447: A Figura do Dia. O melhor do mundo

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🇵🇹 OPINIÃO

As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo, o que é verdade. Como verdade é o tão repetido: “No nosso tempo é que era.” Claro que sim. Éramos jovens, enfrentávamos o frio de manga curta e julgávamo-nos eternos.

As crianças… escrevia antes de me interromper… amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.

“As crianças: não há como elas. São o melhor do mundo (…) amam-nos tanto. Não nos questionam. Para elas somos heróis, mesmo que não passemos da cepa torta, corajosos mesmo que cobardes, bonitos mesmo que feios, credíveis mesmo que mentirosos.”
FOTO: Reinaldo Rodrigues

Nós, pais e família, achamos que será assim para sempre. E rezamos para que cresçam “lindos meninos”, para que cresçam sem nos questionar, para que cresçam não crescendo.

Mas quando tudo corre bem crescem e põe-nos em causa. Deixamos de ser considerados como antes, o que eram qualidades são agora defeitos. Sofremos tanto que achamos ser para sempre, outra vez para sempre.

“Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.”

Mas se tudo tornar a correr bem, também não será para sempre. Um dia eles fazem as pazes com o passado e dão-nos um abraço como os antigos. Um abraço em que nos envolvem como se nós fossemos crianças e eles os nossos pais. E a volta fica completa.

Hoje é Dia das Crianças. O dia em que celebramos o futuro, mas também o que em nós ainda o é. Em crianças seríamos capazes de empenhar os brinquedos para sermos adultos. Mas quando chegamos a adultos faríamos quase tudo para regressar à infância.

Como não é possível talvez não fosse menos inteligente proclamarmos o direito a ser crianças envelhecidas, como os vinhos, que têm a força do tempo sem perderem a frescura da juventude. Por mim, aceitaria já um acordo.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
01.06.2026

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443: Ainda nos espantamos com o óbvio

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🇵🇹 OPINIÃO

As manchetes têm-se sucedido nos últimos dias – inclusivamente no Dinheiro Vivo – e parecem espantar toda a gente: caos no aeroporto de Lisboa vai provocar problemas na restauração, nas agências de viagem e na hotelaria nacionais.

Um vídeo da correspondente internacional principal da CNN, Clarissa Ward, tornou-se viral esta semana, depois de a repórter de guerra ter filmado uma fila imensa de pessoas à espera para conseguir passar no controlo de passaportes do aeroporto de Lisboa, enquanto contava a sua própria experiência, nas redes sociais: esperou, perdeu o voo que ia apanhar, continuou à espera…

Confesso que me deixa sempre surpreendida esta capacidade que temos de nos espantarmos com algo que não é novo. Há mais de 50 anos que se fala num novo aeroporto e, na última década, apesar de o discurso se ter inflamado, o resultado foi exactamente o mesmo: zero. No entanto, o Turismo de Portugal, juntamente com associações do sector apostaram significativamente no aumento do turismo, a quem devemos grande parte do desenvolvimento económico a que o país assistiu desde o pico da crise financeira, em 2012.

Ora, não é possível ter mais turistas sem preparar para isso as estruturas que os recebem. Bem que podem aumentar o número de polícias, substituir sistemas, suspender temporariamente o controlo fronteiriço e escrever textos inflamados nos jornais: quando o espaço não estica, não há milagres.

Há uns meses escrevi nestas páginas algo parecido, sobre o aumento significativo do número de habitantes em território português nos últimos cinco anos: tal como acontece quando regamos uma planta, se formos colocando água em quantidades moderadas, a terra consegue absorvê-la; mas se decidirmos despejar um litro e meio de água para o vaso, não há muitas dúvidas de que a água vai transbordar.

No aeroporto – pasme-se! – não é diferente. Por muito que se tente fazer obras, alterar percursos ou regras, o que é certo é que não é possível, naquele espaço, acolher a quantidade de viajantes que as companhias aéreas querem, os hotéis e os restaurantes precisam (porque agora se dimensionaram para estes números recorde) e o país tem recebido. Simples assim.

Lisboa tem-se tornado motivo de chacota internacional porque o aeroporto parece, na verdade, um grande armazém onde nada faz sentido. Os passageiros que chegam e que partem cruzam-se nos mesmos corredores; as filas nos controlos fronteiriços são inenarráveis; os atrasos sucedem-se porque não há, sequer, forma, de garantir que todos os voos previstos saem a horas – é como se o trânsito do aeroporto se juntasse ao da 2.ª Circular, mas sempre em hora de ponta – e a experiência é, na larga maioria das vezes, pouco agradável.

Aliás, recentemente, até a zona do lounge da TAP esteve em obras, o que fez com que várias pessoas se espalhassem pelos corredores, encostadas a plásticos de protecção.

Tudo isto podia ser somente interpretado como falta de respeito pelos passageiros, que pagam cada vez taxas mais elevadas para viajar. Mas na verdade, creio que é até mais grave do que isso. É sintomático de uma cultura de descaso que se tem visto em vários serviços públicos, e que tem sido perpetuada por governantes ao longo das últimas décadas.

Seria fácil resolver a questão do aeroporto se houvesse vontade política para resolver um problema, ao invés de estarem à espera de quem ganha uma guerra de poder onde quem perde são sempre os mesmos: os consumidores e os contribuintes.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Editora-Executiva do Diário de Notícias
29.05.2026

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441: “O povo está farto”

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🇵🇹 OPINIÃO

Corria um tranquilo sábado, como devem ser todos os sábados, quando o simples e costumeiro gesto de ligar a televisão nos traz a surpresa e a perturbação.

Naquele sábado, sétimo dia da semana, dia de descanso consagrado como tal por várias religiões e, também, na legislação portuguesa desde a década de 60 do século passado, a televisão é porta-voz da afirmação de que “o povo está farto”.

Quando, depois de podar as roseiras e conversar com um amigo de infância, liguei a televisão e, de supetão, antes do almoço em família ouço o senhor primeiro-ministro afirmar que “o povo estava farto”, tive um sobressalto.

Consciente das dificuldades por que passamos, e apesar da minha orientação política diversa, logo tendi a concordar.

Os portugueses estarão certamente desgostosos com a incapacidade de atendimento dos serviços de saúde ou com as dificuldades que a crescente inflação impõe ao seu quotidiano.

Estarão também angustiados por não conseguirem ter a casa que ambicionam, ou os salários que lhes assegurem uma vida digna.

Alguns estarão mesmo cansados de esperar pelos apoios para se recuperarem das recentes catástrofes naturais, apoios que teimam em não chegar.

Estava nestes pensamentos quando percebi que não era deste tipo de realidades que o senhor primeiro-ministro achava que o povo estava farto.

Socorrendo-me da tecnologia que permite ver a qualquer hora, qualquer notícia na sua integralidade, percebi que as preocupações do senhor primeiro-ministro não eram aquelas.

O que disse foi que “o povo não quer eleições, está farto de eleições. O povo já fez a sua opção e em 2029 fará a próxima”.

Ora, aqui chegados, convirá deixar para reflexão colectiva alguns princípios.

O povo não se farta de eleições pela simples razão de que não se farta da democracia e da liberdade de escolha, ou de censura, que a democracia, e só ela, permitem.

Quem encontra a legitimidade do seu cargo no voto soberano do povo não pode, seja em que circunstância for, diminuir ou apoucar esse exercício.

O exercício dos mais relevantes lugares do Estado Português obriga ao conhecimento e rígido respeito pelas leis da República, e todos sabemos que a duração dos mandatos e a marcação de eleições depende da avaliação e decisão de vários órgãos de soberania.

O povo pode estar farto. Mas, não está farto de eleições. Estará, porventura, cansado de programas não-cumpridos. Mas, isso é outro assunto.

Talvez faça aqui sentido citar Francisco Sá Carneiro, em declarações de 1980:

“Democracia representativa significa o funcionamento de órgãos de soberania eleitos e o pleno respeito pela acção da oposição parlamentar…

Posso concordar ou não com as posições alheias, mas respeito os meus colegas e os seus pontos de vista (…). Admito que as opiniões dos outros sejam melhores.”

Nota final: sendo hoje 28 de Maio, e um século passado, tem especial significado não apoucar as eleições e a participação dos cidadãos.

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
28.05.2026

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437: Defender um direito debaixo do chapéu-de-sol

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🇵🇹 OPINIÃO

A praia tem um lugar especial no coração de uma larga maioria dos portugueses. Seja pelas memórias e bem estar que proporciona, pela associação a tempos de lazer e de férias, ou outro motivo qualquer. É um espaço público do mais democrático que pode existir, onde se misturam ricos e pobres, locais e turistas, crianças e seniores. Pelo menos, assim devia ser. No entanto, aos poucos, vão surgindo obstáculos. Problemas de vária ordem e que precisam de respostas diferentes, para que permaneça livre o acesso da população a estes espaços públicos.

Há tendências que surgem rapidamente e que só se conseguem conter com legislação (como aconteceu com a proibição do uso de colunas de som na praia), outras que tentam ganhar terreno lentamente e que precisam de ser contestadas tanto judicialmente, como através da voz dos cidadãos (caso das cadeias hoteleiras que procuram condicionar/dificultar o acesso à linha de praia, quase como privatizando esses locais), e ainda aquelas que já se instalaram de tal forma, normalizando-se, que se torna necessário recordar que não têm qualquer respaldo na lei.

Foi isso que fez esta semana o presidente da Associação Portuguesa do Ambiente (APA) em relação à suposta interdição de os banhistas utilizarem chapéus-de-sol no areal em frente às concessões de praia, as quais cobram pela utilização de pontos de sombra fixos e outras comodidades, como espreguiçadeiras, garantindo aos seus clientes, ao mesmo tempo, mas de forma encapotada, vista directa para o mar.

“A única área que está onerada e que está concessionada é aquela que está delimitada por aquele rectângulo e nada mais, isto que fique claro. Todo o resto é de uso livre”, afirmou José Pimenta Machado, salientando ainda que a colocação de sinalética a proibir de chapéus-de-sol em frente das concessões “é um abuso” e que essa situação terá de ser revista.

Algumas concessionárias navegam no desconhecimento dos banhistas e até das autoridades para criar o seu próprio conjunto de regras, muitas vezes defendido em primeiro lugar pelos nadadores-salvadores que estas têm de contratar por obrigação legal.

Além disso, mesmo alguns banhistas mais conscientes da lei preferem deslocar o chapéu-de-sol uns metros mais para o lado e evitar, logo à partida, uma troca de argumentos capaz de perturbar um dia que devia ser de ócio – não deixa de ser curioso que tanta gente obedeça sem pestanejar à sinalética das concessionárias e, depois, não tenha qualquer problema em colocar o chapéu-de-sol por baixo de uma arriba instável.

Pois bem, este alerta da APA chega em boa hora e a clarificação deve ser rápida, para que Portugal não se transforme numa nova Itália. Por lá, as concessionárias permanecem há décadas nas mãos da mesmas famílias e foram ganhando metros de areal com o passar dos anos, empurrando o banhista que não quer pagar pelos serviços para faixas de terreno cada vez mais curtas.

Nos últimos anos, grupos de cidadãos organizaram-se para contestar este poder das concessionárias e o assunto tornou-se até um foco de pressão política para o governo de Giorgia Meloni. Por cá, talvez seja chegada a hora de colocar o seu chapéu-de-sol bem em frente à concessionária e defender esse direito, se for preciso. Antes que seja tarde demais.

Diário de Notícias
Pedro Sequeira
Editor-executivo do Diário de Notícias
27.05.2026

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436: O irreversível e a exaltação do mal

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🇵🇹 OPINIÃO

wo roads diverged in a yellow wood

And sorry I could not travel both

 

(Robert Frost)

É normal que em idades mais avançadas nos atinja e alcance com mais força o peso do irreversível e a aura da nostalgia. Compreendemos que não poderemos nunca mais retomar os caminhos que deixámos por percorrer, os trabalhos que deixámos por fazer, os seres e as coisas que deixámos por conhecer.

Como nos avisa Robert Frost, no seu famoso poema “The road not taken”, não teremos oportunidade de voltar ao bosque onde, na encruzilhada, escolhemos o caminho menos percorrido, para irmos reconhecer o outro caminho, aquele que não tomámos. E mesmo que regressemos a todos os lugares do nosso percurso de vida, nem nós próprios nem esses lugares são já os mesmos. Como amargamente reconheceu o português António Mourão, o tempo não volta mesmo para trás.

Ninguém reconheceu Ulisses (só o cão!) quando ele finalmente regressou a Ítaca. Estarmos vivos significa que o que já fomos morreu. E como fugir a esse eterno e permanente luto por nós próprios, que se acrescenta ao luto por todos aqueles que perdemos?

Menos pessimista que o nosso António Mourão, o filósofo francês Vladimir Jankélévitch, no seu livro L’Irréversible et la Nostalgie aponta para o facto de o nosso corpo, as células e os tecidos do nosso corpo, terem uma capacidade de regeneração e de substituição que, se não nos dá a imortalidade, pelo menos nos permite prolongar a vida.

E se olharmos a vida que nos resta como um novo terreno de escolhas e de apostas, em que continuamos a escolher entre caminhos – mesmo sabendo que não voltaremos àquela encruzilhada, pois outras se nos irão abrir –, guardaremos da nostalgia a sua irrepetível beleza, sem perdermos nela a alegria e o poder criador de estarmos vivos.

O irreversível vem assim abrir-se à esperança, que é a última a morrer-nos. E a força de “ter sido” vem compensar toda a nostalgia do que “poderia ter sido”.

Vivemos uma época de transição num ambiente de crescente irracionalidade. Não é inédita a violência e a irracionalidade destes nossos tempos, mas é nova a arrogante e assertiva afirmação (“para além do bem e do mal”), com que os poderosos se congratulam publicamente com a sua própria crueldade. Já não vivemos a banalização do mal, denunciada por Hannah Arendt: vivemos hoje a exaltação do mal!

Governos que torturam e governos que protegem e promovem desordeiros sempre existiram. Mas governos que filmam os seus próprios ministros, risonhos, a torturar, e governos que absolvem e indemnizam arruaceiros que invadiram o seu próprio Congresso, estes pertencem já a um novo modelo, o da exaltação do mal.

Eu escrevo estas considerações pessoais por imaginar que alguém possa tirar algum conforto destas ideias sobre a irreversibilidade do envelhecimento, neste país de população envelhecida e trabalhada pelo tempo e pela História. Mas eu sou dos que se recusam a olhar só para o copo meio vazio e por isso continuo, apesar de tudo, a acreditar nas jovens gerações.

Sim, há uma dura luta a travar pelo humano contra o instrumental, pelo pensamento contra o embrutecimento, pela vida contra a mecanização e a instrumentalização da vida, pela civilização contra a exaltação do mal. Mas acredito que o humano triunfará sobre a desumanização, porque a força das coisas e da própria vida a tal irá conduzir.

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor
27.05.2026

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435: Proteínas

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🇵🇹 OPINIÃO

Desde o início de 2022, os portugueses pagam consideravelmente mais pelo que põem no prato. Não é impressão: é aritmética. Segundo a Deco Proteste, que monitoriza semanalmente um cabaz de bens essenciais, a carne de novilho passou de 5,82 euros por quilo para mais do dobro – 12,95 euros. Os ovos subiram mais de 80%. O peixe acumulou subidas de dois dígitos, registando uma variação homóloga de 23,3% de Março de 2025 a Março de 2026. A inflação geral no mesmo período? Pouco mais de 15%. A diferença entre o que se paga na proteína animal e o que a inflação “oficial” registou é, ela própria, uma forma de empobrecimento silencioso.

A energia não ficou atrás. Segundo a ERSE, Portugal ocupa o 8.º lugar na gasolina 95 mais cara da União Europeia, com 56% do preço correspondente a impostos – acima da média europeia e muito acima de Espanha, onde a carga fiscal ronda os 49%. Na gasolina simples, cerca de 97 cêntimos de cada litro correspondem a taxas e impostos; no gasóleo, 84 cêntimos. Na electricidade, o Eurostat coloca Portugal acima da média europeia mesmo descontando as diferenças de poder de compra entre países – esforço que países escandinavos como a Finlândia ou a Suécia ficam bem abaixo de suportar. Portugal apresenta 29PPS (purchasing power standard) por quilowatt-hora em paridade de poder de compra no primeiro semestre de 2025, acima da média europeia de 28,6. Em países como a Finlândia, Noruega ou Suécia, o valor fica abaixo dos 20PPS.

Os salários subiram, diz o Governo. E é verdade: o INE confirmou que a remuneração bruta mensal média atingiu os 1694 euros em 2025, com um crescimento real de 3,2%. O salário mínimo chegou aos 920 euros em 2026. Mas a média aritmética não tem fome. Para quem aufere rendimentos baixos ou médios, a fotografia compõe-se de outra forma: a renda consome o salário antes de chegarem as compras.

Sobre a habitação, o Deutsche Bank Research Institute – citado num relatório do Conselho Europeu sobre a crise habitacional europeia, publicado em Outubro de 2025 – calculou que, em Lisboa, os residentes destinam 116% do salário médio ao arrendamento: o valor mais elevado da União Europeia. Em Madrid, o rácio é de 74%. Em Viena, 37%. Em Frankfurt e no Luxemburgo, 34%. No Porto, a renda média de um T1 equivale a 85% do salário líquido médio local.

O discurso oficial entoa os indicadores macroeconómicos: défice reduzido, dívida em queda, saldo positivo. Tudo real. E tudo insuficiente enquanto critério de bem-estar. As finanças públicas saneadas não pagam a dúzia de ovos, não enchem o depósito, não baixam a renda. Há uma distância crescente – e politicamente muito perigosa – entre os números que os governos celebram e o frigorífico que muitos portugueses abrem ao fim do mês.

Portugal não tem um problema de estatísticas. Tem um problema de distribuição. O crescimento existe, mas não chega a quem precisa – não na velocidade, nem na forma necessária. E quando se come menos proteína, se anda menos de carro e se paga o salário em renda, o “sucesso” torna-se uma palavra que soa cada vez mais a ironia.

Talvez aqui esteja também a explicação para a saída de Portugal da tal geração mais preparada sempre. E a vinda de muitos outros milhares, para quem a carne de novilho, a gasolina ou uma casa só para a sua família continuam por cá a parecer a mesma miragem habitual e quaisquer 200 euros que possam mandar mensalmente para Daca lá representa dois salários mínimos.

Diário de Notícias
Miguel Romão
27.05.2026

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433: O urso na armadilha do dragão: a aliança desigual entre Putin e Xi

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🇵🇹 OPINIÃO

Quando Xi Jinping e Vladimir Putin se encontram — como aconteceu de novo esta semana — assistimos a uma demonstração geopolítica altamente coreografada e rica em simbolismos. Falam de um mundo multipolar e brindam a uma “nova era” e a uma parceria “sem limites”, a célebre expressão que saiu da reunião que tiveram em fevereiro de 2022, uns dias antes do arranque da inadmissível guerra de agressão russa contra a Ucrânia. As mensagens que procuram enviar para o resto do planeta, nomeadamente para a Europa, são muito explícitas.

Foram repetidas esta semana. Primeiro, que a China e a Rússia estão unidas por uma aliança inquebrantável, indispensável para a construção da nova ordem mundial que acham necessária. Segundo, pretendem que essa ordem será diferente da estabelecida nas últimas décadas pelo mundo ocidental, sobretudo desde o tempo do tandem Reagan-Thatcher e no período que se seguiu ao fim da Guerra Fria. Estamos claramente perante um projecto sino-russo de reordenamento à sua maneira das relações internacionais.

É, no entanto, uma parceria coxa, um relacionamento desigual. Do ponto de vista económico, por exemplo. A China é indiscutivelmente o centro de gravidade e o eixo primordial da economia vizinha. Representa agora entre 40% e 45% das importações russas. É uma dependência avassaladora. Por seu turno, apenas pouco mais de 4% do comércio externo da China é efectuado com a Rússia, segundo dados da Bloomberg. Trata-se de uma percentagem insignificante quando comparada com o valor das trocas entre a China e outras economias, sejam elas os EUA, a UE ou a ASEAN.

Por outro lado, a moeda chinesa, o yuan, é a divisa predominante no mercado financeiro de Moscovo. O yuan substituiu praticamente a maioria das transacções que anteriormente eram executadas em dólares norte-americanos. O resto é feito em rublos.

À desigualdade económica junta-se a política. Essa é a dimensão mais significativa da dissimetria entre os dois países. Existe uma hierarquia tácita que coloca o presidente chinês no topo. Dir-se-ia que Xi imagina, propõe e faz acontecer. Putin segue, quando pode, quando vê que isso não põe em causa a sua imagem política na cena doméstica em que ainda dita a lei.

Xi Jinping pretende ser o arquitecto da nova estrutura internacional, construída com calma, firmeza e tempo. Joga sem pressas desnecessárias. Está inteiramente convencido que, em breve, o seu país será um rival em pé de igualdade com os EUA. E que os desafios globais colocarão a China no centro das respostas multilaterais.

Vladimir Putin, por sua vez, confundiu desfiles pomposos com capacidade militar. Acabou por se atolar numa guerra intensamente desgastante, que cometeu o erro de iniciar sem qualquer respeito pela Lei Internacional e com umas forças armadas que fazem pensar na muito duvidosa lenda das aldeias de Potemkin. Putin continua a acreditar que é um gigante estratégico, quando na realidade a Ucrânia lhe está a pôr a nu os pés de barro.

Putin é igualmente uma nódoa na reputação internacional de Xi Jinping. Xi vê-se obrigado a defendê-lo nas mais diversas arenas políticas embora saiba que isso acarreta custos de reputação para o seu regime, que quer ser visto como o defensor da paz e da cooperação multilateral.

Os objectivos estratégicos de Xi são, no essencial, dois. Por um lado, assegurar o domínio chinês na região definida pelos oceanos Pacífico e Índico. Por outro, ganhar a dianteira no que respeita às tecnologias que estão a moldar o século XXI. Alcançar isto exige tempo e que as principais potências rivais andem distraídas com outras questões.

É aqui que os erros políticos de Putin se revelam de um valor incomensurável para a China. Por muito que não se pense nisso, a guerra sem fim à vista na Ucrânia mantém uma parte significativa das capacidades estratégicas, dos recursos militares e da atenção diplomática dos principais rivais da China longe de possíveis críticas e medidas contra a política interna e externa chinesa.

Cada reunião de crise no quadro da NATO ou nas capitais da UE representa uma distracção táctica para Washington e cria clivagens entre a Europa e os EUA. Tudo isto permite ao presidente Xi continuar o processo de subordinação económica e política da Rússia, bem como a modernização do Exército de Libertação Popular e blindar a economia da China contra possíveis sanções ocidentais. Putin é assim uma excelente distracção política.

A maior ansiedade de Xi em relação à Rússia diz respeito à filosofia bélica que continua a imperar no Kremlin. Quando Moscovo insinuou que poderia utilizar armas nucleares tácticas na Ucrânia, foi Beijing — e não apenas Washington — que também traçou, silenciosa, mas firmemente, uma linha vermelha perante as intenções de Putin. Xi precisa de um conflito prolongado e desgastante que sangre o Ocidente, mas não pode dar-se ao luxo de permitir ou promover uma escalada apocalíptica que destrua a ordem global da qual a ascensão da China depende.

Consequentemente, o apoio de Xi à Rússia tem limites estritos, embora não declarados. Essa é a realidade, apesar das afirmações públicas. A China compra petróleo e gás russo com desconto, em yuans e com limites – não houve acordo sobre o novo oleoduto transiberiano, o que desapontou profundamente a delegação vinda de Moscovo. E fornece a Moscovo bens de “dupla utilização”, incluindo militar, como micro-chips e componentes de drones.

Fá-lo discretamente, mas em grandes quantidades. Nega, porém, qualquer acusação de ajuda militar letal directa. Porquê? Para evitar sanções ocidentais secundárias contra a sua economia, que depende fortemente do comércio externo. O “arquitecto” sabe que um confronto directo com o Ocidente, neste momento, faria descarrilar as suas ambições e colocaria em risco a autoridade do Partido Comunista Chinês.

O essencial é compreender a verdadeira natureza da relação entre Xi Jinping e Vladimir Putin e responder aos sérios riscos que ela representa. Note-se os diferentes acordos que foram assinados durante esta visita. Por exemplo, nas áreas da energia atómica, do espaço e da IA. Estas matérias não permitem análises simplistas. A China e a Rússia não representam o mesmo tipo de desafio. Mas, apesar das assimetrias, existe uma perigosa convergência estratégica entre ambos os regimes.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
22.05.2026

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428: O parque de diversões

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🇵🇹 OPINIÃO

Há uma fotografia que circulou recentemente nas redes sociais e que vale mais do que qualquer relatório de sustentabilidade turística: um grupo de turistas, smartphone em riste, a fotografar obsessivamente uma porta de azulejos em Alfama, indiferentes à senhora idosa que tentava, paciente e invisível, entrar no prédio onde vive há cinquenta anos. Os turistas não eram maus. A senhora não estava furiosa. Era apenas o novo normal.

Portugal descobriu, tarde e com demasiado entusiasmo, que era bonito. A partir daí, fez o que os países inseguros fazem quando são elogiados: exagerou. Multiplicaram-se os voos de baixo custo, proliferaram os alojamentos locais onde havia casas, ergueram-se hotéis onde havia bairros, e vendeu-se a autenticidade com a eficiência industrial de quem sabe que a autenticidade, uma vez embalada e rotulada, deixa de o ser – e mais vale, portanto, vendê-la muito e depressa.

O fenómeno não é novo nem exclusivo. Bali, que durante décadas fascinou viajantes pela sua espiritualidade e pela sua vida comunitária genuína, transformou-se progressivamente numa cenografia de si mesma. Os rituais existem, mas encenados; os artesãos produzem, mas para o mercado de souvenirs; os templos recebem visitas, mas com preço de entrada.

O turista que chega hoje à procura da Bali que leu nalgum livro dos anos noventa encontra uma versão decorativa e algo melancólica dessa memória. Veneza é um caso de escola diferente: uma cidade que caminha para se tornar apenas museu, onde o número de residentes permanentes desceu de 175 mil nos anos sessenta para menos de 50 mil hoje, expulsos lentamente por rendas que só o turismo pode pagar.

Barcelona resistiu mais, mas não o suficiente. O Bairro Gótico é hoje uma galeria comercial de fachada histórica e os moradores que ainda lá vivem coexistem com multidões que transformam cada rua num corredor de aeroporto. Dubrovnik, a pérola do Adriático, chegou a receber doze mil visitantes por dia numa cidade que tem oito mil habitantes. A matemática não deixa margem para ilusões.

Em Lisboa, o processo foi acelerado pela sobreposição de duas crises. A crise financeira de 2011 empurrou proprietários para o alojamento local como estratégia de sobrevivência económica. A pandemia interrompeu-o brevemente. Mas a lógica voltou, mais intensa. O resultado é conhecido: bairros históricos como Alfama, Mouraria ou Bica perderam população residente a uma velocidade que nenhuma política habitacional conseguiu ainda travar.

O alojamento local absorveu imóveis que seriam habitação permanente; os fundos de investimento imobiliário fizeram o resto. Quem trabalha em Lisboa, mas não pode pagar uma renda em Lisboa ou nos arredores, enfrenta uma equação sem solução local. A cidade que se vende como destino autêntico expulsa, sistematicamente, os protagonistas dessa autenticidade.

Existe uma ironia cruel neste processo que merece ser dita com clareza: o turista que chega a Lisboa à procura de vida real, de bairros vivos, das tascas e cafés com gente de cá, encontrará cada vez menos disso. Encontrará, em contrapartida, menus em seis idiomas, filas intermináveis para entrar nos Pastéis de Belém e nos Jerónimos, e hostels com decoração de azulejo sintético.

O sucesso do produto destrói o produto. É uma lógica que qualquer economista reconheceria imediatamente, mas que as políticas de turismo nacionais parecem incapazes de interiorizar, talvez porque os números de chegadas e receitas são mais fáceis de fotografar do que a degradação silenciosa de uma cidade que perde os seus habitantes e cujo quotidiano se torna insuportável pela pressão de gente que legitimamente a quer conhecer.

A discussão sobre limites ao turismo suscita sempre a objecção económica: o sector representa uma fatia considerável do PIB, emprega centenas de milhares de pessoas, sustenta regiões inteiras. É verdade. Mas a mesma lógica aplicada sem moderação destrói, a prazo, a base sobre a qual assenta. Um parque de diversões artificial não precisa de habitantes reais, de história viva, de bairros com cheiro a comida a sair pelas janelas. Precisa apenas de cenários convincentes e de pessoal de serviço. É isso que Portugal quer ser?

A redução controlada do turismo de massas, combinada com políticas que valorizem estadias mais longas, menor rotatividade e maior gasto por visitante, não é uma proposta nostálgica nem economicamente suicida. É, pelo contrário, a única forma de garantir que o que se vende agora daqui a vinte anos ainda valha alguma coisa. Mais voos e mais hotéis num espaço geograficamente finito não multiplicam a experiência. Diluem-na, até que não reste já nada para diluir.

Diário de Notícias
Miguel Romão
20.05.2026

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427: Isto não é uma detenção. É uma retenção

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🇵🇹 OPINIÃO

Imagine que é uma mulher do Congo, idosa, desorientada, chegada a um país novo. Veio porque alguém lhe prometeu que ali poderia viver em segurança. Mas faltavam-lhe papéis. É então encerrada numa sala no aeroporto, trancada a sete chaves, e ali fica dois meses. “Não está detida”, dizem-lhe.

Lembro-me bem desta mulher, há uns anos, quando fazia visitas aos EECIT [Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária]. Lembro-me de como se queixava, por gestos, de que a comida de avião lhe fazia mal. Lembro-me do barulho da porta de metal, da tranca a dar muitas voltas, e de a deixarem ali sozinha, afastada, longe da vista.

Foi uma das histórias que mais me marcou na minha passagem pelo Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura. E contrastava de forma frustrante com o tom autoritário das autoridades: “Os estrangeiros no EECIT não estão detidos. Estão re-ti-dos!” Sublinhavam cada sílaba como se assim se apagasse a desumanidade testemunhada.

Nas várias formações que dou em matéria de direitos humanos, aparece de vez em quando um “negacionista” deste tipo. Não se detêm migrantes; as pessoas ficam retidas. É falso que os advogados tivessem dificuldades de acesso a esses espaços. Não se detêm crianças. O tom é sempre o mesmo: não é assim, não acontece. Repetem-no como um mantra, mesmo perante quem trabalhou no terreno e escreveu relatórios publicamente disponíveis.

É cada vez mais importante chamar as coisas pelos nomes, sobretudo quando se aproxima a aplicação do polémico Pacto Europeu de Imigração. Este introduz um processo de triagem de migrantes na fronteira que pode durar até 18 semanas, impedindo a entrada no país.

Diz-se que isso não implica necessariamente “detenção”. Tenho muito receio desta fórmula, porque pode ser deturpada pelos eufemistas do costume. Ainda não percebi onde ficarão estas pessoas e receio que venham precisamente a ficar nos EECIT, privadas da liberdade. Se assim for, então têm de ser tratadas como aquilo que efectivamente são: pessoas detidas por autoridades portuguesas.

Ora, a Constituição exige controlo judicial da detenção. Mas foge-se a isso através de uma ficção: a pessoa ainda não entrou no território e, por isso, embora sujeita às ordens das autoridades portuguesas, não beneficia plenamente das garantias constitucionais, entre elas o art. 27.º.

Como jurista de direitos humanos, sou muito avessa a eufemismos e ficções que servem para afastar garantias constitucionais. Chamar as coisas por outro nome, “fazer de conta que”, são soluções que a História já mostrou serem perigosas.

Privação de liberdade, seja em EECIT, seja no Estabelecimento Prisional da Carregueira, é detenção. Se é praticada por autoridade portuguesa, está sob jurisdição portuguesa, esteja a pessoa na esquadra do Rato ou em mar alto. Logo, aplica-se a Constituição portuguesa. O resto são histórias que me podem contar as vezes que quiserem, mas nunca me vão convencer.

Diário de Notícias
Ana Rita Gil
Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Investigadora do Lisbon Public Law
19.05.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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426: Sabem porque é que as regras existem?

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🇵🇹 OPINIÃO

Passadeiras, sinais vermelhos, faixas de bus, placas indicativas de entradas prioritárias ou somente para animais, sinais de acesso proibido. Sinaléticas que identifica casas de banho ou balneários femininos ou masculinos, sentidos proibidos e sentidos obrigatórios. Sinais de ‘fechado’ para revelar que um estabelecimento está encerrado ou uma porta aberta para dizer que se pode entrar e a proibição de usar telemóveis enquanto se conduz.

Parece simples e básico o que estou a dizer, verdade? No entanto, o que é que sabemos? Que 57% dos atropelamentos, em Portugal, ocorrem fora das passadeiras. Ou que perto de 32% dos acidentes em auto-estrada acontecem porque os condutores estão a utilizar o telemóvel. Isto para usar apenas dois exemplos de duas regras tão simples cujo incumprimento leva a consequências significativas.

As regras existem, nas sociedades, para tornar a vida de todos nós mais fácil. Existem passadeiras por segurança dos peões; existem faixas exclusivas de autocarros porque isso ajuda os transportes públicos a serem mais eficientes; existem cores nos ecopontos para que a reciclagem seja feita mais facilmente; existem filas nos supermercados para que todos saiamos de lá mais rápidos.

Se todos nós cumprirmos as regras, a sociedade funciona de forma mais fluida: há menos acidentes, menos trânsito, zangamo-nos menos no supermercado, chegamos a horas se formos de autocarro…consegue entender a ideia? As regras são aborrecidas? Às vezes. E nem sempre são justas. Mas elas não foram feitas para nos chatear, embora às vezes pareça que sim.

Foram desenhadas – bem ou mal – para que o mundo seja, também, mais justo. Daí que não consiga deixar de me espantar com aquilo a que assisto diariamente, que é a um claro aumento de desrespeito pelas regras e pelos mais básicos princípios da boa convivência e educação numa sociedade que se diz evoluída. Mas repare-se: quando estamos a desrespeitar as regras, não estamos a desrespeitar essa entidade superior e abstracta – ‘regras’. Estamos a desrespeitar todos aqueles à nossa volta.

Quando passa um sinal vermelho, está a desrespeitar os outros condutores e os peões, que se regem pelas mesmas regras e agem em conformidade; quando fura uma fila no supermercado, está a desrespeitar os outros clientes que estavam lá antes de si; quando deixa um carro estacionado em segunda fila, pode estar a impedir que alguém receba ajuda urgente se por aquele lugar precisar de passar uma ambulância; quando usa o telemóvel enquanto conduz, está a aumentar em 4 vezes a possibilidade de ter um acidente que pode magoá-lo a si e a outros – está a desrespeitar a sua vida.

Todas as escolhas que faz têm consequências concretas e, muitas vezes, muito sérias não apenas para si mas para quem vive à sua volta. Fazemos, no mundo ocidental, publicações (e às vezes notícia!), porque o público japonês, quando participa num evento, leva consigo o lixo – a regra, que geralmente está em todos os lugares, diz para as pessoas levarem consigo tudo o que trouxeram.

O facto de nós ignorarmos as regras e aplaudirmos outros povos (como os do norte da Europa) porque as cumprem, mostra bem o nível de dissociação cognitiva que andamos a viver. Ao invés de nos espantarmos porque alguém cumpre as regras, talvez devêssemos todos tentar fazer o mesmo todos os dias. Desconfio de que nos iríamos espantar com o resultado.

Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Editora-Executiva do Diário de Notícias
19.05.2026

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