Efeitos da depressão deverão ter mais impacto no Centro e Sul de Portugal continental, com chuva forte na quarta, quinta e sexta-feira. Esperadas rajadas de vento que podem chegar até 70 km/h.
Foto: Paulo Spranger
Devido à depressão Therese, o estado do tempo vai agravar-se a partir desta quarta-feira, 18 de Março, com chuva forte, agitação marítima e rajadas de vento que podem chegar aos 70 km/h, de acordo com as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Os efeitos desta nova depressão meteorológica já se começaram a sentir hoje, terça-feira, devendo-se prolongar até sábado, com maior impacto no Centro e Sul de Portugal continental.
“Na sua circulação, é expectável a formação de linhas organizadas de instabilidade que tenderão a avançar de sul para norte sobre o território do continente, e que terão maior impacto sobre as regiões Centro e Sul”, explica o IPMA.
Espera-se chuva por vezes forte e acompanhada de trovoadas para esta quarta-feira, “não se podendo excluir os fenómenos extremos de vento localizados”, refere o instituto em comunicado.
De acordo com o IPMA, “os distritos onde deverá haver maior persistência da precipitação serão os do litoral a sul do cabo Mondego e os do interior a sul da serra da Estrela, que coincidem com aqueles em que há maior probabilidade de ocorrência de precipitação forte”,nomeadamente na quarta, quinta e sexta-feira.
No que se refere ao vento, “tenderá a aumentar temporariamente de intensidade no litoral a sul dos cabos Carvoeiro/Mondego, e nas terras altas, em particular do Centro e Sul, por vezes com rajadas até 70 km/h”.
Cinco distritos sob aviso amarelo devido à chuva
É também esperada um agravamento na agitação marítima, “na costa sul do Algarve, que será do quadrante sul até 2,5 metros, mantendo 3 a 4 metros de noroeste na costa ocidental, passando a ondas de oeste/sudoeste 2 a 3 metros” a partir de sexta-feira.
Na nota é ainda referido que o IPMA emitiu avisos amarelos para a chuva, e informa que “existe alguma incerteza na posição desta depressão nos próximos dias, o que se traduzirá em incerteza na localização e intensidade da precipitação”.
Nesta quarta-feira, cinco distritos estão sob aviso amarelo devido à precipitação, são eles Leiria, Lisboa, Setúbal, Beja e Faro, segundo o site do IPMA.
Depressão Therese irá afectar o estado do tempo entre o final da tarde desta terça-feira e sábado. É esperada chuva, por vezes forte e acompanhada de trovoada, vento forte e agitação marítima.
Foto: Leonardo Negrão
O estado do tempo em Portugal continental vai ser afectado entre esta terça-feira (17 de Março) e sábado pela depressão Therese, prevendo-se chuva por vezes intensa e acompanhada de trovoada, vento forte e aumento da agitação marítima, indicou esta segunda-feira (16) o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Em comunicado, o IPMA refere que a depressão Therese “irá ficar centrada a oeste de Portugal continental”, afectando o estado do tempo entre o final da tarde de terça-feira e sábado.
Assim, a partir de terça-feira “prevê-se um aumento da nebulosidade em todo o território e haverá a possibilidade de ocorrência de aguaceiros a partir do final da tarde, que serão mais prováveis no litoral da região Sul”, lê-se na nota
Na quarta-feira, acrescenta o IPMA, a depressão originará a “ocorrência de aguaceiros, que serão mais prováveis no Centro e Sul e principalmente no litoral, que poderão ser pontualmente intensos e acompanhados de trovoada.”.
Quanto ao vento, oscilará entre “o quadrante leste e o quadrante sul” e aumentará de intensidade, soprando por vezes forte na faixa costeira e nas terras altas, com rajadas até 65 quilómetros/hora.
Relativamente à agitação marítima, o IPMA refere que prevê-se um “aumento temporário” na costa ocidental, para ondas de noroeste que poderão atingir perto de quatro metros de altura significativa.
Na nota, o IPMA acrescenta que ainda não foi emitido nenhum aviso meteorológico relacionado com a passagem da depressão Therese “dado que existe um elevado grau de incerteza” quanto à sua posição próximos dias, “o que irá influenciar quer a localização, quer a quantidade de precipitação que poderá ocorrer”.
Seis distritos do continente estão hoje e terça-feira com aviso amarelo devido à previsão de agitação marítima, prevendo-se ondas de noroeste com 04 a 4,5 metros, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
O aviso para os distritos do Porto, Viana do Castelo, Leiria, Aveiro, Coimbra e Braga vão vigorar entre as 15:00 de hoje as 00:00 de terça-feira.
O IPMA emitiu também aviso amarelo para o distrito de Faro entre as 09:00 e as 15:00 de terça-feira, prevendo-se ondas de sueste com 02 a 2,5 metros.
O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.
O IPMA prevê para hoje no continente céu limpo, vento mais intenso no Algarve e terras altas do Centro e Sul, acentuado arrefecimento nocturno e pequena subida da temperatura máxima.
As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 02 graus Celsius (em Bragança) e os 12 (em Faro) e as máximas entre os 16 (na Guarda) e os 23 (em Santarém, Setúbal e Braga).
A guerra iniciada a 28 de Fevereiro pelos EUA e Israel contra o Irão não é apenas um foco de instabilidade no Médio Oriente e um factor de perturbação mundial de alto risco. Resulta de uma decisão labiríntica, que levanta muitas questões. Por essa razão, tornou-se o tema mais debatido nas diversas arenas internacionais. Os ângulos de análise são numerosos: a legalidade da decisão, os seus objectivos, incluindo o poder nuclear do Irão e a essência do seu regime, as implicações geopolíticas, macroeconómicas e humanitárias, a marginalização absoluta da diplomacia e do sistema político multilateral, bem como questões relacionadas com a política interna norte-americana.
Para nós é igualmente o choque que expôs as hesitações estratégicas da União Europeia. Enquanto o mundo se interroga sobre o futuro, a Europa enfrenta uma verdade inegável: ao deixar-se arrastar para o Golfo Pérsico, corre o risco de se esquecer que o futuro do nosso continente se decidirá, em grande parte, nas planícies da Ucrânia.
Para a Europa, o apoio à Ucrânia não é uma qualquer escolha de política externa, entre outras – é sim uma prioridade absoluta. Trata-se da defesa da nossa integridade territorial e dos nossos valores, da segurança dos países vizinhos candidatos à adesão à comunidade e da sobrevivência do projecto europeu. A agressão russa não visa apenas Kiev, mas sim e sobretudo a demolição de toda a arquitectura de cooperação que tem sustentado a paz no nosso continente desde 1945.
O regresso da Ucrânia a uma situação de paz, sólida e justa, reforçará a convicção de que as fronteiras europeias permanecerão invioláveis. Para a Europa, perder anunciaria um futuro de submissão perante Moscovo ou uma dependência sem fim à vista de uma Washington agora cada vez mais distante da filosofia e das opções políticas europeias.
Deixemos a Rússia para acrescentar que a UE não pode estar subordinada aos ziguezagues e aos interesses norte-americanos. Parceria e aliança não podem ser sinónimos de vassalagem. Isso não implica abdicar da crítica e das sanções a regimes autocráticos. As sanções são uma via para resolver querelas entre os Estados, sem recurso à guerra. Inaceitáveis são os conflitos armados e as acções militares fora do quadro legal das Nações Unidas.
Uma dimensão alarmante do presente conflito no Médio Oriente é a drenagem imediata de recursos que seriam vitais para a defesa legítima da Ucrânia. As estimativas mais recentes indicam que mais de 1000 mísseis interceptores Patriot (PAC-3) já foram disparados contra os ataques iranianos desde 28 de Fevereiro. Trata-se de um contraste onde a Ucrânia sai a perder, apesar da gravidade e da legitimidade da sua situação serem incomparavelmente superiores. Em quatro anos de resistência, a Ucrânia recebeu menos de 600 desses mesmos mísseis interceptores.
Esta disparidade sugere que a Administração Trump prioriza marcadamente os objectivos regionais do governo de Benjamin Netanyahu, em detrimento das democracias europeias. Bruxelas não pode assistir em silêncio enquanto o “escudo” que deveria proteger o céu ucraniano é consumido numa estranha guerra no Médio Oriente. Cada recurso gasto no Médio Oriente representa uma nova oportunidade para os mísseis russos que massacram dia e noite o povo ucraniano.
É à luz deste erro estratégico que deve ser lida a posição recente da liderança europeia. Neste cenário, a mensagem que Ursula von der Leyen passou esta semana aos embaixadores da UE é profundamente ambígua. O discurso deixou a impressão que Von der Leyen se aproximou mais das ideias de Trump e de Netanyahu do que da letra e do espírito da Carta das Nações Unidas.
No caso concreto dos ataques ao Irão, Von der Leyen ecoou mais os argumentos – os pretextos, seria mais correto dizer – repetidamente mencionados por Washington e Telavive que o Direito Internacional. Saiu do campo da neutralidade e da mediação, fragilizou uma vez mais a linha mais dialogante de Kaja Kallas e deixou uma parte significativa dos observadores europeus perplexos, incluindo algumas alas importantes do Parlamento Europeu.
A Europa deve ser vista pelo resto do globo como um espaço de valores e de acatamento do Direito Internacional, de equilíbrio geopolítico e de defesa do sistema multilateral. É aí que reside a nossa força, na cooperação com os países do Sul que vêem na Lei Internacional a protecção de que necessitam.
Ao adoptar a retórica da “força militar”, como se a Europa pudesse tornar-se da noite para o dia uma super-potência armada, a presidente da Comissão pareceu ignorar que a verdadeira autoridade da nossa União assenta na aceitação dos valores universais e na solidariedade com os diferentes povos do mundo. Como sublinhou António Costa após o discurso da presidente, a UE deve defender a ordem internacional baseada em normas. Costa não deixou espaço para ambiguidades.
Também não quero ser visto como ambíguo. Sou contra a submissão e não defendo uma política de neutralidade, porque não escolher já é, em si, uma opção, e raramente a melhor. Não advogo nem o silêncio, nem a indiferença. Já Dante dizia há mais de sete séculos na Divina Comédia, a sua obra monumental, que “no inferno, as labaredas mais impiedosas estão reservadas para os que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
O respeito pela Lei Internacional e pelo direito à legítima defesa não são neutrais. São maneiras civilizadas de dizer não às decisões arbitrárias, ao uso da força bruta e aos ataques contra os Direitos Humanos. É essa clareza meridiana que espero dos dirigentes europeus e que o futuro nos exige.
Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
13.03.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Como habitual, a hora muda no último domingo do mês de Março o que, este ano, ‘calha’ no dia 29. Vem aí o horário de verão!
Já tem os relógios a postos? Já ouve o tiquetaque? Está a chegar a data em que mudamos novamente a hora – desta vez para o horário de verão!
Como habitual, a hora muda no último domingo do mês de Março o que, este ano, ‘calha’ no dia 29. Assim, nessa madrugada, em Portugal continental e na Região Autónoma da Madeira, os relógios vão avançar uma hora quando for 01h00, passando a ser 02h00.
Já nos Açores, a alteração será feita às 00h00, mudando para a 01h00.
No entanto, recorde-se, na madrugada de 25 de Outubro a hora voltará a mudar, regressando ao horário de inverno.
O actual regime de mudança da hora é regulado por uma directiva (lei comunitária) de 2000, que prevê que, todos os anos os relógios, sejam, respectivamente, adiantados e atrasados uma hora no último domingo de Março e no último domingo de Outubro, marcando o início e o fim da hora de verão.
Comece já a preparar o corpo para a mudança da hora
A mudança ocorre no dia 29, mas o melhor é começar já a preparar-se e a adaptar o corpo para as mudanças que se adivinham. Leia este artigo e fique a par do que poderá começar a fazer.
Associação defende que o acesso a um interlocutor humano “deve continuar a ser a base do apoio ao cliente.
D.R.
A DECO alertou esta sexta-feira, 13 de Março, para os riscos da digitalização do atendimento ao cliente, tendo avaliado negativamente a maioria dos sistemas digitais de apoio de 24 empresas de sectores essenciais.
A associação avaliou os sistemas digitais de apoio ao cliente de 24 empresas de oito sectores, desde as comunicações electrónicas à energia, passando pela banca, mobilidade, saúde, comércio electrónico, serviços digitais e turismo, tendo concluído que, numa escala entre o Muito Mau e o Muito Bom, a maioria das empresas situa-se entre o Mau e o Razoável, segundo indicou, em comunicado.
Em causa estão mecanismos como ‘chatbots‘, programas de computador com o qual se pode conversar, sendo que assistentes virtuais estão presentes em mais de metade das empresas analisadas, e formulários online, que se tornaram o principal canal de contacto.
Nesta análise, verificaram-se “percursos complexos, menus sucessivos e sistemas que limitam a exposição livre do problema”, sendo que “em vários casos, os ‘chatbots‘ funcionam essencialmente como instrumentos de triagem, encaminhando o consumidor para perguntas frequentes ou para novos formulários, sem permitir que a reclamação seja formalmente registada no próprio fluxo da conversa”, notou a DECO.
A associação deixou assim um alerta para a digitalização do atendimento ao cliente, que considera estar a “transformar-se num sistema cada vez mais difícil de utilizar”, defendendo que o acesso a um interlocutor humano “deve continuar a ser a base do apoio ao cliente, e não uma possibilidade residual”, nomeadamente numa altura em que a Inteligência Artificial ainda tem uma “capacidade limitada”.
Entre as propostas que a DECO sugere inclui-se, por exemplo, a consagração legal do direito do consumidor a contactar um interlocutor humano quando o solicite, bem como a obrigatoriedade de disponibilizar um contacto por email e telefone claramente identificável.
🇵🇹 PORTUGAL // CENTROS DE SAÚDE // MÉDICOS DE FAMÍLIA
Ministério da Saúde faz mais uma alteração ao Registo Nacional de Utentes. Desta vez, elimina das listas de médicos de família quem não procura cuidados no SNS há cinco anos. Neste situação, estão mais de 121 mil utentes. E o objectivo “é libertar a vaga” para utentes sem médico. Associação de Medicina Familiar diz-se “preocupada” com efeito da medida, “mais parece ser uma forma administrativa de reduzir lista de utentes sem médico”.
No país, há 1,5 milhões de utentes sem médico de família. ANTÓNIO PEDRO SANTOS
Utentes que não vão ao centro de saúde há cinco anos deixam de ter médico de família
Ministério da Saúde faz mais uma alteração ao Registo Nacional de Utentes. Desta vez, elimina das listas de médicos de família quem não procura cuidados no SNS há cinco anos. Neste situação, estão mais de 121 mil utentes. E o objectivo “é libertar a vaga” para utentes sem médico. Associação de Medicina Familiar diz-se “preocupada” com efeito da medida, “mais parece ser uma forma administrativa de reduzir lista de utentes sem médico”.
O Despacho n.º 3118/2026, publicado no dia 11 de Março, vem alterar, mais uma vez, as “regras de organização e gestão do Registo Nacional de Utentes (RNU) e as condições de inscrição nos cuidados de saúde primários”. Agora, e segundo a nota de esclarecimento enviada às redacções pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), com o objectivo de “melhorar o acesso aos cuidados de saúde”, “reforçar a qualidade dos sistemas de informação usados no SNS”, “actualizar e aperfeiçoar as tipologias de registo do RNU”, “ajustar as condições de inscrição nos cuidados de saúde primários” e “melhorar o processo de atribuição e manutenção de médico de família”.
Uma alteração que já está a suscitar reacções da parte dos profissionais no terreno, nomeadamente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), que diz estar “preocupada” com os efeitos que a medida pode vir a ter na actividade dos centros de saúde.
O vice-presidente da APMGF, António Luz, destaca ao DN que “o objectivo da medida parece ser perceber-se se os utentes que não vão há cinco anos ao seu médico de família estão em território nacional ou não, mas a questão é que podem existir utentes residentes em Portugal sem necessidade de cuidados durante este período, mas a que qualquer momento podem ter necessidade deles e foram eliminados da lista do seu médico. E a nossa preocupação é evitar esta exclusão”.
Até porque, “o trabalho de um médico de família, além de ter de estar disponível para o utente quando este necessita, é também o de ser proactivo noutras áreas, nomeadamente na vacinação e no controlo de algumas doenças. E se estes utentes são retirados das listas, o médico de família deixa de ter a capacidade de alertar para desempenhar este papel e de poder alertar o utente para a actualização de vacinas ou para a realização de rastreios”.
Mas há outro efeito colateral que a APMGF teme. “Sempre que há alterações deste tipo há uma corrida a consultas nos centros de saúde por parte de utentes que já nem se lembram se não vão lá há dois, três, quatro ou cinco anos. Isto acontece sempre, porque os utentes tentam desta forma administrativa garantir que não perdem o médico de família”.
Questionado pelo DN se era necessária mais uma alteração ao RNU, o vice-presidente da APMGF relembra que “nos últimos anos temos vindo a assistir a várias actualizações no regulamento do registo nacional, quando o ideal seria que não tivéssemos mudanças tão frequentes. Primeiro tivemos alterações relativas à falta de dados actualizados de quem era residente ou tinha morada no estrangeiro, agora está em causa o contacto com o Serviço Nacional de Saúde e a saída das listas de médicos de família”, reforçando que “deveria haver maior previsibilidade neste regulamento, porque o mais importante para qualquer profissional de saúde é poder dar cuidados à população que necessita. E, neste caso, é fundamental assegurarmos que esta limpeza de utentes não suprime os direitos desses utentes”.
António Luz argumenta ainda que com esta alteração “mais parece que querem diminuir os números de utentes sem médico de família, não cativando mais médicos de família a trabalhar no SNS e com uma melhor organização do que são os serviços de saúde em Portugal, mas administrativamente, retirando utentes que existem, que têm necessidades em saúde, e que a partir daí acabam por ficar fora daquilo que é a gestão de doentes pelo médico de família”.
Despacho publicado altera outros dois em vigor desde 2024 e 2025
O despacho publicado na quarta-feira, 11 de Março, e que entra em vigor já esta quinta-feira, dia 12, e com efeitos práticos ao fim de 90 dias, a meio de Junho, vem alterar dois outros documentos, o Despacho n.º 14830/2024, relativo às regras de organização e gestão do RNU, e o Despacho n.º 40/2025, relativo às regras de inscrição nos cuidados de saúde primários.
Na nota de esclarecimento, a ACSS garante que os cuidados aos utentes não estão em causa e que o objectivo “é dar médico a quem aguarda”, explicando que o despacho em causa altera os artigos 6.º e 14.º.
O primeiro referente às “tipologias de registo” cria uma nova designação, “registo actualizado não residente”, aplicável a cidadãos portugueses que não residem em Portugal, e mantém as três outras já existentes – “registo em curso”, “registo incompleto” e “registo em histórico”. O segundo diz respeito aos “encargos que as entidades assumem cuidados de saúde”.
Relativamente à inscrição dos utentes nos cuidados de saúde primários, as alterações passam a exigir no RNU a seguinte clarificação “registo actualizado” ou “registo actualizado não residente”.
No artigo 4.º, por exemplo, “a inscrição para atribuição de médico de família passa a exigir que, dentro da dimensão previamente contratualizada com as unidades em relação às listas de utentes com médicos de família atribuído: − haja disponibilidade de vagas de médicos de família na unidade local de saúde do utente; − o utente esteja inscrito no SNS com a tipologia de “registo actualizado”.
Mas é o artigo 5 que traz a maior das alterações no que respeita àactualização das listas dos cuidados de saúde primários. Como refere a ACSS, “utentes com médico de família que não tenham contacto com o SNS há mais de cinco anos libertam a respectiva vaga para a lista de utentes com médico de família, não perdendo, no entanto, a inscrição e acesso a cuidados de saúde primários, desde que tenham a tipologia ‘registo actualizado’”.
Ou seja, os utentes não deixam de estar inscritos no SNS, mas perdem médico de família. E é neste aspecto que a APMGF defende que a metodologia usada por quem tutela o SNS deveria ser outra, nomeadamente “o contacto directo com estes utentes por telefone ou outras vias para identificar a sua situação, e não ser uma limpeza administrativa”.
ACSS garante que alteração não discrimina utentes ou limita acesso
A ACSS garante nas suas explicações que esta alteração no RNU “não vai discriminar os portugueses ou limitar o seu acesso ao SNS”, argumentando que “é apenas uma tipologia adicional de registo no RNU que permite melhorar a classificação administrativa e gestão no RNU, reforçando o cumprimento do Regime Geral de Protecção de Dados”, defendendo também que é uma forma de dar “também uma maior qualidade e fiabilidade dos dados e melhor articulação entre sistemas de informação que asseguram a prestação de cuidados de saúde aos utentes”.
Por outro lado, assume que o impacto desta medida é que mais de 121 mil utentes saiam das listas “libertando vagas para atribuição de médico de família a utentes que estão a aguardar”.
Os dados da ACSS revelam que, neste momento, há 10.003.2026 inscritos no SNS e que destes 121.959 utentes não têm contacto com o Centro de Saúde ou Unidade de Saúde Familiar há mais de cinco anos. A grande maioria dos utentes está entre os 18 e os 64 anos (108.777), seguem-se depois os que têm mais de 65 anos (7.593) e, por fim, os que estão entre os zero e os 17 anos (5.589). Neste último caso, e segundo é explicado, estão apenas os menores que “pertencem a um agregado familiar em que todos os elementos não têm contacto com o SNS há mais de cinco anos”.
Conforme é referido pela ACSS, “o objectivo das actuais medidas é assegurar que os utentes actualmente sem médico de família possam beneficiar de acompanhamento regular nos cuidados de saúde primários, promovendo o acesso efectivo e equitativo aos cuidados de saúde”.
Seis distritos de Portugal continental vão estar na sexta-feira e no sábado sob aviso amarelo devido à previsão de agitação marítima forte, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
O aviso para os distritos do Porto, Viana do Castelo, Leiria, Aveiro, Coimbra e Braga vai vigorar entre as 21h00 de sexta-feira e as 18h00 de sábado, face à previsão de ondas de noroeste com 04 a 05 metros.
O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.
O IPMA prevê para hoje no continente céu em geral pouco nublado, com nebulosidade matinal no litoral norte e centro, vento em geral fraco, neblina ou nevoeiro matinal, acentuado arrefecimento nocturno e pequena subida de temperatura.
As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 04 graus Celsius (em Bragança) e os 10 (em Lisboa e Portalegre) e as máximas entre os 15 (na Guarda, Porto, Aveiro e Viana do Castelo) e os 21 (em Lisboa, Santarém, Setúbal, Évora e Faro).
Há poucas semanas, quando boa parte de Portugal estava a ser assolada pelos temporais, Timor-Leste decidiu enviar um donativo de apoio. Não foi a primeira vez que chegou a Portugal essa solidariedade do outro lado do mundo, o mais distante dos países lusófonos: no ano passado, também as autoridades timorenses tinham oferecido uma ajuda em resposta aos fogos em território português.
Aliás, não resta dúvida da forte ligação emocional entre Portugal e a sua antiga colónia asiática. Os timorenses não esquecem a solidariedade do Estado Português, e do povo português, durante a ocupação indonésia, que durou entre 1975 e 1999. Foi obra da diplomacia portuguesa o referendo patrocinado pelas Nações Unidas que permitiu ouvir a vontade dos timorenses sobre o futuro que ambicionavam para a sua terra: quatro em cada cinco escolheram então a independência, proclamada finalmente em 2002, depois de uma primeira tentativa frustrada em 1975.
Se há nome que simboliza a resistência timorense é José Ramos-Horta. Com Xanana Gusmão a liderar a guerrilha nas montanhas de Timor, coube-lhe liderar a frente externa. O Nobel da Paz que recebeu em 1996, cinco anos depois de o massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, ter exposto ao mundo a brutalidade do Exército ocupante, foi um passo decisivo para mobilizar a comunidade internacional contra a tentativa de anexação.
“Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9.” Paulo Spranger
Herdeira das Índias Orientais Holandesas, desde a independência em 1949, a Indonésia sempre tinha respeitado a soberania portuguesa sobre a metade leste da ilha de Timor, onde os nossos navegadores chegaram no início do século XVI. Sukarno, primeiro presidente, chegou a visitar Portugal. Mas com Suharto no poder, e no contexto da Guerra Fria, Timor foi invadida no mesmo ano em que se deu a queda de Saigão. Para contrariar a teoria do dominó, e alegando que a descolonização portuguesa tinha aberto portas ao comunismo, Suharto procurou transformar os timorenses em indonésios, mas falhou. E hoje Timor-Leste é um jovem país que merece elogios, basta ver a posição que ocupa nos índices de democracia e de liberdade de imprensa.
Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9. No Facebook contou que foram muitas horas a viajar, mas que não podia faltar, para cumprimentar o novo Presidente português. Voou de Díli para Bali, dai para Hong Kong, depois para Zurique e finalmente aterrou em Lisboa. “Chegámos no dia 8, a meio do dia. Temperatura amena, agradável. Não podia faltar. Cerimónia comovente, mais uma pedagogia de democracia. Parabéns Portugal. Vir a Portugal é vir à segunda Casa Mãe”, escreveu o presidente timorense, que me recordo de nos anos 1990 ir ao DN, no edifício histórico da Avenida da Liberdade, encontrar-se com Carlos Albino, o jornalista que acompanhava a difícil situação em Timor.
“Timor-Leste merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e materiais, e oferecendo bolsas de estudo no país.”
Também me recordo de o ter entrevistado em Díli, em 2021, antes de voltar a ser eleito presidente. Então, Ramos-Horta mostrou-se optimista sobre o futuro da língua portuguesa em Timor-Leste, que é oficial a par do tétum. Se o grande legado português é o catolicismo (e a Igreja foi essencial na defesa da identidade aquando da ocupação pelo maior país muçulmano), a opção pela língua portuguesa em detrimento do bahasa ou do inglês foi uma escolha política que merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e manuais, e oferecendo bolsas de estudo.
É longe? Sim, é longe, mas isso nunca impediu a solidariedade nos tempos de resistência à Indonésia, nem que agora Ramos-Horta viajasse longas horas para assistir à passagem de testemunho de Marcelo Rebelo de Sousa a Seguro. A distância também não existiu, quando Timor, país pobre, indo buscar aos seus limitados recursos petrolíferos, se lembrou de ajudar Portugal em tempo de tempestade ou de fogos.
Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Diretor-adjunto do Diário de Notícias
11.03.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Há quem fale de “psychic numbing” (“entorpecimento psicológico”) e quem use a expressão “fadiga da solidariedade”. Certo é que parece haver cada vez mais pessoas, face ao carrossel de tragédias e ao sentimento de “tudo cada vez pior”, a querer desistir de acompanhar a actualidade e a desligar a empatia.
Manifestação em Israel, em Setembro de 2025, pela libertação dos reféns ainda então detidos pelo Hamas e o fim da guerra em Gaza. Este é um dos conflitos/tragédias que, em conjunto com a invasão russa da Ucrânia e, agora, a intervenção dos EUA e Israel no Irão, mais são referidos como motivo da overdose de pessimismo que leva ao desligar da empatia. ABIR SULTAN / EPA
“Parece que estamos a ser bombardeados de todos os lados e para onde quer que se olhe é tudo mau.”
“Chamo-lhe o PAEC: processo de alienação em curso.”
“Às tantas já não sei se é normal ou se se passa algo de errado comigo. Olho para as coisas com um distanciamento e um pessimismo enorme. Não vejo qualquer tipo de esperança ou de futuro para o mundo, para a sociedade.”
“Esse sentimento de ‘Epá, não, desisto, não quero saber mais, não adianta, não posso fazer nada e quem podia/pode, ou já não pode ou não quer fazer’, sim, tem-me vindo a assolar bastante nos últimos tempos.”
As vozes são de quatro pessoas diferentes, em resposta, no Twitter/X, à pergunta “mais alguém está a sentir que ante tanta merda a acontecer quer desligar por se afogar em impotência?” A última das quatro é Pedro, 40 anos, bancário. Questionado sobre o momento em que foi invadido por tal desalento, aponta para 2025: “No último ano esse sentimento acentuou-se. Parece que vivemos em ‘última hora’ de forma permanente: nem bem terminou a pandemia, começou a invasão da Ucrânia, o genocídio em Gaza, o descalabro da democracia nos EUA, o lambe-botismo da UE, o Direito Internacional a ser enterrado… Daí a sensação de impotência elevada à nona potência.”
Mas não é só, precisa, “a sensação de impotência, como a da inevitabilidade (de que algo, de facto, terá de acontecer). Tento desviar alguma atenção deste círculo vicioso: menos consumo de notícias, mais de tudo o resto (livros, filmes, séries, meditação, ginásio, etc). Mas não é fácil porque estão, de facto, a acontecer coisas, e viver na ignorância por opção parece-me, no mínimo, muito estranho. Talvez afine mais o que leio/vejo, sobretudo online. Claro que as redes sociais (X, principalmente) contribuem para este estado de actualização permanente, mas acaba por ser inevitável, já que são acontecimentos verdadeiramente cruciais. Um detox digital urge mas não será fácil.”
Rita, 50 anos, que como auxiliar de acção directa num serviço de apoio domiciliário trabalha exclusivamente com idosos com demência, está no mesmo sítio: “Estou a tentar não pensar nos assuntos, não ter muita informação. Neste momento sinto que viver ‘na ignorância’ é uma estratégia para manter a minha sanidade mental face à actualidade. Penso que tem vindo a escalar depois da pandemia e guerra na Ucrânia. Não sei se será apenas impotência, no meu caso talvez seja mais falta de esperança em voltar a viver num mundo normal… E será sentimento de impotência ou egoísmo? Também penso nisso.”
O egoísmo de não querer sentir que se é totalmente impotente, que seja o que for que se pense ou deseje ou se faça não serve para nada? Mariana, 30 anos, académica que tem nas suas áreas de investigação “especialização em paz e conflitos”, assente: “Agora, acordar, pegar no telemóvel às sete da manhã ou antes de ir dormir, e ler que os EUA e Israel continuam a violar o Direito Internacional, a bombardear países, crianças, seres humanos, saber que quase nenhum estado do Norte Global os pode ou os quer parar, dá uma sensação geral de impotência enorme. Também porque destrói as bases dos valores que defendo, do que estudei, dos temas com que trabalho. Sempre senti isto, mas de forma muito intensa desde o genocídio na Palestina, que, em última análise, foi onde se testaram os limites da banalidade do mal no nosso século.”
Para tentar “não sucumbir à apatia”, Mariana faz um esforço para “transformar estes sentimentos em acção, activismos”, e tenta “limitar os horários de acesso a algumas redes sociais para reduzir a intensidade”.
Já Tânia, 49 anos, economista que trabalha em marketing, recusa desligar mas, reconhece, “é uma luta”. Inventou uma palavra, “desesperância”, para descrever o que sente “desde Gaza” e aventa que possa haver, no que respeita a alguns actores ou movimentos políticos, uma deliberação no bombardeamento de enormidades, de modo a criar apatia: “Conheço várias pessoas que me dizem que já não conseguem ver notícias, que já está para além delas, do que conseguem aguentar. Julgo que o sentimento é de negação porque é mau demais. Começo a achar que é uma estratégia premeditada. Decerto foram percebendo que, ultrapassando um determinado limite, as pessoas bloqueiam e a intenção é mesmo essa. Bloqueados é o estado que julgo nos define melhor neste carrossel de horrores.”
O triunfo do mal e a “fadiga da compaixão”
A noção de que, confrontados com calamidades avassaladoras — ou aquilo que sentem ou percebem como tal —, as pessoas tendem a desenvolver indiferença ou apatia tem vindo a ser frequentemente resumida na expressão “psychic numbing”, ou “entorpecimento psicológico”. Usada na actualidade para referir sobretudo o sentimento expresso pelas pessoas que responderam à citada pergunta no Twitter — um sentimento nascido sobretudo da observação de acontecimentos terríveis à distância, através dos media —, a expressão foi cunhada a partir de algo bastante mais radical: o efeito de uma das mais terríveis tragédias registadas na história em pessoas que a viveram directamente.
O seu autor é o psiquiatra americano Robert Jay Lifton, a partir da investigação junto de sobreviventes da bomba largada pelos EUA a 6 de Agosto de 1945 sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Os seus entrevistados, escreveu Lifton em Death in Life: The Survivors of Hiroshima/Morte em vida: os sobreviventes de Hiroshima, ficaram emocionalmente bloqueados em resposta às horríficas cenas de morte em massa a que assistiram. Algumas décadas depois, a expressão foi utilizada pelo psicólogo americano Paul Slovic para referir um outro mecanismo: aquele que leva a que, ante a notícia de hecatombes humanitárias nas quais perecem dezenas ou centenas de milhar de seres humanos, se instale uma indiferença que, para este cientista social, advém precisamente da dimensão da catástrofe.
“If I Look at the Mass I will Never Act: Psychic Numbing and Genocide/Se eu olhar para a multidão nunca agirei: Entorpecimento psicológico e genocídio” (2007) é um dos artigos que publicou sobre esse fenómeno. Partindo da asserção de que ao longo da história recente “as pessoas boas repetidamente ignoraram o homicídio em massa e o genocídio”, Slovic aprestou-se a perceber porquê, para concluir que “as estatísticas de homicídio em massa e genocídio, não importa quão esmagadores os números, não conseguem representar o verdadeiro significado dessas atrocidades. O reporte do número de mortes corresponde a estatísticas sem interesse, ‘seres humanos com as lágrimas secas’, que não logram desencadear emoção ou sentimento e portanto não motivam acção.”
Tendo pedido emprestada à freira albanesa-indiana que ficou conhecida como madre Teresa de Calcutá a frase do título — “Se olhar para a multidão nunca agirei. Se olhar só para uma pessoa, sim” — , Slovic cita um colunista digital que em 2005 observou: “Há mais de 60 anos, desde a libertação dos campos de morte nazis, dissemos ‘nunca mais’. Desde então assistimos a extermínios em massa de seres humanos, seja por maldade deliberada ou por pura, sanguinária, estupidez ideológica, na China, no Cambodja, na Nigéria, na Etiópia, no Kosovo, no Rwanda. De cada vez censuramos, censuramos, mas… não fazemos nada. ‘Nunca mais’ transformou-se em mais e mais outra vez.”
O psicólogo prossegue a reflexão referindo que as organizações humanitárias há muito perceberam que para obter dádivas é muito mais eficaz apresentar uma única criança, com nome e rosto e história, que pedir para a grande causa das crianças desvalidas ou em perigo. Há experiências que o comprovam, como é o caso daquela em que esteve envolvido, publicada em 2007: um grupo de pessoas foi confrontado com a possibilidade de doar cinco dólares (4,30 euros na actual taxa de câmbio) para uma ONG (Save the Children), com três opções: uma criança identificada com nome, rosto e história; número total de vítimas; vítima identificada mais informação sobre o número total de vítimas. Em todas as opções, era dada a informação de que “todo o dinheiro doado seria usado para mitigar a fome na Etiópia e na África Austral”. As doações para a criança identificada foram muito superiores às dirigidas às vítimas em geral. Mas mais relevante ainda, e, lamenta Slovic, “mais desanimador”, é que ante a opção que aliava a cara, nome e história da criança individualizada com os números das outras vítimas as pessoas doavam menos que quando estava só em causa essa mesma criança.
Há pior: um grupo de estudantes suecos foi usado numa experiência em que foram divididos em três grupos, cada um para uma destas três opções: doar a uma criança identificada do sexo feminino; doar a uma criança identificada do sexo masculino; doar às duas. Para cada opção, deviam pontuar o seu nível de afecto de 1 (negativo) a 5 (positivo). A conclusão foi de que no caso das crianças individualizadas o valor da doação estava fortemente relacionada com o sentimento; no caso do par, essa correlação era muito menor. Se, conclui Slovic, a nossa capacidade de sentir é limitada, esta experiência parece indicar que a “fadiga da compaixão”, começa nos muito pequenos números — no número dois, pelos vistos.
E Slovic conclui: “Robert Jay Lifton cunhou o termo ‘psychic numbing’ para designar o ‘desligar’ do sentimento que possibilitava, no horrífico rescaldo do bombardeamento de Hiroshima, que quem tentava ajudar pudesse continuar a fazê-lo; aqui estamos perante um entorpecimento sem qualquer resultado positivo. É, ao contrário, um entorpecimento que leva à apatia e à inacção, consistente com aquele a que temos repetidamente assistido na reacção ao homicídio em massa e ao genocídio.”
Um bom exemplo desses vieses é a forma como o mundo ocidental reagiu em Setembro de 2015 à imagem do cadáver de Alan Kurdi, o menino de três anos fotografado numa praia turca após o naufrágio do barco de refugiados sírios em que seguia com a família (da qual só o pai se salvou). Também aí se proclamou “nunca mais”. Alan foi apenas uma de muitas, muitos milhares, de crianças mortas devido à guerra na Síria — mas ali estava, vestido como um menino ocidental, branco como um menino ocidental, igual a qualquer criança ocidental e portanto identificado e sentido como “nosso”. De repente, toda a gente garantia que era preciso salvar os Alan Kurdis, que não podia continuar a indiferença e a crueldade que lhes barrava a entrada na Europa. Mas, como é sabido, nada mudou — ou, na verdade, as coisas mudaram para pior, com o movimento anti-imigração e anti-refugiados a ganhar cada vez mais apoiantes e políticas de acolhimento como a que Angela Merkel aplicou na Alemanha a serem responsabilizadas pelo escalar do extremismo nativista de extrema-direita. A mágoa e a empatia europeias/ocidentais esgotaram-se nas lágrimas por aquela criança morta, sem reflexo em todas as outras que poderiam ser salvas.
“Somos todos humanos, ou alguns são mais humanos que os outros? Se acreditamos que todos os humanos são humanos, como é que o provamos? Só podemos prová-lo através das nossas acções”, escreveu o militar canadiano Roméo Dallaire, que comandava a missão da ONU no Rwanda aquando do genocídio que ocorreu naquele país africano, em 1994, e que não conseguiu que lhe dessem autorização nem tropas para tentar impedir a mortandade que ceifou 800 mil vidas em 100 dias.
Ao contrário de Dallaire, a maioria de nós não está em situação de tentar impedir massacres — só podemos envolver-nos de formas muito mais distantes e bem menos arriscadas. E, no entanto, a tendência geral será, como aduz Slovic, para nos afastarmos emocionalmente desse tipo de ocorrência, de soçobrarmos à fadiga da compaixão e da solidariedade.
“Há um fenómeno de saturação. As pessoas estão constantemente a ser bombardeadas com informação. Quando as coisas começam a atingir uma determinada intensidade, quanto maior é essa intensidade, mais temos tendência para nos protegermos. Começamos a ficar como que saturados de nos expormos e então procedemos ao fenómeno de evitamento, procedemos a uma negação afectiva”, diz ao DN a psicóloga Ana Cardoso de Oliveira. “Começamos por empatizar, mas os seres humanos foram feitos para a acção, e quando, ante algo de horrível, sentimos que não podemos fazer nada, o impulso é fugir. E o fugir é omitir essa informação dentro de mim, é desligar. A ideia é ‘não consigo fazer nada, portanto, olha, é deixá-los.’ E quanto mais os acontecimentos são distantes, menos empatia temos. Aí temos tendência para intelectualizar, enquadramos do ponto de vista histórico, encontramos razões. Porque somos extremamente etnocentrados.”
“Se te sentes sem saída não estás só”
Pode ser esse etnocentrismo a explicar que aquilo a que se dá o nome de psychic numbing esteja a afirmar-se entre nós de forma mais generalizada nos últimos tempos, aventa esta psicóloga, que nota um crescendo desse tipo de fenómeno na sua prática clínica. O que se deverá, crê, não só à imersão diária no tsunami informativo mas também ao facto de “haver mais coisas a acontecer no hemisfério ocidental”.
Nos últimos anos, a incerteza sobre o presente e o futuro passou a atingir de forma particularmente aguda a Europa e as Américas. Se a pandemia, com o seu sabor apocalíptico, surtiu um grande rombo na forma como vemos as coisas, será provavelmente a partir da segunda invasão da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro de 2022, a que se seguiu, a 7 de Outubro de 2023, o horrendo ataque do Hamas a Israel e a infindável e genocida retaliação deste país sobre Gaza, e logo depois a alteração, com a segunda era Trump, a partir de 2025, do papel dos EUA no mundo e na relação com a Europa, e também agora o ataque conjunto de EUA e Israel ao Irão, que o sentimento de “é de mais, não consigo” se notabiliza.
Claro que, como bem nota Ana Cardoso de Oliveira, a preocupação com Gaza e com as consequências da mudança política nos EUA ou com a actual ofensiva contra o Irão “não estão presentes em todas as pessoas, mas mais nas camadas diferenciadas da população”. Dever-se-á, de resto, sublinhar que aquilo que para uns é grande motivo de angústia — a escalada do extremismo nativista, do racismo, xenofobia e misoginia, e o aumento do apoio a ideias, regimes ou políticos autocráticos e belicistas — será para outros razão de alegria, esperança, maior confiança no futuro.
Nesta matéria, há uma forte divisão entre a esquerda e a direita. Quem, como a antropóloga britânica Theresa MacPhail num artigo publicado em Janeiro no Guardian (“Vivemos num tempo de policrise. Se te sentes sem saída não estás só”), fala da incapacidade de imaginar “um futuro melhor”, da sensação paralisante de apenas existirmos, sem horizonte, encurralados no agora, não pertence decerto às fileiras dos movimentos que recuperam ideologias que se julgou, pelo menos no que respeita ao Ocidente, terem sido para sempre derrotadas há quase um século.
“Não tinha realmente percebido o quanto a ideia de um futuro melhor me aguentava — como me tornava a vida mais vivível, as dificuldades mais suportáveis, e possibilitava a criatividade. Quando podíamos facilmente imaginar um mundo mais justo e mais saudável, era mais fácil comprometermo-nos com projectos de longo prazo e investir na próxima geração”, escreve MacPhail.
É como se a linha daquilo que uma parte das pessoas — as que sentem este desalento, precisamente — via como progresso se tivesse partido, e a reacção fosse a de deixar cair os braços, porque se sente que, perante uma tal regressão, não vale mais a pena lutar. Que, como na canção dos Xutos e Pontapés O Homem do Leme (“a vida é sempre a perder”), a história, o mundo, são sempre a perder.
No Twitter e nas respostas à pergunta inicial, a conta anónima @masquepiadaéqueissotem resume, como num longo e soturno suspiro, esse desânimo: “Sinto uma certa pena e um certo desapontamento por não poder deixar um mundo melhor como os meus pais acreditavam que me deixavam a mim. Mas olhando a história, o período de paz e acalmia que se viveu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial foi uma excepção na humanidade. E foi uma excepção europeia. (…) No fim de contas, não temos como resolver nada sobre as guerras em curso. Mas lamento profundamente que se esteja a regressar a um mundo mais inconstante, onde manda o bully da escola.”
Também no Twitter mas em sentido contrário, a escritora e jornalista Inês Pedrosa, 63 anos, aconselha contextualização e, portanto, esperança e ganas. “Todos os dias ao acordar, desde muito miúda, agradeço à sorte não ter nascido num país islâmico. Nos dias piores, ler Hannah Arendt também ajuda. Ou a História da Idade Média, ou da Roma Antiga. Ou a vida das mulheres na encantadora democracia grega. (…) Além desta epígrafe existencial que roubei ao Savater: ‘Recusar-me-ia a nascer antes da invenção da anestesia’. (Cuja hoje em dia não é acessível a nenhuma mulher no Afeganistão…) O progresso não é uma linha recta, mas existe.”