45: Haja saúde

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OPINIÃO

É talvez a expressão mais portuguesa de todas, o desejo essencial.  “Haja saúde”, dizemos nós, portugueses, quando o dinheiro falta, o amor azeda ou o mundo parece desabar. Mas essa espécie de fatalismo pragmático torna-se quase um exercício de ironia quando olhamos para o sector da Saúde e o vemos há décadas a definhar entre promessas políticas, improvisos e degradação de serviços que se repetem como gripes sazonais.

O debate sobre a Saúde em Portugal está cronicamente preso num ciclo vicioso de guerras ideológicas e políticas de curto prazo. Onde a Esquerda quer um Serviço Nacional de Saúde quase exclusivamente público, a Direita apregoa as virtudes do privado e das PPP.

A clivagem ideológica ganha nesta área uma espécie de terreno preferencial de combate. Cada governo muda o rumo do anterior, apaga projectos, troca directores, substitui equipas e anuncia uma “nova era” que raramente dura mais do que um ciclo legislativo.

O caso actual é exemplar. Luís Montenegro chegou ao poder há um ano e meio com promessas de um “plano de emergência” para endireitar o SNS em 60 dias. Se a meta podia soar arrojada então, hoje resulta apenas risível: as listas de espera cresceram, as urgências continuam a colapsar, os profissionais estão exaustos e mais de 1,5 milhões de utentes seguem sem médico de família. O entusiasmo de campanha dá hoje lugar a silêncios constrangidos.

Esta semana reacendeu-se o debate, com a intervenção pública do Presidente da República e as notícias sobre cortes projectados para a Saúde no orçamento do próximo ano.

Marcelo Rebelo de Sousa, que andou a evitar o tema durante meses, fez, nas comemorações dos 50 anos do Serviço Médico na Periferia, o diagnóstico que o Governo não queria ouvir (de tal forma que a ministra Ana Paula Martins até cancelou a presença): falta de estratégia, decisões a meio da ponte e um SNS em zona cinzenta. E pediu um pacto de regime, algo tão sensato quanto improvável num país onde a saúde serve de arma partidária.

O Presidente poupou politicamente a ministra, mas deixou claro o falhanço colectivo da estratégia do Governo, apontando concretamente que o Executivo de Luís Montenegro optou por “não decidir” ao deixar a direcção executiva do SNS – herança do Governo de Costa – “a meio da ponte”, com a demissão de Fernando Araújo como exemplo claro de uma política de mero ajuste de contas.

Ao diagnóstico de Marcelo soma-se o anúncio de cortes de 886 milhões de euros em bens e serviços no orçamento da saúde para 2026, tibiamente justificados pela ministra no Parlamento, o que deixa antever apenas mais escassez, mais dívidas e uma provável maior dependência do sector privado, como alertou o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Xavier Barreto. Tudo isto quando se reergue no horizonte a ameaça do “diabo” nas contas públicas.

Num país que falha em traduzir politicamente a prioridade expressa no pensamento popular, talvez nos reste mesmo a resignação fatalista: haja saúdinha.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
03.11.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado), pré-AO.

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36: O presidente Trump na Ásia: poder, adulação e arrumação de forças numa nova era

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OPINIÃO

O meu calendário geopolítico difere do convencional. A era do século XX, que ficou marcado por duas enormes confrontações bélicas, pela Guerra Fria, pela descolonização e pela expansão industrial em larga escala, terminou em 1991, com o colapso da União Soviética. Começou então, na minha leitura da história, o tempo do século XXI. Entrámos num período de globalização económica, multilateralismo e cooperação internacional, desenvolvimento dos regimes democráticos, e de preocupação com a sustentabilidade e os grandes desafios globais.

O meu calendário também me diz que o século XXI foi bastante curto. Parece-me haver terminado com a brutal invasão russa da Ucrânia, em Fevereiro de 2022. Os tempos mudaram nessa altura, com o regresso a práticas de outrora, ao uso sem disfarces da força militar e económica como factores determinantes nas relações internacionais. Assistimos, simultaneamente, a uma acelerada corrida para o futuro, baseada nas transformações tecnológicas e na revolução digital. Da inquietação sobre as desigualdades entre os povos passou-se à insensibilidade sobre as questões do desenvolvimento.

Estamos agora num período estranho e ambíguo da história universal: vivemos ao mesmo tempo no passado e no futuro. Encontramo-nos conectados através de milhares de cabos de fibra óptica e de um crescente número de satélites. A informação global é instantânea, mas parece que estamos a regressar, com uma rapidez variável, às velhas ideias nacionalistas, ao cada um por si.

A indiferença tornou-se uma marca distintiva desta nova era. O excesso de dados acaba por nos anestesiar. Ficamos alheios ao que acontece fora do nosso círculo mais próximo. Essa apatia facilita a manipulação da opinião pública por líderes políticos populistas, extremistas, que utilizam as plataformas digitais para condicionar os comportamentos dos cidadãos. Paradoxalmente ou não, os próprios manipuladores acabam por ouvir a sua própria vozearia, e parecer acreditar nas narrativas que criam. Alimentam, assim, o ciclo da desinformação e do distanciamento colectivo em relação às grandes questões que continuam por resolver.

Neste contexto, o empenho no pensamento crítico torna-se fundamental. É preciso saber questionar, analisar e interpretar as intenções que as mensagens escondem. O desenvolvimento da capacidade de formular perguntas pertinentes e de avaliar a credibilidade das fontes é essencial para evitar a manipulação e o conformismo. Como Sócrates já defendia há 2 500 anos, explorar ideias alternativas e desafiar opiniões estabelecidas é politicamente indispensável em democracia.

Esta reflexão teve como origem um comentário recente, feito num dos nossos canais televisivos, sobre o novo míssil de cruzeiro russo de propulsão nuclear, conhecido na Rússia por 9M730 Burevestnik e na NATO pela designação de Skyfall. Vladimir Putin anunciou que a 21 de Outubro o míssil havia sido lançado e que o teste fora um sucesso.

Acrescentou que o engenho esteve 15 horas no ar, percorreu mais de 14 mil quilómetros, podendo assim ser dirigido para um alvo no canto mais remoto do planeta. Sublinhou igualmente que nenhum outro Estado tem capacidade para o interceptar. Ou seja, a Rússia afirmava assim ter dado mais um passo para consolidar o seu lugar nas primeiras filas da nova era, a era da confrontação e da força.

O comentador, pessoa que considero, disse que Trump havia “olimpicamente” ignorado o anúncio feito por Putin. Faltou o porquê do alheamento de Trump.

Penso que é relevante tentar compreender esse aparente desdém. Digo aparente porque ontem o presidente americano ordenou às suas forças armadas que iniciassem um programa de testes nucleares, algo que não acontecia há mais de três décadas.

Na minha análise, Trump, que tem passado a semana na Ásia, não tem medo da Rússia nem se interessa de modo particular por Putin, excepto no que diz respeito à guerra russa contra a Ucrânia. Quer acrescentar a paz na Ucrânia à sua lista de pretensos tratados de paz, sempre com a obcecação do Nobel da Paz. Neste momento, hoje sexta-feira, está convencido que Putin é o obstáculo maior no caminho para um cessar-fogo. Sábado, logo se verá.

Fora isso, ficou bem claro, nestes dias, que a prioridade absoluta da administração norte-americana é a rivalidade com a China. O seu périplo pela Ásia procurou mostrar a influência e o poder dos Estados Unidos numa região cada vez mais próxima da China. Por isso, Trump esteve na Malásia, na cimeira da ASEAN, depois no Japão, na Coreia do Sul e mostrou moderação no encontro de ontem com o presidente chinês, Xi Jinping.

Para além dos acordos comerciais, vários deles ligados às tecnologias de ponta que irão definir os próximos anos, o sucesso da presença de Trump na Ásia e a adulação que recebeu reconfortaram a sua ilusão que os EUA têm uma influência decisiva naquela parte do globo. O míssil de Putin, por muito potente que possa ser, algo que está por confirmar, não pesa para Trump nem o distrai, já que considera prioridade fundamental o relacionamento com a Ásia, no quadro da concorrência com a China.

Faz, segundo creio, uma leitura superficial e equívoca da realidade. Precisa de entender que este novo século iniciado em 2022 parece ir no sentido da consolidação de facto da aliança estratégica entre a China e a Rússia.

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
31.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado), pré-AO.

 

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26: Como o centralismo está a matar Lisboa

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PORTUGAL // OPINIÃO

Lisboa é Portugal. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!” A denúncia foi escrita por Eça de Queirós na sua obra-prima Os Maias. Quase 140 anos depois, mantém uma surpreendente actualidade: retrata uma centralização que não se limita à capital, mas molda toda a narrativa nacional.

Salvo uma modesta resistência do eixo Porto–Braga, as estatísticas são inexoráveis na demonstração de uma macrocefalia centrada na área da capital. É a população, a imigração, o número de empresas, o número de entidades públicas, os salários, o poder de compra – tudo, tudo, tudo.

Sucede que o inevitável aconteceu: a Área Metropolitana de Lisboa está a rebentar pelas costuras, e a qualidade de vida degrada-se a olhos vistos. Todos os dias somos bombardeados com notícias que espelham o caos que se vai instalando, numa marcha imparável que limita o acesso à habitação, à saúde e à educação e que alimenta uma percepção de insegurança, tornando cada vez menos vivível esta magnífica cidade.

É caso para dizer que, em matéria de centralismo, Lisboa veio de vitória em vitória até à derrota final.

A centralização em Portugal não é apenas histórica: é um fenómeno vivo, amplificado por políticas económicas e sociais mal orientadas. O brilho de Lisboa, enquanto centro político, económico, social e cultural, contrasta radicalmente com o declínio das regiões periféricas. Esta condição impede o aproveitamento pleno do potencial nacional, pois o país renunciou à sua riqueza territorial ao concentrar meios e recursos numa só região.

Gerou-se, assim, uma espiral que aprisiona simultaneamente a capital e o interior, silenciosamente aceite e muito difícil de interromper. Os territórios com pouca população têm, naturalmente, poucos votos. E num sistema democrático dominado por ciclos curtos, onde se privilegia a conquista eleitoral imediata, há uma tentação quase estrutural de canalizar o investimento público para onde há mais votos. É um raciocínio frio, mas infelizmente real.

O resultado é dramático: onde há poucos votos, há pouco investimento; onde há pouco investimento, há poucas pessoas; e onde há poucas pessoas, há menos votos ainda. Assim se alimenta uma espiral perversa, da qual só se sairia com coragem política e com pactos de regime que impusessem prioridades estratégicas para lá das lógicas eleitorais de curto prazo.

A vantagem dos pactos de regime é que neutralizam as vantagens eleitorais comparativas. Os partidos – no poder e na oposição – adoptam uma mesma voz sobre uma matéria específica, minimizando ou anulando o risco de penalização diferencial nas urnas. Lamentavelmente, essa não é a tradição no nosso rectângulo lusitano, razão pela qual persistem as velhas patologias – na justiça, na saúde ou… no centralismo.

Um bom exemplo é o plano proposto pelo Governo para a redução progressiva da taxa de IRC. Em vez de o aplicar de forma transversal, poderia ser aproveitada a folga orçamental para introduzir uma curva de redução territorialmente diferenciada – e até disruptiva –, por exemplo oferecendo duas décadas de IRC zero a um conjunto de regiões do interior. Só com medidas deste tipo existirá esperança de interromper uma espiral que nos afecta negativamente a todos, da capital à raia.

Professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
27.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal, pré-AO.

 

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20: Burca? A resposta é não

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SOCIEDADE // BURCA

Deve-se proibir o uso da burca no espaço público? Quanto a mim, sim. E por três razões: igualdade de género, sociabilidade e segurança

Entendo e concordo que não seja uma prioridade do país. E devo confessar: até hoje, vi uma só mulher de burca na rua. De niqab, vi três ou quatro. Mas como o tema se impôs à sociedade – mesmo que contra o seu ritmo – convém discuti-lo. Se possível, com franqueza e abertura.

Primeiro, deixando claro: o tema foi mal agendado. Com a vulgaridade que o Chega introduziu na vida pública, o tema foi embrulhado numa mistela de chavões xenófobos e fantasmas inexistentes. As ruas de Portugal não estão repletas de burcas, como os meus olhos e os do leitor podem confirmar.

Ainda assim, não me foco no mensageiro – pois os excessos podem ser corrigidos na lei –, mas na mensagem. Deve-se proibir o uso da burca no espaço público? Quanto a mim, sim. E por três razões: igualdade de género, sociabilidade e segurança.

A primeira aparece em ordem e em importância. Uma sociedade liberal rege-se por uma cultura de igualdade formal, perante a lei, mas também substantiva, prática. Nem homem nem mulher podem ser importunados de se vestir como bem entendem. Pois bem: o uso da burca ou do niqab não cabe nestes termos. Por um lado, por sabermos que se trata de uma imposição às mulheres. Por outro, por se tratar de um símbolo opressivo. Na escuridão, está o apagamento da pessoa e, numa sociedade liberal, nenhuma pessoa se apaga por imposição.

A segunda razão diz respeito à sociabilidade. Ter o rosto coberto dificulta a relação com estranhos. Uma sociedade aberta pressupõe uma convivência sã e confortável entre aqueles que a integram. E também se trata de saúde. A solidão de muitos combate-se com pequenos momentos de convivência com estranhos, sobretudo na vida dos idosos e de pessoas com deficiências auditivas. O espaço público é, por excelência, o lugar onde esses momentos se dão.

Por último, o uso de burca no espaço público acarreta, sim, um problema de segurança. Um rosto coberto é uma pessoa impossível de se identificar claramente. E, neste quesito, nada tem a ver o uso de máscaras de hospital, capacetes de mota ou até vestimentas de Carnaval. A lei já permite essas excepções. É possível ter o rosto tapado por motivos de “saúde, profissionais, artísticos e de entretenimento ou publicidade”. Como vê, leitor, motivos religiosos não incluídos, fora em locais de culto.

Mas, para lá da letra da lei, está a filosofia que a orienta. Se o debate sobre o tema se desse há algumas décadas atrás, sucumbiria à tentação do liberalismo irrestrito: venha daí o multiculturalismo. No entanto, hoje temos a vantagem de conhecer a história recente e ter uma marca de água para tomar decisões. O multiculturalismo falhou na Europa: palavras estas, que mais coisa menos coisa, foram ditas por Merkel e Macron. Diversidade não é multiculturalismo: é integração e convivência entre diferentes num espaço comum.

E esse espaço, onde todos se integram, não surge do acaso. Resulta do modo de vida ocidental e liberal, plasmado na lei que decorre da cultura e dos costumes interiorizados na comunidade. Uma sociedade aberta não surge nem se mantém por decreto: é assim pela existência de certos valores e pela sua tradução prática no dia-a-dia. A burca ou o niqab, pelo que simbolizam e pelo impacto visual, são uma afronta directa aos valores de uma sociedade aberta.

Só assim se garante coesão social, e essa é fundamental para a existência de uma democracia liberal. O liberalismo, que tem a consciência individual como princípio fundador, tem por vezes maximizado o princípio da liberdade a um ponto que se tornou contraproducente. O próprio foi desenhado para sociedades em que existe coesão social.

A democracia, para funcionar, pressupõe que, na essência, nos revemos uns nos outros. Precisa de um mínimo denominador comum, e esse resulta de uma delimitação de valores: uns ficam, outros saem. Os últimos, por vezes, têm que sair pela proibição de certas práticas. E neste tema, julgo eu, está um perfeito exemplo disso. É sensato proibir o uso da iliberal e ultramontana burca, pela necessidade dos tais mínimos de convivência sã e digna.

Eu gosto de democracia, e por isso conheço-a. Sei os seus pontos fortes e as pontas soltas. Sei onde o serrote dos que não gostam dela pode ir cortando, até à sua queda. Prefiro manter o serrote à margem.

É em temas como este, que tocam nos alicerces da nossa convivência, que mais me lembro disso.

Expresso
Rui Pedro Gomes
20.10.2025

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal.

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12: Estado da Nação

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OPINIÃO

Ganhou o país. Porquê? Porque os eleitores portugueses disseram claramente que não estão disponíveis para dar mais poder ao partido de extrema direita que fez uma campanha galvanizada no resultado das eleições legislativas de maio passado. Ganhou o país porque há um claro entendimento de que o partido social democrata e o partido socialista são as estruturas políticas com credibilidade para o exercício da democracia.

Sim, nas eleições legislativas o Chega teve uma vitória e, entretanto, os portugueses terão entendido que não é um partido, um líder, um conjunto de militantes para conferir dignidade ao governo local. Isto precisa de ter uma leitura nacional. O governo, ainda em estado de graça, governará, mal ou bem, as opiniões decerto dividir-se-ão, e o partido socialista terá agora um novo fôlego para fazer oposição que é sempre um exercício difícil mas altamente saudável.

Onde fica o Chega? No mesmo registo que até agora, não tenhamos ilusões, mas com outra perspectiva sobre a sua força. O que quero dizer com tudo isto? Como cidadã, respirei fundo e pensei: ainda vamos a tempo. Podemos fazer outras análises, confirmar outras realidades, perceber as perdas do Bloco de Esquerda e da CDU e também as coligações feitas ou não feitas e o que estas prejudicam ou beneficiam outros.

Mas, de momento, opto pela esperança de ver o desaire do oportunismo, populismo e de uma campanha de mentiras e insultos que o partido de Ventura nos brindou. Que seja o princípio do fim, é o que desejo. Não estou sozinha.

O fim não é um ponto final. é um recomeço. A política portuguesa, tantas vezes exausta e descrente, precisa de se reconciliar com o sentido de comunidade, com a ideia de que o país é um projecto comum e não um campo de batalha.

A opção por uma certa moderação não apaga os medos nem as desigualdades, mas lembra-nos que há uma maioria que quer viver num espaço civilizado, onde as diferenças se discutem e não se gritam. Eu estou farta de berros. Talvez este resultado seja apenas um intervalo – breve, precário – antes de novas tempestades.

Mas é também um lembrete de que a democracia só se sustenta se for cuidada, como uma casa antiga que precisa de mãos firmes e paciência. Continuo a acreditar que a política pode ser um lugar de serviço e não de raiva, de construção e não de destruição. É isso que espero dos próximos meses: que as palavras recuperem o peso da verdade e que o país encontre, de novo, o seu centro de gravidade.

Jornalista e escritora

Diário de Notícias
Patrícia Reis
14.10.2025

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5: Spinumviva e a inevitável investigação a 360 graus

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OPINIÃO

A 12 de Outubro, Amadeu Guerra cumpre um ano como Procurador-Geral da República. No discurso de tomada de posse, recorde-se, defendeu que o Ministério Público (MP) devia exercer as suas funções “sem o alarde mediático e discussão pública da sua actividade em processos concretos”, actuando “empenhado e ao serviço da comunidade”, mas protegido de pressões externas.

Essa promessa de discrição e de recusa de “processos mediáticos” parecia inaugurar um novo ciclo na Procuradoria-Geral da República (PGR), quebrando com uma sucessão de episódios de violações de segredo de justiça e de julgamentos na praça pública, cuja oportunidade lançou suspeitas sobre a isenção do MP – dúvidas essas coroadas com a operação Influencer que levou à demissão do antigo primeiro-ministro, António Costa.

Ora, passados quase dois anos, não só essa dúvida sobre o actual presidente da Comissão Europeia não foi desvanecida, como temos outro primeiro-ministro, este em funções, sob suspeita há sete meses, desde que o MP decidiu instaurar uma Averiguação Preventiva à Spinumviva, a empresa familiar de Luís Montenegro, na sequência de três denúncias que alertavam para alegados conflitos de interesses, abuso de poder, fraude fiscal, recebimento indevido de vantagem e procuradoria ilícita.

Este caso, não esquecer, levou o Governo a apresentar uma moção de confiança, que foi chumbada na Assembleia da República, e provocou eleições antecipadas. Teve consequências políticas sérias. Tal como a operação Influencer.

Chegados aqui, eis que, em vésperas das eleições autárquicas, surgem notícias sobre um suposto interesse dos procuradores do MP e dos investigadores da Polícia Judiciária (PJ), encarregues de averiguar (investigar) a licitude da actividade da Spinumviva e o papel do primeiro-ministro, em abrir um inquérito-crime para poderem quebrar sigilos bancários e fiscais, ato que não lhes é permitido no âmbito da Averiguação Preventiva, e poder ir mais a fundo na investigação.

Independentemente da legitimidade e do racional desta conclusão – já aqui o escrevemos que quando está em causa o escrutínio a um primeiro-ministro, não deve ficar pedra por levantar, a bem do próprio, e da credibilidade do regime – o facto de ter vindo assim e agora a público suscita várias questões.

Estes procuradores e investigadores já tinham transmitido a sua posição a Amadeu Guerra? Em caso afirmativo, certamente que iria concordar. E se não concordou, porquê? Foi por isso que decidiram fazê-lo através dos jornais? Nesse caso, significará que há correntes no MP, aparentemente maioritárias ou, pelo menos, com poder, com uma agenda própria além da do Procurador-Geral. Que o pressionam externamente. O oposto do que definiu na sua tomada de posse.

Na verdade, Amadeu Guerra também deu o seu pequeno contributo quando, numa entrevista ao Nascer do Sol, publicada a 19 de Setembro, revelou terem sido pedidos elementos adicionais ao chefe de Governo. Foi o suficiente para o tema voltar à praça pública com Montenegro a ter de dizer publicamente que iria enviá-los “o mais rápido possível”, sendo que, também vários jornais garantem que ainda não os entregou.

A questão central é só uma: a opção por uma averiguação preventiva em vez de um inquérito-crime, logo de início foi a melhor opção? Se foi para proteger a reserva processual, está visto que não resultou. Se foi para adiar uma decisão inevitável, qual a razão?

Quando está em causa a idoneidade do chefe do Governo, talvez tivesse sido mais eficaz ter avançado logo com uma investigação global, que tivesse logo permitido às autoridades aceder a toda a documentação necessária sem depender do ritmo de colaboração do próprio visado.

Uma investigação não só sobre a Spinumviva, mas que juntasse também num só processo tudo o que já tinha sido recolhido sobre as suspeitas que incidem sobre a casa de Montenegro em Espinho. Toda esta névoa em torno de um primeiro-ministro é penosa, não é saudável para a democracia e sabemos bem quem tira proveito.

Amadeu Guerra prometeu um MP mais coeso e menos permeável a fugas e clivagens internas. Comunica melhor do que a sua antecessora, Lucília Gago, é certo, mas parece que um ano depois ainda não pôs “ordem na casa” nem acabou com “uma certa descredibilização” que o MP vivia, desígnio que a ministra da Justiça, Rita Júdice, tinha ambicionado para o novo Procurador-Geral.

Com a polémica a resvalar de novo para uma campanha eleitoral, é de Amadeu Guerra a responsabilidade de a Justiça contaminar a política. Facto logo aproveitado por Luís Montenegro que reagiu declarando-se “estupefacto”, denunciando uma “pouca vergonha” e “deslealdade processual democrática”, pedindo aos portugueses que “não se deixem levar por estas manobras a três ou quatro dias do fim de uma campanha eleitoral”.

O caso Spinumviva agigantou-se e é mais do que uma averiguação preventiva ou até uma investigação judicial: é um teste à independência da Justiça, à autoridade do Procurador-Geral e, como não pode deixar de ser, à maturidade democrática do país. Cada fuga, cada desmentido e cada silêncio corroem a confiança nas instituições e ameaçam o princípio que Amadeu Guerra quis reafirmar há um ano: a Justiça não se faz em directo – faz-se com serenidade, provas e verdade. É por isso que um inquérito-crime a 360 graus parece inevitável.

Diário de Notícias
Valentina Marcelino
Economista e ex-deputado do BE

09.10.2025

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3: Um mundo a preto e branco

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OPINIÃO

Os nossos verdes anos (fala um septuagenário) foram um mundo cinzento e submisso, que a imagem a preto e branco traduz da melhor maneira. Falo de um filme agora estreado, Lavagante, de Mário Barroso: nunca tão fortemente me senti transportado à atmosfera sufocante dos anos 60, no nosso país.

Pode haver quem tenha saudades desse tempo, sobretudo aqueles que o não viveram. Também podemos considerar que tempos semelhantes podem vir aí, agora a cores e com efeitos especiais. Mas creio que, para melhor compreenderem a nossa geração e a História que se lhe seguiu, os jovens muito ganhariam em simplesmente ver e seguir o enredo deste filme.

Um dos comentários que ouvi à saída do cinema, de jovens que tinham como eu acabado de ver o filme, foi este: “Eles viviam com uma intensidade que nós já não temos”. Sim, os mais novos tiveram as liberdades políticas e as liberdades de costumes como um dado adquirido ao nascer. Mas enganam-se se pensam que tudo foi permanentemente conseguido e que deixou de ser necessária a intensidade das emoções colectivas. Como ensinou Thomas Jefferson, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. E eu não sei se estamos a medir com realismo as ameaças actuais e imediatas às nossas liberdades e se estamos a exercer plenamente a vigilância que nos deve custar o gozo pleno dessas liberdades.

Os mais poderosos da Terra governam os seus países de um modo autocrático e belicoso que nos fazem desejar não viver nesses países. É verdade que muitas brutalidades que hoje se dizem em público sem vergonha eram antigamente praticadas à mesma, sob o véu da hipocrisia diplomática. Mas o facto de se sentir necessidade de esconder e dissimular as brutalidades e os crimes dos poderes manifestava que existia ainda uma exigência ética da opinião pública, que nos países democráticos podia conduzir às quedas dos governos e nas ditaduras às revoltas e até mesmo às revoluções. Mas essa exigência ética era já uma manifestação daquela intensidade, que muitos julgam perdida.

Há cinquenta anos, o paraíso de que a nossa extrema direita tem saudades, pois de então para cá só teria reinado o desgoverno, tem um retrato sóbrio e exacto neste filme, Lavagante, que por si só é uma lição de História e de Ética política.

Nada nos deve merecer maior combate do que o conformismo e a passividade face a todas as violações das liberdades e garantias consagradas na nossa Constituição. Voltar a viver num filme a preto e branco, visto pela Comissão de Censura, não!

Alguns leitores poderão considerar este texto uma manifestação paranóica de alguém que vê gigantes nos moinhos de vento e candidatos a ditadores nos nossos simpáticos políticos da extrema direita. O clima público é de liberdade de opinião e de escrutínio cerrado dos poderes. O nosso parlamento não foi incendiado nem dissolvido, os partidos fazem as suas campanhas normalmente, a liberdade de expressão prevalece e funciona o equilíbrio de poderes determinado pela nossa Constituição democrática.

Talvez eu tenha tido um sonho, um pesadelo. Talvez tudo esteja bem e o delírio esteja em mim. Mas porque é que, ao ver este filme, eu senti com tanta força que aquele Portugal poderia voltar, ainda que com outras roupagens e outra iluminação?

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor

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1: Carta a Oren Rozenblat, embaixador de Israel

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OPINIÃO

Israel, disse-me Amos Oz em 1992, existe para que nenhuma criança possa voltar a apanhar na escola por ser judia. Como chegámos, desse sonho justo de escorraçados, ao país criminoso para quem só os judeus são humanos?

É, acredite, com muita tristeza que me dirijo a si neste segundo aniversário do massacre de 7 de Outubro. Suponho que às primeiras linhas deste texto — se sequer o ler — me desqualificará como “amiga de terroristas” ou “antissemita”, como há dois anos fui, pela minha reacção ao 7 de Outubro, desqualificada como “sionista” e “cúmplice de genocidas”. Estou habituada, não se preocupe.

Antes de mais, quero dar-lhe os parabéns pela sua invulgar eficiência. Tenho-a apreciado na TV portuguesa, na qual, imperturbável, mantém a narrativa de um Israel justo, impoluto e sempre vítima, deflectindo com habilidade as questões mais difíceis.

Vi-o por exemplo na CNN a evitar fazer qualquer qualificação da atitude do ministro da Segurança Nacional Ben-Gvir quando este foi filmar e invectivar os membros detidos da flotilha humanitária Sumud, chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos e difundido orgulhosamente o vídeo. Na sua qualidade de governante com a tutela das prisões, foi Gvir que decidiu colocar aquelas pessoas, que não eram suspeitas de cometer qualquer crime (quanto mais violento), num estabelecimento de alta segurança, e foi dele que partiu a ordem — que anunciou noutro vídeo de propaganda — para que os tratassem como terroristas e lhes dessem ‘o mínimo’.

Disse o senhor embaixador: “O ministro Gvir não é porta-voz do governo de Israel, eu sou.” Assim, segundo Oren Rozenblat, o que diz e faz um ministro não representa nem quer dizer nada. Já o víramos dizer exactamente o mesmo quando o ministro Smotrich anunciou a 18 de Setembro, impante, que após “a fase de demolição de Gaza”, havia “um plano de negócios, já nas mãos de Trump”, para transformar o território numa “mina de ouro imobiliária”.

Perdoe-me, senhor Rozenblat; são as suas garantias que nada valem. Os vários membros da flotilha já libertados confirmam que as ordens de Gvir foram seguidas: passaram mais de um dia sem comida e água, quem tinha medicamentos ficou sem eles, algemaram-nos horas a fio, foram postos em jaulas ao sol no deserto, transportados sem saber para onde, impossibilitados de fazer sequer um telefonema.

Ainda assim houve, no comentariado português, quem perguntasse: “Estavam à espera de quê, de um hotel de 5 estrelas?” Bom, da apregoada “única democracia do Médio Oriente” esperar-se-ia, para começar, que não detivesse pessoas ilegalmente, e que, fazendo-o (enfim), tratasse os detidos com a dignidade que se exige para qualquer detido num país civilizado. Porque — dá ideia de que muita gente desconhece este facto — as exigências mínimas de um Estado de direito democrático determinam que mesmo os detidos em flagrante delito, até os detidos por terrorismo, sejam tratados com dignidade, sendo qualificado como crime qualquer tratamento desumano e degradante a que sejam submetidos. É essa a lei, é esse o standard do direito internacional.

Se não servisse para mais nada, a acção da Sumud teria pelo menos comprovado, a quem não esteja cego de sectarismo e de ódio, o quão Israel se afastou desses conceitos e práticas civilizacionais. Tanto mais quando se sabe, como disse Mariana Mortágua este domingo, que o tratamento de que os activistas foram alvo é uma pálida amostra daquilo a que as autoridades israelitas se permitem com os detidos palestinianos.

Porque, convenhamos, senhor Rozenblat, que só quem não lê notícias e nunca ouviu falar dos relatórios das organizações de defesa dos direitos humanos que reportam sobre o seu país — a começar pelas israelitas, como a velhinha B’Tselem —, pode continuar com o estribilho da democracia admirável que Israel é. Só quem não segue o percurso destes 77 anos vê Israel como “um país civilizado”.

A civilização é um processo, um caminho, e não há países perfeitos, longe disso. Israel, como outros (Portugal por exemplo), nasceu de forma particularmente violenta. Não falo do que sucedeu antes da fundação (incluindo terrorismo, e brutal, de organizações judaicas), mas das expulsões em massa e dos massacres documentados da população palestiniana que vivia nas zonas alocadas ao novo país. Ao longo destes quase 80 anos, Israel podia ter reconhecido oficialmente esses crimes e procurado, assim que possível (porque passou muitos anos em guerras sucessivas com os países vizinhos), a via da pacificação.

Houve, sem dúvida, quem desse passos nesse sentido — e até quem fosse por isso crismado de traidor e assassinado (Yitzhak Rabin). E houve quem, precisamente tendo apelidado Rabin de traidor (Netanyahu), quisesse o inverso: ir o mais longe possível na selvajaria.

É essa escolha da selvajaria que explica que Ben-Gvir faça gala de humilhar detidos que incluem representantes eleitos de nações “amigas”, nações que há décadas se calam ante os desmandos de Israel, que há décadas fingem que não reparam que o país ignora acintosamente todas as deliberações da ONU, continuando a ocupar território palestiniano e a permitir que colonos aterrorizem e matem palestinianos, que as forças armadas israelitas façam tiro ao alvo com jornalistas, que os seus serviços secretos perpetrem homicídios e sequestros noutros países sem dizer água-vai. É essa escolha da selvajaria que explica a sua atitude, senhor embaixador, de nem sequer fingir que está envergonhado pelo tratamento dado por Gvir aos cidadãos portugueses.

É que, justamente, o senhor embaixador, como tantos portugueses que se manifestam nas redes sociais (e até no comentário político), acha que aquelas pessoas, apenas por protestarem contra as acções do seu país, apenas por desafiarem o bloqueio a Gaza, tiveram o que mereciam, ou, quiçá, mereceriam até pior.

A sua tristeza, senhor Rosenblat, reserva-a para o facto de Portugal ter reconhecido o Estado da Palestina; isso sim vê como trágico. Porque para o seu governo não há, claro, lugar para um Estado de palestinianos — não há sequer lugar para os palestinianos.

E por favor, senhor embaixador, não me diga que tudo se deve ao 7 de Outubro. Antes do 7 de Outubro já Israel cometia barbaridades em catadupa.

Repare que saber disso não me impediu de achar que após o 7 de Outubro o seu país tinha o direito de se defender, de perseguir o Hamas e demais organizações implicadas, de usar tudo ao seu alcance para tentar recuperar os reféns (cujo regresso a casa aguardo ansiosamente). Mesmo sabendo da natureza do vosso primeiro-ministro, e do seu historial de apoio ao Hamas para enfraquecer a Autoridade Palestiniana e o sonho dos dois estados (sonho que o Hamas, em espelho com Netanyahu, e demais extrema-direita, nunca subscreveu), considerei justo — como não consideraria? — que Israel ripostasse.

Tornou-se porém dolorosamente claro que Israel decidiu usar esse direito com intuitos genocidas, vendo no 7 de Outubro uma oportunidade de solução final, de aniquilar/expulsar os palestinianos e anexar a terra que lhes resta.

Contra os pedidos desesperados das famílias dos reféns, bem cientes do que daí adviria, o seu governo não parou, ao longo destes dois anos, de bombardear Gaza, arrasando todo e qualquer edifício. Não parou de matar civis à bomba, à bala, à fome — usando inclusive, como contou no Expresso da Meia-Noite desta sexta-feira o social-democrata Jorge Moreira da Silva, a partir da sua experiência na ONU, os pontos de entrega de comida para fazer tiro ao alvo aos palestinianos.

Decerto outro antissemita amigo de terroristas, este Moreira da Silva. Pode lá ser outra coisa, não é, senhor embaixador?

Peço-lhe paciência, estou quase a terminar. Há 33 anos, quando estive na sua terra (note que digo a sua terra), o escritor Amos Oz contou-me o que na noite de 29 de Novembro de 1947, quando a ONU decidiu dividir a terra entre judeus e árabes, o pai lhe disse, a chorar: “Filho, quando tinha a tua idade, na Rússia, apanhava na escola por ser judeu. E o meu pai, e o meu avô. Tu podes apanhar na escola, mas não por seres judeu.” Para Oz, esta era a ideia fundacional de Israel — a de um lugar onde as crianças judias pudessem enfim ser crianças. Onde os judeus pudessem enfim ser pessoas.

É uma ideia magnífica, comovente, justa. Durante muito tempo, esta ideia tão bela, a da determinação de nunca mais sofrer humilhações, de nunca mais perder — porque há isso, não é? —  levou-me a perdoar muito ao seu país. Havia uma admiração em mim pelo lado selvagem que surgira de um povo tão massacrado. Era um pouco a minha culpa de europeia nascida menos de 20 anos depois de Auschwitz, senhor Rozenblat. A minha culpa de saber que tinha sido possível.

Na mesma viagem a Israel, ouvi um homem, num colonato, dizer-me que os palestinianos “são sub-humanos” e que se os filhos dele (eram quase bebés ainda) tivessem de morrer pelo Grande Israel, então morreriam. Pensei na altura que estava a falar com um extremista que não representava o país. Agora, sei, são pessoas como ele — e como o senhor e o seu primeiro-ministro — que mandam em Israel (e em grande parte do mundo, diga-se). Que, malgrado gente magnífica como Amos Oz, e como tantos dos mortos e reféns de 7 de Outubro, o seu país se transformou num lugar onde só os judeus são vistos como pessoas inteiras, com todos os direitos do catálogo — e mesmo assim se calhar só se apoiarem o intuito genocida e fascizante do seu governo.

O seu país, senhor Rozenblat, é agora a perversão mais absoluta da ideia de Oz. Tenho dificuldade em imaginar uma maior traição aos mortos de Auschwitz, a todos os mortos de todos os pogroms antissemitas, a todos os judeus que lutaram, ao longo de uma tão trágica história, contra a crueldade, o racismo e o ódio.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
07.10.2025

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0: O rico, muito rico, ultrarrico Elon Musk

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OPINIÃO

Com uma fortuna pessoal a rondar agora os 500 mil milhões de dólares, Elon Musk é o homem mais rico do mundo. E, como sublinha a Forbes, sempre a actualizar os números da sua fortuna, o dono da Tesla está “a meio caminho de se tornar o primeiro trilionário”, uma referência ao fabuloso trillion anglo-saxónico que equivale ao nosso bilião. E pelo menos uma centena de países do mundo têm um PIB inferior à riqueza pessoal do sul-africano naturalizado americano.

O historiador Fabrice d’Almeida, sendo autor de Uma História Mundial dos Ricos, livro que será apresentado em Lisboa na sexta-feira, obviamente tem de estar atento ao fenómeno Musk. E é interessante como o analisa neste momento, num esforço de objectividade, tendo em conta que à bem sucedida vertente empresarial houve uma tentação de intervenção política não tão brilhante.

“A imagem de Elon Musk é agora distorcida pelos seus compromissos políticos e pelas dificuldades daí decorrentes: um desentendimento com o presidente Trump, a queda nas vendas de veículos e a dificuldade de capitalizar o seu investimento na rede social X. Mas antes disso, este gestor era considerado um dos melhores organizadores, um grande criativo e um trabalhador esforçado. O planeta inteiro procurava as chaves para o seu sucesso.

Os financeiros afluíram para adquirir os seus títulos, e ele é um verdadeiro guru do futuro dos Estados Unidos, moldando os sonhos da humanidade com o projecto de viagens interplanetárias. Marte tornou-se um horizonte possível para ele. Tudo isto contribuiu para que conquistasse uma base de fãs disposta a segui-lo, mesmo nas suas experiências políticas altamente aventureiras. As suas qualidades de liderança são, portanto, inegáveis, mesmo que o seu sentido de história seja mais questionável. Para o historiador, é inegavelmente um dos ricos que estão a fazer história, que estão a mudar a lógica das sociedades”, diz d’Almeida numa entrevista hoje publicada no DN.

O livro do académico francês relata, e analisa, como os ricos se afirmaram na história. Houve uma época em que os muito ricos eram reis ou imperadores e só raramente algum banqueiro se afirmava também senhor de uma grande fortuna, o que geralmente acabava mal. “Quando se elevavam demasiado, o rei mandava-os prender e reaver os seus bens sob falsos pretextos. Foi o caso de Jacques Coeur, o maior financeiro do seu tempo, finalmente derrotado por Carlos VII no século XV”, lembra d’Almeida.

Depois da Revolução Industrial, começou a haver outro tipo de muito ricos sem serem cabeças coroadas. Primeiro os Rockefeller e os Rothschild, ainda hoje nomes sinónimo de dinheiro, depois, já no nosso tempo figuras extraordinárias, vindas do nada, como o espanhol Amancio Ortega, dono da Zara, e finalmente as personalidades do mundo do digital, como Bill Gates, fundador da Microsoft, que chegou a ser o homem mais rico do mundo, agora muito abaixo de Musk na lista da Forbes, mesmo sendo dono de 107 mil milhões de dólares (o dólar ronda por estes dias os 86 cêntimos de euro).

Muito há para dizer sobre os muito ricos, desde que costumam querer deixar marca como filantropos a serem hoje oriundos de todas as geografias possíveis e imaginárias. Mas da reflexão de d’Almeida retenho duas ideias muito poderosas: 1) não é terem acesso a carros da Rolls-Royce ou a caviar beluga e champanhe francês do melhor que distingue os magnatas, mas sim o poder de escolher.

“Até o ascetismo pode ser um luxo”, sublinha o historiador; 2) Os muito ricos não têm medo de revoluções, pois têm sempre um jacto à disposição para se refugiarem algures num palácio distante, desde que não se deixem apanhar desprevenidos pela alteração da ordem social. O que verdadeiramente temem, aponta d’Almeida, é algo pessoal, a ruína e a degradação. É por isso que estão sempre insatisfeitos com o que têm, por muito que seja. Querem sempre ganhar mais. “Têm uma psicose de queda”, acrescenta o autor francês, impiedoso.

Aplica-se esta última ideia a Musk? Até onde poderá ir a vontade de fazer história? E a sua fortuna, tem limites?

08.10.2025

Leonídio Paulo Ferreira
Director adjunto do Diário de Notícias

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