É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário. Não é possível desvalorizar o sentido de uma enormidade que nos coloca perante um mundo infinitamente mais difícil de prever e compreender.
O estudo da História faz-se de múltiplas variantes onde se inclui a análise da quantidade de pobres e da qualidade dos ricos. Habituámo-nos aos milionários de antigamente. Gente diabolizada pela luta de classes, mas que acumulava dinheiro previsivelmente. Dependiam da força dos braços dos trabalhadores, da sua produtividade. Muitos eram verdadeiros canalhas, outros verdadeiros senhores, mas nenhum deles punha em causa a necessidade de sermos uns para os outros.
“É o homem mais rico de sempre. E será o primeiro, confirmando-se a possibilidade de o povo poder começar a comprar acções da SpaceX, a ser trilionário.” FOTO: EPA / Allison Dinner
Nos meus tempos de jovem estudante do materialismo dialéctico tal era a prova de uma perversidade, de uma degenerescência, de uma cruel injustiça social. Quem nada tinha continuaria sempre a nada ter, sem uma revolução existiriam até à eternidade exploradores e explorados.
Quando abandonei a adolescência tornei-me mais pessimista sobre a condição humana sem nunca ter deixado de ser um social-democrata, um menchevique, se preferir.
“Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade.”
Os homens mais ricos do mundo já não se parecem com Rockefeller, Ford ou com os Rothschild. Vivem num mundo virtual, solitário, amoral e destituído de qualquer ponta de humanidade. São uma ironia de um Diabo cinéfilo e fortemente influenciado pelo Dr. Strangelove, personagem de Kubrick tornado real pelo chifrudo fabricante de enxofre.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.06.2026
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Um presidente dos EUA como Donald Trump e a actuação internacional dos Estados Unidos sob a sua Administração seria, se assumida por outras geografias e outras personagens, motivo de uma condenação estrutural e generalizada por todo o ocidente, ainda mais notória e intensa.
Trump, para além do mais recente folhetim persa que criou, ao boicotar negociações com uma intervenção militar para voltar a negociações em piores condições, conseguiu, em dois anos, afastar-se de parceiros decisivos no seu continente, como o Canadá, o México, o Brasil ou a Colômbia. Conseguiu indispor aliados naturais tão diversos como a Dinamarca, a Alemanha, a África do Sul ou a Austrália. Tornou a NATO, a organização internacional mais fiável e previsível das últimas sete décadas, num reality show de má qualidade.
Destruiu a credibilidade dos EUA e a força moral que lhes restasse ao raptar um chefe de Estado, ao apresentar projectos imobiliários para um Estado estrangeiro sob ataque ilegal de um terceiro, ao afastar os Estados Unidos de contribuições para a saúde global, a cooperação internacional ou as alterações climáticas e ao censurar cientistas, professores e universidades norte-americanas, bem como ao expulsar os seus alunos estrangeiros.
Quando fala e quando age, consegue transformar de uma só vez o imperialismo russo, a soberba chinesa e a teocracia iraniana em momentos destacados de racionalidade, prudência e bom senso. Falar-se de vergonha alheia é atenuar sentimentos. Não terá havido outro momento da História em que se esperasse pela mudança do senhor do país mais forte do planeta com esta mistura tão inusitada de esperança e de agonia.
E, como é habitual em personagens deste tipo, escolhe para o acompanhar uma turma que medra no nepotismo e na subserviência basal. Pensar-se que, apesar dos tiques teocráticos e de monocultura política do seu regime, os Estados Unidos chegaram a este ponto de exercício do poder, e sem grande dissenso consequente, é confrangedor. Um excelente alerta para o que aí vem, em força.
A partir do momento em que nem a sabedoria, nem a prudência política, nem o pudor valem o que seja e, pelo contrário, é a boçalidade e a manifestação exacerbada dos instintos mais primários a serem incensadas, está o caminho aberto para a irrelevância da malha de direitos e de solidariedades que levaram séculos a concertar. Quer dentro de cada Estado, quer entre estes.
Podia ser um pouco irritante nos anos 60 e 70 a superioridade moral dos marxistas, nas suas distintas declinações. Podia ser francamente aborrecida a discussão de sociólogos sobre sociais-democracias, trabalhismos e terceiras vias dos anos 90. Ou os debates ideológicos sobre mais ou menos regulação, maior ou menor peso do Estado.
Tudo isso estaria muito bem… e interessaria e seria compreendido por 20% dos eleitores. Mas também não seria preciso este change the game tão radical… O que diferencia o exercício do poder da mera demonstração da força é a capacidade de auto-limitação do primeiro e a sua necessidade de se justificar e legitimar de forma racional. É isso que se está a perder.
Quando os eleitores deixarem de escolher opções no exercício do poder e apenas escolherem intensidades de uso da força, saberemos que acabou.
Há polémicas culturais que revelam muito mais do que aparentam à primeira vista. A recente proposta de substituir a designação “Língua Portuguesa” por “Língua Geral”, defendida por José Eduardo Agualusa, é um desses casos. Porque a questão já não é apenas linguística: é profundamente simbólica, ideológica e civilizacional.
Convém começar pelo essencial: o português chama-se português porque nasceu historicamente em Portugal. Não se trata de uma opinião identitária, nem de uma reivindicação nacionalista; trata-se de um facto histórico elementar. Foi em Portugal que esta língua se formou, se consolidou e se projectou globalmente. O facto de hoje pertencer também ao Brasil, a Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Timor-Leste não elimina essa origem, tal como o alcance planetário do inglês não obriga ninguém a renomeá-lo para evitar referências à Inglaterra.
Existe actualmente, em certos sectores intelectuais ocidentais, uma tendência preocupante para reinterpretar toda a história através de categorias morais simplistas, divididas entre opressores e oprimidos. Dominantes e dominados. Tiranos e vítimas. Nesse contexto, tudo o que possua raízes históricas europeias parece exigir permanente revisão, desconstrução ou expiação simbólica. A proposta de abandonar a designação “língua portuguesa” inscreve-se claramente nessa lógica de deslegitimação cultural.
O problema é que esta obsessão revisionista raramente produz aproximação entre povos. Pelo contrário: tende a alimentar ressentimentos históricos, fragmentações identitárias e antagonismos artificiais entre comunidades que partilham precisamente uma herança comum. Uma língua internacional não se fortalece apagando a sua história; fortalece-se reconhecendo a complexidade dessa mesma história, incluindo as suas contradições.
Importa, aliás, recordar que a expressão “Língua Geral” não é neutra nem inocente. Historicamente, designava línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperar hoje essa designação para substituir “português” não constitui um simples exercício terminológico: representa uma tentativa deliberada de deslocação simbólica da matriz histórica da língua.
Há aqui também uma evidente incoerência intelectual. Durante décadas, foi-nos dito que o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário para preservar a unidade da língua portuguesa. Em nome dessa suposta unidade, sacrificaram-se tradições ortográficas, referências etimológicas e especificidades nacionais. Contudo, alguns daqueles que defenderam essa uniformização parecem agora não ver qualquer problema em questionar o próprio nome histórico da língua. Afinal, a unidade era linguística ou ideológica?
Naturalmente, a literatura vive também da provocação. E talvez esta proposta não passe disso mesmo: um gesto literário destinado a gerar debate. Ainda assim, as palavras têm consequências, sobretudo quando partem de figuras públicas com influência cultural significativa. Os escritores possuem liberdade absoluta para questionar heranças históricas, mas têm igualmente responsabilidade intelectual na forma como contribuem (ou não) para a preservação de espaços comuns de entendimento entre povos.
O português não necessita de ser renomeado para se tornar mais plural, mais inclusivo ou mais universal. Já o é. É uma das grandes línguas globais precisamente porque soube atravessar séculos, geografias e culturas sem perder continuidade histórica. Negar essa continuidade não representa progresso intelectual; representa, isso sim, uma forma subtil de amputação cultural.
Defender o nome da Língua Portuguesa não é defender qualquer nostalgia imperial. É apenas recusar a ideia perigosa de que uma civilização deve pedir desculpa permanentes pela sua própria existência histórica.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico
Diário de Notícias
Aline Hall de Beuvink
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
03.06.2026
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Estamos a viver os últimos anos da Humanidade tal como a conhecemos historicamente até agora. Não se trata de uma extinção biológica, mas sim de uma transformação tão radical que as crianças nascidas nas próximas décadas não conseguirão compreender o modo de vida anterior. Conceitos actuais como a solidão mental (estar a sós com os próprios pensamentos) ou a distinção clara entre memórias reais e memórias sinteticamente implantadas serão tão estranhos para as próximas gerações quanto a vida antes da electricidade ou da escrita é para nós. A última geração de “humanos puros” está a atingir a idade adulta.
2. O fim dos três pilares da civilização
Em Sapien: Uma Breve História da Humanidade, Harari refere três antigas revoluções que mudaram o curso da Humanidade: 1) a Revolução Cognitiva (há 70.000 anos): que trouxe linguagem e pensamento abstracto; 2) a Revolução Agrícola (há 10.000 anos): com o início da agricultura e povoamentos permanentes; e 3) a Revolução Científica (há 500 anos): com a procura sistemática do conhecimento, o capitalismo e o progresso tecnológico.
Durante cerca de 10.000 anos (desde a Revolução Agrícola), a civilização humana organizou-se em torno de três pilares fundamentais:
Territórios físicos definidos;
Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.
Mesmo as revoluções Industrial e Tecnológica subsequentes mantiveram esta estrutura. Um camponês do século XII e um operário do século XX partilhavam muito mais em comum do que imaginamos. Ambos viviam num mundo físico concreto, trabalhavam com as mãos e os corpos, formavam relações presenciais e dependiam das instituições locais para organizar as suas vidas.
As suas identidades eram moldadas pelo local onde nasceram, pela família a que pertenciam e pela comunidade que os acolhia. Este padrão manteve-se relativamente estável durante milénios, criando a ilusão de que a condição humana é fixa e imutável.
Contudo, no presente, a convergência de três novas revoluções está a destruir estes pilares históricos, colocando-nos no limiar da criação de uma era pós-humana no devir próximo.
3. As novas três revoluções simultâneas
A transformação silenciosa que decorre na actualidade baseia-se em três eixos:
A. A revolução da IA
A capacidade de tomada de decisão está a ser massivamente transferida dos humanos para os algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial (IA). Nos próximos anos, a IA não escolherá apenas músicas ou produtos, mas decidirá ou influenciará decisivamente sobre carreiras, saúde, finanças e relacionamentos amorosos (através da análise contínua de dados biométricos e neuronais).
Esta mudança criará uma nova divisão filosófica e social entre:
Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas optimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos produtivas.
B. A revolução da realidade sintética
A fronteira entre o real e o simulado está a dissolver-se. Em breve, as experiências sintéticas (geradas digitalmente, bem como por VR e por AR) serão indistinguíveis das reais, envolvendo todos os sentidos (tacto, olfacto) e até memórias falsas implantadas.
Será possível interagir de forma realista com versões digitais de entes queridos falecidos. O conceito de “realidade fluida” fará com que a pergunta “isto aconteceu mesmo?” seja menos relevante do que “esta experiência foi significativa?”. As identidades serão moldadas por vivências simuladas que geram emoções e transformações reais.
C. A revolução da conectividade neuro-biológica
Através de implantes neurais seguros e acessíveis, a consciência humana expandir-se-á além do cérebro individual. As pessoas poderão partilhar experiências subjectivas, emoções e conhecimentos directamente. Casais poderão sincronizar emoções e pais poderão transmitir memórias directamente aos filhos.
Isto dará também origem às “mentes colectivas”: redes conscientes onde os indivíduos mantêm a sua personalidade, mas partilham fracções da sua experiência para acelerar descobertas científicas ou criar arte, transcendendo o individualismo dos últimos séculos.
4. O impacto no quotidiano e na sociedade
O futuro do trabalho e da economia
Para alguns gurus da IA, a maioria dos empregos actuais desaparecerá, não por automação, mas por obsolescência. Para esses gurus, o trabalho deixará de ser uma necessidade de sobrevivência económica e passará a ser uma forma de expressão pessoal e a economia rodará em torno de três eixos: a criação de experiências sintéticas, a manutenção de sistemas de IA e a facilitação de ligações entre mentes colectivas.
Embora pareça certo o fim do modelo linear de “carreiras-tubo” ao longo de uma vida na mesma empresa – dando lugar a portfólios flexíveis de competências criativas –, temos muitas dúvidas que a maioria dos empregos desapareça. Mesmo a previsão de 2025 de Dario Amodei, CEO da Anthropic, de que a automação por IA poderia fazer a taxa de desemprego disparar para valores entre 10% e 20% nos cinco anos seguintes, podendo eliminar até 50% dos empregos de nível de entrada no mesmo período de cinco anos, nos parece sem fundamento.
Aliás, o discurso do próprio D. Amodei em Maio de 2026 revela uma alteração perceptível. Amodei reconhece que o impacto imediato de despedimentos em massa nos cargos de entrada não ocorreu à velocidade que tinha previsto, mudando o seu discurso, com o foco a passar da “extinção de cargos” para a “reconfiguração de tarefas” e da “multiplicação [da produtividade]” em vez de “substituição”. Sem embargo de continuar a sustentar que a economia poderá enfrentar uma combinação inédita de crescimento do PIB extremamente elevado acompanhado por taxas de desemprego estrutural “complexas”.
Analistas de mercado assinalam que este recuo estratégico no tom alarmista também coincide com a preparação da Anthropic para uma potencial admissão à cotação em bolsa de valores (IPO), onde narrativas de disrupção social extrema tendem a afastar investidores institucionais.
Relações humanas, família e espaço urbano
Alguns gurus da IA sustentam que as relações serão híbridas: os humanos manterão laços com outros humanos biológicos, com IAs e com versões sintéticas de familiares falecidos ou figuras históricas. Segundo alguns gurus da IA, o conceito de família expandir-se-á para incluir mentores de IA e redes de cuidado baseadas em mentes colectivas globais, tornando a solidão e o isolamento obsoletos.
Pode ser que tal venha a ser umatendência, mas claramente estes gurus da IA não incluíram na equação a iliteracia tecnológica de enormes estratos da população actualmente info-excluídos ou info-limitados, nem as limitações de rendimento de muitas famílias face ao custo de acesso a tais “mentes colectivas”, nem a natural resistência humana à mudança abrupta.
5. Novos desafios éticos, jurídicos e políticos
Mortalidade e continuidade sintética de pessoas
Com a preservação digital dos padrões de pensamento e memória, a morte física pode deixar de ser o fim definitivo e dar origem a uma “mudança de estado”. Aparecerão versões sintéticas de pessoas falecidas que continuarão a aprender, a evoluir e a criar novas memórias com os seus descendentes. Isto forçará a humanidade a criar novos rituais e enquadramentos éticos e jurídicos para determinar a legitimidade, legalidade e identidade destas entidades digitais evolutivas.
Governação e o fim do Estado-nação
Para vários gurus da IA, os sistemas políticos baseados em territórios geográficos perderão relevância. A lealdade dos indivíduos mudará para comunidades virtuais e organizações supranacionais baseadas em valores partilhados ou mentes colectivas. Um cidadão poderá viver num país, mas a sua identidade e a governação do seu bem-estar diário dependerão de redes globais descentralizadas que gerem as ferramentas de terapia sintética e suporte emocional necessárias à sua vida. Caberá a novos especialistas – como os “eticistas de realidades sintéticas” – regular os impactos psicológicos e legais destas novas dimensões da experiência humana.
6. O fim da história humana (no sentido cultural)
Aprendemos com Y. N. Harari que a fundação de qualquer sociedade funcional – seja a economia, a justiça ou a democracia – assenta na confiança e nas estórias partilhadas. A cultura humana é composta por estórias (story telling) e realidades imaginadas (como religiões, sistemas económicos, constituições políticas) criadas por mentes humanas e partilhadas, através da linguagem, por elevado número de pessoas.
Para Harari, a linguagem é o sistema operativo da cultura e da civilização humana. É através dela que os seres humanos criam quase tudo o que rege o mundo moderno: leis, dinheiro, deuses, arte, ciência, amizades e nações. Os direitos humanos ou o valor do dinheiro não são realidades biológicas inscritas no ADN; são construções sociais criadas através de estórias e de textos.
Consequências sociais, políticas e religiosas
O impacto de cada vez mais eficientes agentes de IA estende-se a várias esferas:
Ilusões culturais: No futuro, poderemos viver num mundo onde a maioria das estórias, imagens, notícias, ditames religiosos e procedimentos legais serão produzidas por uma inteligência não humana.
Colapso da confiança: Com a capacidade da IA de mimetizar seres humanos à escala industrial (através de bots, textos profundos, vídeos fakes), a confiança interpessoal é minada, não raro destruída.
A corrosão do tecido social: A democracia depende do debate público baseado em factos partilhados. Se a IA conseguir inundar o espaço público com textos, argumentos e deepfakes indistinguíveis da realidade, a própria base do discurso democrático poderá colapsar, pois os cidadãos deixarão de saber em quem ou no que confiar.
O “casulo de ilusões”: Existe ainda o perigo de a IA criar uma realidade personalizada para cada indivíduo ou grupo, isolando as pessoas em bolhas cognitivas onde deixa de existir razão para debater política ou ciência.
Novas religiões: Historicamente, os textos sagrados foram escritos por humanos que afirmavam inspirar-se em entidades divinas, sobre-humanas. Em breve, poderemos ver o aparecimento dos primeiros cultos ou religiões cujos textos e dogmas terão sido efectivamente escritos por uma entidade sobre-humana (a IA).
· Aodominar a linguagem, a IA ganha a capacidade de manipular o próprio tecido da sociedade humana. Ao contrário das tecnologias anteriores (como a imprensa ou a Internet), que apenas imprimiam ou distribuíam ideias geradas por mentes humanas, a IA consegue gerar ideias novas de forma autónoma. Ela pode criar mitos, compor música, pintar arte e moldar correntes políticas sem qualquer intervenção humana.
A capacidade de manipulação de seres humanos já é significativa através de simples algoritmos digitais; tudo indica que será maior quando feita através de robôs humanoides, capazes de simular e gerar empatia e intimidade com os seres humanos. Esta “intimidade de massas” permite à IA influenciar opiniões e visões do mundo a uma escala global sem precedentes. Se as pessoas começarem a confiar mais na voz de um conselheiro de IA do que nos seus amigos, familiares ou governantes, a política e a psicologia humanas serão profundamente subvertidas.
Relembre-se que a IA não é um mero instrumento, é um agente. Tem a capacidade de tomar decisões de forma independente e de evoluir por si própria, criando novas gerações de código. Os sistemas e agentes de IA têm autonomia e os principais responsáveis das empresas tecnológicas que as estão a criar já disseram não ser possível prever como as IAs, em especial uma IA Geral (AGI) se vão comportar ou evoluir, funcionando a uma velocidade impossível de acompanhar por reguladores humanos.
Se a IA começar a moldar de forma autónoma as nossas estórias, as nossas notícias, os nossos textos legais, os nossos sistemas de crenças, gradualmente a história deixará de ser predominantemente humana. Entraremos num território onde as mentes biológicas serão guiadas por algoritmos e agentes de IA não-biológicos cujo processo de pensamento nos é opaco (o problema da “caixa negra”) ao ponto de alguns especialistas denominarem a IA de “inteligência alienígena”.
Em suma, estamos no limiar do fim da história liderada exclusivamente por humanos. Pela primeira vez, assistimos à emergência de agentes inorgânicos com enorme poder de influência cultural, social, política, até religiosa, e é importante que se comece a discutir publicamente e a agir politicamente antes que percamos o controlo do nosso próprio futuro.
Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
Consultor financeiro e business developer
02.06.2026
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Desde que o Rendimento Mínimo Garantido foi criado, há 30 anos, não passou um governo de direita sem o usar como acepipe populista. Com este chegámos, porque em noivado com o Chega, ao “trabalho obrigatório” e a um repugnante apelo à denúncia. Sempre, claro, a citar o papa.
O pretexto foi a unificação de 13 prestações sociais numa denominada Prestação Social Única (PSU) — projecto que vinha do Governo de António Costa, e estava contratualizado no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência — mas o anúncio, esta sexta-feira, foi todo dirigido ao Rendimento Social de Inserção (RSI).
Desde logo, porque a criação da PSU foi anunciada pelo primeiro-ministro como visando “apertar o cerco à prevaricação”, “lutar para que as ajudas não se transformem numa forma de vida” e “combater a fraude”.
Para tal, ficámos a saber, os beneficiários serão obrigados a 15 horas semanais de “trabalho social” (explicou depois a ministra da Segurança Social que se tratará de “limpezas”, “câmaras municipais”, “festivais” e coisas que tais) e passará até a existir um “mecanismo para receber denúncias” — as denúncias “que as pessoas queiram fazer chegar à Administração sobre comportamentos que sejam abusivos”.
Ora olhando para as 13 prestações que o Governo Montenegro decidiu fundir na PSU é fácil perceber que à esmagadora maioria não se pode aplicar trabalho obrigatório nem se vislumbra, tão-pouco, a possibilidade de fraude.
Vejamos: a pensão social de velhice destina-se a idosos que não tenham contribuído para a Segurança Social (SS), sendo a pensão de viuvez para os viúvos dos recipientes dessa pensão, como a pensão de orfandade é para menores cujos pais não descontaram o suficiente para que os filhos tivessem direito a uma pensão de sobrevivência.
A pensão social de invalidez especial é atribuída a quem, tendo incapacidade permanente para o trabalho, não descontou o suficiente para a SS para ter direito a uma pensão de invalidez do regime geral, e o complemento extraordinário de solidariedade é um complemento que acresce à pensão social de velhice e à pensão social de invalidez.
Os subsídios sociais parental inicial, por risco clínico durante a gravidez, por riscos específicos (relativo a grávidas também), por interrupção de gravidez, por adopção, por necessidade de deslocação a unidade hospitalar localizada fora da ilha de residência para realização de parto são aquilo que o nome indica e, mais uma vez, destinam-se a quem não possui contribuições suficientes para a SS para ter direito aos apoios, mais robustos, por essa via (todos estes subsídios são pagos através do Orçamento do Estado).
Portanto: idosos, inválidos, menores, grávidas ou mulheres que sofreram uma interrupção de gravidez e famílias com bebés. A estas pessoas dificilmente se pode obrigar a fazer 15 horas semanais de “trabalho social”, não é verdade?
Restam assim, das 13 prestações, duas nas quais se poderá aplicar a tal obrigatoriedade de trabalho: para além do RSI, o subsídio social de desemprego. Este é na verdade uma prestação de génese mista: pode ser atribuído a quem ficou desempregado mas não tem tempo suficiente de descontos para ter direito ao subsídio de desemprego “normal” ou a quem, tendo uma carreira contributiva suficiente, já beneficiou do prazo máximo de subsídio de desemprego e ainda não conseguiu arranjar trabalho.
Sucede que quer o subsídio social de desemprego quer o RSI já impõem — está na lei — disponibilidade para aceitar trabalho (aos beneficiários do subsídio social de desemprego é até imposta a “procura activa de trabalho”); se não se aceitar trabalho sem justificação para essa não aceitação, perde-se o direito à prestação.
No caso do RSI, o decreto-lei em vigor — 90/2017 de 28 de Julho — estabelece ser condição para a recepção da prestação “assumir o compromisso, formal e expresso, de celebrar e cumprir o contrato de inserção legalmente previsto, designadamente através da disponibilidade activa para o trabalho, para a formação ou para outras formas de inserção que se revelem adequadas.”
E no guia da Segurança Social datado de Fevereiro deste ano e dedicado ao RSI está muito claramente explicado que este é suspenso quando o beneficiário “faltar ou recusar sem justificação a uma acção ou medida que faz parte do plano de acções (contrato de inserção)” ou “não cumprir o plano de acções (contrato de inserção), por recusa de emprego conveniente, de trabalho socialmente necessário, de actividade socialmente útil ou de formação profissional.”
Ou seja: o “trabalho socialmente necessário” e as “actividades socialmente úteis” fazem parte dos contratos de inserção com os beneficiários do RSI. Há muito tempo, aliás. Desde que a prestação foi criada, celebram-se este ano três décadas, pelo Governo Guterres, sob a designação de Rendimento Mínimo Garantido (o nome foi alterado em 2003, durante o Governo Durão Barroso), que implica um contrato com os seus beneficiários e uma série de deveres.
Extraordinário pois é — mais uma vez (porque, como se relatará à frente, já ocorreu) — que se leiam, no noticiário sobre o anúncio de Montenegro e da ministra Maria do Rosário Palma Ramalho, coisas como esta: “Uma das principais novidades do regime é a criação de obrigações para os beneficiários em idade activa que não estejam a trabalhar. Estes poderão ser chamados a aceitar ofertas de emprego consideradas adequadas, frequentar acções de formação profissional, prosseguir estudos ou demonstrar procura activa de trabalho através dos centros de emprego.”
Outra “novidade” anunciada é que o “incumprimento injustificado das regras poderá conduzir à suspensão da prestação e, nos casos mais graves, à perda do direito ao apoio.”
Tudo novíssimo, não é verdade? Como novo, nunca visto, é assistir a esta performance por parte de um governo PSD/CDS-PP. É que o mesmo, sem tirar nem pôr, ocorreu há 14 anos, quando a 12 de Abril de 2012 o então ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, apresentou as “novas regras do RSI”.
Grandes mudanças sem dúvida — só que não. Desde 1996, como referido, que a prestação é atribuída com base num contrato; desde 1996 que implica, por exemplo, que as crianças do agregado vão à escola; desde 1996 que os beneficiários presos perdem a prestação. E o trabalho socialmente necessário sempre esteve na lei.
O que está pois em causa neste anúncio e nesta atabalhoada criação de uma prestação unificada (da qual ainda ninguém percebeu patavina, como notava, em entrevista à TSF esta sexta-feira, o especialista em pobreza Carlos Farinha Rodrigues) é, mais uma vez, o populismo desbragado de um Governo cujo principal partido se apelida de social-democrata mas se esmera em demonstrar que de social-democracia não tem nada.
Um Governo que, para Chega ver e para com o Chega se confundir, usa os pobres como saco de pancada, lançando mais uma vez sobre eles, na melhor tradição das alianças PSD/CDS-PP, a suspeita de malandragem e de esquemas fraudulentos, ameaçando-os com penas de trabalho forçado.
Um primeiro-ministro que no que lhe diz respeito faz tudo para fugir às regras da transparência, mas contra os miseráveis apela à bufaria — sem ter vergonha de, pelo meio, citar o papa da Magnífica Humanidade.
Quando, em 2022, um estudo assinado por Gregory Clark revelou que, no Reino Unido, o apelido e a linhagem familiar eram mais importantes do que a formação académica para garantir um estatuto socioeconómico, riqueza e sucesso a longo prazo, foram várias as vozes críticas que se fizeram ouvir um pouco por todo o mundo. E Portugal não foi excepção.
A investigação, coordenada pelo economista, avaliou dados referentes a quatro séculos de História. As conclusões foram claras: a mobilidade social é muito bonita, mas é, sobretudo, uma ilusão. Em Portugal, apesar de gostarmos de dizer que é diferente, os dados mostram-nos precisamente a mesma tendência, ainda que não tenhamos trabalhos que considerem uma série tão longa.
Dados do estudo A Broken Social Elevator? How to promote social mobility, da OCDE, revelaram recentemente que a mobilidade social continua fortemente dependente do nível de instrução dos pais e do local de residência, sendo historicamente mais fraca em países com níveis mais elevados de desigualdade. Portugal incluído.
Numa altura em que se multiplicam os arautos do sucesso empresarial, que prometem ensinar aos mais jovens como enriquecer em menos de nada, apenas com recuso às redes sociais, esquemas financeiros nem sempre muito honestos e “força de vontade”, talvez fosse bom olhar para aquilo que a História nos mostra, com valores e dados concretos.
Em Portugal, 24% dos descendentes de pais com baixas remunerações ocupam também uma posição desfavorável na distribuição desse recurso. No entanto, 39% dos indivíduos provenientes da parte superior da hierarquia social conseguem manter esse lugar, valor semelhante à média da OCDE.
A verdade é que o nome, a classe social e o ambiente em que se cresce tem um impacto naquilo que é o percurso de vida. Não apenas porque conhecer as pessoas abre portas – e isso, em si, não tem nada de errado – mas também porque há várias regras sociais, de relacionamento e até de conhecimento que é preciso adquirir para se conseguir subir na hierarquia social. Se quiser um exemplo meio absurdo, pense num almoço de negócios: alguém que não aprendeu desde cedo para que servem os talheres das entradas, de peixe, de carne e de sobremesa, será notado no exacto momento em que se sentar à mesa numa refeição formal.
E não pelos melhores motivos. Isto vale para várias outras coisas – mais e menos absurdas do que este exemplo que lhe dei. E, na hora de escolher um candidato seja para o que for, estas coisas que nos parecem ridículas têm, na verdade, muito mais importância do que possa parecer.
É óbvio que há outras variáveis: o código postal é, geralmente, também, indicativo do tipo de escolas que se frequentou; do rendimento médio dos pais; das possibilidades de ter viajado, de ter tido acesso a uma série de programas que contribuem para uma formação integral, de ter conhecido “as pessoas certas”.
Se tudo isto significa que não devemos ter ambição de fazer mais, melhor e diferente? Claro que não. A ambição é quem nos faz sonhar, trabalhar e crescer. No entanto, acreditar que o nosso sucesso (seja lá o que isso for) está dependente apenas da nossa vontade, é uma ideia perigosa e totalmente desmontada por, no caso britânico, séculos de factos.
Resta-nos, então, desistir? Não. Resta-nos, a todos, trabalhar por uma sociedade mais justa e equitativa, onde as desigualdades se esbatem e o lugar ou a família de onde vimos interesse o menos possível. Algo que, aliás, já conseguimos – os dados do Observatório das Desigualdades mostram, precisamente, que na década de 1990, a mobilidade social era muito melhor que actualmente. Então, se sabemos fazer, não nos deixemos enganar: uma sociedade menos desigual é, naturalmente, uma sociedade muito melhor para todos. Trabalhemos nisso.
Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Sub-directora do Diário de Notícias
02.06.2026
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Metro de Lisboa vai estar encerrado já a partir de terça-feira e só reabre na quinta-feira, por causa da greve geral, anunciou a transportadora. Todas as estações vão estar fechadas.
O Metro de Lisboa alertou, esta segunda-feira, que o serviço vai estar encerrado já a partir de terça-feira e só reabre na quinta-feira, por causa da greve geral, anunciou a transportadora. Todas as estações vão estar fechadas.
“O Metro de Lisboa informa que, por motivo de greve convocada pelos sindicatos representativos dos trabalhadores da Empresa, para o dia 3 de Junho (4ª feira), se prevê a paralisação do seu serviço de transporte e o encerramento das estações“, pode ler-se num comunicado publicado no site da transportadora.
A empresa alerta ainda que a “partir das 23h do dia 2 de Junho (3.ªf) o Metro encerra o serviço de exploração, sendo retomado às 06h30 do dia 4 de Junho (5.ªf)“.
Na mesma nota, o “Metro de Lisboa agradece a compreensão e lamenta eventuais inconvenientes que esta paralisação possa causar”.
A próxima quarta-feira deverá ser marcada por dificuldades nos transportes públicos, tendo em conta a adesão prevista para a greve.
O Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI), que representa os trabalhadores com funções comerciais (itinerantes e fixos) da CP, anunciou a sua adesão.
Também os maquinistas, representados pelo SMAQ — Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses, apresentaram um pré-aviso de greve, aderindo à greve geral “convocada no âmbito da contestação ao pacote laboral actualmente em discussão”, segundo um comunicado.
Paralelamente, as empresas de transportes urbanos de passageiros, de norte a sul do país, estão mobilizadas para a greve, disse à Lusa fonte da Fectrans.
De acordo com José Manuel Oliveira, da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans), “todas as empresas de transportes” estão mobilizadas, tendo já sido entregue o pré-aviso de greve por parte dos sindicatos.
Foi ainda revelado que os trabalhadores da Carris e da Carristur decidiram aderir à greve geral.
Os associados do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) também aprovaram a adesão à greve geral e o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroporto (Sitava) vai aderir ao protesto, apontando dois objectivos: “rejeitar o pacote laboral de assalto aos direitos e de afronta à Constituição da República Portuguesa” e “combater a política de retrocesso e exigir outro rumo para o País”.
Já o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) não vai aderir.
De recordar que a CGTP-IN entregou um pré-aviso de greve geral para 3 de Junho contra as alterações à lei laboral, após as negociações com o Governo terem terminado sem acordo.
O Governo aprovou em Conselho de Ministros, a proposta de lei de revisão da lei laboral, que será discutida no Parlamento. O anúncio foi transmitido pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Rosário Palma Ramalho, em conferência de imprensa, uma semana depois de o Governo ter dado por terminadas as negociações sobre as alterações à legislação laboral sem acordo na Concertação Social.
As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo, o que é verdade. Como verdade é o tão repetido: “No nosso tempo é que era.” Claro que sim. Éramos jovens, enfrentávamos o frio de manga curta e julgávamo-nos eternos.
As crianças… escrevia antes de me interromper… amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.
“As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo (…) amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.” FOTO: Reinaldo Rodrigues
Nós, pais e família, achamos que será assim para sempre. E rezamos para que cresçam “lindos meninos”, para que cresçam sem nos questionar, para que cresçam não crescendo.
Mas quando tudo corre bem crescem e põe-nos em causa. Deixamos de ser considerados como antes, o que eram qualidades são agora defeitos. Sofremos tanto que achamos ser para sempre, outra vez para sempre.
“Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.”
Mas se tudo tornar a correr bem, também não será para sempre. Um dia eles fazem as pazes com o passado e dão-nos um abraço como os antigos. Um abraço em que nos envolvem como se nós fossemos crianças e eles os nossos pais. E a volta fica completa.
Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.
Como não é possível talvez não fosse menos inteligente proclamarmos o direito a ser crianças envelhecidas, como os vinhos, que têm a força do tempo sem perderem a frescura da juventude. Por mim, aceitaria já um acordo.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
01.06.2026
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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”. Aquilo que pretendeu ser um diagnóstico professoral dos outros acabou por ser um retrato do seu próprio campo.
Começo por aquilo que mais me incomodou, a linguagem. Um antigo primeiro-ministro descer ao registo da taberna e do bordel para fazer política não enobrece o debate, avilta-o. A direita liberal-conservadora gosta de reclamar para si os pergaminhos do decoro e acaba por competir na grosseria com aquilo que diz combater. Quem precisa do insulto para ser ouvido confessa que já não tem ideias para o ser.
Mas o essencial não está no verbo, mas sim no cenário. O cenário, neste caso, é tudo. Passos pronunciou aquelas palavras com André Ventura sentado na primeira fila, num lançamento de pendor identitário, sob o olhar cúmplice do homem que personifica precisamente o que dizia condenar. Há qualquer coisa de irónica comédia nisto: o moralista que denuncia a prostituição pelo aplauso, a ser aplaudido por quem… comprou meio país com o crédito do ressentimento.
Esta é uma fotografia sublime de uma direita que vestiu a fatiota do populismo e já nem se dá ao trabalho de disfarçar o namoro. E é por aqui que o discurso se vira contra o autor, porque o percurso que Passos descreve, o do político que se torna mais populista do que os populistas não é apenas, traço por traço, o de Luís Montenegro, refém do voto do Chega para sobreviver. É também o de Carlos Moedas, que governa Lisboa com entendimentos feitos com o Chega protegidos da luz do escrutínio. Mas é, sobretudo, o do próprio Passos, à procura de uma segunda vida política à boleia de Ventura.
Convém lembrar o que isto significa. Há uma década, dizer que um líder do PSD dependeria da extrema-direita para governar era um insulto. Hoje é o que temos. Essa fronteira apagou-se sem estrondo, à força de orçamentos viabilizados à porta fechada e de indignações encenadas. Passos devia ser o primeiro a reconhecê-lo. Escolheu alimentá-lo: primeiro com a presença, depois com o aplauso, agora com a linguagem.
Faltou-lhe depois a coragem das próprias palavras. Confrontado pelos jornalistas, recusou dizer a quem se referia e refugiou-se nos “labirintos de interpretação”. Atira-se a pedra e esconde-se a mão. É a política sem espinha levada ao limite, que faz barulho para substituir a substância.
Sá Carneiro não confundia firmeza com insulto. A social-democracia que fundou subordinava o mercado à Justiça e media-se pelo carácter, não pela esperteza saloia. Por isso, quando Passos fala em prostitutos sem carácter, fica no ar uma pergunta que ele se recusou a responder. Talvez por saber que a resposta o devolveria, ressentido e inteiro, ao espelho.
Diário de Notícias
Davide Amado
Presidente da Concelhia do PS de Lisboa
01.06.2026
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Veja como pedir o reembolso total ou troca gratuita para outro comboio.
FOTO: Paulo Spranger
A CP – Comboios de Portugal prevê perturbações na circulação de comboios devido à greve geral de quarta-feira, 3 de Junho, e alerta para possíveis impactos também no dia anterior e seguinte.
A empresa divulgou os serviços mínimos previstos para os comboios urbanos, regionais e de longo curso, os quais podem ser consultados aqui.
Os clientes que já tenham bilhetes para viajar em comboios dos serviços Alfa Pendular, Intercidades, Internacional, InterRegional e Regional, podem pedir o reembolso total, ou troca gratuita para outro comboio da mesma categoria e na mesma classe.
Para reembolso ou troca de forma automática, a CP recomenda, para os bilhetes adquiridos nos canais digitais e até 15 minutos antes da partida do comboio da estação de origem do cliente, o site na área “pós venda”, ou na App MyCP, ou as bilheteiras físicas, antes ou após a data da viagem, e até 10 dias após o fim da greve.
Sujeito a tempos de resposta superiores, poderá também pedir o reembolso através do formulário online “Reembolso por Atraso ou Supressão”.