensão “média” de 610,91 euros corresponde a 712,72 euros mensais, ou seja, excede o valor de referência do CSI). Ainda assim, parece evidente que, à medida que aumenta o valor de referência do CSI, serão cada vez mais os pensionistas que caberão nos critérios da prestação.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.10.2025

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1: Carta a Oren Rozenblat, embaixador de Israel

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OPINIÃO

Israel, disse-me Amos Oz em 1992, existe para que nenhuma criança possa voltar a apanhar na escola por ser judia. Como chegámos, desse sonho justo de escorraçados, ao país criminoso para quem só os judeus são humanos?

É, acredite, com muita tristeza que me dirijo a si neste segundo aniversário do massacre de 7 de Outubro. Suponho que às primeiras linhas deste texto — se sequer o ler — me desqualificará como “amiga de terroristas” ou “antissemita”, como há dois anos fui, pela minha reacção ao 7 de Outubro, desqualificada como “sionista” e “cúmplice de genocidas”. Estou habituada, não se preocupe.

Antes de mais, quero dar-lhe os parabéns pela sua invulgar eficiência. Tenho-a apreciado na TV portuguesa, na qual, imperturbável, mantém a narrativa de um Israel justo, impoluto e sempre vítima, deflectindo com habilidade as questões mais difíceis.

Vi-o por exemplo na CNN a evitar fazer qualquer qualificação da atitude do ministro da Segurança Nacional Ben-Gvir quando este foi filmar e invectivar os membros detidos da flotilha humanitária Sumud, chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos e difundido orgulhosamente o vídeo. Na sua qualidade de governante com a tutela das prisões, foi Gvir que decidiu colocar aquelas pessoas, que não eram suspeitas de cometer qualquer crime (quanto mais violento), num estabelecimento de alta segurança, e foi dele que partiu a ordem — que anunciou noutro vídeo de propaganda — para que os tratassem como terroristas e lhes dessem ‘o mínimo’.

Disse o senhor embaixador: “O ministro Gvir não é porta-voz do governo de Israel, eu sou.” Assim, segundo Oren Rozenblat, o que diz e faz um ministro não representa nem quer dizer nada. Já o víramos dizer exactamente o mesmo quando o ministro Smotrich anunciou a 18 de Setembro, impante, que após “a fase de demolição de Gaza”, havia “um plano de negócios, já nas mãos de Trump”, para transformar o território numa “mina de ouro imobiliária”.

Perdoe-me, senhor Rozenblat; são as suas garantias que nada valem. Os vários membros da flotilha já libertados confirmam que as ordens de Gvir foram seguidas: passaram mais de um dia sem comida e água, quem tinha medicamentos ficou sem eles, algemaram-nos horas a fio, foram postos em jaulas ao sol no deserto, transportados sem saber para onde, impossibilitados de fazer sequer um telefonema.

Ainda assim houve, no comentariado português, quem perguntasse: “Estavam à espera de quê, de um hotel de 5 estrelas?” Bom, da apregoada “única democracia do Médio Oriente” esperar-se-ia, para começar, que não detivesse pessoas ilegalmente, e que, fazendo-o (enfim), tratasse os detidos com a dignidade que se exige para qualquer detido num país civilizado. Porque — dá ideia de que muita gente desconhece este facto — as exigências mínimas de um Estado de direito democrático determinam que mesmo os detidos em flagrante delito, até os detidos por terrorismo, sejam tratados com dignidade, sendo qualificado como crime qualquer tratamento desumano e degradante a que sejam submetidos. É essa a lei, é esse o standard do direito internacional.

Se não servisse para mais nada, a acção da Sumud teria pelo menos comprovado, a quem não esteja cego de sectarismo e de ódio, o quão Israel se afastou desses conceitos e práticas civilizacionais. Tanto mais quando se sabe, como disse Mariana Mortágua este domingo, que o tratamento de que os activistas foram alvo é uma pálida amostra daquilo a que as autoridades israelitas se permitem com os detidos palestinianos.

Porque, convenhamos, senhor Rozenblat, que só quem não lê notícias e nunca ouviu falar dos relatórios das organizações de defesa dos direitos humanos que reportam sobre o seu país — a começar pelas israelitas, como a velhinha B’Tselem —, pode continuar com o estribilho da democracia admirável que Israel é. Só quem não segue o percurso destes 77 anos vê Israel como “um país civilizado”.

A civilização é um processo, um caminho, e não há países perfeitos, longe disso. Israel, como outros (Portugal por exemplo), nasceu de forma particularmente violenta. Não falo do que sucedeu antes da fundação (incluindo terrorismo, e brutal, de organizações judaicas), mas das expulsões em massa e dos massacres documentados da população palestiniana que vivia nas zonas alocadas ao novo país. Ao longo destes quase 80 anos, Israel podia ter reconhecido oficialmente esses crimes e procurado, assim que possível (porque passou muitos anos em guerras sucessivas com os países vizinhos), a via da pacificação.

Houve, sem dúvida, quem desse passos nesse sentido — e até quem fosse por isso crismado de traidor e assassinado (Yitzhak Rabin). E houve quem, precisamente tendo apelidado Rabin de traidor (Netanyahu), quisesse o inverso: ir o mais longe possível na selvajaria.

É essa escolha da selvajaria que explica que Ben-Gvir faça gala de humilhar detidos que incluem representantes eleitos de nações “amigas”, nações que há décadas se calam ante os desmandos de Israel, que há décadas fingem que não reparam que o país ignora acintosamente todas as deliberações da ONU, continuando a ocupar território palestiniano e a permitir que colonos aterrorizem e matem palestinianos, que as forças armadas israelitas façam tiro ao alvo com jornalistas, que os seus serviços secretos perpetrem homicídios e sequestros noutros países sem dizer água-vai. É essa escolha da selvajaria que explica a sua atitude, senhor embaixador, de nem sequer fingir que está envergonhado pelo tratamento dado por Gvir aos cidadãos portugueses.

É que, justamente, o senhor embaixador, como tantos portugueses que se manifestam nas redes sociais (e até no comentário político), acha que aquelas pessoas, apenas por protestarem contra as acções do seu país, apenas por desafiarem o bloqueio a Gaza, tiveram o que mereciam, ou, quiçá, mereceriam até pior.

A sua tristeza, senhor Rosenblat, reserva-a para o facto de Portugal ter reconhecido o Estado da Palestina; isso sim vê como trágico. Porque para o seu governo não há, claro, lugar para um Estado de palestinianos — não há sequer lugar para os palestinianos.

E por favor, senhor embaixador, não me diga que tudo se deve ao 7 de Outubro. Antes do 7 de Outubro já Israel cometia barbaridades em catadupa.

Repare que saber disso não me impediu de achar que após o 7 de Outubro o seu país tinha o direito de se defender, de perseguir o Hamas e demais organizações implicadas, de usar tudo ao seu alcance para tentar recuperar os reféns (cujo regresso a casa aguardo ansiosamente). Mesmo sabendo da natureza do vosso primeiro-ministro, e do seu historial de apoio ao Hamas para enfraquecer a Autoridade Palestiniana e o sonho dos dois estados (sonho que o Hamas, em espelho com Netanyahu, e demais extrema-direita, nunca subscreveu), considerei justo — como não consideraria? — que Israel ripostasse.

Tornou-se porém dolorosamente claro que Israel decidiu usar esse direito com intuitos genocidas, vendo no 7 de Outubro uma oportunidade de solução final, de aniquilar/expulsar os palestinianos e anexar a terra que lhes resta.

Contra os pedidos desesperados das famílias dos reféns, bem cientes do que daí adviria, o seu governo não parou, ao longo destes dois anos, de bombardear Gaza, arrasando todo e qualquer edifício. Não parou de matar civis à bomba, à bala, à fome — usando inclusive, como contou no Expresso da Meia-Noite desta sexta-feira o social-democrata Jorge Moreira da Silva, a partir da sua experiência na ONU, os pontos de entrega de comida para fazer tiro ao alvo aos palestinianos.

Decerto outro antissemita amigo de terroristas, este Moreira da Silva. Pode lá ser outra coisa, não é, senhor embaixador?

Peço-lhe paciência, estou quase a terminar. Há 33 anos, quando estive na sua terra (note que digo a sua terra), o escritor Amos Oz contou-me o que na noite de 29 de Novembro de 1947, quando a ONU decidiu dividir a terra entre judeus e árabes, o pai lhe disse, a chorar: “Filho, quando tinha a tua idade, na Rússia, apanhava na escola por ser judeu. E o meu pai, e o meu avô. Tu podes apanhar na escola, mas não por seres judeu.” Para Oz, esta era a ideia fundacional de Israel — a de um lugar onde as crianças judias pudessem enfim ser crianças. Onde os judeus pudessem enfim ser pessoas.

É uma ideia magnífica, comovente, justa. Durante muito tempo, esta ideia tão bela, a da determinação de nunca mais sofrer humilhações, de nunca mais perder — porque há isso, não é? —  levou-me a perdoar muito ao seu país. Havia uma admiração em mim pelo lado selvagem que surgira de um povo tão massacrado. Era um pouco a minha culpa de europeia nascida menos de 20 anos depois de Auschwitz, senhor Rozenblat. A minha culpa de saber que tinha sido possível.

Na mesma viagem a Israel, ouvi um homem, num colonato, dizer-me que os palestinianos “são sub-humanos” e que se os filhos dele (eram quase bebés ainda) tivessem de morrer pelo Grande Israel, então morreriam. Pensei na altura que estava a falar com um extremista que não representava o país. Agora, sei, são pessoas como ele — e como o senhor e o seu primeiro-ministro — que mandam em Israel (e em grande parte do mundo, diga-se). Que, malgrado gente magnífica como Amos Oz, e como tantos dos mortos e reféns de 7 de Outubro, o seu país se transformou num lugar onde só os judeus são vistos como pessoas inteiras, com todos os direitos do catálogo — e mesmo assim se calhar só se apoiarem o intuito genocida e fascizante do seu governo.

O seu país, senhor Rozenblat, é agora a perversão mais absoluta da ideia de Oz. Tenho dificuldade em imaginar uma maior traição aos mortos de Auschwitz, a todos os mortos de todos os pogroms antissemitas, a todos os judeus que lutaram, ao longo de uma tão trágica história, contra a crueldade, o racismo e o ódio.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
07.10.2025

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