339: ‘#donasdecasaucranianas’

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🇵🇹 OPINIÃO

Em Agosto de 1981, a Apple lançou um famoso anúncio de página inteira no diário The Wall Street Journal, em tom de provocação, intitulado “Bem-vinda, IBM. A sério.” Naturalmente, Steve Jobs não estava apenas a dar as boas-vindas, mas a ironizar com a entrada tardia da gigante IBM no mercado dos computadores pessoais, que ignorou durante muito tempo em prol dos grandes sistemas para empresas.

Quarenta anos depois, podemos dizer que um cenário semelhante se replica no setor da indústria da Defesa, onde se assiste a uma grande transformação na própria forma de fazer a guerra, como os acontecimentos na Ucrânia nos têm mostrado, quase diariamente, ao longo dos últimos quatro anos.

O engenho e agilidade dos ucranianos para fazer face à agressão russa numa grande desproporção de meios, reinventando formas e armas de defesa, tornaram-se um exemplo claro de guerra moderna. Mas, tal como a IBM naquele primeiro impulso dos computadores pessoais, ainda há na indústria quem demore a mudar o chip.

Foi o que demonstrou, de forma particularmente desastrada, o CEO da gigante alemã Rheinmetall. Numa entrevista à revista The Atlantic, Armin Papperger desvalorizou a indústria de drones ucraniana, reduzindo-a a expressões como “Legos de montar” ou “donas de casa com impressoras 3D” para menorizar a comparação com a tecnologia dos grandes fabricantes.

A reacção foi tão imediata quanto intensa. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky respondeu com ironia, afirmando que “qualquer dona de casa ucraniana poderia ser CEO da Rheinmetall”. Dirigentes militares destacaram os números que provam a eficácia dos drones ucranianos, que já destruíram mais de 11 mil tanques russos e provocaram 90% das baixas do inimigo. E nas redes sociais a polémica ganhou vida própria, impulsionada pela hashtag #madebyhousewives.

O conflito na Ucrânia acelerou uma transformação em curso. Drones baratos, produção descentralizada e ciclos rápidos de adaptação passaram a ter um peso decisivo, enquanto os sistemas pesados e ultra-dispendiosos deixaram de garantir uma vantagem automática no palco de batalha. Pressionada pela necessidade, a Ucrânia adaptou-se de forma admirável, desenvolvendo um ecossistema ágil, capaz de testar soluções em tempo real e ajustar-se rapidamente ao terreno.

Prova disso é o facto de os próprios EUA terem pedido a ajuda ucraniana para lidar com os drones iranianos no actual conflito no Médio Oriente, enquanto parte da indústria continua presa a processos longos e contratos rígidos.

Ao falar com aparente desdém do heróico esforço ucraniano e de uma nova indústria, que já redefine o campo de batalha, Papperger arriscou um sério dano de reputação, obrigando a própria Rheinmetall a retratar-se nas redes sociais e a reconhecer que “a força inovadora e o espírito de luta do povo ucraniano são uma fonte de inspiração para todos”.

Se a invasão russa ainda não tinha deixado isso claro, fica mais uma lição de que o melhor talvez seja mesmo não subestimar o papel das “donas de casa” ucranianas.

Diário de Notícias
06.04.2026
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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336: A Figura do Dia. Não falem apenas de Jorge Coelho

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🇵🇹 OPINIÃO

Relembramos hoje a Paixão e Morte de Jesus. Este é o dia em que ser cristão é acreditar que o sacrifício mais inominável pode ter um sentido que nos transcende.

É um excelente pretexto para recordar as 59 pessoas que morreram na ponte de Entre-os-Rios, fez agora 25 anos. Quando se volta à tragédia falamos quase sempre de Jorge Coelho, do pronto pedido de demissão, da sua verticalidade e coragem política. É justo, mas é terrível para a memória dos que deixaram de viver naquela noite de 4 de Março.

Muitas famílias de Castelo de Paiva choraram nessa madrugada e a maioria delas ainda continua num estranho e absurdo luto — 36 corpos nunca foram encontrados, é uma morte sem morte, um fim que não sossega os sonhos de quem ficou, há sempre quem acorde a meio da noite encharcado em pesadelos ou esperanças frustradas.

“Quando se volta à tragédia [de Entre-os-Rios] falamos quase sempre de Jorge Coelho, do pronto pedido de demissão, da sua verticalidade e coragem política.”
Arquivo DN

Foram 36 mulheres e 23 homens. Só cinco não eram de Castelo de Paiva, culpa de uma excursão a Foz Côa para ver o nascimento da primavera com as suas vaidosas amendoeiras em flor.

Jesus está na cruz. Celebramos a Páscoa, o mais terrível e proveitoso dos dias de fé. Celebramos também o inconcebível, a monstruosidade do que nos pode tocar, mas também a rede que precisamos para nunca deixar fugir a esperança do tanto que nos resta.

Aquelas pessoas não regressaram a casa, mas despediram-se da vida com o cheiro das amêndoas doces nas flores brancas e rosas nascidas nos troncos das árvores.

A maioria não voltou a ser encontrada, está viva para sempre ou pronta a ressuscitar.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.04.2026

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335: Termómetros vão chegar aos 28 graus na Páscoa, mas será sol de pouca dura

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🇵🇹 PORTUGAL // PÁSCOA // CLIMA

O céu limpo, com temperaturas “acima do normal para esta época do ano” vai durar até domingo, Depois, uma superfície frontal fria vai trazer um inverno primaveril a todo o país, com descida das temperaturas. Trata-se do rescaldo de uma depressão que irá atravessar as Ilhas Britânicas, mas que não tocará Portugal

Termómetros vão chegar aos 28 graus na Páscoa, mas será sol de pouca dura
© Jason Oxenham / Getty Images

Boas notícias para quem quer aproveitar a Páscoa. Até domingo, diz a meteorologista Ângela Lourenço, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), haverá poucas nuvens, predominando o céu limpo, com temperaturas “acima do normal para esta época do ano”. As máximas diurnas previstas oscilam entre os 23 e os 28 graus, sendo as zonas mais quentes “as do sul, o Ribatejo, o interior e o vale do Douro”. Perto do mar, prevêem-se valores ligeiramente inferiores, assim como nas serras, nomeadamente a da Estrela.

“À noite, as mínimas têm sido baixas. Temos tido noites frias, com valores de 5 ou 6 graus. Isso irá continuar”, nota a meteorologista. São temperaturas “típicas de inverno” que, na Serra da Estrela e noutras terras altas poderão não ultrapassar os 2 ou 3 graus.

Mas a recém-iniciada primavera já dá sinais de querer recuar. Isto deve-se a uma superfície frontal fria que, a partir de terça-feira – mas que na prática irá sentir-se em algumas zonas do país desde domingo – vai provocar alterações na temperatura do ar que exigem a reabilitação dos blusões de inverno.

Segundo a especialista do IPMA, uma depressão que afecta as Ilhas Britânicas, e que “não passará por Portugal”, é a responsável por uma descida da temperatura acentuada que, a 7 de Abril, pode variar entre os 8 e os 12 graus. Mas já o dia anterior será “muito nublado em todo o território, com poucas abertas”, ocorrência de chuva – sobretudo no norte e no centro do país – e aumento do vento, a soprar forte de quadrante sul. O resto da semana manterá estas características.

Expresso
Luciana Leiderfarb
02.04.2026

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