307: A húbris épica de Trump e Hegseth

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🇵🇹 OPINIÃO

Sim, é possível odiar, com todas as forças, o regime do Irão, querer, desesperadamente, que ele acabe, e achar o ataque dos EUA e Israel uma completa, contraproducente e estulta barbaridade.

Desde que há pouco mais de uma semana Israel e os EUA iniciaram o seu ataque furioso ao Irão que tenho estado, pacientemente, a ouvir e a ler acusações descabeladas “à esquerda” e “às feministas de esquerda” sobre a sua alegada indiferença em relação ao destino das iranianas e iranianos que lutam contra o regime dos ayatollahs e até sobre a suposta defesa que a esquerda e as “feministas de esquerda” estariam a fazer desse mesmo regime.

Essa defesa, dizem e escrevem os que protagonizam tais diatribes, comprovar-se-ia pelo facto de a esquerda e as feministas de esquerda estarem, ao contrário dos iranianos que lutam contra o regime, a criticar a operação a que os EUA deram o nome de “fúria épica”. A Internet encheu-se de cartoons em que esquerdistas ocidentais explicam a iranianas por que motivo devem estar contra a intervenção e estas respondem sarcasticamente algo como “sim, deves saber melhor que eu e os meus o que é melhor para mim.”

Sem dúvida que há iranianas e iranianos a aplaudir o ataque, e sem dúvida que houve iranianas e iranianos a pedi-lo, a suplicar por ele. Há umas semanas, uma iraniana que está a viver em Portugal disse-me isso mesmo: “Precisamos de uma intervenção militar internacional.” Quem deveria intervir? “O mundo inteiro. Porque o que se está a passar dentro do país é um genocídio.” Quando falámos dos EUA e de Trump e do que este tinha dito — que iria intervir se começassem a matar manifestantes (o que como é sabido sucedeu, e aos milhares, havendo estimativas de até 40 mil opositores assassinados) —, ela não hesitou: “Queremos que os americanos intervenham no Irão. Quando não se vive sob aquela opressão, é fácil dizer que os EUA e Trump são bullies. Queremos que o regime caia, queremos ajuda, qualquer ajuda. Só queremos que seja cortada a cabeça da serpente.”

Quando quis saber o que, na opinião dela, sucederia ou deveria suceder caso os EUA interviessem (nem chegámos a discutir que tipo de intervenção poderia ter o resultado que ela almejava, ou seja, o que seria “cortar a cabeça da serpente”), respondeu: “Isso são muitas perguntas, não sei. São perguntas muito complicadas.”

Como tantos iranianas e iranianos dentro e fora do Irão, decerto esta jovem mulher terá festejado a notícia da morte, logo no primeiro dia dos bombardeamentos, do odioso Ali Khamenei, o clérigo xiita que desde 1989 ocupava o cargo de líder supremo do Irão, e sentido essa morte como o almejado princípio do fim do regime. Ao fim de tantas décadas de horrível repressão, de perseguição infrene aos que lutam por democracia, liberdade e um regime laico, do sangrento esmagar de sucessivas revoltas, a aniquilação do principal rosto da bárbara nomenclatura religiosa que submete o país não poderia deixar de ser recebido com júbilo. Mas, para além de causar satisfação — sim, podemos retirar satisfação da morte de um tirano sob cujas ordens incontáveis seres humanos foram perseguidos, presos, torturados e executados —, essa morte é o “cortar da cabeça da serpente” que a minha interlocutora deseja?

É cedo para dizer, mas a eleição, este domingo, do filho do líder assassinado para o seu lugar leva a crer que a resposta é negativa. Se o regime pode sobreviver às vagas sucessivas de bombardeamentos que estão a destruir as infra-estruturas do país não é possível prever, como não é possível perceber que plano, se algum, têm os EUA para o resultado da sua intervenção (os de Israel parecem bem mais claros: destruir o país e fragmentá-lo em unidades territoriais/étnicas, de modo a desaparecer como potentado regional, e o resto que se dane).

Ouvir Trump reconhecer, com impagável candura, que as pessoas com que contaria para fazer algo como o que está a fazer na Venezuela (eliminar Maduro e deixar o regime intacto, mantendo no poder a lugar-tenente do presidente raptado para que ela faça aquilo que ele manda, nomeadamente dar-lhe acesso ao petróleo) foram todas mortas ao mesmo tempo que Khamenei — olha o azar — ou o indescritível Peter Hegseth, “ministro da Guerra”, a debitar abjecções infantis e ocas, qual bully de liceu ou vilão de filme manhoso, como “morte e destruição caem do céu todo o dia”, “isto nunca foi suposto ser uma luta leal, atacámo-los quando estavam no chão e é assim que deve ser” e “esta guerra não é como as guerras politicamente corretas do passado, não há cá as estúpidas regras de engajamento” (em referência às regras da guerra que proíbem por exemplo o ataque a alvos civis, mas também ao Direito Internacional em geral), certificando que o objectivo nunca foi mudar o regime, não é decerto de molde a tranquilizar nem iranianos nem o mundo em geral.

O que parece é que Trump achou que era boa ideia, até pela quantidade de problemas internos com que se tem confrontado, dos ficheiros de Epstein aos crimes do ICE, aproveitar a boleia dos israelitas para dar um show de belicismo “the american way”, como se tudo isto fosse um filme de acção para ver com pipocas — aliás, há dias a Casa Branca publicou um vídeo a glorificar a intervenção que entremeia imagens dos ataques ao Irão com excertos de fitas de super-heróis. Não é de esperar que tenha reflectido muito sobre o como, e muito menos sobre o porquê e o para quê: tem o poder e usa-o como lhe apraz a cada momento, tanto mais que desta vez, em segundo mandato, se soube rodear de gente tão ignorante e alucinada como ele.

É pois altamente duvidoso que algo de positivo resulte de um tão épico aparato de estupidez e barbaridade como o que o governo americano neste momento apresenta. E não é o facto de muitas iranianas e iranianos terem, em desespero, desejado uma intervenção estrangeira e saído às ruas a celebrá-la que muda a triste realidade.

O tão corajoso povo do Irão, a tão orgulhosa nação iraniana, as bravas feministas que afrontaram e afrontam décadas de opressão merecem triunfar — mereceram-no a cada revolta banhada em sangue, a cada vez que acreditaram, como tantos fora do país acreditámos, que a vitória não ia escapar. Não será, porém, um autocrata que mais não tem feito que destruir a democracia no seu país, e já admitiu que não se importa se os fundamentalistas xiitas mantiverem o poder desde que seja ele a escolher quem fica, nem, decerto, o maléfico Netanyahu, a trazer-lhes a liberdade. Oxalá fossem — oxalá pudesse, de toda esta maldade, de tão desalmada húbris, sair algo de bom.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.03.2026

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306: Não há acordo para o pacote laboral. Negociações entre Governo, UGT e confederações terminam

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🇵🇹 PORTUGAL // NEGOCIAÇÕES // PACOTE LABORAL

Representantes terminam ronda esta segunda-feira sem qualquer possibilidade de compromisso. Executivo e Confederações empresariais acusam UGT de “intransigência”.

Reunião entre Governo, UGT e associações patronais.
Reinaldo Rodrigues

As negociações do pacote laboral chegaram ao fim, esta segunda-feira, 9 de Março, sem qualquer acordo entre Governo, representantes da UGT e das confederações patronais.

As reuniões decorriam no Ministério do Trabalho mas, ao que foi possível apurar, não há solução à vista.

“Houve uma falta de recuo do Governo em propostas sucessivas”, o que provocou um “desencontro estrutural e uma inadequação de propostas face ao que a UGT tinha sugerido”, confirma fonte desta central sindical ao DN. “Para a UGT acabou a negociação”.

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, confirma que o processo “terminou. Quando não se chega a acordo, dá-se o processo por terminado. Isto era um processo que se arrastava há sete meses. Não podemos prolongar isto. Nas últimas três semanas, foram 20 reuniões”, referiu, citado pelo ECO.

O responsável afirma ainda que “não houve vontade política por parte da UGT” para chegar a um compromisso. “Tentou-se tudo até ao infinito. Não houve vontade, não se pode forçar“, salienta Francisco Calheiros à mesma publicação.

Da mesma falta de vontade por parte da central sindical queixou-se a ministra do Trabalho. “A UGT está absolutamente intransigente. O Governo vai realizar todos os esforços para que seja possível um acordo”, garantiu Maria da Palma Ramalho, por seu lado.

E Armindo Monteiro, presidente da CIP, afinou pelo mesmo diapasão, referindo que as negociações sobre o pacote laboral terminaram sem acordo por responsabilidade daquela central sindical.

“É da responsabilidade da UGT não haver acordo”, afirmou o líder da CIP, acrescentando que “não é habitual ver a UGT ter a atitude que teve” durante o processo de negociação da reforma laboral proposta em Julho de 2025 pelo Governo.

Na reacção, à saída do encontro, Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, afirma que “dizer que a UGT é intransigente é falta de verdade. Havia conciliação a quase 60 propostas. À 25.ª hora, a CIP apresentou uma proposta maximalista que não permitia consensos”, considera o responsável.

Sérgio Monte elencou uma série de medidas contra as quais a central sindical sempre se mostrou contra, afirmando que não seriam negociáveis, como a reintegração de um trabalhador após vencer um processo de despedimento por justa causa ou o banco de horas individual.

“Não está morto o acordo”, garante Monte. “Mas para a CIP, pelos vistos, está. Há várias propostas inconstitucionais. O Governo é que tem de dizer se ainda existem ou não negociações”, continuou responsável que garante que não abandonarão “a mesa”.

“Nas traves mestras do Governo não houve alterações. Tivemos reuniões com os nossos 55 sindicatos e mais de 30 disseram que esta proposta não era susceptível de um acordo”, terminou o responsável.

Recorde-se que desde Julho de 2025 que está em negociação a reforma da lei do trabalho, altura em que o Governo aprovou em Conselho de Ministros e, posteriormente, apresentou na Concertação Social um anteprojecto que previa cerca de uma centena de 100 alterações à actual legislação laboral.

As centrais sindicais foram sempre contra o “pacotão” de medidas apresentado pelo Executivo de Luís Montenegro, e a sua discordância culminaria na greve geral de 11 de Dezembro – a primeira greve geral organizada pela UGT e pela CGTP desde os tempos da ‘troika‘, em 2013. Foi a quinta greve geral em cinco décadas de democracia.

Na altura, o secretário-geral adjunto da UGT, Sérgio Monte, realçava que o Governo não estava a negociar uma alteração á lei laboral, mas sim “a impor as suas vontades“. Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP dizia, por seu lado, que a reforma proposta “acentua a precariedade, facilita os despedimentos, desregula os tempos de trabalho, limita a actuação dos sindicatos, e ataca a negociação colectiva. Temos de exigir, neste momento, a retirada do pacote. É neste momento. Nenhum trabalhador perdoaria se não déssemos combate”.

O combate terminou hoje, assim, sem um vencedor claro. Mas vale a pena recordar que não será alheio a este resultado o facto de António José Seguro, que tomou esta segunda-feira posse como Presidente da República, já ter adiantado que não publicaria as alterações à legislação laboral tal como estão porque a questão “não fez parte” das propostas eleitorais e sem um acordo em concertação social. “Primeiro, não fez parte a proposta eleitoral dos partidos que estão hoje no lugar. Segundo, não houve acordo na concertação social”, afirmou Seguro durante uma intervenção na Faculdade de Economia do Porto, ainda durante a campanha para as presidenciais.

A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, que tem sido sempre a voz optimista destas negociações, acreditando que elas poderiam chegar a bom porto, tem feito saber, no entanto, que com ou sem acordo na Concertação Social, vai avançar com a proposta da alteração laboral no Parlamento, o que faz adivinhar que este poderá ser o primeiro teste de António José Seguro numa presidência que, fez questão de dizer e repetir durante, quer que seja de estabilidade.

com Lusa

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes, Frederico Bártolo, Ricardo Simões Ferreira
09.03.2026

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305: Doze distritos do continente sob aviso amarelo devido à neve e agitação marítima

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // MAU TEMPO

O IPMA prevê para esta terça-feira no continente, aguaceiros, em especial no Centro e Sul, que serão de neve nas terras altas, assim como formação de gelo.

João Manuel Ribeiro/Global Imagens

Doze distritos do continente estão esta terça-feira, 10 de Março, sob aviso amarelo devido à previsão de agitação marítima e queda de neve, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Os distritos da Guarda e Castelo Branco estiveram sob aviso amarelo até às 03h00, por causa da queda de neve acima de 1400 metros de altitude.

Num comunicado, o IPMA alerta que a queda e acumulação de neve e a possível formação de gelo pode causar perturbação, dando como exemplo vias condicionadas ou interditas, danos em estruturas ou árvores, abastecimentos locais prejudicados.

Até às 06h00, estiveram sob aviso amarelo devido à agitação marítima os distritos de Aveiro, Porto e Braga.

Com o mesmo aviso e também devido à agitação marítima estão os distritos de Coimbra (até às 09h00), Leiria (até às 12h00), Lisboa (até às 13h00), Faro, Beja e Setúbal (até às 15h00).

O instituto prevê a ocorrência de ondas de noroeste, com entre quatro a 4,5 metros de altura.

O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

O IPMA prevê para hoje no continente, aguaceiros, em especial no Centro e Sul, que serão de neve nas terras altas, assim como formação de gelo e descida da temperatura mínima e subida da máxima.

As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 1 graus Celsius (na Guarda) e os 10 (em Faro) e as máximas entre os 9 (na Guarda) e os 17 (em Braga).

Diário de Notícias
DN/Lusa
10.03.2026

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304: Queda de neve coloca dez distritos sob aviso amarelo

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // QUEDA DE NEVE

Bragança, Viseu, Porto, Vila Real, Viana do Castelo, Aveiro, Coimbra e Braga vão estar sob aviso amarelo entre as 9:00 e as 21:00 e Guarda e Castelo Branco entre as 9:00 e as 03:00 de terça-feira.

Neve em Vila Pouca de Aguiar, no distrito de Vila Real
PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Dez distritos de Portugal continental estão esta segunda-feira, 9 de Março, sob aviso amarelo devido à previsão de queda, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Os distritos de Bragança, Viseu, Porto, Vila Real, Viana do Castelo, Aveiro, Coimbra e Braga vão estar sob aviso amarelo entre as 9:00 e as 21:00 e Guarda e Castelo Branco entre as 9:00 desta segunda-feira e as 03:00 de terça-feira.

Paralelamente, Faro e Beja vão estar sob aviso amarelo por causa da agitação marítima entre as 03:00 e as 15:00 de terça-feira, prevendo-se ondas de noroeste com 04 a 4,5 metros.

O aviso amarelo é emitido pelo IPMA sempre que existe uma situação de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica.

O IPMA prevê para esta segunda-feira, em Portugal continental, céu muito nublado, períodos de chuva, passando a aguaceiros, em especial no norte e centro, queda de neve, formação de gelo, descida da temperatura máxima e agitação marítima forte a norte do cabo Espichel.

As temperaturas mínimas vão oscilar entre os -2 graus Celsius (na Guarda) e os 09 (em Faro) e as máximas entre os 05 (na Guarda) e os 17 (em Faro).

Diário de Notícias
David Pereira
09.03.2026

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303: Teresa Morais

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🇵🇹 OPINIÃO

A actividade parlamentar da última semana voltou a trazer para o centro do debate uma questão difícil que ainda consome muita gente de bem: como deve a democracia lidar com quem testa constantemente os seus limites? Num prato da balança pesam-se os riscos de dar palco à vitimização que faz parte das narrativas “anti-sistema”; no outro, os riscos de normalizar atropelos e abusos quando apenas se encolhem os ombros.

Antes de mais, convém perceber que a Assembleia da República não é apenas um palco de confronto político, mas também, e antes de mais, a casa da democracia. Um espaço onde a liberdade de expressão e o debate aceso devem conviver com regras de respeito institucional, responsabilidade e decoro. Quando essas regras são sistematicamente desafiadas e desrespeitadas, estamos perante uma tentativa de redefinir as fronteiras do jogo democrático.

Foi isso que Teresa Morais decidiu não deixar passar em claro, esta semana, no Parlamento. A vice-presidente da AR tomou as rédeas das sessões, na ausência do presidente Aguiar-Branco, e decidiu ser vocal na defesa da honra da instituição a que presidia naquele momento.

Primeiro, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, assinalando a André Ventura que não podia deturpar as regras da interpelação à mesa para continuar o discurso político e não recuando perante as desconsiderações do presidente do Chega, que a tentou menorizar dizendo-lhe que “nem deveria estar ali” naquele dia.

Depois, no dia seguinte, quando decidiu não deixar passar uma acusação de Ventura à deputada Isabel Moreira, do PS, e às líderes parlamentares do Livre e do PCP, de ficarem caladas quando as mulheres são violadas por cidadãos estrangeiros. Ao afirmar que nenhuma deputada quer esconder violadores ou ignorar crimes contra mulheres, Teresa Morais não fez uma intervenção partidária, nem agitou qualquer bandeira feminista. “Limitou-se” a fazer o essencial: defender a honra da instituição a que presidia naquele momento.

Há quem veja nesta atitude a ingenuidade de alimentar a narrativa preferida dos populistas: a do “sistema” que os quer silenciar. Basta lembrar como o antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, foi tantas vezes acusado de contribuir para o crescimento do Chega por isso.

Numa abordagem diferente está, por exemplo, o estilo do actual presidente, José Pedro Aguiar-Branco, defensor de deixar que a própria dinâmica do debate parlamentar regule os conflitos.

Ambas as abordagens têm riscos evidentes. Mas quando um dia olharmos para trás para fazer o balanço deste tempo político, será importante perceber que houve quem não hesitou em erguer a voz para defender as instituições democráticas e os valores da decência. Teresa Morais, seguramente, não poderá ser acusada de ter assistido em silêncio.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

09.03.2026

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Vem aí frio! Próxima semana terá chuva e temperaturas “abaixo da média”

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🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // FRIO // CHUVA

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê que a próxima semana traga frio e chuva, com temperaturas abaixo da média “para esta altura do ano”. Eis as previsões.

Mau tempo, Chuva, Lisboa
© Horacio Villalobos#Corbis/Getty Images

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) divulgou, esta sexta-feira, a previsão do estado do tempo para a próxima semana, entre os dias 9 e 15 de Março, em Portugal continental. Segundo o instituto, os próximos dias contarão com temperaturas “abaixo dos valores médios para esta altura do ano”.

No boletim semanal, o IPMA revela que, na próxima semana, Portugal continental será “influenciado pela passagem de sistemas frontais, com ocorrência de precipitação em geral fraca”.

A precipitação será “mais provável” nas regiões Norte e Centro na segunda-feira, 9 de Março, e no litoral Norte na quarta-feira, 11 de Março.

Há ainda a “possibilidade de ocorrer queda de neve nas serras do Norte e Centro” na segunda-feira, mas à data de hoje a probabilidade é “inferior a 50%”.

Na próxima semana, “a temperatura irá estar abaixo dos valores médios para esta altura do ano”, estando previstas máximas a variar entre 6 e 16ºC e mínimas entre 1 e 9ºC na segunda e terça-feira.

Nos mesmos dias, as temperaturas podem variar entre os -2 e 0ºC no interior Norte e Centro e prevê-se que atinjam os -6ºC nos pontos mais altos da Serra da Estrela.

Já a partir de quarta-feira, 11 de Março, “haverá um aumento de temperatura, com valores máximos a variar entre 12 e 20 °C e valores mínimos entre 1 e 10 °C em todo o território”.

Notícias ao Minuto
Márcia Guímaro Rodrigues
06.03.2026

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301: Realismo geopolítico: quando a força se sobrepõe ao Direito Internacional

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🇵🇹 OPINIÃO

Lamento ter de repetir, mas criticar a teoria do realismo geopolítico não constitui um exercício de idealismo ingénuo. Trata-se, pelo contrário, de recordar três dimensões fundamentais das relações entre os Estados. Primeiro, que a paz deve ser o princípio basilar da ordem internacional.

Segundo, que a Carta das Nações Unidas – ainda que careça de actualização em matéria de representatividade e do funcionamento do Conselho de Segurança – deve ser escrupulosamente respeitada. Terceiro, que o poder da força militar não pode, nem deve, sobrepor-se à força do Direito Internacional. O mundo não é um ringue de boxe, nem uma arena de gladiadores, onde vence invariavelmente o mais forte.

O erro central do pretenso “realismo político” reside na redução do Estado ao papel de um ator único, ignorando as práticas democráticas. As instituições, as associações de cidadãos, os agentes económicos, a comunicação social e os intelectuais são desvalorizados ou instrumentalizados como meros peões do poder.

As oposições são diminuídas nos seus direitos, como alternativas normais em democracia. Na realidade, este pretenso realismo, que mais não é do que uma forma de reducionismo político, abre as portas ao poder absoluto e arbitrário, mesmo nas democracias aparentemente consolidadas.

Um líder, quando encara o mundo apenas pela alavanca da força e da agressão militar, vive ancorado noutros tempos, tem as suas raízes mentais enterradas no passado. Coloca-se fora da lei e chama a isso pragmatismo. Ignora – ou finge ignorar – que há um antes e um depois de 1945, e que o mundo mudou radicalmente desde o fim da Guerra Fria. Quando fala em “negociações”, refere-se, na verdade, à submissão do mais fraco perante a vontade do mais forte.

No século XIX, tal prática designava-se por “ultimato”. Hoje, apresenta-se sob a capa de um denso “nevoeiro geopolítico”. A falta de visibilidade, permite um jogo sem regras claras. A diplomacia é capturada para ganhar tempo, semear confusão – entre adversários e junto da opinião pública– e preparar, na sombra, a logística da guerra. Podemos confiar, hoje e amanhã, num líder assim?

Ahmed Mardnli / EPA

A guerra contra o Irão recorda-nos que é imperativo e urgente insistir na ética internacional e nos Direitos Humanos. Quando a força bruta se torna o critério primordial, ninguém está verdadeiramente seguro – nem mesmo os mais poderosos. Se os Direitos Humanos são desprezados, o medo transforma-se na única verdade aceitável e na regra social dominante. A novilíngua de George Orwell começa, inquietantemente, a ser imposta como norma linguística, quando em certas capitais europeias se fala de personagens invulgares que agora aparecem à boca de cena.

O que acontece hoje no Médio Oriente sublinha uma realidade constante: durante e no fim das más decisões e do despotismo, há sempre um grande número de seres humanos a pagar a factura. Esta realidade leva-me a sustentar que a única soberania que verdadeiramente conta é aquela que assenta na protecção da vida e da dignidade humana. Tudo o resto pertence à comédia trágica do poder, às ambições megalomaníacas absurdas e à indiferença perante as pessoas e o próprio mundo. Estaremos a assistir ao declínio definitivo das preocupações humanistas?

É urgente levar este tema à mesa do Conselho de Segurança. A diplomacia portuguesa, empenhada em obter um assento no Conselho para o biénio 2027-2028, deve assumir esta visão como uma bandeira sua: a bandeira da paz, do diálogo e da tolerância, com a Humanidade acima de tudo. Ao fazê-lo, Portugal alinhar-se-á com a maioria dos Estados-membros e com a própria essência da ONU. Não seremos meros espectadores passivos do niilismo e do unilateralismo actuais, mas sim uma voz ativa, capaz de proclamar que os grandes desafios exigem respostas colectivas e multilaterais.

A nossa participação na NATO tem um objectivo de paz e não impede a construção de pontes com organizações regionais na América Latina, em África ou na Ásia. Num momento em que algumas potências se afastam da ONU, ou a querem subalternizar e capturar, a diplomacia portuguesa poderá servir de mais um pilar – em articulação com outros Estados – na construção de consensos, na defesa do Direito Internacional e no apoio às instituições de interesse comum. Por exemplo, dos tribunais internacionais sediados em Haia e dos organismos do sistema das Nações Unidas, vitais para milhares de milhões de pessoas e para o planeta.

Em Junho, a Assembleia Geral votará a composição do Conselho para os próximos dois anos. A campanha portuguesa decorre num contexto exigente e bastante delicado. O nosso maior trunfo deve ser a promoção intransigente da paz através do reforço do papel político da ONU. É essa a mensagem que o mundo quer – e mais precisa – de ouvir com clareza.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
06.03.2026

Os renascidos 4 estarolas pré-históricos do século XXI

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300: O que precisa de saber sobre a nuvem de poeiras do Saara a chegar

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🇵🇹 PORTUGAL // NUVEM DE POEIRAS DO SAARA

Com a chegada de uma nova massa de ar vindo do Norte de África, o céu de Portugal está prestes a ganhar aquele tom baço e alaranjado que já conhecemos a partir de segunda-feira. No entanto, este fenómeno vai muito além de uma curiosidade visual ou de deixar os carros sujos. Como a nuvem de poeiras do Saara transporta partículas finas que afectam a qualidade do ar, é fundamental que saibas como te proteger nos próximos dias.

poeiras do Saara ainda contêm radioactividade! quais os perigos?

Nuvem de poeiras do Saara a chegar: os cuidados que tens de ter

Certamente, o impacto mais directo sente-se na nossa respiração. Estas poeiras são compostas por minerais, mas também podem carregar pólenes, fungos e outros poluentes recolhidos durante o trajecto. Portanto, se sofres de alergias ou problemas respiratórios, deves redobrar a atenção, pois a concentração de partículas em suspensão (PM10) vai disparar.

Poeiras de África

Os Perigos Invisíveis para a Tua Saúde

Embora pareça apenas “areia no ar”, a verdade é que estas partículas são tão pequenas que conseguem penetrar profundamente nos pulmões. Consequentemente, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) recomenda habitualmente cuidados especiais durante estes episódios.

Irritação Imediata: É muito comum sentires os olhos a arder, a garganta seca ou uma tosse persistente.

Agravamento de Doenças: Pessoas com asma, rinite ou bronquite podem sentir crises mais severas devido à má qualidade do ar.

Esforço Cardiovascular: O corpo trabalha mais para filtrar estas impurezas, o que pode ser perigoso para idosos ou pessoas com problemas de coração.

Visto que a exposição prolongada é o maior risco, o ideal é que tentes passar o máximo de tempo possível em ambientes fechados enquanto a nuvem estiver sobre a tua região.

Dicas Práticas para Sobreviver à “Chuva de Lama”

Além da saúde, existe o lado prático da manutenção da casa e do carro. Adicionalmente, as previsões apontam para a possibilidade de chuva em alguns pontos do país, o que resultará na deposição de lama sobre todas as superfícies.

Alerta chuva: este erro fatal custa-te 600 Euros em multa

Mantém as Janelas Fechadas: Evita arejar a casa nas horas de maior concentração para impedir que o pó entre nos teus estofos e tapetes.

Cuidado ao Lavar o Carro: Se o teu carro ficar coberto de pó, não passes uma esponja directamente. Deves usar muita água sob pressão primeiro, caso contrário, os grãos de areia vão riscar a pintura de forma permanente.

Hidratação Constante: Beber muita água ajuda a manter as mucosas das vias respiratórias húmidas, o que facilita a expulsão natural de algumas destas poeiras.

Usa Máscara se Necessário: Se tiveres de fazer trabalhos no exterior ou se fores do grupo de risco, a utilização de uma máscara FFP2 pode ser uma excelente aliada para filtrar o ar que respiras.

Quando é que o Céu Volta ao Normal?

De acordo com os modelos meteorológicos, este fenómeno deverá persistir durante vários dias, afectando primeiro a Madeira e progredindo depois pelo Continente. Contudo, a situação tende a normalizar assim que as correntes de ar mudarem ou uma frente de chuva mais limpa ajude a lavar a atmosfera.

Em suma, aproveita o cenário para tirar fotografias impressionantes, mas não ignores os sinais do teu corpo. Se sentires falta de ar ou um desconforto invulgar, procura um local arejado (dentro de casa) e descansa.

Leak
05.03.2026

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299: A farsa dos loucos e Portugal

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🇵🇹 OPINIÃO

Querem um exemplo concreto da relevância do multilateralismo entre estados que também protege as populações portuguesas e Ocidentais? Olhem para o caos no Médio Oriente com a resposta do Irão à Operação Fúria Épica e onde tudo isso esteve ausente desde o primeiro momento.

Num contexto em que a União Europeia tanto invoca a “autonomia estratégica” pretendida, seria expectável que, pelo menos os estados afirmassem, o primado do Direito Internacional e da diplomacia. Alguns fizeram-no. Portugal optou pelo silêncio administrativo. Algo que nos tornou perigosamente coniventes. Mesmo que de forma prudente, a União tenha apelado à contenção e à legalidade institucional. Fora desse espectro, até o Reino Unido que é o grande aliado dos americanos, foi contundente e não renunciou ao reflexo na utilização das suas bases.

Lê-se grande parte da opinião pública americana e europeia, e existe uma crítica com pouco ou nada de ideológico a esta investida e que sublinha aquilo que já se deveria ter aprendido com a História recente. As mudanças de regime não acontecem assim num país da dimensão do Irão e com as células terroristas que dali espoletam. Antes, têm tendência a reforçá-las e até a reacender o que estava adormecido.

Netanyahu é um carniceiro que pretende dizimar a região para distrair aquilo que recai sobre si e Trump, de forma quase idêntica, é alguém que despreza os serviços de inteligência, a diplomacia e tudo o que é aconselhável na cautela que se deve ter sobre aquela região. Não será um pormenor esta guerra ter sido iniciada por quem foi do lado Ocidental.

Com o tema da utilização da Base das Lajes e os EUA como Estado agressor, Portugal colocou-se à margem de um dos maiores desafios na relevância da UE: a reabilitação do multilateralismo e do Direito Internacional. Perdemos espaço para a crítica recorrente da falta de força política e de autonomia da União.

Como se poderá exigir isso a partir daqui? É verdade que o Governo Português não participa no ataque, mas politicamente a resposta é insuficiente em relação às Lajes. Nem nos enquadrámos de forma pragmática. Se é certo que provavelmente não corremos o risco de ser atingidos por um míssil, também o é que a guerra assimétrica pode vir a revelar-se por outros meios e aí a comprometer-nos.

Nada aprendemos com a História. O resultado da invasão do Iraque à margem culminou num país devastado, de uma instabilidade regional duradoura e do fortalecimento de dinâmicas extremistas que ainda hoje moldam o Médio Oriente.

No Afeganistão, duas décadas de intervenção resultaram num regresso ao ponto de partida, com mais de dois milhões de mortos e custos financeiros incalculáveis.

Mudanças de regime promovidas externamente, por mais tenebroso e sanguinário que seja o mesmo – e o do Irão é tudo do pior – produzem efeitos desastrosos. Ignorar essa memória colectiva é um luxo ao qual a Europa não se pode dar. Muito menos um Estado como Portugal. Ao evitar qualquer afirmação política, o Governo enfraquece a relevância portuguesa e contribui para aquilo que tem sobrado: uma UE sem peso estratégico.

Pequenos Estados não ganham influência pelo alinhamento subserviente, mas pela consistência dos princípios que defendem. Se queremos uma Europa com voz própria, temos de começar por exercê-la. Caso contrário, continuaremos a queixar-nos da fragilidade europeia enquanto voluntariamente, somos hoje o principal promotor.

Olhemos para o nosso vizinho e entendamos como se mantém a lucidez, os princípios, a realpolitik e a coluna num tempo de ignorância trumpista e em que a farsa dos loucos comanda.

Podemos ser mais do que isto.

Diário de Notícias
Gonçalo Ribeiro Telles
Comentador Político. Fundador e consultor de Comunicação na GRiT Communication & Political Risk
04.03.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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298: A guerra que nos cerca

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🇵🇹 OPINIÃO

What passing-bells for those who die as cattle?
– Only the monstruous anger of the guns.
Only the stuttering rifles’ rapid rattle
– Wilfred Owen
(1893 – 1918)

As nossas mentes e as nossas escritas conseguem alhear-se deste clima de guerra total que nos rodeia e envolve? A bem da nossa saúde mental, era bom que continuássemos a falar de outras coisas, a olhar para fora de nós e das notícias terríveis que hora a hora nos chegam e em que, crescentemente, “cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas” (Eugénio de Andrade).

A nossa época está a transformar-se numa daquelas épocas em que os tempos se transformam por cima das nossas vontades, quaisquer que elas sejam, e em que se procede a uma destruição selvagem e radical do que passámos décadas a acumular. Como se a guerra fosse a limpeza que fazem os donos da casa antes de mudar a mobília.

O nosso drama é que não sabemos quem são os donos da casa, nem que nova mobília querem trazer, porque os fins da guerra ultrapassam sempre as estratégias mais ou menos racionais que movem os líderes que são instigadores e agentes das guerras. Por isso, no final, os resultados são tão diferentes do que vencedores e vencidos tinham previsto!

Outra característica de todas as guerras é que duram sempre muito mais tempo do que o programado. Daí que nalguns casos sejam os militares, conscientes da insustentabilidade dos objectivos bélicos, a impor a paz aos poderes políticos; mas a situação inversa pode também registar-se.

No momento presente, verificamos uma grande indefinição nos propósitos finais desta guerra generalizada no Médio Oriente, além do objectivo claro e permanente, por parte dos Estados Unidos, de garantir a segurança de Israel, mesmo que o final tenha de ser como o da história bíblica de Sansão…

A Ucrânia e, por tabela, a Europa, arriscam-se a perder força e presença nesta conjuntura, em que o Médio Oriente vai claramente passar à frente do drama ucraniano.

A situação do povo iraniano é cruelmente paradoxal: a esmagadora maioria das pessoas qualificadas e educadas, fora da burocracia estatal, odeia a ditadura teocrático-militar que lhes foi imposta; mas não creio que, apesar de tudo, possam ver com agrado o seu país ser atacado e destruído por forças estrangeiras.

Não penso de todo que isso leve estas pessoas (e qual será o seu peso relativo na população iraniana?) a solidarizar-se com um regime que odeiam. Mas não vemos emergir uma alternativa consistente e organizada no seio da valente oposição daquele país.

Rumi, o grande poeta e místico sufi (1207 – 1273) dizia das guerras que elas tinham a consistência “das brigas das crianças”. Infelizmente, entre essa consistência e as consequências das guerras a distância é enorme e mortal.

Há um costume no Irão de ir junto ao túmulo do poeta Hafez (século XIV) e, abrindo ao acaso o livro dos seus poemas, procurar nele o guia para o nosso futuro. Quando lá estive, vi muitos jovens a procurar o seu futuro num poema de Hafez tirado ao acaso. Fiz o mesmo agora, ao terminar este artigo, e surgiu-me este poema, que vos transmito aqui, com os meus agradecimentos a Hafez, e dedicado ao bravo povo iraniano que luta pela sua liberdade:

Os guerreiros domaram
as bestas
Em seus passados para que os cascos das patas
da noite
Não pudessem mais
quebrar a visão
Ricamente ornamentada do coração.

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor
04.03.2026

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